29/09/2008

"Rosace" - Henri Matisse

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes;tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.


- Continue, disse eu acordando.


- Já acabei, murmurou ele.


- São muito bonitos.


Ví-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto, estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. "Dom Casmurro" - 1899 - Joaquim Maria Machado de Assis




Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vai então deitar-se a um canto e fica alí muito tempo, calado, agita-se um pouco, até que acha posição definitiva e cerra os olhos. Não dorme, recolhe as idéias, combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe acaso ao longe, muito ao longe, aos pedaços, depois mistura-se à do amigo atual, e parecem ambas uma só pessoa; depois outras idéias...
Mas já são muitas idéias, - são idéias demais; em todo caso são idéias de cachorro, poeira de idéias - menos ainda que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade é que este olho que se abre de quando em quando para fixar o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma cousa que brilha lá dentro, lá muito ao fundo de outra cousa que não sei como diga, para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as orelhas. Pobre língua humana!
"Quincas Borba", de Joaquim Maria Machado Assis (1839-1908)

28/09/2008

"Tristesse-roi" - Henri Matisse



Há balanços inquietantes: permanece o estado de sítio e jornalistas são presos; vota-se um abono provisório para o funcionalismo, porque o custo de vida cresce sem peias; o escritor Lobato explica, em violenta e documentada carta-aberta, por que o Brasil não tira petróleo, nem deixa ninguém tirá-lo; a Itália invade a Abissínia em guerra de expansão colonialista e os abexins superiores em número e inferiores em armas, infinitamente inferiores, ante a conivente apatia das nações ditas civilizadas, se defendem como podem, inflingindo não poucas vergonhosas derrotas ao conquistador;e Getúlio falando aos brasileiros, na noite de São Silvestre, anatematiza o comunismo, "que alicerçando no conceito materialista da vida, constitui- se o inimigo mais perigoso da civilização cristã", rememora em cores trágicas a quartelada de novembro, como se fora a única que o país já vira, e promete perseguir e esmagar a hidra moscovita, porém, o alarmante das suas palavras, é que são elas como que o combinado eco das de Hitler, discursando na mesma noite e quase à mesma hora, nas comemorações do terceiro aniversário da tomada do poder pelo seu partido totalitário. ( 5 de fevereiro de 1936)
"O Trapicheiro", de Marques Rebelo, jornalita, escritor, nascido no Rio de Janeiro em 1907. Faleceu em 1973. Essa obra faz parte da trilogia "O Espelho partido" e os outros dois volumes são "A Mudança" e "A Guerra está em nós". Acesse http://www.releituras.com/mrebelo , para saber mais sobre o autor.

Pobres miseráveis desnudos, onde quer que estejam!Que aguardam o golpe dessa impiedosa tormenta! Como suas cabeças desabrigadas, seus ventres vazios, seus rotos e imundos farrapos poderão protegê-los de intempéries como estas? Toma este remédio, oh pompa inútil! E tu, que possas sentir o que os miseráveis sentem, para que o supérfluo de tua dor se espalhe entre eles e mostre bem clara a justiça dos céus!
"Rei Lear" III, 4, 28-26 William Shakespeare
(1564-1616)
acesse: www.dominiopublico.gov.br/pesquisa, para ler o texto completo.

27/09/2008

Com a palavra, Odorico Paraguaçu
(personagem da novela "O Bem Amado", de Dias Gomes)

Meus conterrâneos de Sucupira!

Deixemos de lado os entretantos e vamos direto aos finalmentes:
Não vou prometer nada porque os outros cãodidatos vão fazer tudo!
A hora é de bola prá frente e ordinário, marche!


" Começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante de meus olhos, eu vou ficando aturdido. De todas as coisas que me atraem, nenhuma toca o meu coração, embora todas juntas perturbem os meus sentimentos, de modo a fazer que eu esqueça o que sou e qual é o meu lugar." (Jean-Jacques Rousseau, de "A Nova Heloísa, cartas)

25/09/2008




O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles,
Que sei disso? Sempre que olho para as coisas
E penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas é elas
Não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezas e do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

.(.................) As coisas não têm significação: têm existência

As coisas são o único sentido oculto das coisas.

