27/02/10

Poesia Africana - Moçambique


Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço.

Fugitivas dos Munhuanas e dos Xipomanines,

viemos do outro lado da cidade

com nossos olhos espantados,

nossas almas trançadas,

nossos corpos submissos e escancarados.


De mãos ávidas e vazias,

de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,

de corações amarrados de repulsa,

descemos atraídas pelas luzes da cidade,

acenando convites aliciantes

como sinais luminosos na noite.


Viemos...

Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,

do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,

do doer espáduas todo o dia vergadas

sobre sedas que outras exibirão,

dos vestidos desbotados de chita,

da certeza terrível do dia de amanhã

retrato fiel do que passou,

sem uma pincelada verde forte

falando de esperança.


"Moças das Docas", de Noemia de Sousa, poeta e jornalista nascida em Catembe, Moçambique. Viajou por todo o continente africano fazendo reportagens sobre as guerras e posteriormente mudou-se para a Europa. Faleceu em Cascais(Portugal)
(1926-2002). Tem publicado o livro de poemas "Sangue Negro".

9 comentários:

  1. hermosa lírica. gracias por compartirla.
    besos

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  2. A poesia é linda!
    Apaixonei-me pelo seu quadro.
    Bjs!

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  3. Mais uma vez, obrigada, Carol. Ele é todo NOSSO!

    Bjs

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  4. Assim é

    em todos os terceiros mundos...

    e cada vez mais... nos primeiros.


    Saudações

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  5. Triste e poderoso, não conhecia a poeta. Fala de muitas das nossas mulheres, também.

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  6. Comovente, Cirandeira. Também não conhecia a poeta. Deu até um nó no peito... Beijos.

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  7. Noémia de Sousa, anda tao esquecida e vale a pena ler.
    Obrigado! Kandandu

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