31/05/2009

Luís Vaz de Camões - c. 1524 - 1580

"Ariadne e Baco" - Tiziano (1490-1576)
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

muda-se o ser, muda-se a confiança

tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

diferentes em tudo da esperança.

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

e do bem, se algum houve, saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,

que já coberto foi de neve fria,

e em mim converte em choro

o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,

outra mudança faz de mor espanto,

que não se muda já como soía.

29/05/2009

Aleijadinho (Antonio Francisco da Costa Lisboa - Vila Rica, atual Ouro Preto-MG) - 1730-1814


















A família do burrinho

Presépio de Fernando Canha
- Vamos Joseph fugir
- Para onde Maria ir
Joseph (jocoso) - Shall go to Jundi-aí ai !
- Depressa ! Sela o Mangarito, vamos com o vento Sul
Onde serei cesariada?
- No presepe
- Tenho medo da vaca
- Não chores darling ! (terno) Sweepstake de Deus !
Maria - Caí na ilegalidade porque modéstia à parte
trago uma trindade no ventre
Neste tempo não havia ainda as irmãs Dione


Algumas palavras de inglês conhecendo
a família sagrada partiu sem saudades levar
para as bandas do Mar Vermelho
na poeira da madrugada cruzou um olival escaravelho
- Quantas dracmas serão precisas?
Exclamou o castiço esposo
para esta viagem em torno da lei do mundo
Estamos no século III ou IV da fundação de Roma
e só tenho "argent de poche"
- Não vá faltar Joseph
- Na verdade Deus ajuda (os ricos)
Sonhei que os serafins estão bordando uma estrela surda
para Herodes não ver...
Quero reis magos, trenzinho e monjolo
e o retrato de Shirley Temple
porque o menino vem este mundo salvar
O vento distribuiu algodão pelos açudes
Joseph espancou o burrinho e riu
- Belo mundo ele vem salvar !
(Já havia naquele tempo pouco leite para os bebês)
- Se faltar numerário eu carrego na centena do Mangarito
e dou um viva ao faraó Hitler...
(Antes que ele faça comigo o Progrom que fez com Moisés)
- Oportunista ! gritou uma nuvem
Joseph fingiu que não ouviu
- A vida é um buraco, enquanto não vier, Maria
a socialização dos meios de produção
- Besta ! gritou um anjo
São José seguiu pensando
que os anjos geralmente são reacionários
e as nuvens provocadoras...


Oswald de Andrade ( José Oswald de Souza Andrade - São Paulo-SP - 1890-1954)

26/05/2009

"Flying"


Francis Dannemark - 1955 -


De uma caixa negra tirei um pequeno charuto negro do Brasil

e enchí o quarto até o menor recanto, de fumo pesado e perfumado,

e de árias um pouco loucas de Giacomo Puccini,

vozes de homens e mulheres capazes de fazer chorar as pedras,

comover as casas...

A estação é de fortes ventos, há mais de um ano

e muitas vezes me pergunto para quê tanto vento,

e se nos servem de alguma coisa os puxadores

das portas a que nos agarramos.

Queria conhecer melhor as nuvens,

os segredos da música e a arte de atravessar planícies.

Ser um leopardo primeiro,

depois um falcão -

e voar a minha vida.

21/05/2009

Ílha de Marajó, um Santuário Ecológico!










































































































Situada na foz do rio Amazonas, nas proximidades da linha do Equador, a Ilha de Marajó pertence ao Estado do Pará. Era chamada pelos índios de "marinatambal". Possui uma área de aproximadamente 49.606 km2 e é a maior ilha fluviomarinha do
mundo. Possui o maior rebanho de búfalos do Brasil.
Segundo documentos e registros em publicações oficiais, até o século XVIII era denominada "Ilha Grande de Joannes", passando então a receber o nome de Ilha de Marajó por determinação do Marquês de Pombal,(Sebastião José de Carvalho e Melo, representante do governo de Portual no Brasil), que também determinou a expulsão dos jesuítas e acabou com as capitanias hereditárias no Brasil. A origem desse nome também é proveniente dos índios, que a chamavam de "imbarajó", que
significa "anteparo do mar, "tapa mar", "barreira do mar", já que a ilha é, de fato, uma
verdadeira muralha natural entre o rio Amazonas e o oceano Atlântico.
É constituída de 16 municípios entre os quais se destacam Sure, a capital, Breves, Ponta de Pedras, Chaves e Cachoeira de Arari.
A ilha possui belas praias, igarapés, uma natureza exuberante, sendo considerada um dos grandes santuários ecológicos do mundo.
Possui também um rico e belíssimo artesananto de cerâmica, conhecido e apreciado
em todo o país.

