29/10/2008

Durante seis anos o fotógrafo
Hans Silvester conviveu e obser
vou os costumes e a arte de pin
tar-se que tem este povo que
vive nas proximidades do rio
Omo, na Etiópia, África. Por ser uma região de origem vulcânica e riquíssima em miné
rios, seus habitantes têm o hábi
to de pintar o corpo por puro
prazer estético e para demonstrar uma distinção entre eles. O resultado disso são
verdadeiras obras de arte que deixam de "queixo caído" os mestres da pintura "civilizada"!

28/10/2008

Pela minha vida, sem amargura,
sem suspiro, vai uma dor sombria.
Dos meus sonhos, a florescência pura
é a bênção de meu mais tranquilo dia.

às vezes cruza a trilha que acompanho
a grande questão. Sigo assim, frio,
pequeno, como à margem de um rio
do qual não ouso medir o tamanho.

Então me vem um lamento, um torpor
cinza, como nas noites de verão,
céus em que raro uma estrela se acende.

Minhas mãos tateiam por amor,
porque gostaria de fazer uma oração,
mas ela escapa à minha boca quente...

"Soneto" - Franz Xaver Kappus, poeta contemporâneo de Rainer Maria Rilke (1875-1926)

26/10/2008
















A República do Burundi, ex-Ruanda-Urundi

é um país africano marcado por guerras étnicas. No entanto, no século XVI o país vivia em paz sob o reinado da tribo tutsi, de forma organizada. A partir de 1885, na Conferência de Berlim, os países europeus passaram a disputar entre si o domínio do continente africano. Quando os primeiros alemães chegaram ao país em 1890, os tutsi e hutus ainda conviviam harmonicamente. Os alemães no entanto, passaram a privilegiar a tribo dos tutsi, permitindo-lhes o acesso à escola, às Forças Armadas e que ocupassem cargos na administração do Estado, em detrimento dos hutus. Após a derrota da Alemanha na II Guerra Mundial, a Bélgica passa a ocupar o território e Burundi é unificada com Ruanda. Em 1946 a tutela passa para a ONU e em 1962, Burundi torna-se independente mas os conflitos étnicos continuam, ocosionando guerras intertribais com milhares de mortos. É considerado um dos dez países mais pobres do mundo, com um índice de analfabetismo próximo a 65%. A população vive do cultivo do chá e do café. Faz fronteira com Ruanda, Congo e Tanzânia.

22/10/2008

Roda de Ciranda

Meu senhor dono da casa, o cirandeiro já chegou.
Vamos fazer a roda, vamos se dar as mãos,
Vamos cantar ciranda pra alegrar o coração.
Ô cirandeiro, chame as meninas,
Que esta ciranda vem do jangue de Olinda!
Õ moreninha você é tão bontinha,
Engraçadinha, quero casar com você...
Saí de casa deixei meu terno engomado,
Amanhã do outro lado, quero falar com você!
Ai, ai, meu Deus, o que que eu vou fazer?
Aonde eu vou ver água pra meu bem beber?
Se eu fosse um mestre cirandeiro...
A todo instante eu tenho que assistir...
Só tenho pena do meu camarada,
Minha namorada que eu não vejo aqui.
Meu pé de laranja doce, quanta laranja botou...
Uma caiu no chão, a outra meu bem chupou.
Meu pé de uva só bota uva,
Meu pé de rosa só bota rosa.
A menina pra ser bonita, quando ela nasce
Já é formosa!
Moreninha do meu coração, meu avião
Vai pousar em outras terras...
Ô cirandeira do meu coração, meu avião
Vai pousar em outras terras!
Quando eu pego na minha caixa de guerra,
Cirandeira tua saudade me enterra...
Cirandeira do meu coração, meu avião
Vai pousar em outras terras!

Marcelo Melo/Toínho Alves

20/10/2008

"Mas, isso provém do fato de eu não ter estima por mim. Pode, porém, um homem que se conhece a si mesmo, estimar-se, mesmo um pouco que seja?"
Fiodor Dostoievski - 1821-1881

18/10/2008

...vou me acumulando, me acumulando, até que não caibo em mim e me explodo em palavras!
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.
Clarice Lispector - 1920-1977

14/10/2008

Não só a arte é um processo ou experiência de importância igual ao da ciência para a vida e o progresso da humanidade, como também tem a função singular de unir os homens num amor mútuo e pela vida em si mesma. Por que aprendemos a cantar? Para que serve o desenho? O cultivo da arte é uma educação das sensibilidades e, se não tivermos uma educação desse tipo, nossas mãos ficarão vazias e nossa percepção da forma não será exercida, ocorrendo então uma ociosidade e vagabundagem que reverterão em violência e crime. Quando não há uma vontade de criação, o instinto de morte se apossa da situação e provoca a destruição gratuita e interminável.
Uma educação das sensibilidades - não é a preocupação atual de nossas escolas ou da educação de adultos. Alguma coisa é feita na fase primária - no jardim de infância e nas escolas maternais; mas a criança é depois disso rapidamente tragada por um sistema que ignora a evolução do sentimento e não prevê tempo para a atividade livre e a alegria da arte. Conhecer torna-se o objetivo exclusivo da educação; criar, é a preocupação de uma minoria que fugiu do padrão social de nossa civilização tecnológica. A criança em crescimento perde gradualmente todo o contato com as coisas, toda a capacidade de manipular materiais ou discriminar formas.

