31/12/2008

No breve número de doze meses
o ano passa e breve são os anos,
pouco a vida dura.
Que são doze ou sessenta na floresta
dos números e quanto pouco falta
para o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido, do curso
que me é imposto correr descendo, passo.
Apresso e breve acabo.

Poesia de Ricardo Reis - Fernando Pessoa

22/12/2008

Para um caderninho de Natal

Uma adolescente a quem desoriento em aulas de Português vem me pedir algumas palavras sobre o Natal.Diante de meu engasgo, ela me
diz que qualquer coisa serve, e sinto que ela pensa em acrescentar, "qualquer coisa, até mesmo o que o senhor me diga".E para não lhe
dizer que procure outra pessoa mais qualificada, começo:
"O Natal é uma festa comercial, minha filha.É a data magna da hipocrisia universal.Nesse dia as pessoas dizem se amar.No Natal, as
autoridades, os que têm boa vida divulgam e querem fazer crer que as
diferenças acabaram entre os homens.Os ricos de bens materiais ficam
subitamente espirituais e com o estômago repleto arrotam que a melhor salvação é a da alma.(E penso, enquanto lhe falo, na Pequena Vendedora
de Fósforos, de Andersen, mas minhas palavras não conseguem a força
dessa claridão)No entanto, você sabe, os ricos continuam humanos em
suas mansões e os pobres continuam porcos em seus casebres, no mesmo dia 25.No outro dia, você sabe...(E penso nos Estranhos Frutos, de Billie
Holiday, mas minhas palavras não se iluminam com essa luz de negros
enforcados em árvores, no sul do Estados Unidos) O Natal, minha filha..."
E paro. O seu rosto reflete o desagrado de minhas palavras.Quem ensina a adolescentes aprende a ler nos seus olhos,nas suas bocas, o agrado ou a decepção do que pensa ensinar.Agora enquanto escrevo,percebo que é uma vitória da sociedade de classes a crença em boas famílias, em belos pais,em generosos sentimentos,essa coisa resistente até mesmo em pessoas que só conheceram da vida a humilhação,a patada e os coices.
A jovem com quem falo é uma adolescente pobre, filha natural, com somente esse adjetivo óbvio da natureza, nada mais.Como um fruto da partenogênese.À primeira vista, ela possuiria todas as condições para
entender o que lhe digo.Mas o seu rosto me faz parar.Sinto o grande mal
que lhe causo em procurar ser verdadeiro numa data em que todos pedem e esperam e anseiam que sejamos todos absolutamente falsos.
Talvez,reconsidero agora ao escrever,o seu desagrado se dê porque sou
apenas convencional,comum, de um esquerdismo vulgar, quando queria
ser verdadeiro como o leite que chupei em minha própria mãe.E convencional por convencional, melhor seria que eu escrevesse no seu caderninho uma frase do gênero "sejamos durante todo o ano como neste
dezembro 25".
(...............................................................................................)
Eu também já acreditei em Natal, minha filha.Antes de saber que os homens se matam e se barbarizam e são feras todos os dias do ano.Antes,
bem antes de receber um pontapé nas costas, na bunda, de um marujo norte-americano. Sabe o que é chorar e descobrir sozinho, pela primeira vez, que Deus não existe, porque se ele existisse, não permitiria que jovens cheios de amor e sentimentos e poesia, fossem chutados por bons filhos da puta que nunca deixaram de ser?
Acredite,acreditei no Natal bem antes desses acontecimentos, quando eu
tinha a sua idade.
Antes disso, minha filha, o Natal para mim foi um par de sapatos belos,
novos e marrons, lindos e tão perfeitos e artísticos e caros como uma criança pode sonhar.A minha filha sabe o que é ter uns sapatos que vestem a gente até a alma?Pois eu os ganhei.Quase, melhor dizendo.Porque num dia 25, logo cedinho,eles estavam embaixo da minha cama.Não que não tivesse sapatos, sim, eu possuía uns muito
velhos, gastos, enrugados,quase sem sola, de cadarços desfiados.Pois eu
quase ganhei esses absolutamente novos.Ganhei-os digamos, até o
meio-dia dos meus 7 anos de idade.E para que todos também partilhassem da minha alegria, eu os exibí ao sol da minha janela,da
casinha onde eu morava.Eu pensava que a felicidade se compartilhava.Eu
pensava que a felicidade era um bem impossível de ser vivido por um menino só(E até hoje, às vezes, esse velho menino teima em pensar assim.Mas só às vezes)Pensava. Roubaram-me o par de sapatos, minha filha,num dia 25 de dezembro.E como o meu pai era um homem de lições
muito fortes e pedagógicas, deu-me uma surra pela infelicidade de não
ter o par de sapatos.Daí talvez me veio esse ar de homem que despreza
a felicidade.Esta é a razão, mocinha:ficou em mim a sensação de que
a felicidade é um bem que me vão roubar.Daí que dela desconfio,quando
dela não tomo segura distância.Não ter felicidade é uma forma de sofrer
somente um pouqunho.
A minha filha já vê que eu não lhe poderia dizer tais verdades para um
dia de tamanha fraternidade.Então, anote por favor no seu caderninho
essa meia-verdade.
O Natal é a esperança de que algum dia, em algum lugar, um menino vai
receber um par de sapatos marrons e vestí-los até a alma.Antes que alcance a sua idade, mocinha, antes que receba alguns sapatos pelas
costas.
Texto de Urariano Mota, jornalista e escritor.Autor de "Os Corações
futuristas";colaborador de sites na Espanha,Portugal e Rússia