18/05/2009

Murilo Mendes - Juiz de Fora,MG (1901-1975)

Acrílica s/ papel , de "cirandeira"

Pré-História


Mamãe vestida de rendas tocava piano no caos.

Uma noite abriu as asas cansada de tanto som,

equilibrou-se no azul, de tonta não mais olhou

para mim, para ninguém!

Cai no álbum de retratos.



Somos todos poetas
Assisto em mim a um desdobrar de planos:
as mãos vêem, os olhos ouvem,
o cérebro se move, a luz desce das origens
através dos tempos e caminha desde já
na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
eu sou tu, sou membro do teu corpo
e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
sou responsável pela lepra do leproso,
e pela órbita vazia do cego,
pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não levantam,

e pela angústia que cresce dia a dia...

15/05/2009

Aníbal Machado - "O Iniciado do Vento"


(.)


Lá fora o vento guaiava. Era agora de um tipo retórico e banal, o que ocorre em toda parte sem a menor afinidade com o outro, que era todo malícia, mocidade, fecundação. A discriminação gratuita entre as duas famílias de vento perdia-se no espírito do engenheiro às impressões da chegada. Vestido como estava, dormiu.
Acordou antes da cidade.Abriu a janela. No lusco-fusco da madrugada, a cidadezinha era um amontoado de casas. Despertada dentro de algumas horas, ela começaria a desprender seus venenos, faria andar seu aparelho de compressão.

(.)

Não se enganara. Era pois este lugar a capital do vento. Ou pelos menos, uma cidade ventada. Enchí-me de alegria, vendo confirmar minha expectativa. Até na figura que
me esperava segurando as malas - um menino de cabelos lisos, olhos espantados, pele bronzeada e uma mobilidade extrema na fisionomia - eu via um filho do vento.
Suas narinas farejavam os longes. Alguns instantes depois, ele tinha a cabeleira em desalinho, e o meu chapéu fora atirado à distância. Não era ainda o vento forte que eu
esperava
Parecia a vanguarda de outro, maior, que vinha avançando atrás. E à medida que
aumentava de velocidade, ía mostrando uma qualidade diferente daqueles que correm em outros lugares. Parecia soprar da minha infância, trazendo o que havia de
melhor e mais antigo no espaço.
(.)
Assim, segundo a nossa classificação, havia ventos maliciosos e ventos desordeiros,
ventos calados e ventos que cantavam, ventos compridos, de grande velocidade, e
ventos miudinhos, desses que começam a correr sobre a grama e logo desanimam
aos pés de um arbusto.
(.)
Metí o binóculo, o seu casebre se aproximou. Logo avistei Zeca da Curva, no terreno
a pular. Tirara a roupa, ficara nu no meio do vento.Correndo de um lado para o outro, esbarrou numa lata e rolou pelo barranco. De repente, ei-lo de braços abertos e
olhos fechados gozando, aspirando o espaço. Assim permaneceu alguns minutos, imóvel, feliz.
Agora, pensei comigo, já não tenho dúvida: ele é mesmo o enfeitiçado do vento.
Acertei melhor as lentes, e percebí, Sr. Juiz, claramente percebí o que o menino fazia:
mijava! Com o perdão da palavra, ele mijava, Sr. Juiz! Gritei. Não me atendeu. Nem podia, tamanha era a barulheira. A urina diluía-se em gotas cristalinas. Misturando ao ar um líquido de seu organismo, tive a impressão de que procurava sentir-se mais ligado aos elementos.

14/05/2009


"UMA ORDEM SOCIAL ANTI-HUMANA E INJUSTA PERTURBA O SONO DOS POETAS. NÃO QUERER TOMAR CONHECIMENTO DELA É FAZER-SE CÚMPLICE DE UMA EVASÃO QUE HUMILHA E ENFRAQUECE A POESIA."



ANÍBAL MACHADO, escritor mineiro, de Sabará (1894-1964)