"As Origens da Forma na Arte" - Herbert Read

13/10/2008

A maioria das pessoas sofre de um consciente corrupto, poderíamos dizer mesmo aviltado. Perdemos o "olho inocente", o olho interior da sensação direta ou primitiva. Percebemos isso sempre que olhamos para o mundo através dos olhos de uma criança, o mundo registrado nas pinturas e poemas infantis. Percebemos também, que olhamos o mundo através dos olhos de um chamado "selvagem"(e que não é tão selvagem quanto nós, que continuamos a destruir a raça humana), o selvagem para quem a imagem é mais real do que o objeto fenomenal, o sonho mais real do que a ação deliberada ou mais real do que o pensamento objetivo que leva à ação deliberada. Com efeito, há dois estágios no "tornar-se consciente" de alguma coisa - primeiro a imagem, depois a idéia; primeiro olhamos o carvão incandescente, depois vemos a cor vermelha da brasa.

"As Origens da Forma na Arte" - Herbert Read, poeta e Crítico de Arte, inglês
(1893-1968)




Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim...e não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca!
- E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma !

"Eu" - Florbela D'Alma da Conceição Espanca, poeta portuguesa(1894-1930)

12/10/2008

Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Jorge Luís Borges (1899 - 1986)
E agora, o que vou fazer de todo esse tempo,
o que será de minha vida, de todas essas pessoas,
que me são indiferentes...?
Agora que te foste, todas estas noites...
Por quê... para quem?
E esta manhã que volta para nada?
Este coração que bate...bate tão forte...!
E agora, o que vou fazer com esse vazio que acompanhará minha vida?
Me deixaste o mundo inteiro,
mas o mundo sem ti é tão pequeno!
Vocês, meus amigos, sabem muito bem
que não se pode fazer nada...
Até Paris enche-se de tédio, todas essas ruas me aborrecem!
E agora, o que vou fazer?
Vou rir para não chorar...
Incendiarei todas as noites...
Pela manhã te odiarei!

"E Agora ?" - tradução livre de cirandeira

10/10/2008

Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim. Ah, meu amigo, a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou alguém de tudo faz frincha para rir-se da gente... E então?
Note que meus reparos limitam-se ao capítulo dos espelhos planos, de uso comum. E os demais - côncavos, convexos, parabólicos - além da possibilidade de outros, não descobertos, apenas, ainda?
[...........................] Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse... Sim, são para se ter medo, os espelhos.

"O Espelho" em Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa
Não sou ninguém! Quem é você?
Ninguém - também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!
Que triste - ser - Alguém!
Que pública - a Fama
Dizer seu nome - como a rã -
Para as palmas da lama!

Emily Dickinson - (1830-1886)
Tradução de Augusto de Campos

08/10/2008

"Tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com outros homens."

Manifesto do Partido Comunista - 1848
Karl Marx e Friedrich Engels

"Ao nascimento da mecanização e da indústria moderna [....] seguiu-se um violento abalo, como uma avalanche, em intensidade e extensão. Todos os limites da moral e da natureza, de idade e sexo, de dia e noite, foram rompidos. O capital celebrou suas orgias."

"O Capital, volume I - Karl Marx

[...] aquela aparente desordem que é, na verdade, o mais alto grau de ordem burguesa.

Fiodor Dostoievski - 1821-1881

07/10/2008

Oitavo mandamento, mentirás
Alí os peritos corrigem alguns errinhos. Entre outras coisas, ficamos a saber agora que os pobres mais pobres do mundo, os chamados "indigentes", somam 500 milhões a mais dos que apareciam nas estatísticas. Além disso, ficamos a saber que os países pobres são bastante mais pobres do que aquilo que diziam os numerozinhos e que a sua desgraça piorou enquanto o Banco Mundial lhes vendia a pílula da felicidade do mercado livre. E como se isso fosse pouco, verifica-se que a desigualdade universal entre os pobres e ricos havia sido mal medida e, à escala planetária o abismo é ainda mais fundo que o do Brasil.
Extraído da Coluna de Eduardo Galeano, escritor uruguaio

06/10/2008

...Então os transatlânticos trouxeram da Europa outras raças aventureiras. Entre elas uma alegre que pisou na terra paulista cantando e na terra brotou e se alastrou como aquela planta também imigrante que há duzentos anos veio fundar a riqueza brasileira.
Brás, Bixiga e Barra Funda, como membro da livre imprensa que é, tenta fixar tão somente alguns aspectos da vida trabalhadeira, íntima e cotidiana desses novos mestiços nacionais e nacionalistas. É um jornal. Mais nada. Notícia. Só. Não tem partido nem ideal. Não comenta. Não discute. Não aprofunda.
Principalmente não aprofunda. Em suas colunas não se encontra uma única linha de doutrina. Tudo são fatos diversos. Acontecimentos de crônica urbana. Episódios de rua. O aspecto étnico-social dessa novíssima raça de gigantes encontrará amanhã o seu historiador. E será então analisado e pesado num livro.

