28/01/2010

Crônicas do baú....

osverdesfotos.googlepages.com/ourempara
Como hoje acordei meio saudosa de um tempo que não volta mais, fui remexer meu "baú literário" e encontrei essa crônica do Edilson Martins, publicada na extinta revista "Careta" em setembro de 1981. Para quem não conhece, ele é do Acre, jornalista e escritor com vários livros publicados, entre os quais "Nossos índios, nossos mortos", Nós do Araguaia", "Chico Mendes, um povo da floresta", "Amazônia, a última fronteira". Escrevia também para o semanário "Pasquim". Por ser bastante extenso, omiti alguns trechos do texto cujo título é "Índio goza? Goza!!!


Uma das minhas grandes distrações quando me encontro numa cidade é contemplar, nos Supermercados, nas noites de sexta, ou sábado, um casal de classe média. São interessantes, e invariavelmente gordos. A gordura é um grande recado. Costumo dizer, buscando um certo efeito, que não existem pessoas gordas nas cidades. Existem sim, pessoas inchadas. Se meu corpo está inchado, é evidente que também minh'alma minha concepção de mundo. Usam tênis Adidas, bermudas da moda, são alegres, contidos, e dão linguadas indecorosas - o que não fazem mais, ou nunca fizeram entre si - no sorvetão colorido da esquina. O carrinho de compras completa a leitura definitiva dos dois, com os pães brancos, os adoçantes, o arroz branco, as geleias e todo esse pacote de sedução e envenenamento com que a vida urbana e civilizada, arrebata parcela ponderável dos corações e mentes da classe média.
Há mais de 10 anos venho estabelecendo contatos com nossas culturas primitivas. Somos herdeiros de uma sexualidade indígena e de uma sexualidade judaico-cristã. E há um contraste enorme entre as duas. Ignoramos praticamente tudo da primeira, e
queremos cada vez mais saber da segunda.
Nada mais fantástico que a beleza dessa experiência, que nos remete a um convívio com povos possuidores de uma vivência imemorial. A cultura judaico-cristã tem 2 mil anos, os Estados Unidos 500 anos, o Brasil também, a França 1.200 anos, a Itália unificada 300 anos, mas os índios têm 10, 15, 20 mil anos.
Esses indígenas nos oferecem, portanto, a visão mais original do mundo. Viver a experiência deles, é alguma coisa rica, que nos arrebata.
O erotismo indígena concebe o gozo como uma graça divina. O gozo do doce, do amargo, do sexo, do olhar, da pintura, do artesanato, da boca. E esses prazeres são uma homenagem a Deus. Talvez não exagere em afirmar; não há pecado no gozo, junto aos nossos selvagens. Já o mesmo não acontece com a nossa herança judaico-cristã. Reprimimos tudo ou quase tudo que possa ser associado ao prazer. E dentro da espiral do prazer tudo passa a valer exarcebadamente. O exercício de amar se transforma em prazer de dominar, o compromisso com o corpo em postura ridiculamente narcisística, o amor em luxúria. Quanto a comer e beber nem se fala. São poucos os que não comem, hoje, nas grandes cidades, pantagruelicamente, (referência a Pantagruel, personagem comilão, criado pelo escritor francês Rabelais)tantas são as frustrações e desencantos.

