31/12/2008

No breve número de doze meses
o ano passa e breve são os anos,
pouco a vida dura.
Que são doze ou sessenta na floresta
dos números e quanto pouco falta
para o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido, do curso
que me é imposto correr descendo, passo.
Apresso e breve acabo.

Poesia de Ricardo Reis - Fernando Pessoa

22/12/2008

Para um caderninho de Natal

Uma adolescente a quem desoriento em aulas de Português vem me pedir algumas palavras sobre o Natal.Diante de meu engasgo, ela me
diz que qualquer coisa serve, e sinto que ela pensa em acrescentar, "qualquer coisa, até mesmo o que o senhor me diga".E para não lhe
dizer que procure outra pessoa mais qualificada, começo:
"O Natal é uma festa comercial, minha filha.É a data magna da hipocrisia universal.Nesse dia as pessoas dizem se amar.No Natal, as
autoridades, os que têm boa vida divulgam e querem fazer crer que as
diferenças acabaram entre os homens.Os ricos de bens materiais ficam
subitamente espirituais e com o estômago repleto arrotam que a melhor salvação é a da alma.(E penso, enquanto lhe falo, na Pequena Vendedora
de Fósforos, de Andersen, mas minhas palavras não conseguem a força
dessa claridão)No entanto, você sabe, os ricos continuam humanos em
suas mansões e os pobres continuam porcos em seus casebres, no mesmo dia 25.No outro dia, você sabe...(E penso nos Estranhos Frutos, de Billie
Holiday, mas minhas palavras não se iluminam com essa luz de negros
enforcados em árvores, no sul do Estados Unidos) O Natal, minha filha..."
E paro. O seu rosto reflete o desagrado de minhas palavras.Quem ensina a adolescentes aprende a ler nos seus olhos,nas suas bocas, o agrado ou a decepção do que pensa ensinar.Agora enquanto escrevo,percebo que é uma vitória da sociedade de classes a crença em boas famílias, em belos pais,em generosos sentimentos,essa coisa resistente até mesmo em pessoas que só conheceram da vida a humilhação,a patada e os coices.
A jovem com quem falo é uma adolescente pobre, filha natural, com somente esse adjetivo óbvio da natureza, nada mais.Como um fruto da partenogênese.À primeira vista, ela possuiria todas as condições para
entender o que lhe digo.Mas o seu rosto me faz parar.Sinto o grande mal
que lhe causo em procurar ser verdadeiro numa data em que todos pedem e esperam e anseiam que sejamos todos absolutamente falsos.
Talvez,reconsidero agora ao escrever,o seu desagrado se dê porque sou
apenas convencional,comum, de um esquerdismo vulgar, quando queria
ser verdadeiro como o leite que chupei em minha própria mãe.E convencional por convencional, melhor seria que eu escrevesse no seu caderninho uma frase do gênero "sejamos durante todo o ano como neste
dezembro 25".
(...............................................................................................)
Eu também já acreditei em Natal, minha filha.Antes de saber que os homens se matam e se barbarizam e são feras todos os dias do ano.Antes,
bem antes de receber um pontapé nas costas, na bunda, de um marujo norte-americano. Sabe o que é chorar e descobrir sozinho, pela primeira vez, que Deus não existe, porque se ele existisse, não permitiria que jovens cheios de amor e sentimentos e poesia, fossem chutados por bons filhos da puta que nunca deixaram de ser?
Acredite,acreditei no Natal bem antes desses acontecimentos, quando eu
tinha a sua idade.
Antes disso, minha filha, o Natal para mim foi um par de sapatos belos,
novos e marrons, lindos e tão perfeitos e artísticos e caros como uma criança pode sonhar.A minha filha sabe o que é ter uns sapatos que vestem a gente até a alma?Pois eu os ganhei.Quase, melhor dizendo.Porque num dia 25, logo cedinho,eles estavam embaixo da minha cama.Não que não tivesse sapatos, sim, eu possuía uns muito
velhos, gastos, enrugados,quase sem sola, de cadarços desfiados.Pois eu
quase ganhei esses absolutamente novos.Ganhei-os digamos, até o
meio-dia dos meus 7 anos de idade.E para que todos também partilhassem da minha alegria, eu os exibí ao sol da minha janela,da
casinha onde eu morava.Eu pensava que a felicidade se compartilhava.Eu
pensava que a felicidade era um bem impossível de ser vivido por um menino só(E até hoje, às vezes, esse velho menino teima em pensar assim.Mas só às vezes)Pensava. Roubaram-me o par de sapatos, minha filha,num dia 25 de dezembro.E como o meu pai era um homem de lições
muito fortes e pedagógicas, deu-me uma surra pela infelicidade de não
ter o par de sapatos.Daí talvez me veio esse ar de homem que despreza
a felicidade.Esta é a razão, mocinha:ficou em mim a sensação de que
a felicidade é um bem que me vão roubar.Daí que dela desconfio,quando
dela não tomo segura distância.Não ter felicidade é uma forma de sofrer
somente um pouqunho.
A minha filha já vê que eu não lhe poderia dizer tais verdades para um
dia de tamanha fraternidade.Então, anote por favor no seu caderninho
essa meia-verdade.
O Natal é a esperança de que algum dia, em algum lugar, um menino vai
receber um par de sapatos marrons e vestí-los até a alma.Antes que alcance a sua idade, mocinha, antes que receba alguns sapatos pelas
costas.
Texto de Urariano Mota, jornalista e escritor.Autor de "Os Corações
futuristas";colaborador de sites na Espanha,Portugal e Rússia

