30/11/2008

Gravura de 1865, baseado no quadro de Auguste Toulmouche

27/11/2008

Ó África Pátria do Mundo
Enquanto te espreguiças numa letargia sem fim
O mundo lá fora implacável
Prossegue
Na senda auto-destrutiva do Planeta e de Ti
Ó África Pátria do Mundo
Teus filhos no poder, o que fazem então?
Aconchegados nos sofás dos Mercedes
Com wisky e televisão!?
Importados, longe do sertão(made in Germany, UK e Japão)
Enquanto seus sútidos minguam sem um tostão
Nas sobras dos donativos fora de prazo
Sobrevivem nas lixeiras do egoísmo
Sem chegarem a viver um dia sequer
Circulando como zombies no supérfluo do luxo
no entulho
Ó África Pátria do Mundo
Combatentes da outra Liberdade esquecida democraticamente
Em nome da modernidade globalizada nas contas bancárias
E nas propinas recebidas a troco da penhora do País
Ó África Pátria do Mundo
Reage
E diz-me que é só um pesadelo
Que amanhã é outro dia
E tu renovada surgirás enfeitando tuas crianças
De flores, pão e amor, livros e solidariedade
"Na mesa da fraternidade"
Como um teu descendente na América disse,
Também um dia que tinha um sonho!
Ó África Pátria do Mundo...

Ó África Pátria do Mundo - João Craveirinha, escritor e pintor moçambicano

26/11/2008

No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros.Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos.Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio.Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito.

Trecho de uma carta que Kafka escreveu ao amigo Oskar Pollak em 1904
Tudo que as alegorias pretendem dizer é somente que o incompreensível é incompreensível, e isso já sabemos. Mas os problemas com que lutamos diariamente são uma coisa diferente. Sobre esse assunto, um homem perguntou
certa vez:"Por que tanta teimosia? Se apenas seguissem as alegorias, vocês também se tornariam alegorias e dessa forma resolveriam todos os seus problemas cotidianos".
Outro disse: "Aposto que isso também é uma alegoria".
O primeiro disse: "Você ganhou".
O segundo disse: "Mas ai de mim, só alegoricamente!".
O primeiro disse: "Não, na vida real. Alegoricamente, você perdeu".

Frans Kafka - 1883-1924

25/11/2008

He vuelto a recoger las flores secas
la piel negra de olvido de una fruta
que después de lamer timidamente,
el verano prefirió, asi como la vida
deja atrás un infinito rastro
de estaciones perseguidas por sus dias,
como la estela de cuerpos insepultos
que sigue a un general en retirada
hasta sus sueños,yo abandoné
estos pastos crecidos a mi sombra
aqui y allá, como hongos en la pagina
que el tiempo a puesto amarillento
cansado de estar bajo la lluvia
y el musgo que desplaza sus ejércitos
de siglos, sentado como un ídolo
que fue primero un hombre
viendo cómo se abrian paso
las grietas en el techo y en los rostros,
y que de tanto mirar hacia el pasado
un dia despertó sal, austera piedra
los ojos huérfanos en la frete desnuda
como los clavos donde colgó algun retrato
y esa mirada atrapada por el mármol
en un momento de prostración ante la sangre
que tienen algunas esculturas.
Pero volvi, porque era necesario escribir estos poemas,
porque nunca escuché a nadie hablar de tu cabello
que se ondula como el trigo castigado,
porque he visto con que sabiduria tus muslos
y tus pechos tomam forma en los hornos cálidos
del tiempo.
Y porque en tus ojos, mui temprano el sol
regresa intacto de la muerte

Francisco Alcaraz (1979 - )poeta mexicano de Culiacan.

23/11/2008

Santo Amaro, interior do Estado do Maranhão

Da mandioca quero a massa e o beijú,
do mundéu quero a paca e o tatú;
da mulher, quero o sapato, quero o pé!
- quero a paca, quero o tatu, quero o mundéu...
Eu, do pai, quero a mãe, quero a filha:
também quero casar na família.
Quero o galo, quero a galinha do terreiro,
quero o menino da capanga do dinheiro.
Quero o boi, quero o chifre,
quero o guampo do cumbuco, do balaio, quero o tampo.
Quero a pimenta, quero o caldo, quero o molho
- eu, do guampo quero o chifre, quero o boi.
Qu'é dele, o doido,qu'é dele, o maluco?
Eu quero o tampo do balaio, do cumbuco...