21/12/2008

Condição de Liberdade


Aos que vão nascer

Realmente, eu vivo um tempo sombrio.
A inocente palavra é um despropósito.
Uma fronte sem rugas demonstra insensibilidade.Quem etá rindo
é porque não recebeu ainda a notícia terrível!
Que tempo é este, em que uma conversa sobre árvores
é quase uma falta, pois implica em silenciar tantos crimes?
Esse que vai cruzando a rua calmamente, então já não está
ao alcance dos amigos necessitdados?
............................................................................
Dizem-me: Vai comendo e bebendo! Alegra-te pelo que tens!
Mas como hei de comer e beber, se o que como é tirado
de quem tem fome e meu copo de água falta a quem tem sede?
No entanto eu como e bebo.
Eu bem que gostaria de ser um sábio.
Nos velhos livros está o que é sabedoria:
manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve
deixar correr sem medo.
Também saber passar sem violência, pagar o mal com o bem,
os próprios desejos não realizar e sim esquecer,
conta-se como sabedoria.Não posso nada disso:
Realmente, eu vivo num tempo sombrio!
Vós, que vireis na crista da maré em que nos afogamos, pensai,
quando falardes em nossas fraquezas, no tempo sombrio
do qual escapastes.
...................................................................................................
E entretanto sabíamos:
também o ódio à baixeza endurece as feições:
também a raiva contra a injustiça torna a voz mais rouca.
Ah, e nós que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmos pudemos ser.
Mas vós, quando chegar a ocasião de ser o homem um parceiro
para o homem, pensai em nós com simpatia.
Bertolt Brecht - 1898-1956
"O corpo de Abel encontrado por Adão e Eva", obra de William Blake (1757-1827 ), poeta, impressor e pintor inglês, exposta na Galeria Tate, em Londres, Inglaterra, que recriará a única exibição do artista, duzentos depois de sua primeira exibição.

20/12/2008

Ilha de Burano, a 7km de Veneza, na Itália. Conta-se que há muitos anos, os
pescadores desta ilha pintavam suas casas de diferentes cores para percebê-las
à distância, quando voltavam do mar. Essa tradição transformou-se em atração
turística pelo colorido de suas casas e pelos reflexos produzidos na água de seus
canais.

19/12/2008

Cabo de Santo Antonio - Rondônia
Acho tão natural que não se pense,
que me ponho a rir às vezes, sozinho,
não sei bem de quê, mas é de qualquer coisa
que tem que ver com haver gente que pensa
Que pensará o meu muro de minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
a perguntar-me coisas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
como se desse por mim com um pé dormente...
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras
e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas, deixaria de ver
as árvores e as plantas
e deixava de ver a Terra, para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar,tenho a Terra e o Céu.
O Guardador de rebanhos - Fernando Pessoa (1888-1935)

18/12/2008

Área turbulenta de formação de estrelas, vista pelo telescópio Spitzer (Nasa)
Astrônomos alemães confirmam que há um buraco negro gigantesco no centro
da Via Láctea. Sua massa é quatro milhões de vezes maior que a do Sol.

14/12/2008

Ativista da Anistia Internacional acende velas em frente ao portão de Brandenburger para marcar os sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em Berlim (Alemanha)em 10.12.2008

Manifestação dos índios da região da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em
frente ao Supremo Tribunal Federal(STF), em Brasília, pela demarcação da reserva em área contínua,no dia dos sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, 10-12-2008.



Belezas quase desconhecidas do Brasil II - Jalapão ( Tocantins, capital: Palmas)

11/12/2008

Primeiro levaram os negros,
mas não me importei com isso.
Eu não sou negro.
Em seguida, levaram alguns operários,
mas não me importei com isso.
Eu também não sou operário.
Depois prenderam os miseráveis,
mas não me importei com isso,
porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados,
mas como tenho meu emprego,
também não me importei.
Agora estão me levando,
mas já é tarde.
Como não me importei com ninguém,
ninguém se importa comigo
Bertold Brecht, dramaturgo alemão (1898-1956)

09/12/2008

NEM SEMPRE RESPONDO POR PAPÉIS VELHOS; mas aqui está um que parece autêntico;e, se não o é, vale pelo texto, que é substancial. É um pedaço
do evangelho do Diabo, justamente um sermão da montanha, à maneira de
S.Mateus. Não se apavorem as almas católicas.Já Santo Agostinho dizia que
"a igreja do Diabo imita a igreja de Deus". Daí a semelhança entre os dois
evangelhos. Lá vai o do Diabo:
1. E vendo o Diabo a grande multidão de povo, subiu a um monte, por nome
Corcovado, e, depois de se ter sentado, vieram a ele os seus discípulos.
2. E ele, abrindo a boca, ensinou dizendo as palavras sequintes.
3. Bem-aventurados aqueles que embaçam porque eles não serão embaçados.
4. Bem-aventurados os afoitos, porque eles possuirão a terra.
5. Bem-aventurados os limpos das algibeiras, porque eles andarão mais leves.
6. Bem-aventurados os que nascem finos, porque eles morrerão grossos.
7. Bem-aventurados sois,quando vos injuriarem e disserem todo o mal por meu
respeito.
8. Folgai e exultai, porque o vosso galardão é copioso na terra.
9. Vós sois o sal do money market.E se o sal perder a força, com que outra coisa
se há de salgar?
10. Vós sois a luz do mundo.Não se põe uma vela acesa debaixo de um chapéu,
pois assim se perdem o chapéu e a vela.
[.................]
14. Também foi dito aos homens:Não matareis a vosso irmão, nem a vosso inimigo, para que não sejais castigados.Eu digo-vos que não é preciso matar a vosso irmão para ganhardes o reino da terra;basta arrancar-lhe a última camisa.
[..........]
20. Não queirais guardar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e donde os ladrões os tiram e levam..
21. Mas remetei os vossos tesouros para algum banco de Londres, onde a ferrugem, nem a traça os consomem, nem os ladrões os roubam, e onde ireis
vê-los no dia do juízo.

"O Sermão do Diabo", conto de Joaquim Maria Machado de Assis,
publicado em Gazeta de Notícias (04.09.1892)

07/12/2008

Pai ietu uai mu Kalakala O nosso pai foi trabalhar
Ku dibia dia mundele na roça do branco
tunde ua Tundele boba, e desde que partiu
Kua monekele! não retornou à casa!
Eh! papa tuala ni ji-henda Eh! papai, temos saudade
Eh! papa tuala ni ji-henda Eh! papai, temos saudade
Si uala ni maka, Se tens problemas,
se ua jimbidila, se estás perdido,
tuando ku sota iremos procurar-te
se uafu tuando kudila se estás morto,
tuando binga bua Santana nós choraremos e também pediremos
a Santana para que te leve aos céus
Eh! papa tuala ni ji-henda Eh! papai, temos saudade

"Tuala ni ji-henda" (Papai, temos saudade) - extraído do disco Angola-Folclore e Canções Tradicionais, composição de Luís N'Gambi, angolano, que além de cantor é também violonista.

03/12/2008

"A mulher deve adorar o homem como a um deus. Toda manhã, por nove vezes
consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados, perguntar-lhe: Senhor, que desejais que eu faça?
Zaratustra, filósofo persa, século VII a.C.

