29/12/2009

Viagem


O beijo da quilha

na boca da água

me vai trocando entre céu e mar,

o azul de outro azul,

enquanto

na funda transparência

sinto a vertigem

da minha própria origem

e nem sequer sei

que olhos são os meus

e em que água

se naufraga a minha alma


Se chorasse agora,

o mar inteiro

me entraria pelos olhos



Mia Couto, escritor moçambicano

28/12/2009

Os Portões de Jano...


A comemoração do Ano Novo ocidental teve origem entre os romanos, que dedicavam esse dia a Jano, o deus dos portões, possuidor de duas faces - uma voltada para frente e outra voltada para trás, simbolizando as portas do ano que terminava e do outro que começava. Era portanto, a divindade que regia o começo e o final de todas as atividades humanas. Jano Patulcius ou "aquele que abre" e Jano Clusius, "aquele que encerra, assim os romanos o consideravam. O mês de janeiro é derivado do nome desse deus. Já maduro, aventurou-se pelo mar Tirreno até as terras da atual Itália, com um grande exército, fazendo várias conquistas, chegando a construir a sua cidade, à qual deu o nome de Janícula, na região do Lácio(Roma), onde surgiu o Latim. Quando Saturno foi expulso do Olimpo por Júpiter, procurou asilo no Lácio, sendo bem recebido por Jano. Quando partiu, abençoou seu anfitrião com o dom da prudência, dando-lhe o poder de ver o passado e o futuro ao mesmo tempo. Foi por esse motivo que os romanos cunharam a figura de Jano em sua moeda, o asse, representando-o ora jovem, ora idoso, com dois rostos numa mesma cabeça, voltada para direções opostas. Através de escavações arqueológicas foram encontradas moedas com Jano bifronte, tendo em seu reverso a proa de um barco, indicando o que os romanos lhe atribuíam: introdutor dos barcos e do comércio.
Em 46 a.C., o imperador romano Júlio César assinou um decreto determinando a passagem do dia 31 de dezembro para o dia 1 de janeiro, como data para a mudança de calendário. Contudo, a consolidação do Ano Novo, só ocorreu a partir do calendário gregoriano, em 1582, feita pelo papa Gregório XIII.
Os assírios, os persas e os fenícios comemoravam o Ano Novo no mês de setembro(dia 23) e os gregos entre os dias 21/22 do mês de dezembro. Já os chineses, celebram a chegada do ano a partir da chegada da primavera, de acordo com o calendário lunar(final de janeiro/início de fevereiro); no Japão é comemorado entre os dias 1 de janeiro e 3 de janeiro. Existem relatos afirmando que a primeira comemoração de Ano Novo ocorreu na Mesopotâmia, por volta de 2000 a.C., conhecida como "Festival de Ano Novo". Na Babilônia, a festa começava por ocasião do equinócio, quando o sol corta o equador de forma elíptica, tornando iguais a duração do dia e da noite. Todos os países que possuem calendários anuais celebram essa data, também chamada de "réveillon", derivada de "réveiller", ou "despertar".
Será que Jano ainda presidiria a festa de Ano Novo?
E se presidisse, o que estaria vislumbrando para todos nós?

Entre os inúmeros poemas que Drummond escreveu sobre o Ano Novo, encontrei esta preciosidade:


Procuro uma alegria

do final de ano

e eis que tenho na mão

- flor do cotidiano -

é voo de um pássaro

é uma canção.

23/12/2009

Natá...

Foto de Sebastião Salgado





Indé novembro,
e o estômbo
cheio de espaço e de ronco,
sente o xêro de dezembro...


Hum! Coisa mais boa!...
Pru mim e pru minia famía
Nosso Sinhô Jesus cristo
pudia nascê todo dia...


No Natá se come muntio,
todo mundo qué ajudá,
o pobrema é os ôtro dia...
É só no Natá que nóis pode
enchê muntio bem as pança.

Nos ôtro dia do ano
nóis cata resto de lixo,
nóis come terra, rebôco,
nóis põe carqué coisa na boca,
e mastiga o que num tem,
que graças a Nosso Sinhô,
imaginaçaum num farta
i inté faz muntio bem
pro má de comida parca.


