22/12/2008

Para um caderninho de Natal

Uma adolescente a quem desoriento em aulas de Português vem me pedir algumas palavras sobre o Natal.Diante de meu engasgo, ela me
diz que qualquer coisa serve, e sinto que ela pensa em acrescentar, "qualquer coisa, até mesmo o que o senhor me diga".E para não lhe
dizer que procure outra pessoa mais qualificada, começo:
"O Natal é uma festa comercial, minha filha.É a data magna da hipocrisia universal.Nesse dia as pessoas dizem se amar.No Natal, as
autoridades, os que têm boa vida divulgam e querem fazer crer que as
diferenças acabaram entre os homens.Os ricos de bens materiais ficam
subitamente espirituais e com o estômago repleto arrotam que a melhor salvação é a da alma.(E penso, enquanto lhe falo, na Pequena Vendedora
de Fósforos, de Andersen, mas minhas palavras não conseguem a força
dessa claridão)No entanto, você sabe, os ricos continuam humanos em
suas mansões e os pobres continuam porcos em seus casebres, no mesmo dia 25.No outro dia, você sabe...(E penso nos Estranhos Frutos, de Billie
Holiday, mas minhas palavras não se iluminam com essa luz de negros
enforcados em árvores, no sul do Estados Unidos) O Natal, minha filha..."
E paro. O seu rosto reflete o desagrado de minhas palavras.Quem ensina a adolescentes aprende a ler nos seus olhos,nas suas bocas, o agrado ou a decepção do que pensa ensinar.Agora enquanto escrevo,percebo que é uma vitória da sociedade de classes a crença em boas famílias, em belos pais,em generosos sentimentos,essa coisa resistente até mesmo em pessoas que só conheceram da vida a humilhação,a patada e os coices.
A jovem com quem falo é uma adolescente pobre, filha natural, com somente esse adjetivo óbvio da natureza, nada mais.Como um fruto da partenogênese.À primeira vista, ela possuiria todas as condições para
entender o que lhe digo.Mas o seu rosto me faz parar.Sinto o grande mal
que lhe causo em procurar ser verdadeiro numa data em que todos pedem e esperam e anseiam que sejamos todos absolutamente falsos.
Talvez,reconsidero agora ao escrever,o seu desagrado se dê porque sou
apenas convencional,comum, de um esquerdismo vulgar, quando queria
ser verdadeiro como o leite que chupei em minha própria mãe.E convencional por convencional, melhor seria que eu escrevesse no seu caderninho uma frase do gênero "sejamos durante todo o ano como neste
dezembro 25".
(...............................................................................................)
Eu também já acreditei em Natal, minha filha.Antes de saber que os homens se matam e se barbarizam e são feras todos os dias do ano.Antes,
bem antes de receber um pontapé nas costas, na bunda, de um marujo norte-americano. Sabe o que é chorar e descobrir sozinho, pela primeira vez, que Deus não existe, porque se ele existisse, não permitiria que jovens cheios de amor e sentimentos e poesia, fossem chutados por bons filhos da puta que nunca deixaram de ser?
Acredite,acreditei no Natal bem antes desses acontecimentos, quando eu
tinha a sua idade.
Antes disso, minha filha, o Natal para mim foi um par de sapatos belos,
novos e marrons, lindos e tão perfeitos e artísticos e caros como uma criança pode sonhar.A minha filha sabe o que é ter uns sapatos que vestem a gente até a alma?Pois eu os ganhei.Quase, melhor dizendo.Porque num dia 25, logo cedinho,eles estavam embaixo da minha cama.Não que não tivesse sapatos, sim, eu possuía uns muito
velhos, gastos, enrugados,quase sem sola, de cadarços desfiados.Pois eu
quase ganhei esses absolutamente novos.Ganhei-os digamos, até o
meio-dia dos meus 7 anos de idade.E para que todos também partilhassem da minha alegria, eu os exibí ao sol da minha janela,da
casinha onde eu morava.Eu pensava que a felicidade se compartilhava.Eu
pensava que a felicidade era um bem impossível de ser vivido por um menino só(E até hoje, às vezes, esse velho menino teima em pensar assim.Mas só às vezes)Pensava. Roubaram-me o par de sapatos, minha filha,num dia 25 de dezembro.E como o meu pai era um homem de lições
muito fortes e pedagógicas, deu-me uma surra pela infelicidade de não
ter o par de sapatos.Daí talvez me veio esse ar de homem que despreza
a felicidade.Esta é a razão, mocinha:ficou em mim a sensação de que
a felicidade é um bem que me vão roubar.Daí que dela desconfio,quando
dela não tomo segura distância.Não ter felicidade é uma forma de sofrer
somente um pouqunho.
A minha filha já vê que eu não lhe poderia dizer tais verdades para um
dia de tamanha fraternidade.Então, anote por favor no seu caderninho
essa meia-verdade.
O Natal é a esperança de que algum dia, em algum lugar, um menino vai
receber um par de sapatos marrons e vestí-los até a alma.Antes que alcance a sua idade, mocinha, antes que receba alguns sapatos pelas
costas.
Texto de Urariano Mota, jornalista e escritor.Autor de "Os Corações
futuristas";colaborador de sites na Espanha,Portugal e Rússia

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