"A Natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é,
portanto, um homem inferior".
Aristóteles, filósofo do século IV a.C., guia intelectual e conselheiro do
imperador Alexandre, o Grande.
No Japão do período Heian (794-1192), assim como na Grécia clássica, no islã,
na India pós-védica e em tantas outras sociedades, as mulheres estavam proibidas de ler o que se considerava literatura "séria": deviam confinar-se ao
reino da diversão banal e frívola, que os eruditos confucianos desprezavam, e havia uma distinção clara entre literatura e linguagem "masculina"(com temas heróicos e filosóficos e voz pública) e "feminina"(trivial, doméstica e íntima). Essa distinção foi levada para muitas áreas diferentes: Por exemplo, como os modos chineses continuavam a ser admirados, a pintura chinesa era chamada de "masculina", enquanto a pintura japonesa, muito leve, era "feminina".
Mesmo que todas as bibliotecas de literatura chinesa e japonesa estivessem abertas para elas, as mulheres do período Heian não encontrariam o som de suas vozes na maioria dos livros do período.Portanto, em parte para aumentar
seu estoque de material de leitura, em parte para obter acesso a material de leitura que respondesse às suas preocupações específicas, elas criaram uma literatura própria.Desenvolveram uma transcrição fonética da língua que tinham permissão para falar, o kanabungaka, um japonês expurgado de quase todas as construções com palavras chinesas. Essa língua escrita veio a ser conhecida como "escrita das mulheres" e, estando restrita à mão feminina, adquiriu, aos olhos dos homens que as dominavam, uma qualidade erótica. Para ser atraente, uma mulher precisava não apenas possuir encantos físicos, mas também escrever com caligrafia elegante, bem como ser versada em música e saber ler, interpretar e escrever poesia. Essas realizações no entanto, jamais eram equiparáveis às dos artistas e estudiosos masculinos.

"Uma História da Leitura" - Alberto Manguel

30/11/2008

Gravura de 1865, baseado no quadro de Auguste Toulmouche

27/11/2008

Ó África Pátria do Mundo
Enquanto te espreguiças numa letargia sem fim
O mundo lá fora implacável
Prossegue
Na senda auto-destrutiva do Planeta e de Ti
Ó África Pátria do Mundo
Teus filhos no poder, o que fazem então?
Aconchegados nos sofás dos Mercedes
Com wisky e televisão!?
Importados, longe do sertão(made in Germany, UK e Japão)
Enquanto seus sútidos minguam sem um tostão
Nas sobras dos donativos fora de prazo
Sobrevivem nas lixeiras do egoísmo
Sem chegarem a viver um dia sequer
Circulando como zombies no supérfluo do luxo
no entulho
Ó África Pátria do Mundo
Combatentes da outra Liberdade esquecida democraticamente
Em nome da modernidade globalizada nas contas bancárias
E nas propinas recebidas a troco da penhora do País
Ó África Pátria do Mundo
Reage
E diz-me que é só um pesadelo
Que amanhã é outro dia
E tu renovada surgirás enfeitando tuas crianças
De flores, pão e amor, livros e solidariedade
"Na mesa da fraternidade"
Como um teu descendente na América disse,
Também um dia que tinha um sonho!
Ó África Pátria do Mundo...

Ó África Pátria do Mundo - João Craveirinha, escritor e pintor moçambicano

26/11/2008

No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros.Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos.Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio.Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito.

Trecho de uma carta que Kafka escreveu ao amigo Oskar Pollak em 1904
Tudo que as alegorias pretendem dizer é somente que o incompreensível é incompreensível, e isso já sabemos. Mas os problemas com que lutamos diariamente são uma coisa diferente. Sobre esse assunto, um homem perguntou
certa vez:"Por que tanta teimosia? Se apenas seguissem as alegorias, vocês também se tornariam alegorias e dessa forma resolveriam todos os seus problemas cotidianos".
Outro disse: "Aposto que isso também é uma alegoria".
O primeiro disse: "Você ganhou".
O segundo disse: "Mas ai de mim, só alegoricamente!".
O primeiro disse: "Não, na vida real. Alegoricamente, você perdeu".

Frans Kafka - 1883-1924

25/11/2008

He vuelto a recoger las flores secas
la piel negra de olvido de una fruta
que después de lamer timidamente,
el verano prefirió, asi como la vida
deja atrás un infinito rastro
de estaciones perseguidas por sus dias,
como la estela de cuerpos insepultos
que sigue a un general en retirada
hasta sus sueños,yo abandoné
estos pastos crecidos a mi sombra
aqui y allá, como hongos en la pagina
que el tiempo a puesto amarillento
cansado de estar bajo la lluvia
y el musgo que desplaza sus ejércitos
de siglos, sentado como un ídolo
que fue primero un hombre
viendo cómo se abrian paso
las grietas en el techo y en los rostros,
y que de tanto mirar hacia el pasado
un dia despertó sal, austera piedra
los ojos huérfanos en la frete desnuda
como los clavos donde colgó algun retrato
y esa mirada atrapada por el mármol
en un momento de prostración ante la sangre
que tienen algunas esculturas.
Pero volvi, porque era necesario escribir estos poemas,
porque nunca escuché a nadie hablar de tu cabello
que se ondula como el trigo castigado,
porque he visto con que sabiduria tus muslos
y tus pechos tomam forma en los hornos cálidos
del tiempo.
Y porque en tus ojos, mui temprano el sol
regresa intacto de la muerte

Francisco Alcaraz (1979 - )poeta mexicano de Culiacan.

23/11/2008

Santo Amaro, interior do Estado do Maranhão

Da mandioca quero a massa e o beijú,
do mundéu quero a paca e o tatú;
da mulher, quero o sapato, quero o pé!
- quero a paca, quero o tatu, quero o mundéu...
Eu, do pai, quero a mãe, quero a filha:
também quero casar na família.
Quero o galo, quero a galinha do terreiro,
quero o menino da capanga do dinheiro.
Quero o boi, quero o chifre,
quero o guampo do cumbuco, do balaio, quero o tampo.
Quero a pimenta, quero o caldo, quero o molho
- eu, do guampo quero o chifre, quero o boi.
Qu'é dele, o doido,qu'é dele, o maluco?
Eu quero o tampo do balaio, do cumbuco...