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Houve um tempo, que entre os índios do Maranhão, os homens não estavam com nada. Não serviam para coisa nenhuma. As mulheres caçavam, pescavam, plantavam, tomavam conta da aldeia, guerreavam e faziam amor intermitentemente. Os homens se limitavam a dormir. comer, nem sexo tinham, e talvez por isso mesmo. Permaneciam o dia inteiro deitados, olhando o céu e as estrelas, dominados pelo tédio do sono e ausência de sexualidade.
As mulheres por sua vez, eram permanentemente irrequietas, produtivas, belas, descontraídas e plenas de sexualidade. Não se tem notícias desse tempo, de nenhuma mulher gorda, encouraçada e rija feito jabuti, dessas que a gente encontra nos supermercados, nas repartições, nos escritórios, nas agências bancárias.
Quando sentiam desejo sexual, e isso ocorria todos os dias, batiam no chão, e diziam:
- Ó meu rancuãi-ang, ó meu macho adorado e que me sacia, vem, vem logo...
Então, do interior do pátio, saía um minhocão de meia milha de comprimento, olhos de cobra, língua bifurcada e cabeça e boca de cobra.
Atentem bem para esses detalhes, já que mais tarde, bem mais tarde, bem mais recentemente, isto é, na primeira metade deste nosso século(este artigo foi escrito em 1981) Freud encantaria o mundo - cobra como símbolo fálico - causando formidável alvoroço em nossa ciência, quando na verdade qualquer aborígina kadiwéu tava careca de saber, há milênios, que essa associação tem a ver com tesão.
Esse minhocão imenso, convocado, não se fazia de rogado, conforme acontee hoje com parcela ponderável dos homens. Introduzia-se na arapuá - vagina - da mulher, e só a deixava depois de plenamente saciado o desejo de ambos. O que era sempre fácil e prazeroso, em decorrência daquela visão de mundo a que nos referimos no começo; ausência de pecado no gozo. O nosso estimado minhocão, com cabeça de cobra, recolhia-se, vejam bem a beleza desse simbolismo, ao interior da terra, e a mulher lá se ía, descontraída, relaxada e derramadamente, urinar num pote de barro. Hoje uma mulher que se derrame numa relação afetiva vira dominada; no caso de um homem se transforma em filhinho, algo regredido e sem sedução.
Pois bem, nesse pote, cinco dias depois, nascia, no seu interior, uma criança. Como qualquer filho de um amor profundo, era recebido com festa e encantamento.

etnia akuntsu, rio Omerê - Rondôniahttp://www.povosindígenasnobrasil.com.br/

O herói cultural desta nação sempre advertia que essa cerimônia afetiva nunca poderia ser assistida por um índio. Uma mulher desavisada, levada talvez pela leviandade do liberalismo, da abertura, que já naquela época começava a iludir muitos corações e mentes, deixou-se ser vista, durante um desses encontros, numa noite de lua cheia, por um índio que padecia de insônia. Este impertinente personagem a tudo assisitiu entre curioso e perplexo. Fico a imaginar que fantasias extraordinárias não deve ter ele vivido naquele sublime momento em que uma mulher agachada se despedaçava toda com aquele minhocão dentro de si. Um gozo que tinha por luminária a Lua, a terra sensual por cama e as matas, com suas árvores frondosas, por cortina.
Não conseguiu dormir, tais foram as fantasias, ele que dispunha de um corpo mole, olhar sem luz, alma sem energia. Na noite seguinte, com toda a aldeia dormindo, não se conteve mais e apelou, no meio do pátio, esganiçadamente:
- Ó meu rancuãi-ang, ó meu macho querido, vem...
E eis que lhe aparece, pronto, disponível. Já por não dispor de carapuá, senão por não se poder exigir de ninguém desempenho e aprendizagem tão rápidos diante de proposta tão sedutora e ameaçadora, o nosso homem reagiu violentamente.
Apanhou um machado de pedra que tinha à mão e decepou a cabeça do racuãi-ang. Deve ter dito para si mesmo, assim também é demais. As mulheres tão logo tomaram conhecimento da tragédia armaram pequenas revoltas. Foram juntas ao herói cultural e ameaçaram queimar a floresta, encher os rios de pedras, por pra quebrar, matar todos os animais, e outras pressões do gênero.
O herói cultural preocupadíssimo. vai à aldeia, apanha um facão, e corta em pedaços o minhocão imenso, que, desfalecido, ocupava a metade do pátio. Cada fração decepada era imediatamente introduzida entre as pernas dos homens. A partir desse dia os homens passaram a caçar, pescar, trabalhar e surucar - copular - certamente sem o desempenho do rancuãi-ang de ontem. Que o digam as mulheres desamadas de hoje.
As mulheres, a partir também desse momento, deixaram de ver nascer seus filhos no interior do pote. Passaram a ser gerados no interior de seus próprios ventres.