Coco de festa, do Chico barbós, dito Chico Rabeca,dito Chico Precata,Chico do Norte,Chico Moura,Chico Rita - na Sirga,Rancharia da Sirga,Vereda da Sirga
Baixio da Sirga, sertão da Sirga. Retirado de "Dão-Dalalão" em Noites do Sertão, de João Guimarães Rosa
Xixiu mal olhou para fora, ficou alucinado com a paisagem. Parecia um monstro. Da janela mesmo gritou para o universo, que se compunha de quatro
pessoas, além dele e de minha irmã Belsie:
- Nanico, sujeito safado! Tá namorando, não é, seu animal de rabo?!
Nanico tirou rapidamente a mão dos seios de Belinha e respondeu desajeitado:
- Tou.
Apenas belinha, que estava gostando do jardim e das mãos do companheiro,não
se conformou com a intervenção de Xixiu, irmão dela. No entanto, disfarçou a
irritação.Ninguém se irritava naquele dia.Com naturalidade, virou-se para mim, que beijava a um canto a suave Marialice e propôs:
Vamos trocar Surubi, você fica comigo e o besta do meu irmão se ajunta com
a hipócrita da minha irmã.


A Casa do girassol vermelho, do livro de contos O ex-mágico (1947) de
Murilo Rubião, escritor mineiro nascido em Carmo de Minas-MG. É considerado um dos precursores do realismo fantástico brasileiro. Escreveu também A estrela vermelha(1953), Os dragões e outros contos
(1965), O pirotécnico Zacarias(1974), O homem do boné cinzento e outros contos e O convidado, que demorou vinte e seis anos para concluí-lo. Nasceu em 1916 e faleceu em 1991.

21/11/2008

Meu coração é como o frio espectro de Is, a submersa:
cobrem-no turvas águas silenciosas e a fluida fauna dos
pecados e das penas que eu vivi outrora, quando vivo.
Tudo é profundo, inerte, escuro, neste meu grande mundo
extinto e é vão que ainda perpassam sobre os seus escombros,
sobras de sonhos, lívidas, incertas, como peixes sonâmbulos.
De quando em vez, porém, sinto nascer de mim, como de um
estranho abismo, cantos plangentes, mil vozes em coro, que
me surpreendem e animam como deuses ou me apavoram.
Não sei como explicar - ninguém o sabe - esses cantos funéreos
ou divinos que assim despertam e vibram no meu peito, em meio
à grande deusa noite de minha alma, como sinos submersos.

"Os Sinos de Is" - Campos de Carvalho - 1916-1998

20/11/2008

Hoje é o Dia Nacional da Consciência Negra. Em trezentos municípios brasileiros é feriado nacional, inclusive no Rio de Janeiro e em São Paulo. Esse dia foi escolhido em homenagem a um dos líderes negros mais importantes na luta contra a escravidão: Zumbi. Era sobrinho de Ganga Zumba, que veio de Angola como escravo, no século XVI juntamente com outros milhares de negros
para trabalhar nos engenhos de cana de açúcar, na Capitania de Pernambuco.
Após uma sangrenta rebelião liderada por ele, refugiam-se na Serra da Barriga,
conhecida como Palmares(atualmente pertence ao estado de Alagoas),entre o Cabo Sto.Agostinho e o rio São Francisco, criando um quilombo para defender-se dos portugueses. A mãe de Zumbi era irmã de Ganga Zumba, assassinada
quando ele tinha mais ou menos sete anos de idade. Ele foi entregue a um padre
que ensinou-lhe Latim, além de ler e escrever;aos quinze anos consegue fugir para o quilombo de Palmares destacando-se também como líder. Posteriormen-
te terá divergências com seu tio quanto a acordos de paz com os brancos. Em
1678 Ganga Zumba é envenenado supostamente por um dos partidários de Zumbi, que passa então a comandar o quilombo. Após muitas batalhas com muitas mortes, é morto e esquartejado tendo tido sua cabeça exposta em praça pública em 1695.