Coco de festa, do Chico barbós, dito Chico Rabeca,dito Chico Precata,Chico do Norte,Chico Moura,Chico Rita - na Sirga,Rancharia da Sirga,Vereda da Sirga
Baixio da Sirga, sertão da Sirga. Retirado de "Dão-Dalalão" em Noites do Sertão, de João Guimarães Rosa
Xixiu mal olhou para fora, ficou alucinado com a paisagem. Parecia um monstro. Da janela mesmo gritou para o universo, que se compunha de quatro
pessoas, além dele e de minha irmã Belsie:
- Nanico, sujeito safado! Tá namorando, não é, seu animal de rabo?!
Nanico tirou rapidamente a mão dos seios de Belinha e respondeu desajeitado:
- Tou.
Apenas belinha, que estava gostando do jardim e das mãos do companheiro,não
se conformou com a intervenção de Xixiu, irmão dela. No entanto, disfarçou a
irritação.Ninguém se irritava naquele dia.Com naturalidade, virou-se para mim, que beijava a um canto a suave Marialice e propôs:
Vamos trocar Surubi, você fica comigo e o besta do meu irmão se ajunta com
a hipócrita da minha irmã.


A Casa do girassol vermelho, do livro de contos O ex-mágico (1947) de
Murilo Rubião, escritor mineiro nascido em Carmo de Minas-MG. É considerado um dos precursores do realismo fantástico brasileiro. Escreveu também A estrela vermelha(1953), Os dragões e outros contos
(1965), O pirotécnico Zacarias(1974), O homem do boné cinzento e outros contos e O convidado, que demorou vinte e seis anos para concluí-lo. Nasceu em 1916 e faleceu em 1991.

21/11/2008

Meu coração é como o frio espectro de Is, a submersa:
cobrem-no turvas águas silenciosas e a fluida fauna dos
pecados e das penas que eu vivi outrora, quando vivo.
Tudo é profundo, inerte, escuro, neste meu grande mundo
extinto e é vão que ainda perpassam sobre os seus escombros,
sobras de sonhos, lívidas, incertas, como peixes sonâmbulos.
De quando em vez, porém, sinto nascer de mim, como de um
estranho abismo, cantos plangentes, mil vozes em coro, que
me surpreendem e animam como deuses ou me apavoram.
Não sei como explicar - ninguém o sabe - esses cantos funéreos
ou divinos que assim despertam e vibram no meu peito, em meio
à grande deusa noite de minha alma, como sinos submersos.

"Os Sinos de Is" - Campos de Carvalho - 1916-1998

20/11/2008

Hoje é o Dia Nacional da Consciência Negra. Em trezentos municípios brasileiros é feriado nacional, inclusive no Rio de Janeiro e em São Paulo. Esse dia foi escolhido em homenagem a um dos líderes negros mais importantes na luta contra a escravidão: Zumbi. Era sobrinho de Ganga Zumba, que veio de Angola como escravo, no século XVI juntamente com outros milhares de negros
para trabalhar nos engenhos de cana de açúcar, na Capitania de Pernambuco.
Após uma sangrenta rebelião liderada por ele, refugiam-se na Serra da Barriga,
conhecida como Palmares(atualmente pertence ao estado de Alagoas),entre o Cabo Sto.Agostinho e o rio São Francisco, criando um quilombo para defender-se dos portugueses. A mãe de Zumbi era irmã de Ganga Zumba, assassinada
quando ele tinha mais ou menos sete anos de idade. Ele foi entregue a um padre
que ensinou-lhe Latim, além de ler e escrever;aos quinze anos consegue fugir para o quilombo de Palmares destacando-se também como líder. Posteriormen-
te terá divergências com seu tio quanto a acordos de paz com os brancos. Em
1678 Ganga Zumba é envenenado supostamente por um dos partidários de Zumbi, que passa então a comandar o quilombo. Após muitas batalhas com muitas mortes, é morto e esquartejado tendo tido sua cabeça exposta em praça pública em 1695.

19/11/2008

Hino à Bandeira do Brasil
Letra: Olavo Bilac - Música: Francisco Braga

Salve lindo pendão da esperança!
Salve símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
a grandeza da Pátria nos traz

Recebe o afeto que se encerra
em nosso peito juvenil,
querido símbolo da terra,
da amada terra do Brasil

Em teu seio formoso retratas
este céu de puríssimo azul,
a verdura sem par destas matas
e o esplendor do Cruzeiro do Sul

Contemplando o teu vulto sagrado,
compreendemos o nosso dever
e o Brasil por seus filhos amado,
poderoso e feliz há de ser

Sobre a imensa Nação Brasileira,
nos momentos de festa ou de dor
paira sempre sagrada bandeira
pavilhão da justiça e do amor.
"Porque em todas as circunstâncias da vida real,
não é a alma dentro de nós, mas sua sombra, o
homem exterior, que geme, se lamenta e desempenha
todos os papéis neste teatro palcos múltiplos,
que é a terra inteira".
Plotino, filósofo neoplatônico, nasceu na cidade egípcia de Licópolis em 205 e faleceu em 270 d.C. vítima de lepra. É autor de "As Enéadas".

18/11/2008


" O nosso amor é uma esquina num deserto de poeira;
nossa paixão é purpurina na manhã de quarta-feira,
a chama de uma lamparina à luz do luar..."

"Ele não sabe o que é o amor
e eu não posso viver sem ele.
Tava dormindo, acordei sonhando
puxando o fio dos cabelos dele.
Eu tenho uma paixão doendo no coração
que não tem jeito a dar...
A medicina não formou doutor
pra curar mal de amor,
olha, o remédio é chorar" .
Cantigas de ciranda

16/11/2008

Verde que te quiero verde. Verdes ramas.El barco



sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.
Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha
vienen con el pez de sombra
que abre camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas
y el monte, gato garduno
eriza sus pitas aguas.
Pero quién vendra? y por donde?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando la mar amarga.
Trechos de "Romance Sonâmbulo" de Federico Garcia Lorca, poeta e dramaturgo espanhol que nasceu na cidade de Granada, em 1898 e foi assasinado em 1936, no início da guerra civil espanhola, quando então comandava o país o general Francisco Franco.