"O Guardador de rebanhos" - Fernando Pessoa (1888-1935)

24/09/2008

Não posso desfazer-me dos sinos cujo toque suaviza meus caminhos.......(....) Acha-me descontrolada. Eu não tenho tribunais!

Esta manhã encontrei um pássaro triste em seu pequeno arbusto ao pé do jardim - e por que canta - eu disse, se ninguém o escuta? Um soluço na garganta, uma agitação no peito. 'Meu ofício é cantar' - e lá se foi!

Dentro das malhas da alegria oculta-se a angústia precavida. Assim ninguém ao ver o sangue exclamará: Estás ferida! Dizem que o tempo ameniza. Isto é faltar com a verdade. Dor real se fortalece como os músculos com a idade. É um teste ao sofrimento, mas não o debelaria. Se o tempo fosse remédio nenhum mal existiria. Suportar nosso quinhão de cada noite, de cada manhã que vem...nosso vazio preencher com júbilo ou com desdém...

Uma estrela aqui, uma estrela além - algumas se estraviam!

Uma névoa aqui, outra além - depois o Dia!

Emily Dickinson (1830-1886)


O mar quando quebra na praia, é bonito, é bonito

O mar...pescador quando sai nunca sabe se volta,

Nem sabe se fica.

Quanta gente perdeu seus maridos, seus filhos, nas ondas do mar.

O mar, quando quebra na praia é bonito, é bonito.

Pedro vivia de pesca, saía no barco seis horas da tarde. Só vinha na hora do sol raiar.

Todos gostavam de Pedro e mais do que todos, Rosinha de Chica,

a mais bonitinha e mais bem feitinha de todas as moças lá do arraiá.

Pedro saiu no seu barco seis horas da tarde, passou toda a noite.

Não veio na hora do sol raiar.

Deram com o corpo de Pedro jogado na praia, ruído de peixe, sem barco, sem nada

Num canto bem longe lá do arraiá.

Pobre Rosinha de Chica que era bonita, agora parece que endoideceu.

Vive na beira da praia olhando nas ondas, andando, rodando, dizendo baixinho, morreu,morreu

O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito....
Dorival Caymmi (1914-2008)

23/09/2008

Quando Carlos Imperial escreveu A Praça, em 1967, esse espaço público que originalmente era o local onde as pessoas se reuniam para manifestar suas alegrias ou descontentamentos já dava sinais de seu desaparecimento. Estávamos em plena ditadura militar e já não era permitido qualquer tipo de aglomeração ou reunião de pessoas em vias públicas. Para onde foram as crianças com seus balanços e gangorras? Para os "parques de diversão", de preferência nos shoppings centers! E os pipoqueiros, "o bom velhinho", os passarinhos? As pipocas são vendidas nos cinemas, os velhinhos não têm mais oportunidade de trabalho e os passarinhos...estão desaparecendo por causa da poluição provocada pelos automóveis. O guarda? Fugiu com medo dos assaltantes. A Praça hoje em dia está à disposição de assaltantes, pessoas que não têm onde dormir, entulhos e lixo mesmo! Os tempos mudaram e hoje em dia ninguém se arrisca mais a sentar-se em um banco de praça. A globalização do sistema capitalista não permite mais que as pessoas se reúnam, se aproximem umas das outras. Agora é cada um por si...!

19/09/2008

Hay golpes en la vida, tan fuertes....
Yo no sé !

Como si ante ellos la resaca de todo lo sufrido
se empezara en alma.
Yo no sé!

Son pocos, pero son...
Abren zanjas oscuras en el rostro
mas fiero y el homo más fuerte. Serian talvez
los potros de bárbaros atilas o los heraldos negros
que nos manda la Muerte....

César Vallejo