21/12/2008

Condição de Liberdade


Aos que vão nascer

Realmente, eu vivo um tempo sombrio.
A inocente palavra é um despropósito.
Uma fronte sem rugas demonstra insensibilidade.Quem etá rindo
é porque não recebeu ainda a notícia terrível!
Que tempo é este, em que uma conversa sobre árvores
é quase uma falta, pois implica em silenciar tantos crimes?
Esse que vai cruzando a rua calmamente, então já não está
ao alcance dos amigos necessitdados?
............................................................................
Dizem-me: Vai comendo e bebendo! Alegra-te pelo que tens!
Mas como hei de comer e beber, se o que como é tirado
de quem tem fome e meu copo de água falta a quem tem sede?
No entanto eu como e bebo.
Eu bem que gostaria de ser um sábio.
Nos velhos livros está o que é sabedoria:
manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve
deixar correr sem medo.
Também saber passar sem violência, pagar o mal com o bem,
os próprios desejos não realizar e sim esquecer,
conta-se como sabedoria.Não posso nada disso:
Realmente, eu vivo num tempo sombrio!
Vós, que vireis na crista da maré em que nos afogamos, pensai,
quando falardes em nossas fraquezas, no tempo sombrio
do qual escapastes.
...................................................................................................
E entretanto sabíamos:
também o ódio à baixeza endurece as feições:
também a raiva contra a injustiça torna a voz mais rouca.
Ah, e nós que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmos pudemos ser.
Mas vós, quando chegar a ocasião de ser o homem um parceiro
para o homem, pensai em nós com simpatia.
Bertolt Brecht - 1898-1956
"O corpo de Abel encontrado por Adão e Eva", obra de William Blake (1757-1827 ), poeta, impressor e pintor inglês, exposta na Galeria Tate, em Londres, Inglaterra, que recriará a única exibição do artista, duzentos depois de sua primeira exibição.

20/12/2008

Ilha de Burano, a 7km de Veneza, na Itália. Conta-se que há muitos anos, os
pescadores desta ilha pintavam suas casas de diferentes cores para percebê-las
à distância, quando voltavam do mar. Essa tradição transformou-se em atração
turística pelo colorido de suas casas e pelos reflexos produzidos na água de seus
canais.

19/12/2008

Cabo de Santo Antonio - Rondônia
Acho tão natural que não se pense,
que me ponho a rir às vezes, sozinho,
não sei bem de quê, mas é de qualquer coisa
que tem que ver com haver gente que pensa
Que pensará o meu muro de minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
a perguntar-me coisas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
como se desse por mim com um pé dormente...
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras
e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas, deixaria de ver
as árvores e as plantas
e deixava de ver a Terra, para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar,tenho a Terra e o Céu.
O Guardador de rebanhos - Fernando Pessoa (1888-1935)

18/12/2008

Área turbulenta de formação de estrelas, vista pelo telescópio Spitzer (Nasa)
Astrônomos alemães confirmam que há um buraco negro gigantesco no centro
da Via Láctea. Sua massa é quatro milhões de vezes maior que a do Sol.

14/12/2008

Ativista da Anistia Internacional acende velas em frente ao portão de Brandenburger para marcar os sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em Berlim (Alemanha)em 10.12.2008

Manifestação dos índios da região da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em
frente ao Supremo Tribunal Federal(STF), em Brasília, pela demarcação da reserva em área contínua,no dia dos sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, 10-12-2008.



Belezas quase desconhecidas do Brasil II - Jalapão ( Tocantins, capital: Palmas)

11/12/2008

Primeiro levaram os negros,
mas não me importei com isso.
Eu não sou negro.
Em seguida, levaram alguns operários,
mas não me importei com isso.
Eu também não sou operário.
Depois prenderam os miseráveis,
mas não me importei com isso,
porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados,
mas como tenho meu emprego,
também não me importei.
Agora estão me levando,
mas já é tarde.
Como não me importei com ninguém,
ninguém se importa comigo
Bertold Brecht, dramaturgo alemão (1898-1956)