10/11/2008

Ótimo é aquele que por si tudo entenda;
sábio é também aquele que obdiente oiça
quem bem fala; mas, quem por si não pense
nem ouvindo a outrem sinta o coração desperto
esse é, em verdade, um homem inútil.
Hesíodo - cerca de 700 a.C.
Não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, em que um diz as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere-se aquela principalmente o universal, e esta, o particular.
" A Arte Poética" - Aristóteles (382 a.C. - 322 a.C.)

08/11/2008

Minha tribo é composta pelos meus fantasmas - muitos dos quais nem conheço ainda.
Sou muito mais nobre do que o rei da Inglaterra ou do que o xá da Pérsia. A nobreza deles é tão ridícula quanto a divindade do imperador do Japão, filho do Sol e possivelmente pai da Lua. (...) A nobreza do sangue não existe, caso contrário, não existiria a sífilis e a sangria seria um crime de lesa-majestade.
Walter Campos de Carvalho, nasceu em Uberaba-MG, em 1916 e faleceu em 1998, em São Paulo. É autor de O Púcaro Búlgaro, A Lua vem da Ásia, Vaca de nariz sutil, A Chuva imóvel.
Palmira, cidade da Síria

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.
Graciliano Ramos - 1892-1953

06/11/2008

"Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras:
liberdade caça jeito"
Manoel de Barros, poeta nascido em Cuiabá (1916- )




A cibernética trouxe a possibilidade de as máquinas darem respostas teóricas a questões concernentes a áreas inexploradas da realidade e a possibilidade destas respostas estarem além do poder de compreensão do cérebro humano. A ciência não capitulou diante dessas possibilidades vertiginosas nem desprezou com desdém as soluções encontradas pelos computadores em decorrência do cérebro humano ainda não as poder decifrar . Ao contrário, os cientistas disseram somente que talvez fosse necessário construir "amplificadores cerebrais" cibernéticos afim de equipar o cérebro humano de meios indispensáveis à utilização eficaz dos novos conceitos. A ciência e a arte são duas formas muito diversas de dominação da realidade e qualquer comparação direta entre elas tende a acarretar equívocos. Contudo, é igualmente verdadeiro que a arte também descobre novas áreas de realidade, tornando visível e audível o que antes era invisível e inaudível. A compreensão artística, tal como a compreensão científica, não é uma constante: pode-se estender e precisar por meio de "amplificadores".
"A Necessidade da Arte" - Ernst Fischer

04/11/2008

Quando tu voas pra beijar as outras flores,
eu sito dores, um ciúme...
um calor que toma o peito, invade a alma!
Só meu beija-flor me acalma!
Sou rosa vermelha, ah! meu bem-querer...
Beija-flor, sou tua rosa:
Hei de amar-te até morrer!

29/10/2008

Durante seis anos o fotógrafo
Hans Silvester conviveu e obser
vou os costumes e a arte de pin
tar-se que tem este povo que
vive nas proximidades do rio
Omo, na Etiópia, África. Por ser uma região de origem vulcânica e riquíssima em miné
rios, seus habitantes têm o hábi
to de pintar o corpo por puro
prazer estético e para demonstrar uma distinção entre eles. O resultado disso são
verdadeiras obras de arte que deixam de "queixo caído" os mestres da pintura "civilizada"!

28/10/2008

Pela minha vida, sem amargura,
sem suspiro, vai uma dor sombria.
Dos meus sonhos, a florescência pura
é a bênção de meu mais tranquilo dia.

às vezes cruza a trilha que acompanho
a grande questão. Sigo assim, frio,
pequeno, como à margem de um rio
do qual não ouso medir o tamanho.

Então me vem um lamento, um torpor
cinza, como nas noites de verão,
céus em que raro uma estrela se acende.

Minhas mãos tateiam por amor,
porque gostaria de fazer uma oração,
mas ela escapa à minha boca quente...

"Soneto" - Franz Xaver Kappus, poeta contemporâneo de Rainer Maria Rilke (1875-1926)

26/10/2008
















A República do Burundi, ex-Ruanda-Urundi

é um país africano marcado por guerras étnicas. No entanto, no século XVI o país vivia em paz sob o reinado da tribo tutsi, de forma organizada. A partir de 1885, na Conferência de Berlim, os países europeus passaram a disputar entre si o domínio do continente africano. Quando os primeiros alemães chegaram ao país em 1890, os tutsi e hutus ainda conviviam harmonicamente. Os alemães no entanto, passaram a privilegiar a tribo dos tutsi, permitindo-lhes o acesso à escola, às Forças Armadas e que ocupassem cargos na administração do Estado, em detrimento dos hutus. Após a derrota da Alemanha na II Guerra Mundial, a Bélgica passa a ocupar o território e Burundi é unificada com Ruanda. Em 1946 a tutela passa para a ONU e em 1962, Burundi torna-se independente mas os conflitos étnicos continuam, ocosionando guerras intertribais com milhares de mortos. É considerado um dos dez países mais pobres do mundo, com um índice de analfabetismo próximo a 65%. A população vive do cultivo do chá e do café. Faz fronteira com Ruanda, Congo e Tanzânia.

22/10/2008

Roda de Ciranda

Meu senhor dono da casa, o cirandeiro já chegou.
Vamos fazer a roda, vamos se dar as mãos,
Vamos cantar ciranda pra alegrar o coração.
Ô cirandeiro, chame as meninas,
Que esta ciranda vem do jangue de Olinda!
Õ moreninha você é tão bontinha,
Engraçadinha, quero casar com você...
Saí de casa deixei meu terno engomado,
Amanhã do outro lado, quero falar com você!
Ai, ai, meu Deus, o que que eu vou fazer?
Aonde eu vou ver água pra meu bem beber?
Se eu fosse um mestre cirandeiro...
A todo instante eu tenho que assistir...
Só tenho pena do meu camarada,
Minha namorada que eu não vejo aqui.
Meu pé de laranja doce, quanta laranja botou...
Uma caiu no chão, a outra meu bem chupou.
Meu pé de uva só bota uva,
Meu pé de rosa só bota rosa.
A menina pra ser bonita, quando ela nasce
Já é formosa!
Moreninha do meu coração, meu avião
Vai pousar em outras terras...
Ô cirandeira do meu coração, meu avião
Vai pousar em outras terras!
Quando eu pego na minha caixa de guerra,
Cirandeira tua saudade me enterra...
Cirandeira do meu coração, meu avião
Vai pousar em outras terras!