No Natá se come muntio,
graças a vige Maria
e o anjo anunciadô, -
graças a nosso sinhô!

As pança é só verme filiz.


As criança fica doida
só de vê as comidadada,
inda ganhum brinquedo, -
livrim, boneca, bola...
é uma alegria danada!

O pobrema dos minino,
é qui eles num sabe brincá;
ganha os brinquedo em dezembro,
veve cum eles na boca,
e nem bem é fevereiro,
e já tudo comêrum.


O Natá é cumê bem
e rezá pra chegá vivo
no Natá do ano que vem...
Pru mim e pru mínia famía,
Nosso Sinhô Jesus Cristo
pudia nascê todo dia...
Extraído de http://jurigoni.blogspot.com gentilmente cedido pela autora e editora do blog, um espaço que vale a pena conhecer!

19/12/2009

Tempo....







Quem teve a ideia de cortar o

tempo em fatias,

a que se deu o nome de ano,

foi um indivíduo genial

Industrializou a esperança

fazendo-a funcionar no limite da exaustão


Doze meses dão para qualquer ser humano

se cansar e entregar os pontos


Aí entra o milagre da renovação e

tudo começa outra vez

com outro número e outra vontade

de acreditar

que daqui para adiante vai ser

diferente...


Para você,

desejo o sonho realizado,

o amor esperado,

a esperança renovada


Para você,

desejo todas as cores dessa vida,

todas as alegrias que puder sorrir,

todas as músicas que puder emocionar


Para você neste novo ano

desejo que os amigos sejam mais

cúmplices,

que sua família esteja mais reunida,

que sua vida seja mais bem

vivida


Gostaria de lhe desejar tantas

coisas

mas nada seria suficiente...


Carlos Drummond de Andrade



Que no próximo ano possamos colher o resultado do que semeamos neste ano que está terminando; que sejamos mais amorosos e que também saibamos demonstrá-lo. Agradeço a todos que de uma forma ou de outra me visitaram e estiveram presentes em minha vida em 2009.

16/12/2009

Ode ao Vinho

Vale do Maipo, Chile






















Vinho cor do dia
vinho cor da noite
vinho com pés púrpura
o sangue do topázio
vinho,
estrelado filho
da terra
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um desordenado veludo
vinho encaracolado
e suspenso
amoroso, marinho
nunca coubeste em um copo,
em um canto, em um homem,
coral, gregário és,
e quando menos mútuo.

O vinho
move a primavera
cresce como uma planta de alegria
caem muros,
se fecham os abismos,
nasce o canto.
Oh tu, jarra de vinho no deserto
com a saborosa que amo,
disse o velho poeta.
Que o cântaro
ao peso do amor some seu beijo.
Amo sobre uma mesa,
quando se fala
à luz de uma garrafa
de inteligente vinho.

Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou copo de topázio
ou colher de púrpura
que trabalhou no outono
até encher de vinho as vasilhas
e aprenda o homem obscuro,
no cerimonial de seu negócio,
a recordar a terra e seus deveres
a propagar o cântico do fruto.


Pablo Neruda

13/12/2009

Ode à cebola














Cebola
Luminosa redoma
pétala a pétala
cresceu a tua formosura
escamas de cristal te
acrescentaram
e no segredo da terra escura
se foi arredondando o teu ventre de orvalho.


Sob a terra
foi o milagre
e quando apareceu
o teu rude caule verde
e nasceram as tuas folhas como espadas
na horta,
a terra acumulou o seu poderio
mostrando a tua nua transparência
e como em Afrodite o mar remoto
duplicou a magnólia,
levantando os seus seios,
a terra
assim te fez
cebola
clara como um planeta
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água
sobre
a mesa das gentes pobres.
Generosa
desfazes o teu globo de frescura
na consumação fervente da frigideira
e os estilhaços de cristal
no calor inflamado do azeite
transformam-se em frisadas plumas de ouro
Também recordarei como fecunda
a tua influência, no amor, na salada
e parece que o céu contribui
dando-te fina forma de granizo
a celebrar tua claridade picada
sobre os hemisférios de um tomate,
mas ao alcance das mãos do povo
regada com azeite
polvilhada
com um pouco de sal
matas a fome
do jornaleiro no seu duro caminho,
estrada das palavras,
fada madrinha
envolvida em delicado
papel, sais do chão
eterna, intacta, pura
como semente de um astro
e ao cortar-te a faca na cozinha
sobe a única
lágrima sem penas.
Fizeste-nos chorar sem nos afligir.
Eu tudo o que existe celebrei, cebola
Mas para mim és mais formosa que uma ave
de penas radiosas,
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina,
baile imóvel
de nívea anêmona
e vive a fragrância da terra
na tua natureza cristalina.