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O mito é uma lenda que está carregada de verossimilhança, de fé, é alguma coisa viva, na qual todos acreditam. Uma das minhas utopias é imaginar que um dia resgatemos nossa mitologia indígena, essa parcela ponderável de nossa formação cultural. E que deixemos de nos centrar unicamente nessa pobre mitologia bíblica, pobre porque castradora, rompida com a vida, cheia de punições. Que não tenhamos por herança apenas a concepção de mundo judaico-cristã, onde Adão e Eva são punidos, justamente, por exercerem uma das práticas mais lindas de nossa humanidade, que é o prazer da boca - maçã - e o prazer do sexo. Essa utopia significaria uma retomada de nossa indianidade, de tal forma que os nossos intelectuais da costa brasileira, em sua produção científica, não ficassem pura e simplesmente traduzindo para o português a reflexão dos nossos colonizadores, invariavelmente uma gente cinzenta, rompida com a vida e o prazer, gordinhos, frequentadores de Supermercados, em nada ou quase nada, diferentes do casal de classe média abordado no início desta conversa.
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25/01/2010

Haitianos - Literatura e Artes Plásticas

Edwidge Danticat

Uma das primeiras pessoas assassinadas em nosso país foi uma raínha. Seu nome era Anacaona e ela era uma índia Arawak. Ela era poeta, dançarina e pintora também. Governava a parte oeste de uma ilha tão exuberante e verde, que os Arawak a chamavam de Ayiti, terra da grandeza. Quando os espanhóis chegaram pelo mar à procura de ouro, Anacaona foi uma de suas primeiras vítimas. Ela foi estuprada e morta e sua aldeia foi saqueada. A terra de Anacaona é agora frequentemente chamada de o país mais pobre do hemifério ocidental, um lugar de contínua conturbação política. Assim sendo, para alguns é fácil esquecer que esta nação foi a primeira república negra, terra dos primeiros afrodescendentes a extirpar a escravidão e criar uma nação independente, em 1804.
Nascí no Haiti, durante o regime ditatorial de Duvalier. Quando tinha quatro anos, meus pais deixaram o país, à procura de uma vida melhor nos Estados Unidos. Tenho de admitir que a motivação deles era mais econômica do que política, mas como todos que conhecem o Haití sabem, economia e política estão intrisecamente relacionadas; em geral, quem está no poder é quem determina se as pessoas terão ou não o que comer.
Hoje tenho trinta e quatro anos. As lembranças mais vivas de minha infância no Haiti, envolvem apagões repentinos, os "blakawouts", como dizíamos. Durante os blecautes, eu não tinha como ler, estudar ou assisistir televisão; então, me sentava perto de uma vela ou de uma lamparina e ouvia estórias contadas pelos mais velhos.
Minha avó era uma mulher da roça que sempre se sentiu deslocada na capital, onde vivíamos. Não possuía nada além de suas colchas de retalhos e suas estórias pra se consolar. Foi ela quem me contou sobre Anacaona. Dividia o quarto com ela e estava a seu lado quando ela faleceu. Tinha mais de cem anos. Morreu com os olhos arregalados; eu os fechei. Ainda sinto saudades das estórias que ela nos contava.



"Loteria" - Yordan Dabadi(.........................)


Ao assistir aos telejornais, é sempre difícil dizer se existem mulheres reais, vivas e respirando em lugares atingidos por conflitos como o Haiti. Os telejornais da noite só nos dão notícias breves sobre golpes presidenciais, imigrantes rejeitados e sabotagens em eleições. As histórias das mulheres nunca chegam às primeiras páginas. Mas elas existem, sim.