Marcelo Melo/Toínho Alves

20/10/2008

"Mas, isso provém do fato de eu não ter estima por mim. Pode, porém, um homem que se conhece a si mesmo, estimar-se, mesmo um pouco que seja?"
Fiodor Dostoievski - 1821-1881

18/10/2008

...vou me acumulando, me acumulando, até que não caibo em mim e me explodo em palavras!
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
Clarice Lispector - 1920-1977

14/10/2008

Não só a arte é um processo ou experiência de importância igual ao da ciência para a vida e o progresso da humanidade, como também tem a função singular de unir os homens num amor mútuo e pela vida em si mesma. Por que aprendemos a cantar? Para que serve o desenho? O cultivo da arte é uma educação das sensibilidades e, se não tivermos uma educação desse tipo, nossas mãos ficarão vazias e nossa percepção da forma não será exercida, ocorrendo então uma ociosidade e vagabundagem que reverterão em violência e crime. Quando não há uma vontade de criação, o instinto de morte se apossa da situação e provoca a destruição gratuita e interminável.
Uma educação das sensibilidades - não é a preocupação atual de nossas escolas ou da educação de adultos. Alguma coisa é feita na fase primária - no jardim de infância e nas escolas maternais; mas a criança é depois disso rapidamente tragada por um sistema que ignora a evolução do sentimento e não prevê tempo para a atividade livre e a alegria da arte. Conhecer torna-se o objetivo exclusivo da educação; criar, é a preocupação de uma minoria que fugiu do padrão social de nossa civilização tecnológica. A criança em crescimento perde gradualmente todo o contato com as coisas, toda a capacidade de manipular materiais ou discriminar formas.

"As Origens da Forma na Arte" - Herbert Read

13/10/2008

A maioria das pessoas sofre de um consciente corrupto, poderíamos dizer mesmo aviltado. Perdemos o "olho inocente", o olho interior da sensação direta ou primitiva. Percebemos isso sempre que olhamos para o mundo através dos olhos de uma criança, o mundo registrado nas pinturas e poemas infantis. Percebemos também, que olhamos o mundo através dos olhos de um chamado "selvagem"(e que não é tão selvagem quanto nós, que continuamos a destruir a raça humana), o selvagem para quem a imagem é mais real do que o objeto fenomenal, o sonho mais real do que a ação deliberada ou mais real do que o pensamento objetivo que leva à ação deliberada. Com efeito, há dois estágios no "tornar-se consciente" de alguma coisa - primeiro a imagem, depois a idéia; primeiro olhamos o carvão incandescente, depois vemos a cor vermelha da brasa.

"As Origens da Forma na Arte" - Herbert Read, poeta e Crítico de Arte, inglês
(1893-1968)




Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim...e não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca!
- E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma !

"Eu" - Florbela D'Alma da Conceição Espanca, poeta portuguesa(1894-1930)

12/10/2008

Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Jorge Luís Borges (1899 - 1986)
E agora, o que vou fazer de todo esse tempo,
o que será de minha vida, de todas essas pessoas,
que me são indiferentes...?
Agora que te foste, todas estas noites...
Por quê... para quem?
E esta manhã que volta para nada?
Este coração que bate...bate tão forte...!
E agora, o que vou fazer com esse vazio que acompanhará minha vida?
Me deixaste o mundo inteiro,
mas o mundo sem ti é tão pequeno!
Vocês, meus amigos, sabem muito bem
que não se pode fazer nada...
Até Paris enche-se de tédio, todas essas ruas me aborrecem!
E agora, o que vou fazer?
Vou rir para não chorar...
Incendiarei todas as noites...
Pela manhã te odiarei!

"E Agora ?" - tradução livre de cirandeira

10/10/2008

Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim. Ah, meu amigo, a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou alguém de tudo faz frincha para rir-se da gente... E então?
Note que meus reparos limitam-se ao capítulo dos espelhos planos, de uso comum. E os demais - côncavos, convexos, parabólicos - além da possibilidade de outros, não descobertos, apenas, ainda?
[...........................] Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse... Sim, são para se ter medo, os espelhos.

"O Espelho" em Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa
Não sou ninguém! Quem é você?
Ninguém - também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!
Que triste - ser - Alguém!
Que pública - a Fama
Dizer seu nome - como a rã -
Para as palmas da lama!

Emily Dickinson - (1830-1886)
Tradução de Augusto de Campos

08/10/2008

"Tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com outros homens."

Manifesto do Partido Comunista - 1848
Karl Marx e Friedrich Engels

"Ao nascimento da mecanização e da indústria moderna [....] seguiu-se um violento abalo, como uma avalanche, em intensidade e extensão. Todos os limites da moral e da natureza, de idade e sexo, de dia e noite, foram rompidos. O capital celebrou suas orgias."

"O Capital, volume I - Karl Marx

[...] aquela aparente desordem que é, na verdade, o mais alto grau de ordem burguesa.

Fiodor Dostoievski - 1821-1881

07/10/2008

Oitavo mandamento, mentirás
Alí os peritos corrigem alguns errinhos. Entre outras coisas, ficamos a saber agora que os pobres mais pobres do mundo, os chamados "indigentes", somam 500 milhões a mais dos que apareciam nas estatísticas. Além disso, ficamos a saber que os países pobres são bastante mais pobres do que aquilo que diziam os numerozinhos e que a sua desgraça piorou enquanto o Banco Mundial lhes vendia a pílula da felicidade do mercado livre. E como se isso fosse pouco, verifica-se que a desigualdade universal entre os pobres e ricos havia sido mal medida e, à escala planetária o abismo é ainda mais fundo que o do Brasil.
Extraído da Coluna de Eduardo Galeano, escritor uruguaio

06/10/2008

...Então os transatlânticos trouxeram da Europa outras raças aventureiras. Entre elas uma alegre que pisou na terra paulista cantando e na terra brotou e se alastrou como aquela planta também imigrante que há duzentos anos veio fundar a riqueza brasileira.
Brás, Bixiga e Barra Funda, como membro da livre imprensa que é, tenta fixar tão somente alguns aspectos da vida trabalhadeira, íntima e cotidiana desses novos mestiços nacionais e nacionalistas. É um jornal. Mais nada. Notícia. Só. Não tem partido nem ideal. Não comenta. Não discute. Não aprofunda.
Principalmente não aprofunda. Em suas colunas não se encontra uma única linha de doutrina. Tudo são fatos diversos. Acontecimentos de crônica urbana. Episódios de rua. O aspecto étnico-social dessa novíssima raça de gigantes encontrará amanhã o seu historiador. E será então analisado e pesado num livro.