Pablo Neruda (1904-1973)

11/12/2009

Quem Pode ser PALHAÇO!?

Palhaço Picolino


Eu quero explicar a vocês

O que é ser um Palhaço

O que é ser o que eu sou

E fazer isso que eu faço.

Ser Palhaço é saber distribuir

Alegria e bom humor

E com esforço contentar

O público espectador


Muita gente diz "Palhaço"

Quando quer xingar alguém

E esse nome pronunciam

Com escárnio e desdém

E ao ouvir esta palavra

Outros sentem até pavor

Como se Palhaço fosse

criatura inferior

Mas de uma coisa fiquem certos

Para ser um bom Palhaço

É preciso alma forte

E também nervos de aço

E além de tudo é preciso

Ter um grande coração

Pra sentir isso que eu sinto

Grande amor à profissão

O Palhaço também tem

Suas noites de vigília

Pois lá na sua barraca

Ele tem a sua família.

Palhaço, meus amigos,

Não é nenhum repelente

Palhaço não é bicho,

Palhaço também é gente

Falo isso em meu nome

E em nome de outros Palhaços

Que muitas vezes trabalham

Com a alma em pedaços.

Ser Palhaço é saber disfarçar

A própria dor

É saber sempre esconder

Que também é sofredor

Porque se o Palhaço está sofrendo

Ninguém deve perceber

Pois o Palhaço nem tem

O direito de sofrer...



Palhaço Picolino ( Roger Avanzi, São Paulo - 1922)

08/12/2009

BOLÍVIA, EL CONDOR CONTINUA !

El Condor, pássaro-símbolo dos Andes, representa a liberdade
Juan Evo Morales Ayma, nasceu num pequeno povoado boliviano(Oruro)em 1959. Filho de índios aymara, vendedor de frutas e verduras no mercado, estudou até o segundo grau. Líder de uma federação de agricultores plantadores de coca, sempre defendeu o direito a uma tradição milenar dos plantadores, de cultivar e mascar a folha da coca. Em 2005 foi eleito pela primeira vez presidente da república e recentemente, no dia 06 de dezembro p.p., foi reeleito para exercer mais um mandato de quatro anos. Obteve uma vitória esmagadora: 63% de votos dos bolivianos. Pela primeira vez na história da Bolívia é eleito um presidente de etnia indígena, num país onde a maioria da população é indígena!



Evo Morales - eleições 06 de dezembro de 2009



Mercado em La Paz

Salar de Uyuni, maior deserto de sal do mundo...





Fundada sob o nome de "República Bolívar" em homenagem a Simon Bolívar, seu libertador, adotou oficialmente o nome de Bolívia em 03 de outubro de 1825. Seu território foi formado a partir da ocupação de povos de diversas culturas, há mais de doze mil anos, destacando-se os tiwanaku e os aymara, que posteriormente foram anexados ao Império Inca no século XIII.


Rio Guaporé, divisa entre Brasil e Bolívia

Palácio do Congresso, em La Paz

A Bolívia é um país situado no centro-oeste da América do Sul, que faz fronteiras com o Brasil, com o Paraguai, com a Argentina e com o Peru. A capital oficial e sede do Poder Judiciário é Sucre e a sede do Poder Executivo e Legislativo é La Paz.

06/12/2009

O Perfume da Ternura

Cachoeira Ximenes, União dos Palmares(AL)
Ventos perfumados com

Ternuras vestidas de

Leitos de sedento som.
Amores amargos a me

Dar sombra; passava por

Seios e sonhos, entre

Vargens de velada cor,

Vozes de vinhoso ventre.