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Há um ditado haitiano que talvez não agrade a sensibilidade estética de algumas
mulheres. Nou lèd, nou la, que quer dizer "Somos feias, mas estamos aqui". Assim como a modéstia é uma característica da cultura rural haitiana, esse ditado é mais importante para as mulheres haitianas pobres, do que ter beleza, seja ela superficial ou não. Para mulheres como minha avó, o que valia a pena celebrar era o fato de estarmos aqui, de apesar de todas as adversidades, existirmos. Para mulheres como minha avó, que se cumprimentavam dessa maneira quando se cruzavam no caminho da roça, a essência da vida estava na sobrevivência. É sempre bom lembrar às nossas irmãs, que sobrevivemos a mais um dia para atender ao chamado de uma vida muitas vezes dolorosa e muito difícil. É com este espírito que uma mulher ainda hoje lembra-se de dar à sua filha o nome de Anacaona, um nome que representa tanto o esplendor quanto a agonia de um passado que assombra a tantas mulheres e homens.



"Um cavalheiro bem apessoado" - Pierre Louis Riche



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Quando foram escravizados, nossos antepassados acreditavam que ao morrerem, seus espíritos retornariam à África. Mais exatamente, para uma terra pacífica, que chamamos de Ginen, habitada por deuses e deusas. As mulheres que vieram antes de mim eram mulheres que falavam metade de uma língua e metade de outra: o francês e o espanhol de seus colonizadores, misturados à sua língua africana. Pareciam falar uma língua estranha quando rezavam para seus velhos deuses, antigos espíritos africanos. Apesar do temor de não serem mais entendidas por suas antigas divindades, inventaram uma nova língua para descrever o local que passaram a habitar, uma língua da qual surgiram frases coloridas para aliviar situações desesperadoras. Quando se cumprimentavam, se descobriam falando em código:


- Como vai você hoje, irmã?


- Eu sou feia, mas estou aqui.


"A Reunião", de Aland Estime

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Minha avó acreditava que se uma vida é perdida, outra vida brota em outro lugar, sendo essa nova vida ainda mais forte que a outra. Ela acreditava que uma pessoa não morre, realmente, desde que alguém se lembre dela, alguém que reconheça que essa pessoa, apesar de tudo, está aqui. Nós somos parte de um círculo sem fim, somos as filhas de Anacaona. Nós envergamos, mas não quebramos. Não somos atraentes, mas ainda assim resistimos. De vez em quando devemos gritar isso o mais distante que o vento possa levar nossas vozes. Nou lèd, nou la! Somos feias, mas estamos aqui.


Trechos de um texto escrito pela escritora haitiana Edwidge Danticat, que está circulando pela internet. As imagens foram extraídas de "Os pecados do Haiti", escrito pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano. Nenhuma das fotos aqui mostradas
continha crédito, razão pela qual não pude mencioná-lo.

21/01/2010

Saudades de....João Guimarães Rosa

Foto: Maureen Bisiliat
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Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na
minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo, que quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso me serviu de bom consolo. E eu
nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ía.
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Aquilo nem era só mata, era até florestas! Montamos direito, no Olho-d'Água-das-Outras, andamos, e demos com a primeira vereda - dividindo as chapadas - : o flaflo de vento agarrado nos buritis, franzido no gradeal de duas folhas altas; e, sassafrazal - como o da alfazema, um cheiro que refresca; e aguadas que molham sempre. Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro e grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina:o beco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível?
Lengalenga. Fomos, fomos.
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Tivesse medo? O mundo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu - o que quero e sobrequero - é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!

"Grande sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa

19/01/2010

Traço




Por vezes, não raro,

basta um gesto, sua borracha,

um quase nada de alvaiade,

um rasgo e só.