Trecho de Brás, Bixiga e Barra Funda - Antonio de Alcântara Machado


E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora?
Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta;quer morrer no mar, mas o mar secou;quer ir para Minas, Minas não há mais, José, e agora? Se você gritasse,se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse mas você não morre, você é duro, José!
Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José!
José, para onde?

"José" - de Carlos Drummond de Andrade

05/10/2008

Um senso de realidade é uma conquista, um avanço partido do caos e confusão de um mundo ininteligível, uma construção. A primeira ordem introduzida no conceito que o homem tem do mundo foi uma ordem estética - a ordem do ritual e do mito. Mais tarde o intelecto fez gradualmente uma seleção da totalidade - a parte que pode descrever e medir - e deu-lhe uma unidade mais coerente, chamando-a de ciência. O mapa é constantemente ampliado; novos detalhes são acrescentados; mas amplos territórios de espaço e tempo ainda devem ser classificados como "terra incógnita". A sensibilidade opera como um relâmpago nesses abismos sombrios e o clarão permite uma visão rápida dos lineamentos desse desconhecido: a rápida percepção que é a intuição do artista e que ele luta, então, para nos comunicar pelos símbolos que inventa. É esse o momento de originalidade - o momento no qual compreendemos a brilhante e etérea tessitura da música, "as formas que perseguem os descampados do pensamento" na poesia, " a beleza elaborada de dentro sobre a carne" de uma pintura. Poesia, música, pintura - são todas artes ou habilidades para elevar os sentidos à condição de percepção, na qual o mundo não é transfigurado, mas na qual, pela primeira vez, um de seus aspectos é revelado, recebe uma forma e, com isso, é, para os olhos humanos, recém-criado, recém-comunicado.
As Origens da forma na Arte, de Herbert Read, poeta e crítico de arte inglês(1893-1968)
Povo da minha terra!

Emboramente eu não tenha vindo aqui prá isso,
Não posso deixar de lembrar, que hoje é dia de eleições!
Votem, votem, votem!!
( Odorico Paraguaçu, personagem de O Bem Amado,
de Dias Gomes)

OBS: Hoje teremos 15.500 candidatos distribuídos entre os 5.564 municípios do país, disputando uma vaga para o cargo de prefeito.
"Alea jacta est!", frase em latim, que traduzindo significa, os dados estão lançados, supostamente proferida por Júlio César, imperador romano ao decidir atravessar o rio Rubicão, divisa entre a Gália Cisalpina (sul dos Alpes, hoje Penísula Itálica) e o território da Itália.

04/10/2008

Durante muito tempo a nacionalidade viveu da mescla de três raças que os poetas xingaram de tristes: as três raças tristes.
A primeira, as caravelas descobridoras encontraram aqui comendo gente e desdenhosa de "mostrar suas vergonhas". A segunda veio nas caravelas. Logo os machos sacudidos desta se enamoraram das moças "bem gentis" daquela, que tinham cabelos "mui pretos, compridos pelas espáduas".
E nasceram os primeiros mamalucos.
A terceira veio nos porões dos navios negreiros trabalhar o solo e servir a gente.Trazendo outras moças gentis, mucamas, mucambas, munibandas, macumas.
E nasceram os segundos mamalucos.
E os mamalucos das duas fornadas deram o empurrão inicial no Brasil.O colosso começou a rolar.
Trecho de Brás, Bixiga e Barra Funda, de Antonio de Alcântara Machado (1901-1935)
2 de abril

A vida precisa ser paixão para ser vida, calada ou faladora, taciturna ou desvairada, mas paixão. O meio-termo cabe às almas medíocres, prudentes, formalistas. (.....)
Não é fácil arrancar espinhos. Às vezes nos é mesmo custoso amputar o membro todo, mesmo correndo o perigo das hemorragias. E fica-se à espera da coragem.

4 de abril

"A Polícia deteve, hoje, às 20:30horas, o prefeito do Distrito Federal, doutor Pedro Ernesto Batista. Esta providência foi tomada após acuradas diligências, em virtude das quais resultaram indícios veementes da culpabilidade do doutor Pedro Ernesto na preparação dos movimentos subversivos que abalaram o país ultimamente.
A Polícia, com serenidade e energia, prossegue no cumprimento de sua missão".
O Trapicheiro, 1936 - Marques Rebelo

02/10/2008

Ai, penicilina cura até defunto
Ai, petróleo bruto faz nascer cabelo
Mas, ainda está prá nascer um doutor
Que cura dor de cotovelo, ai, ai, ai
Desde os tempos de Adão,
Essa dorzinha infernal...
Foi comer maçã,
Logo que comeu,
O cotovelo doeu!
Marchinha de carnaval (de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti)

29/09/2008

"Rosace" - Henri Matisse

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes;tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.


- Continue, disse eu acordando.


- Já acabei, murmurou ele.


- São muito bonitos.


Ví-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto, estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. "Dom Casmurro" - 1899 - Joaquim Maria Machado de Assis




Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vai então deitar-se a um canto e fica alí muito tempo, calado, agita-se um pouco, até que acha posição definitiva e cerra os olhos. Não dorme, recolhe as idéias, combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe acaso ao longe, muito ao longe, aos pedaços, depois mistura-se à do amigo atual, e parecem ambas uma só pessoa; depois outras idéias...
Mas já são muitas idéias, - são idéias demais; em todo caso são idéias de cachorro, poeira de idéias - menos ainda que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade é que este olho que se abre de quando em quando para fixar o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma cousa que brilha lá dentro, lá muito ao fundo de outra cousa que não sei como diga, para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as orelhas. Pobre língua humana!
"Quincas Borba", de Joaquim Maria Machado Assis (1839-1908)