Amores voavam, pois

Nos desejos ocos, em

Volta do sonho depois

Do que nada nunca vem.


Moldura


Desce rumo à infância

A morte despertada.

Pó e pesadelo

Nunca envelhecem.


União dos Palmares, a 100km de Maceió(AL), terra de Zumbi dos Palmares, e onde nasceu o poeta Cícero Melo, autor dos poemas acima. Atualmente reside em Recife(PE).

02/12/2009

As Primeiras Fotos em Cores...

O que é um poema
se não um pedaço
de sonho incrustado
entre palavras?
Nel Meirelles, poeta pernambucano

...E pensar que ainda estávamos no início do século XX !






Algumas destas fotos nos fazem lembrar as pinturas dos grandes mestres do impressionismo, como Claude Monet e Auguste Renoir...



Os irmãos Auguste e Louis Lumière foram os inventores do cinematógrafo, em 1895 e em 1904 criaram a placa de vidro autochrome, na qual eram depositados grãos de fécula de batata, cada uma delas pintada com as cores: vermelha, verde e azul, associadas a uma superfície sensível. A partir daí obtiveram clichês positivos transparentes, tendo como resultado uma imagem mais luminosa e natural do que numa base de papel opaco. Surgia assim a fotografia em cores! A partir de 1907 a fotografia passou a ser comercializada em cores, ao alcance de todos os fotógrafos, multiplicando-se então em 1910. Durante trinta anos, o autochrome não teve concorrentes, até que as primeiras películas em cores passaram a substituir o dispositivo em vidro.

29/11/2009

"FLOR NACIONAL"


Toda a gente diante da vitória-régia fica atraído, como Saint-Hilaire ou Martius,
ante o Brasil. Mas vão pegar a flor pra ver o que sucede! O caule e as sépalas, escondidos na água, espinham dolorosamente. A mão da gente se fere e escorre sangue. O perfume suavíssimo que encantava de longe, de perto dá náusea, é enjoativo como o que. E a flor, envelhecendo depressa, na tarde abre as pétalas centrais e deixa ver no fundo um bandinho nojento de besouros, cor de rio do Brasil, pardavascos, besuntados de pólen. Mistura de mistérios, dualidade interrogativa de coisas sublimes e coisas medonhas, grandeza aparente, dificuldade enorme, o melhor e o pior ao mesmo tempo, calma tristonha, ofensiva, é impossível a gente ignorar que a nação representa essa flor...


Mário de Andrade (1893-1945) - Crônica publicada no "Diário Nacional", de 07/01/1930- São Paulo, Duas Cidades - 1976

20/11/2009

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA !




Neste dia em que relembramos o dia do assassinato do líder negro ZUMBI DOS PALMARES, ocorrido em 1695, quero deixar registrado o meu abraço fraterno e solidário a todos os negros do Brasil e do continente africano, que ainda hoje são vítimas do preconceito de cor e da discriminação social e econômica. Embora tenha havido avanços no sentido de acabar com tudo isso, ainda temos muito a caminhar...!

18/11/2009

Arte Afro-Brasileira II - um pintor e um poeta

"Retrato de Mulher", de Benedito José Tobias( 1894-1963)
Solano Trindade(ao centro), em Embu(SP) - 1969

Eita negro!

Quem foi que disse que a gente

não é gente?

Quem foi esse demente,

se tem olhos não vê...

Que foi que fizeste mano,

pra tanto falar assim?

- Plantei nos canaviais do nordeste

- E tu mano, o que fizeste?

- Eu pantei algodão nos campos do sul

pros homens de sangue azul,

que pagavam o meu trabalho

com surra de cipó-pau

- Basta mano, pra eu não chorar

- E tu Ana, conta-me tua vida

na senzala, no terreiro

- Eu...

cantei embolada pra sinhá dormir,

fiz tranças nela, pra sinhá sair...