19/11/2008

Hino à Bandeira do Brasil
Letra: Olavo Bilac - Música: Francisco Braga

Salve lindo pendão da esperança!
Salve símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
a grandeza da Pátria nos traz

Recebe o afeto que se encerra
em nosso peito juvenil,
querido símbolo da terra,
da amada terra do Brasil

Em teu seio formoso retratas
este céu de puríssimo azul,
a verdura sem par destas matas
e o esplendor do Cruzeiro do Sul

Contemplando o teu vulto sagrado,
compreendemos o nosso dever
e o Brasil por seus filhos amado,
poderoso e feliz há de ser

Sobre a imensa Nação Brasileira,
nos momentos de festa ou de dor
paira sempre sagrada bandeira
pavilhão da justiça e do amor.
"Porque em todas as circunstâncias da vida real,
não é a alma dentro de nós, mas sua sombra, o
homem exterior, que geme, se lamenta e desempenha
todos os papéis neste teatro palcos múltiplos,
que é a terra inteira".
Plotino, filósofo neoplatônico, nasceu na cidade egípcia de Licópolis em 205 e faleceu em 270 d.C. vítima de lepra. É autor de "As Enéadas".

18/11/2008


" O nosso amor é uma esquina num deserto de poeira;
nossa paixão é purpurina na manhã de quarta-feira,
a chama de uma lamparina à luz do luar..."

"Ele não sabe o que é o amor
e eu não posso viver sem ele.
Tava dormindo, acordei sonhando
puxando o fio dos cabelos dele.
Eu tenho uma paixão doendo no coração
que não tem jeito a dar...
A medicina não formou doutor
pra curar mal de amor,
olha, o remédio é chorar" .
Cantigas de ciranda

16/11/2008

Verde que te quiero verde. Verdes ramas.El barco



sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.
Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha
vienen con el pez de sombra
que abre camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas
y el monte, gato garduno
eriza sus pitas aguas.
Pero quién vendra? y por donde?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando la mar amarga.
Trechos de "Romance Sonâmbulo" de Federico Garcia Lorca, poeta e dramaturgo espanhol que nasceu na cidade de Granada, em 1898 e foi assasinado em 1936, no início da guerra civil espanhola, quando então comandava o país o general Francisco Franco.

10/11/2008

Ótimo é aquele que por si tudo entenda;
sábio é também aquele que obdiente oiça
quem bem fala; mas, quem por si não pense
nem ouvindo a outrem sinta o coração desperto
esse é, em verdade, um homem inútil.
Hesíodo - cerca de 700 a.C.
Não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, em que um diz as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere-se aquela principalmente o universal, e esta, o particular.
" A Arte Poética" - Aristóteles (382 a.C. - 322 a.C.)

08/11/2008

Minha tribo é composta pelos meus fantasmas - muitos dos quais nem conheço ainda.
Sou muito mais nobre do que o rei da Inglaterra ou do que o xá da Pérsia. A nobreza deles é tão ridícula quanto a divindade do imperador do Japão, filho do Sol e possivelmente pai da Lua. (...) A nobreza do sangue não existe, caso contrário, não existiria a sífilis e a sangria seria um crime de lesa-majestade.
Walter Campos de Carvalho, nasceu em Uberaba-MG, em 1916 e faleceu em 1998, em São Paulo. É autor de O Púcaro Búlgaro, A Lua vem da Ásia, Vaca de nariz sutil, A Chuva imóvel.
Palmira, cidade da Síria

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.
Graciliano Ramos - 1892-1953

06/11/2008

"Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras:
liberdade caça jeito"
Manoel de Barros, poeta nascido em Cuiabá (1916- )




A cibernética trouxe a possibilidade de as máquinas darem respostas teóricas a questões concernentes a áreas inexploradas da realidade e a possibilidade destas respostas estarem além do poder de compreensão do cérebro humano. A ciência não capitulou diante dessas possibilidades vertiginosas nem desprezou com desdém as soluções encontradas pelos computadores em decorrência do cérebro humano ainda não as poder decifrar . Ao contrário, os cientistas disseram somente que talvez fosse necessário construir "amplificadores cerebrais" cibernéticos afim de equipar o cérebro humano de meios indispensáveis à utilização eficaz dos novos conceitos. A ciência e a arte são duas formas muito diversas de dominação da realidade e qualquer comparação direta entre elas tende a acarretar equívocos. Contudo, é igualmente verdadeiro que a arte também descobre novas áreas de realidade, tornando visível e audível o que antes era invisível e inaudível. A compreensão artística, tal como a compreensão científica, não é uma constante: pode-se estender e precisar por meio de "amplificadores".
"A Necessidade da Arte" - Ernst Fischer

04/11/2008

Quando tu voas pra beijar as outras flores,
eu sito dores, um ciúme...
um calor que toma o peito, invade a alma!
Só meu beija-flor me acalma!
Sou rosa vermelha, ah! meu bem-querer...
Beija-flor, sou tua rosa:
Hei de amar-te até morrer!