28/09/2008

"Tristesse-roi" - Henri Matisse



Há balanços inquietantes: permanece o estado de sítio e jornalistas são presos; vota-se um abono provisório para o funcionalismo, porque o custo de vida cresce sem peias; o escritor Lobato explica, em violenta e documentada carta-aberta, por que o Brasil não tira petróleo, nem deixa ninguém tirá-lo; a Itália invade a Abissínia em guerra de expansão colonialista e os abexins superiores em número e inferiores em armas, infinitamente inferiores, ante a conivente apatia das nações ditas civilizadas, se defendem como podem, inflingindo não poucas vergonhosas derrotas ao conquistador;e Getúlio falando aos brasileiros, na noite de São Silvestre, anatematiza o comunismo, "que alicerçando no conceito materialista da vida, constitui- se o inimigo mais perigoso da civilização cristã", rememora em cores trágicas a quartelada de novembro, como se fora a única que o país já vira, e promete perseguir e esmagar a hidra moscovita, porém, o alarmante das suas palavras, é que são elas como que o combinado eco das de Hitler, discursando na mesma noite e quase à mesma hora, nas comemorações do terceiro aniversário da tomada do poder pelo seu partido totalitário. ( 5 de fevereiro de 1936)
"O Trapicheiro", de Marques Rebelo, jornalita, escritor, nascido no Rio de Janeiro em 1907. Faleceu em 1973. Essa obra faz parte da trilogia "O Espelho partido" e os outros dois volumes são "A Mudança" e "A Guerra está em nós". Acesse http://www.releituras.com/mrebelo , para saber mais sobre o autor.

Pobres miseráveis desnudos, onde quer que estejam!Que aguardam o golpe dessa impiedosa tormenta! Como suas cabeças desabrigadas, seus ventres vazios, seus rotos e imundos farrapos poderão protegê-los de intempéries como estas? Toma este remédio, oh pompa inútil! E tu, que possas sentir o que os miseráveis sentem, para que o supérfluo de tua dor se espalhe entre eles e mostre bem clara a justiça dos céus!
"Rei Lear" III, 4, 28-26 William Shakespeare
(1564-1616)
acesse: www.dominiopublico.gov.br/pesquisa, para ler o texto completo.

27/09/2008

Com a palavra, Odorico Paraguaçu
(personagem da novela "O Bem Amado", de Dias Gomes)

Meus conterrâneos de Sucupira!

Deixemos de lado os entretantos e vamos direto aos finalmentes:
Não vou prometer nada porque os outros cãodidatos vão fazer tudo!
A hora é de bola prá frente e ordinário, marche!


" Começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante de meus olhos, eu vou ficando aturdido. De todas as coisas que me atraem, nenhuma toca o meu coração, embora todas juntas perturbem os meus sentimentos, de modo a fazer que eu esqueça o que sou e qual é o meu lugar." (Jean-Jacques Rousseau, de "A Nova Heloísa, cartas)

25/09/2008




O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles,
Que sei disso? Sempre que olho para as coisas
E penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas é elas
Não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezas e do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

.(.................) As coisas não têm significação: têm existência

As coisas são o único sentido oculto das coisas.

"O Guardador de rebanhos" - Fernando Pessoa (1888-1935)

24/09/2008

Não posso desfazer-me dos sinos cujo toque suaviza meus caminhos.......(....) Acha-me descontrolada. Eu não tenho tribunais!

Esta manhã encontrei um pássaro triste em seu pequeno arbusto ao pé do jardim - e por que canta - eu disse, se ninguém o escuta? Um soluço na garganta, uma agitação no peito. 'Meu ofício é cantar' - e lá se foi!

Dentro das malhas da alegria oculta-se a angústia precavida. Assim ninguém ao ver o sangue exclamará: Estás ferida! Dizem que o tempo ameniza. Isto é faltar com a verdade. Dor real se fortalece como os músculos com a idade. É um teste ao sofrimento, mas não o debelaria. Se o tempo fosse remédio nenhum mal existiria. Suportar nosso quinhão de cada noite, de cada manhã que vem...nosso vazio preencher com júbilo ou com desdém...

Uma estrela aqui, uma estrela além - algumas se estraviam!

Uma névoa aqui, outra além - depois o Dia!

Emily Dickinson (1830-1886)


O mar quando quebra na praia, é bonito, é bonito

O mar...pescador quando sai nunca sabe se volta,

Nem sabe se fica.

Quanta gente perdeu seus maridos, seus filhos, nas ondas do mar.

O mar, quando quebra na praia é bonito, é bonito.

Pedro vivia de pesca, saía no barco seis horas da tarde. Só vinha na hora do sol raiar.

Todos gostavam de Pedro e mais do que todos, Rosinha de Chica,

a mais bonitinha e mais bem feitinha de todas as moças lá do arraiá.

Pedro saiu no seu barco seis horas da tarde, passou toda a noite.

Não veio na hora do sol raiar.

Deram com o corpo de Pedro jogado na praia, ruído de peixe, sem barco, sem nada

Num canto bem longe lá do arraiá.

Pobre Rosinha de Chica que era bonita, agora parece que endoideceu.

Vive na beira da praia olhando nas ondas, andando, rodando, dizendo baixinho, morreu,morreu

O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito....
Dorival Caymmi (1914-2008)

23/09/2008

Quando Carlos Imperial escreveu A Praça, em 1967, esse espaço público que originalmente era o local onde as pessoas se reuniam para manifestar suas alegrias ou descontentamentos já dava sinais de seu desaparecimento. Estávamos em plena ditadura militar e já não era permitido qualquer tipo de aglomeração ou reunião de pessoas em vias públicas. Para onde foram as crianças com seus balanços e gangorras? Para os "parques de diversão", de preferência nos shoppings centers! E os pipoqueiros, "o bom velhinho", os passarinhos? As pipocas são vendidas nos cinemas, os velhinhos não têm mais oportunidade de trabalho e os passarinhos...estão desaparecendo por causa da poluição provocada pelos automóveis. O guarda? Fugiu com medo dos assaltantes. A Praça hoje em dia está à disposição de assaltantes, pessoas que não têm onde dormir, entulhos e lixo mesmo! Os tempos mudaram e hoje em dia ninguém se arrisca mais a sentar-se em um banco de praça. A globalização do sistema capitalista não permite mais que as pessoas se reúnam, se aproximem umas das outras. Agora é cada um por si...!

19/09/2008

Hay golpes en la vida, tan fuertes....
Yo no sé !

Como si ante ellos la resaca de todo lo sufrido
se empezara en alma.
Yo no sé!

Son pocos, pero son...
Abren zanjas oscuras en el rostro
mas fiero y el homo más fuerte. Serian talvez
los potros de bárbaros atilas o los heraldos negros
que nos manda la Muerte....

César Vallejo