Francisco Solano Trindade, nasceu em Recife(PE), em 1908. Poeta, folclorista, teatrólogo e pintor. Faleceu no Rio de Janeiro em 1974

17/11/2009

Arte Afro-brasileira - um pintor e um poeta

"Cena de candomblé", de Wilson Tibério(1923-2005)



TREZE

Cansado de ser servido em prantos

regados de cor e som

para comensais risonhos,

que dilaceram nossos valores

com os dentes afiados,

quero agora no momento lúcido,

gritar o necessário fato,

de que os treze ou treze

não nos diz nada além

do que vocês, caros convivas,

querem mostrar, encobrir, ostentar.

Criaram fotos coloridas, comemorações festivas,

toques de tambores e atabaques,

para mostrar que somos livres,

felizes, e aceitos.

Tolas mentiras!

Somos sim,

lascas de suor,

cortes de chicotes,

cheiros de fogão

entradas de serviço.

Precisamos fazer algo sim

para que ao invés

do paternalismo brutal

da gentil princesinha

haja a liberdade

de podermos realmente

abrir a porta desta senzala

para fazer a festa da cor real

do som dos atabaques

de danças e corpos

que rasgarão a noite,

os tempos,

no verdadeiro canto

da ABOLIÇÃO que ainda não houve.


De "O Arco-Íris Negro", de José Carlos LIMEIRA Marinho Santos, poeta baiano de Salvador(BA)

14/11/2009

AS PALAVRAS...



São como um cristal, as palavras.

Algumas um punhal, um incêndio.

Outras, orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.

inseguras, navegam;

barcos ou beijos, as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes, leves

Tecidas são de luz

e são a noite

E mesmo pálidas, verdes paraísos

lembram ainda

Quem as escuta?

Quem as recolhe assim,

nas suas conchas puras?


Eugênio de Andrade (1923-2005)

O QUE VOU DIZER DA POESIA?



Mas o que vou dizer da poesia?


O que vou dizer destas nuvens,


deste céu?


Olhar, olhar, olhá-las


olhá-lo e nada mais.


Compreenderás que um poeta

Itálico
não pode dizer nada da poesia.


Isso fica para os críticos e professores.


Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum


sabemos o que é a poesia...



Federico Garcia Lorca (1898-1936), poeta e dramaturgo espanhol assassinado durante a guerra civil espanhola.

10/11/2009

O Amazonas e as Icamiabas...

a fruta do guaraná




O Homem e a terra


A terra cansando
dos anos compridos
de extrativismo
na selva
no rio
na rua
na mente

O homem cansado
de andar pelo tempo
sozinho sozinho
no meio da mata
na beira do rio
à margem da vida

Velhas estórias
de água e florestas

O homem e a terra
Eu canto para o homem


Alcides Werk (Gomes de Matos) Aquidauana(MT) - 1934-2003
vitória-régia
A história da região amazônica, segundo os pesquisadores, teve início bem antes do "descobrimento" do Brasil, quando o atual território era povoado por índios das nações Gê, Aruaque e muitas outras. O conhecido rio Amazonas era chamado de rio das Icamiabas, palavra tupi, que significa "mulheres sem homens" ou ainda, "mulheres que ignoram a lei". Eram as índias que dominavam aquela região, rica em ouro. Na época que o conquistador espanhol Francisco Orellana desceu o rio em busca de ouro(1541), o rio era chamado de rio Grande ou rio da Canela, por existir grande quantidade dessas árvores em seu entorno. As Icamiabas, mulheres guerreiras por excelência, lutaram fortemente contra os invasores espanhóis. Ama,
a raiz da palavra, significa mãe no dialeto africano dos mosos, povoado de Moso, onde o matriarcado existiu e seu povo se autodenominava amaziyh. Em seu sentido estrito a palavra Amazonas significa "mãe" e em sentido figurado, cultura matriarcal.
Os primeiros povos a explorar a região foram os ingleses e os holandeses, instalando benfeitorias às margens da foz do rio(atuais Estados do Amapá e do Pará) para extrair madeira e especiarias, como o cravo, o urucum e o guaraná, desde 1596. Como podemos ver, a estória da devastação é antiga...!




08/11/2009

"O Medo Encarcerado"... !

