29/09/2008

Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vai então deitar-se a um canto e fica alí muito tempo, calado, agita-se um pouco, até que acha posição definitiva e cerra os olhos. Não dorme, recolhe as idéias, combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe acaso ao longe, muito ao longe, aos pedaços, depois mistura-se à do amigo atual, e parecem ambas uma só pessoa; depois outras idéias...
Mas já são muitas idéias, - são idéias demais; em todo caso são idéias de cachorro, poeira de idéias - menos ainda que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade é que este olho que se abre de quando em quando para fixar o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma cousa que brilha lá dentro, lá muito ao fundo de outra cousa que não sei como diga, para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as orelhas. Pobre língua humana!
"Quincas Borba", de Joaquim Maria Machado Assis (1839-1908)

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