09/12/2008

NEM SEMPRE RESPONDO POR PAPÉIS VELHOS; mas aqui está um que parece autêntico;e, se não o é, vale pelo texto, que é substancial. É um pedaço
do evangelho do Diabo, justamente um sermão da montanha, à maneira de
S.Mateus. Não se apavorem as almas católicas.Já Santo Agostinho dizia que
"a igreja do Diabo imita a igreja de Deus". Daí a semelhança entre os dois
evangelhos. Lá vai o do Diabo:
1. E vendo o Diabo a grande multidão de povo, subiu a um monte, por nome
Corcovado, e, depois de se ter sentado, vieram a ele os seus discípulos.
2. E ele, abrindo a boca, ensinou dizendo as palavras sequintes.
3. Bem-aventurados aqueles que embaçam porque eles não serão embaçados.
4. Bem-aventurados os afoitos, porque eles possuirão a terra.
5. Bem-aventurados os limpos das algibeiras, porque eles andarão mais leves.
6. Bem-aventurados os que nascem finos, porque eles morrerão grossos.
7. Bem-aventurados sois,quando vos injuriarem e disserem todo o mal por meu
respeito.
8. Folgai e exultai, porque o vosso galardão é copioso na terra.
9. Vós sois o sal do money market.E se o sal perder a força, com que outra coisa
se há de salgar?
10. Vós sois a luz do mundo.Não se põe uma vela acesa debaixo de um chapéu,
pois assim se perdem o chapéu e a vela.
[.................]
14. Também foi dito aos homens:Não matareis a vosso irmão, nem a vosso inimigo, para que não sejais castigados.Eu digo-vos que não é preciso matar a vosso irmão para ganhardes o reino da terra;basta arrancar-lhe a última camisa.
[..........]
20. Não queirais guardar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e donde os ladrões os tiram e levam..
21. Mas remetei os vossos tesouros para algum banco de Londres, onde a ferrugem, nem a traça os consomem, nem os ladrões os roubam, e onde ireis
vê-los no dia do juízo.

"O Sermão do Diabo", conto de Joaquim Maria Machado de Assis,
publicado em Gazeta de Notícias (04.09.1892)

07/12/2008

Pai ietu uai mu Kalakala O nosso pai foi trabalhar
Ku dibia dia mundele na roça do branco
tunde ua Tundele boba, e desde que partiu
Kua monekele! não retornou à casa!
Eh! papa tuala ni ji-henda Eh! papai, temos saudade
Eh! papa tuala ni ji-henda Eh! papai, temos saudade
Si uala ni maka, Se tens problemas,
se ua jimbidila, se estás perdido,
tuando ku sota iremos procurar-te
se uafu tuando kudila se estás morto,
tuando binga bua Santana nós choraremos e também pediremos
a Santana para que te leve aos céus
Eh! papa tuala ni ji-henda Eh! papai, temos saudade

"Tuala ni ji-henda" (Papai, temos saudade) - extraído do disco Angola-Folclore e Canções Tradicionais, composição de Luís N'Gambi, angolano, que além de cantor é também violonista.

03/12/2008

"A mulher deve adorar o homem como a um deus. Toda manhã, por nove vezes
consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados, perguntar-lhe: Senhor, que desejais que eu faça?
Zaratustra, filósofo persa, século VII a.C.

"A Natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é,
portanto, um homem inferior".
Aristóteles, filósofo do século IV a.C., guia intelectual e conselheiro do
imperador Alexandre, o Grande.
No Japão do período Heian (794-1192), assim como na Grécia clássica, no islã,
na India pós-védica e em tantas outras sociedades, as mulheres estavam proibidas de ler o que se considerava literatura "séria": deviam confinar-se ao
reino da diversão banal e frívola, que os eruditos confucianos desprezavam, e havia uma distinção clara entre literatura e linguagem "masculina"(com temas heróicos e filosóficos e voz pública) e "feminina"(trivial, doméstica e íntima). Essa distinção foi levada para muitas áreas diferentes: Por exemplo, como os modos chineses continuavam a ser admirados, a pintura chinesa era chamada de "masculina", enquanto a pintura japonesa, muito leve, era "feminina".
Mesmo que todas as bibliotecas de literatura chinesa e japonesa estivessem abertas para elas, as mulheres do período Heian não encontrariam o som de suas vozes na maioria dos livros do período.Portanto, em parte para aumentar
seu estoque de material de leitura, em parte para obter acesso a material de leitura que respondesse às suas preocupações específicas, elas criaram uma literatura própria.Desenvolveram uma transcrição fonética da língua que tinham permissão para falar, o kanabungaka, um japonês expurgado de quase todas as construções com palavras chinesas. Essa língua escrita veio a ser conhecida como "escrita das mulheres" e, estando restrita à mão feminina, adquiriu, aos olhos dos homens que as dominavam, uma qualidade erótica. Para ser atraente, uma mulher precisava não apenas possuir encantos físicos, mas também escrever com caligrafia elegante, bem como ser versada em música e saber ler, interpretar e escrever poesia. Essas realizações no entanto, jamais eram equiparáveis às dos artistas e estudiosos masculinos.

"Uma História da Leitura" - Alberto Manguel