Geisy Arruda, aluna do curso de Turismo da Universidade Bandeirante(Uniban), em São Bernardo do Campo(SP), hostilizada por seus colegas a ponto de precisar de cobertura policial para não ser linchada, simplesmente porque estava usando uma minissaia. O reitor da universidade, em nome "da moral e dos bons costumes" resolveu expulsá-la do quadro de alunos da faculdade, e aplicar uma suspensão para os alunos agressores! Inversão de papéis? A vítima agora é o carrasco? Usar minissaia, após 41 anos de uso, é crime? Abaixo a hipocrisia!








Trancas


Pela porta

das injustiças

entram as dores

Por esta mesma porta

entra a fome, a raiva,

a violência, o vício


Junto com eles

a morte

Inútil trancá-la


Invasiva

ela atravessa frestas

se espalha e se aloja

do lado de dentro

e do lado de fora


Já não há trancas

que possam contê-la

Ainda assim

portas trancadas

O medo encarcerado *

Nydia Bonetti
* Cometí um lapso e modifiquei a palavra, que no original é escancarado. Como a autora me deu permissão para escolher, preferí deixar como está por entender que se adequa melhor como expressão, neste caso.

01/11/2009

Luís de Góngora - Córdova, 1561-1627

Garden of words III, de Willem Boshoff, sul-africano


A una rosa

Ayer naciste, y morirás mañana.

Para tan breve ser, quien te dio vida?

Para vivir tan poco estás lucida?

Y, para no ser nada estás lozana?

Si te engañó tu hermosura vana,

bien presto la verás desvanecida,

porque en tu hermosura está escondida

la ocasión de morir muerte temprana.

Cuando te corte la robusta mano,

ley de la agricultura permitida,

grosero aliento acabará tu suerte.

No salgas, que te aguarda algún tirano:

dilata tu nacer para la vida,

que antecipas tu ser para tu muerte.

Nasceste ontem, e morrer vais amanhã.
Para tão breve ser, quem te deu vida?
Para viver tão pouco estás luzida,
e para não ser nada estás louçã?
Se te iludiu uma beleza vã,
muito em breve a verás desvanecida,
porque em tua beleza está escondida
a vez de morrer morte temporã.
Quando te cortar uma robusta mão,
norma da agricultura permitida,
grosseiro alento acabará tua sorte
Não saias, que te aguarda algum vilão;
dilata teu nascer para esta vida,
que antecipas teu ser à própria morte.

28/10/2009

CONSTELAÇÕES...

"Dress with flowers" - Ai Weiwei


Usamos todos a ilusão

de fabricar a vida:

histórias, constelações

de sons e gestos

Usamos todos a suprema glória

do amor: por generosidade

ou fantasia, ou nada,

que de nada se fazem universos

Usamos todos mil chapéus de bicos


mal recortados e de encontro ao sol

o nosso mais perfeito em franja e bico

e um arremedo tal e seicentista

que ofuscando-se: o sol

Usamos todos esta condição

de pó de vento, ou de rio sem pé:

único dom de fabricar o tempo

em raiz de palmeira

ou de cipreste




Ana Luísa Amaral, Lisboa - 1956

26/10/2009

Triste fim de "Policarpo"(s) !

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Agreste pernambucanoFoto: Pedro Moreira

O grande incoveniente da vida real e que a torna

insuportável para o homem superior é que,

se para ela são transportados os princípios do

ideal, as qualidades se tornam defeitos,

tanto que muito frequentemente aquele

homem superior realiza e consegue

bem menos do que aqueles movidos

pelo egoísmo e pela rotina vulgar.


"Triste fim de Policarpo Quaresma", de Afonso Henriques de Lima Barreto, escritor
nascido no Rio de Janeiro (1881-1922). De pena afiadíssima, criticava de forma clara e contundente a sociedade de seu tempo, não poupando políticos, famílias poderosas
e militares. Sua obra caracteriza-se pela temática social, com destaque para as camadas mais pobres, os boêmios e marginalizados. Desejava que sua literatura provocasse uma mudança nos costumes da sociedade, no sentido de acabar com os privilégios existentes apenas para alguns. Segundo ele, o escritor tinha uma função social a desempenhar. Entre suas obras podemos destacar:

Recordações do escrivão Isaías Caminha

O homem que sabia javanês e outros contos

Triste fim de Policarpo Quaresma

Os Bruzundangas

Outras histórias e contos argelinos