No entanto, o carvão

de certas palavras,

de alguns nomes,

não se apaga fácil.


Afogá-lo, inútil:

o maralto traz

de volta cada sílaba

em sal fortalecida.


Enterrá-lo? Logo renascerá:

árvore alta, trigo, praga.

No fogo irrompe a letra,

inda mais sólida liga.


Há que esperar do esquecimento

o dente miúdo

e lento roer a nódoa na língua,

o travo no peito.



Eucanaã Ferraz, Rio de Janeiro

15/01/2010

Cobrí de alpiste....


Fila para conseguir água em Porto Príncipe, Haiti



Cobrí de alpiste a sacada


para o concerto da madrugada de amanhã.


Apaguei a luz e esperei pelo sono. E já


na passarela se inicia


o desfile dos mortos grandes e pequenos


que conhecí em vida.


É difícil distinguir


quem eu gostaria ou não que


regressasse entre nós.


Lá onde estão


parecem inalteráveis por um algo mais


de decomposição sublimada. Nós fizemos


o melhor de nossos esforços


para piorar o mundo.



Eugenio Montale, Gênova (Itália) - 1896-1981

14/01/2010

S.O.S. HAITI

Um terremoto atingiu o Haiti, país da América Central, no último dia 12.01.2010. Dezenas de prédios da capital Porto Príncipe, vieram abaixo, deixando milhares de pessoas soterradas. Foi o mais forte terremoto que abalou aquele país nos últimos duzentos anos. Embora ainda não exista o resultado exato sobre o número de vítimas, estima-se que mais de 1 milhão de pessoas tenham morrido. O Haiti possui aproximadamente 9 milhões de habitantes(ou possuía...!) e é considerado o país mais pobre de todas as Américas.

Os interessados em ajudar as vítimas dessa tragédia podem fazer um depósito nas

contas da ONG Viva Rio e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

ONG Viva Rio:

Banco do Brasil

Agência - 1769-8

Conta - 5113-6

Cruz Vermelha

Banco HSBC

Agência - 1276

Conta - 14526-84

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha(CICV) criou um site especial para ajudar

milhares de pessoas no Haiti a encontrar seus familiares desaparecidos:

www.icrc.org/familylinks

Fonte: Luís Nassif on line














12/01/2010

Time



Unfathomable Sea! whose waves are years,

Ocean of Time, whose waters of deep woe

Are brackish with the salt of human tears!

Thou shoreless flood, wich in thy ebb and flow

Claspest time limits of mortality,

And sick of prey, yet howling on for more,

Vomitest thy wrecks on its inhospitable shore;

Treacherous in calm, and terrible in storm,

Who shall put forth on thee,

Unfathomable Sea?

Tempo

Mar insondável, cujas ondas são os anos,

Oceano do tempo, cujas águas de aflição

Receberam o sal do pranto dos humanos!

Tu, mar sem praias, que na cheia e na vazão

Abraças os limites da mortalidade,

E uivando por mais vítimas, em tua saciedade,

Vomitas teus despojos em sua costa inóspita;

Traiçoeiro em calma, horror na tempestade,

Velejar em ti quem há de,

Insondável mar!
Percy Bysshe Shelley (1792-1822)

10/01/2010

O Cabeça de Cuia - a lenda e as adversidades humanas

'Ambiguidade', René Magritte seria um "cabeça de cuia"?