13/05/2009

A Biblioteca de Alexandria




A saga da biblioteca de Alexandria foi o que mais me impressionou, nestas minhas útimas leituras. Uma biblioteca construída no século IV antes de Cristo, que reuniu mais de 700 mil volumes, até mesmo os manuscritos originais de Ésquilo, Eurípedes e de Sófocles. Nela ficaram guardados os rolos de papiros da literatura grega, egípcia e babilônica. E atraiu para Alexandria os principais intelectuais da Antiguidade. Entre eles, Euclides, que, tendo estudado em Atenas com um discípulo de Platão, fundou em Alexandria uma escola de matemática, por volta do ano 300 antes de Cristo.
(.)
Outro cientista importante que se transferiu para Alexandria foi Hierófilo de Calcedônia, que revolucionou a medicina com sua técnica dos exames post mortem, o primeiro médico que dissecou o olho, seguiu os seios nasais até o "torcular herophilis", assim chamado em sua homenagem, e provou que o cérebro era o centro do sistema nervoso, não o coração, como supusera Aristóteles.
(.)
A lista de moradores ilustres inclui ainda Arquimedes, o siciliano de Siracusa, considerado o maior engenheiro da Antiguidade, famoso pela descoberta do princípio que leva o seu nome e por suas invenções, como as máquinas bélicas, e o parafuso d'água, além dos estudos sobre a alavanca e do estabelecimento de importantes relações geométricas.
A Biblioteca de Alexandria atravessou muitos séculos e por pouco não se tornou milenar. No meio dessa trajetória, no ano 40 antes de Cristo, foi danificada por um incêndio provocado pelas tropas de Júlio César, que atacaram Alexandria ao tempo de Cleópatra. Poucos anos depois, Cleópatra conseguiu de seu amante Marco Antônio a doação de 200 mil rolos de pergaminhos da biblioteca de Pérgamo, o que de certa forma indenizava, parcialmente, a perda de 40 mil volumes, provocada pelo incêndio.
Infelizmente, porém, Cleópatra teve a desafortunada ideia de transferir boa parte dos livros para o Templo de Serápis, dedicado ao culto de uma divindade protetora da saúde e que, quatro séculos depois teria graves consequências: em 389 o imperador romano Teodósio, ordenou ao bispo Teófilo a destruição de todos os monumentos pagãos de Alexandria, entre os quais o Templo de Serápis. E assim se perdeu grande parte dos livros.
A Biblioteca de Alexandria, ou o que dela restou, conseguiu funcionar até 642 da era cristã, quando o Egito foi conquistado pelos árabes do general Amr Al As, que atuava em nome do califa Omar. Amr autorizou o uso de livros como combustível das caldeiras que aqueciam os banhos da cidade. Consta que João, o Gramático, um ex-padre apaixonado por livros, tentou persuadir Amr a não queimar os livros e foi por este encaminhado ao califa Omar, que entretanto, não se sensibilizou com seus argumentos. Para Omar, livros contrários ao Corão "deviam ser destruídos, porque hereges, bem como os que lhe fossem favoráveis, porque desnecessários."



Extraído de "O Homem Horizontal", de Remo Mannarino, escritor mineiro, radicado no Rio de Janeiro



12/05/2009

"Sea Monsters" - William Turner
Tento buscar por aí, por alhures

e por aqui também, jeitos,

gestos gastos de felecidades vãs...

Quem disse que não me sou?

Quem disse que não me tenho?

Tantas perguntas à toa, quantas respostas,

vazias, evasivas ao léu!

Cá dentro nada me diz nada.

Tampouco lá fora!

Mundo de loucos, de tudo,

de todos, imclusive de lágrimas,

que choram por ontem,

por hoje, por sempre!

09/05/2009

Do Livro do Desasossego

Pintura alemã, datada do séc.XVIII
(.)


E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir,

não sei o que penso nem o que sou.

Verifico que tantas vezes alegre, tantas vezes contente,

estou sempre triste.

Não vejo sem pensar.

Não há sossego - e, ai de mim!,

nem sequer há desejo de o ter!

(.)


Somos todos míopes, exceto para dentro.

Só o sonho vê com o olhar.

Transeuntes eternos para nós mesmos,

não há paisagens senão o que somos.

Nada possuímos, porque nem a nós possuímos.

Nada temos porque nada somos.

Que mãos estenderei para que universo?

O universo não é meu:

sou eu.



Bernanrdo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa)

08/05/2009

"Jura Secreta"

Tela de Joan Miró
Só uma coisa me entristece,

o beijo de amor que não roubei...

A jura secreta que não fiz,

a briga de amor que eu não causei...

Nada do que posso me alucina tanto,

quanto o que não fiz!

Nada do que quero me suprime

do que, por não saber, ainda não quis...

Só uma palavra me devora:

aquela que meu coração não diz!

Só o que me cega, o que me faz infeliz,

é o brilho do olhar que eu não sofrí...



