29/09/2008

"Rosace" - Henri Matisse

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes;tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.


- Continue, disse eu acordando.


- Já acabei, murmurou ele.


- São muito bonitos.


Ví-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto, estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. "Dom Casmurro" - 1899 - Joaquim Maria Machado de Assis




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