19/10/2010

O amor comeu...


Oswaldo Goeldi



O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevia meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas.
O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida dos meus ternos; o número dos meus sapatos, o tamanho dos meus chapéus.
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor dos meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poema. Comeu em meus livros de prosa todas as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios, meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto, mas que parecia uma usina.

Paul Cézanne
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever o meu nome.

Van Gogh O amor roeu minha infância de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.



O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues frescos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.



Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos adiantados de meu relógio, os anos que as linhas da minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto - Poesia Completa, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1994

12 comentários:

  1. O amor é insaciável, pois então.

    Beijo :)

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  2. e o que dizer depois disso, não é?
    que o amor coma todos os nossos medos...

    fez-me um bem enorme ler essas palavras hoje. Obrigada por compartilhar.

    beijo grande, Cirandeira!

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  3. Ci, e que coma coma coma coma!! :)
    beijo

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  4. Vamos comer! Vamos comeeerrrrrrrriiiisoss....!

    Todos(AS) Nós !

    Beijooooosssss

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  5. O amor tomou conta da vida do poeta...

    Saudações poéticas

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  6. Sonhar nunca é demais: seria tão bom que o Amor
    nos invadisse a todos, comendo e vomitando
    simultaneamente, espalhando suas sementes por
    todo o planeta...!

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  7. Cirandeira, minha amiga, uma breve passagem com depoimento. A maior parte das vezes é só para leitura. Este seu blog está sempre no meu cantinho especial da minha estante virtual.... É pao imprincindível para a alma!!
    Já sabes que podes levar o que tu quiseres dos meus blogues, sei que darás bom caminho.
    Bj com kandandu
    Namibiano

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  8. Quanta Alegria! recebê-lo em meu cantinho,
    Namibiano! Obrigada pelo carinho e atenção...

    Bjs e kandandu

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  9. Uma vida comida pelo Amor.
    Ai daquele que não tem sua vida devorada pelo amor.
    Adorei,
    Bjao
    ( valeu as visitas no Cárcere, e o carinho no Mínimo Ajuste )

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  10. adoro adoro adoro adoro esse trecho!
    lindo!

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