Sueli Costa/Abel Silva

07/05/2009

Cenas de descobrimento de Brasis - Fernando Bonassi


As bolsas estão caindo, os aviões estão caindo, os lavadores de vidraças estão caindo. Uma borboleta bate asas em Seul e bibelôs despencam das cômodas em Osasco. Analistas e especuladores enchem os bolsos. Mediterranées não têm vagas. Por qualquer cinquenta paus se arranja um Saint Laurent de deixar de herança. Na próxima segunda-feira, tudo indica, 1929 será uma piada. Henrique mal fez seu milhão de dólares e já está sendo colhido pela fúria destes elementos. É por isso que massacra seu cartão de crédito contra o pó da mesa enquanto corta custos.





"Business Headlines"






06/05/2009

"Joãozinho-Sem-Medo"


Era uma vez um menino chamado Joãozinho-Sem-Medo, pois não tinha medo de nada. Andava pelo mundo e foi parar em uma hospedaria, onde pediu abrigo.

- Aqui não tem lugar - disse o dono - mas se você não tem medo, posso mandá-lo para um palácio.

- Por que eu sentiria medo?

- Porque alí a gente sente, e ninguém saiu de lá a não ser morto. De manhã a Companhia leva o caixão para carregar quem teve a coragem de passar a noite lá.

Imaginem Joãozinho! Levou um candeeiro, uma garrafa, uma linguiça, e lá se foi.

À meia-noite, comia sentado à mesa quando ouviu uma voz saindo da chaminé:

- Jogo?

E Joãozinho respondeu:

- Jogue logo!

Da chaminé desceu uma perna de homem. Joãozinho bebeu um copo de vinho.

Depois a voz tornou a perguntar:

- Jogo?

E Joãozinho:

- Jogue logo!

E desceu outra perna de homem. Joãozinho mordeu a linguiça.

- Jogo?

- Jogue logo!

E desceu um braço. Joãozinho começou a assoviar.

- Jogo?

- Jogue logo!

Outro braço.

- Jogo?

- Jogue!

E caiu um corpo que se colou nas pernas e nos braços, ficando de pé um homem sem cabeça.

- Jogo?

- Jogue!

Caiu a cabeça e pulou em cima do corpo. Era um homenzarrão gigantesco, e Joãozinho levantou o copo dizendo:

- À saúde!

O homenzarrão disse:

- Pegue o candeeiro e venha.

Joãozinho pegou o candeeiro, mas não se mexeu.

- Passe na frente! - disse Joãozinho

- Você! - disse o homem

- Você! - disse Joãozinho

Então o homem se adiantou e de sala em sala atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando. Debaixo de uma escadaria havia uma portinhola.

- Abra! - disse o homem a Joãozinho

E Joãozinho:

- Abra você!

E o homem abriu com um empurrão. Havia uma escada em caracol

- Desça - disse o homem

- Primeiro você - disse Joãozinho

Desceram a um subterrâneo, e o homem indicou uma laje no chão

- Levante!

- Levante você! - disse Joãozinho, e o homem a ergueu como se fosse uma pedrinha.

Embaixo havia três tigelas cheias de moedas de outo

- Leve para cima! - disse o homem

- Leve para cima você! - disse Joãozinho. E o homem levou uma de cada vez para cima.

Quando foram de novo para a sala da chaminé, o homem disse:

- Joãozinho, quebrou-se o encanto! - Arrancou-se uma perna, que saiu esperneando pela chaminé - Destas tigelas uma é sua - Arrancou-se um braço, que trepou pela chaminé. - Outra é para a Companhia que virá buscá-lo pensando que você está morto. - Arrancou-se também o outro braço, que acompanhou o primeiro - A terceira é para o primeiro pobre que passar. - Arrancou-se outra perna e ele ficou sentado no chão - Pode ficar com o palácio também. - Arrancou-se o corpo e ficou só a cabeça no chão. - Porque se perdeu para sempre a estirpe dos proprietários deste palácio - E a cabeça se ergueu e subiu pelo buraco da chaminé.

Assim que o céu clareou, ouviu-se um canto: Miserere mei, miserere mei, e era a Companhia com o caixão que vinha recolher Joãozinho morto. E o vêem na janela, fumando cachimbo.

Joãozinho-Sem-Medo ficou rico com aquelas moedas de ouro e morou feliz no palácio. Até que um dia aconteceu que, virando-se, viu sua sombra e levou um susto tão grande que morreu.


