17/11/2010

As coisas

Portrait Robo, de Mozart-Arman


A bengala, as moedas, o chaveiro, a dócil fechadura,
as tardias notas que não lerão os poucos dias
que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
violeta, monumento de uma tarde
sem dúvida inesquecível e já esquecida.
O rubro espelho ocidental em que arde
uma ilusória aurora. Quantas coisas,
limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
nos servem como tácitos escravos,
cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
nunca saberão que já nos fomos.




Jorge Luís Borges (1899-1986)

9 comentários:

  1. Tradução perfeita do que senti vendo as coisas da casa dos meus pais. Todas elas completamente esquecidas que já foram deles um dia.
    bjs

    ResponderExcluir
  2. Se eu escrevesse um poema assim poderia aposentar qualquer restante pretensão!

    À parte: a sua inspiração em por como ilustração esse trabalho do Arman foi fabulosa. Inesquecível postagem!

    Beijo.

    ResponderExcluir
  3. Nós pessoas(?)nós pronome pessoal nós que se atam nós que nunca desatam nós que nos coisificamos e somos coisificados todos os dias
    ad eternum e nem percebemos continuamos a repetir a COISIFICAÇÃO...!

    Que coisa! :))

    Beijos, Lelena

    ResponderExcluir
  4. Se perdemos as pretensões como poderemos evitar
    de nos tornarmos apenas uma "coisa"?
    Já escreveste tanta coisa maravilhosa...!
    Deixe-se de modéstia, POETA!

    Beijo

    ResponderExcluir
  5. O que fomos, o que somos, o que fica...
    Um convite a mergulhar na efemeridade/eternidade das coisas. Mas suspeito que na companhia de Borges nunca encontraremos a entrada nem a saída...

    beijo :)

    ResponderExcluir
  6. nós somos só nós desfeitos
    prender-se-ia caso fosse importante
    é irrelevante
    então perecemos

    ResponderExcluir
  7. A entrada/saída, Agostinho, pode estar em nós
    mesmos; talvez, por isso, seja tão difícil encontrá-la, independente de Borges ou de qualquer outra pessoa, acho.

    Beijo :)

    ResponderExcluir
  8. Nós, vós, eles...todos pereceremos em algum momento. Mas as "coisas"...!?
    Quem será mesmo irrelevante?

    P.S. ainda não postei 1 comentário em teu blog
    devido a exigência de deixar meu endereço eletrônico por lá. Sorry...

    ResponderExcluir
  9. "As coisas não têm paz"
    Arnaldo Antunes

    ResponderExcluir