rio Parnaíba

O jovem Crispim vivia num casebre às margens do rio Parnaíba, no Piauí, com a mãe e o pai, que era pescador. Ainda era menino quando o pai faleceu, tendo que assumir o que este fazia. Viviam em extrema pobreza. Um dia Crispim saiu cedo para pescar, mas não conseguiu nada, sequer uma piabinha para o almoço! Voltou para casa triste e revoltado com sua condição de vida. Sua mãe havia feito um cozido ralo, com um osso de boi, (daqueles que tem um tutano dentro) e ofereceu-lhe como almoço. Ao
ver aquilo, explodiu de raiva, e impensadamente , desfechou o osso sobre a cabeça da mãe, atingindo-a mortalmente. Entretanto, antes de morrer, a mãe rogou-lhe uma
maldição: irás vagar dia e noite pelo rio e tua cabeça se transformará numa cuia; só
encontrarás sossego depois de deflorar sete mulheres virgens, de nome Maria!
Ao ouvir a maldição da mãe, Crispim se deu conta do que havia feito e saiu correndo
como um louco, atirando-se no rio. Como seu corpo nunca foi encontrado, as pessoas
das redondezas diziam que ele aparecia em noite de lua cheia, à procura de alguma Maria virgem para deflorar. Os pais das possíveis Maria, proibiam as filhas de aproximar-se do rio nessa época. Também os pescadores, diziam que o cabeça de cuia tentava virar as embarcações quando saíam para pescar....
O nosso imaginário popular é rico em estórias que vão se transformando ao longo do tempo, numa tentativa de punir os males que nos afligem, muitas vezes de forma idealizada, outras moralizadora ou romântica. Afinal, o cabeça de cuia é algoz ? Ou
será uma vítima? Quantos filhos têm matado a mãe, ou o pai? Ou os dois ao mesmo tempo? Quantos crimes têm sido cometidos contra populações inteiras, contra o erário público, contra a Natureza? Se todos se transformassem em cabeça de cuia ....!?

08/01/2010

Folhas na selva



De repente folhas
caminham em fila na trilha -
formigas tucandeiras.
De manhã a busca
encrespa o igarapé
e penteia as águas.
Roupas estentidas -
o clarear dos relâmpagos
alveja o varal.
Ao passar a chuva
abre o sol timidamente,
um claro sorriso.
Trinar de canário -
um canto de desencanto
de preso no aviário
Sozinho na casa.
Lá fora o canto das cigarras -
ah, se não fossem elas...



Aníbal Beça, Manaus (1946-2009)

02/01/2010

O "Achamento do Brasil"...

A Descoberta da Terra, de Cãndido Portinari
Desembarque de Cabral em Porto Seguro(BA)- Victor Meireles, 1861


Chegada de Cabral a Porto Seguro(BA) - Victor Meireles, 1861



Antiga Torre no Tombo do Castelo de São Jorge(1378)



Primeiro documento escrito da história do Brasil, a Carta de Pero Vaz de Caminha a el-rei Dom Manuel, em 1500, relata suas impressões sobre o Brasil, comunicando-lhe o descobrimento das novas terras, o "achamento do Brasil". A Carta permaneceu desconhecida por mais de dois séculos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, até que em 1773 foi descoberta pelo secretário-adjunto do Marquês de Pombal, José de Seabra da Silva. Entretanto, sua publicação ocorreu apenas em 1817, feita pelo padre Manuel Aires de Casal em sua "Corografia Brasílica". Por tratar-se de um longo texto, preferí apresentar apenas alguns trechos, apenas para termos uma ideia de como era escrito o Português de antigamente, das transformações pelas quais o nosso idioma tem passado, das observações feitas pelo escrivão da Corte Portuguesa, do seu servilismo, e do seu moralismo em relação aos índios. Segundo alguns estudiosos, a 'Carta' é considerada o marco inicial da literatura no Brasil.



Senhor,


posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevem a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar dessas minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que - para o bem contar e falar - o saiba pior que todos fazer!

Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de por mais do que aquilo que ví e me pareceu.

(.....................................................................................)

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:

E digo quê:

(.......................................................................................)

Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das maus a esta nau do Capitão-mor. E alí falaram. E o Capitão-mor mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram.

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Alí andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas, e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.

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E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra ví. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo. E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, para me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que d'Ela receberei em muita mercê.(!)

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro de maio de 1500.


Fonte: wikimedia