Extraído de "Fábulas Italianas", sob a coordenação de Ítalo Calvino (1923-1985)


05/05/2009

Sobre a Leitura e os Livros


Ocorre na literatura o mesmo que na vida: para onde quer que alguém se volte, depara-se logo com o incorrigível vulgo da humanidade, que se encontra em toda parte em legiões, enchendo e sujando tudo, como as moscas no verão. Isso explica a quantidade de livros ruins, essa abundante erva daninha da literatura, que tira a nutrição do trigo e o sufoca. Pois eles roubam tempo, dinheiro e atenção do público, coisas que pertencem por direito aos bons livros e a seus objetivos nobres, enquanto os livros ruins são escritos exclusivamente com a intenção de ganhar dinheiro ou criar empregos. Neste caso, eles não são apenas inúteis, mas realmente prejudiciais. Nove décimos de toda nossa literatura atual não têm nenhum outro objetivo a não ser tirar alguns trocados do bolso do público: para isso, o autor, o editor e o crítico literário compactuam.

Um golpe pior e mais maldoso, porém mais digno de consideração, foi dado pelos escritores prolixos que fazem da literatura seu ganha-pão, contra o bom gosto e a verdadeira formação da época, possibilitando que eles levem todo o "mundo elegante" na coleira, tornando-o adestrado a "ler" no momento certo, isto é, fazendo todos lerem sempre a mesma coisa, o livro mais recente, a fim de ter um assunto para conversar em seu círculo.

(.)

Quanto às obras ruins, nunca se lerá pouco quando se trata delas; quanto às boas, nunca serão lidas em excesso. Livros ruins são veneno intelectual, capaz de definhar o espírito. Para ler o que é bom, uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados.



"A Arte de Escrever" - Arthur Schopenhauer - (1788-1860)

03/05/2009

"Carpe Diem"


Que faço deste dia que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora vermelha
de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra
ou gravá-lo na pedra que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
tremenda noite deixa se ela ao leito da noite precedente
o leva, feito escravo dessa fêmea a quem fugira para mim,
para a minha voz e minha lira.
( Mas já de sombras vejo que se cobre, tão surdo ao sonho
de ficar - tão nobre.
Já nele a luz da lua - a morte - mora, de traição foi feito:
vai-se embora)



Mário Faustino ( dos Santos e Silva) - poeta, tradutor e jornalista, nasceu em Teresina(PI) em 1930 e faleceu em 1962, vítima de acidente aéreo que ocorreu no Peru, quando ía para os Estados Unidos.

02/05/2009

ECOLOGICAL DAY


Rio São Francisco

O rio São Francisco ou "velho Chico", como é popularmente chamado, era conhecido pelos índios como "opará" , que significa rio-mar, antes da colonização do Brasil. Ele nasce na Serra da Canastra (MG) a mais ou menos 1200m de altitude, atravessa o Estado da Bahia, fazendo divisa com o norte de Pernambuco e, separando os Estados de Sergipe e Alagoas, vai desaguar no oceano Atlântico. Durante o seu percurso o Velho Chico atravessa regiões em condições diversificadas, com bons índices de chuvas em sua parte extrema superior e inferior da bacia, enquanto em sua parte média o clima apresenta-se bastante seco. Possui boa navegabilidade entre Pirapora(MG), Petrolina, em Pernambuco e Juazeiro, na Bahia, durante todo o ano com variação de calado(profundidade) segundo o regime de chuvas. Dos 168 afluentes que possui, 99 são perenes. Sua importância econômica, social e cultural é fundamental para os cinco Estados que atravessa e devido à fertilidade do solo, boa parte da agricultura é desenvolvida às suas margens. Grande parte da população encontra-se também nas proximidades do rio. O velho Chico tem sido fonte de inspiração para poetas e compositores, criação de lendas como as das "carrancas", que surgiram como uma espécie de proteção para os pescadores quando saíam para pescar, tornando-se um amuleto contra as entidades consideradas do mal, para afastar os "maus espíritos", o "mal-olhado". Atualmente, o governo federal desenvolve um projeto de transposição do rio, com o objetivo de expandir sua irrigação para algumas áreas onde a seca e o assoreamento tem sido mais inclemente. Entretanto, existe uma parcela da população ribeirinha que tem se posicionado contra tal projeto, gerando ainda bastante polêmica sobre o assunto. O rio está bastante assoreado, poluído e perdendo sua mata ciliar, além de apresentar vários bancos de areia em seu percurso.

Barragem do rio São Francisco

Serra da Canastra (MG)


Nascente do rio S.Francisco
encontro do São Francisco c/o mar (divisa entre Sergipe e Alagoas )

Foz do rio

Juazeiro - Petrolina


Carrancas do São Francisco - foto:olhares.com

Líquens, serra da Canastra - foto:Márcio Cabral

Serra da Canastra - foto: Márcio Cabral

"Pontal do peba" (AL)

lavadeiras, no rio São Francisco

plantadores quilombolas do baixo São Francisco (SE)

"Curral de pedra" (próximo á serra da canastra)