Trecho de Brás, Bixiga e Barra Funda - Antonio de Alcântara Machado


E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora?
Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta;quer morrer no mar, mas o mar secou;quer ir para Minas, Minas não há mais, José, e agora? Se você gritasse,se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse mas você não morre, você é duro, José!
Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José!
José, para onde?

"José" - de Carlos Drummond de Andrade

05/10/2008

Um senso de realidade é uma conquista, um avanço partido do caos e confusão de um mundo ininteligível, uma construção. A primeira ordem introduzida no conceito que o homem tem do mundo foi uma ordem estética - a ordem do ritual e do mito. Mais tarde o intelecto fez gradualmente uma seleção da totalidade - a parte que pode descrever e medir - e deu-lhe uma unidade mais coerente, chamando-a de ciência. O mapa é constantemente ampliado; novos detalhes são acrescentados; mas amplos territórios de espaço e tempo ainda devem ser classificados como "terra incógnita". A sensibilidade opera como um relâmpago nesses abismos sombrios e o clarão permite uma visão rápida dos lineamentos desse desconhecido: a rápida percepção que é a intuição do artista e que ele luta, então, para nos comunicar pelos símbolos que inventa. É esse o momento de originalidade - o momento no qual compreendemos a brilhante e etérea tessitura da música, "as formas que perseguem os descampados do pensamento" na poesia, " a beleza elaborada de dentro sobre a carne" de uma pintura. Poesia, música, pintura - são todas artes ou habilidades para elevar os sentidos à condição de percepção, na qual o mundo não é transfigurado, mas na qual, pela primeira vez, um de seus aspectos é revelado, recebe uma forma e, com isso, é, para os olhos humanos, recém-criado, recém-comunicado.
As Origens da forma na Arte, de Herbert Read, poeta e crítico de arte inglês(1893-1968)
Povo da minha terra!

Emboramente eu não tenha vindo aqui prá isso,
Não posso deixar de lembrar, que hoje é dia de eleições!
Votem, votem, votem!!
( Odorico Paraguaçu, personagem de O Bem Amado,
de Dias Gomes)

OBS: Hoje teremos 15.500 candidatos distribuídos entre os 5.564 municípios do país, disputando uma vaga para o cargo de prefeito.
"Alea jacta est!", frase em latim, que traduzindo significa, os dados estão lançados, supostamente proferida por Júlio César, imperador romano ao decidir atravessar o rio Rubicão, divisa entre a Gália Cisalpina (sul dos Alpes, hoje Penísula Itálica) e o território da Itália.

04/10/2008

Durante muito tempo a nacionalidade viveu da mescla de três raças que os poetas xingaram de tristes: as três raças tristes.
A primeira, as caravelas descobridoras encontraram aqui comendo gente e desdenhosa de "mostrar suas vergonhas". A segunda veio nas caravelas. Logo os machos sacudidos desta se enamoraram das moças "bem gentis" daquela, que tinham cabelos "mui pretos, compridos pelas espáduas".
E nasceram os primeiros mamalucos.
A terceira veio nos porões dos navios negreiros trabalhar o solo e servir a gente.Trazendo outras moças gentis, mucamas, mucambas, munibandas, macumas.
E nasceram os segundos mamalucos.
E os mamalucos das duas fornadas deram o empurrão inicial no Brasil.O colosso começou a rolar.
Trecho de Brás, Bixiga e Barra Funda, de Antonio de Alcântara Machado (1901-1935)
2 de abril

A vida precisa ser paixão para ser vida, calada ou faladora, taciturna ou desvairada, mas paixão. O meio-termo cabe às almas medíocres, prudentes, formalistas. (.....)
Não é fácil arrancar espinhos. Às vezes nos é mesmo custoso amputar o membro todo, mesmo correndo o perigo das hemorragias. E fica-se à espera da coragem.

4 de abril

"A Polícia deteve, hoje, às 20:30horas, o prefeito do Distrito Federal, doutor Pedro Ernesto Batista. Esta providência foi tomada após acuradas diligências, em virtude das quais resultaram indícios veementes da culpabilidade do doutor Pedro Ernesto na preparação dos movimentos subversivos que abalaram o país ultimamente.
A Polícia, com serenidade e energia, prossegue no cumprimento de sua missão".
O Trapicheiro, 1936 - Marques Rebelo

02/10/2008

Ai, penicilina cura até defunto
Ai, petróleo bruto faz nascer cabelo
Mas, ainda está prá nascer um doutor
Que cura dor de cotovelo, ai, ai, ai
Desde os tempos de Adão,
Essa dorzinha infernal...
Foi comer maçã,
Logo que comeu,
O cotovelo doeu!
Marchinha de carnaval (de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti)