30/07/2010

"Panos" para o Cérebro.......!?



Aos olhos dos outros, minha obra é o que são as nuvens no crepúsculo e as estrelas no céu; inútil,... cumpre-vos abolir a realidade do vosso sonho, ela é banal. A única coisa que o poeta tem a fazer é trabalhar misteriosamente.


Stéphane Mallarmé (1842-1898)





O público prefere acreditar que o escritor, como um ser de espécie desconhecida, deve ter certas sensações que contêm tudo, e que são como sacramentos negros.

Maurice Merleau-Ponty ( 1908-196l)




O princípio do mal não é moral: é um princípio de desequilíbrio e de vertigem, princípio de complexidade e estranheza, de sedução, de incompatibilidade. Não é um princípio de morte, mas um princípio vital de desligação.


Jean Boudrillard (1929-1997)




Descobrí pouca coisa que seja boa em relação aos seres humanos. Pela minha experiência, a maioria não sabe nada; não importa se apoiam esta ou aquela doutrina ética, ou se apoiam doutrina alguma.


Sigmund Freud (1856-1939)

28/07/2010

"O Narrador"

"A Pensadora" de Mestre Vitalino

Adere à narrativa a marca de quem a narra, como à tigela de barro a marca das mãos do oleiro. No ato de narrar intervém a atividade da mão, que com os gestos aprendidos no trabalho, apoia de cem maneiras diferentes aquilo que se pronuncia. Se a arte de narrar rareou, então a difusão da informação teve nesse acontecimento uma participação efetiva.

Walter Benjamin, ensaísta e filósofo alemão (1892-1940)



"O batismo do jumento"

O caboclo era carroceiro, passou na porta da igreja tava...doze menino se batizando. O caboclo disse: - Vou batizar meu jumento já, já!

- Padre, eu queria batizar...que você batizasse meu jumento.

- Mas você tá doido, rapaz, batizar o jumento, rapaz?

Não, num faça isso não! Meu jumentinho eu acho tão bonitinho, quero tanto bem! Batize meu jumento!

- Não, batizo não!

No outro dia o caboclo foi de novo:

- Padre, eu vou lhe dar um dinheiro pra você batizar meu jumento.

Dinheiro até avultado, o padre foi e disse assim:

- Olha, depois que eu batizar os menino amanhã, tu traz teu jumento que eu batizo!

- Tudo bem.

No outro dia, quando terminou os...o batizado, aí, o caboclo com o jumento:

- Pronto, padre.

O padre batizou o jumento, quando foi saindo, o bispo vinha entrando.

- Que negócio é esse, João, um jumento dentro da igreja, que é isso? Num dá certo!

O padre correu:

- Bispo, é porque eu batizei esse jumento.

- Batizou o jumento?

- Batizei.

- Por quanto?

- Tanto.

- Ainda ficou com dinheiro?

- Ficou.

O bispo foi, chegou lá, disse:

- Óia rapaz, amanhã traz teu jumento pr'eu crismar, tais vendo?

in "Contos Populares Brasileiros", de Raimundo Nonato Rufino, Santana de Acaraú (CE), recolhido por Francisco de Assis de Sousa Lima.

26/07/2010

Oxumaré e o arco-íris



Estamos na África. É quase fim do dia e ondas de calor ainda sobem do chão, dando ao panorama um aspecto trêmulo de imagem de tv mal sintonizada.
Tudo está calmo, até que, de repente surge no horizonte uma nuvem solitária, que vai postar-se corajosamente à frente do sol. Durante alguns instantes, ela sustenta um bravo combate contra o gigante amarelo, que ainda teima em queimar. A luta, porém, logo revela-se inglória para a nuvem: em poucos minutos ela sucumbe, desmanchando-se em fiapos como uma toalha de rosto ordinária depois da primeira lavada.
Vitorioso, o sol empunha outra vez, o seu cetro ardente e a África volta a arder.
Dali a instantes, outra nuvem aparece. Desta vez, porém, é bem mais robusta. E, o mais importante, ela não vem sozinha: um imenso e encorpado exército de suas irmãs vem atrás. Todas trazem preso ao ventre um imenso escudo de chumbo. Já retumbam nos ares os bumbos marciais, enquanto as espadas recurvas esgrimem ferozmente nos céus. O sol, pela primeira vez, acusa a preocupação, mostrando-se ligeiramente pálido. Uma atmosfera de elétrica tensão espalha-se incontrolavelmente pelo ar.
- Desta vez o combate é pra valer! - gritam as aves no céu, num alarido nervoso de dispersão.
O ruído dos tambores atroa, agora, o teto do mundo. Homens e animais correm pela terra ou lançam-se, sem vergonha, sobre o chão, pois "morrer de raio", sabem todos, não é nada incomum em tais ocasiões.
Finalmente, a batalha começa. Uma chuva de pedras de gelo - gelo em plena África! - cai dos céus como uma fuzilaria celestial. Boa parte do gado desprotegido - especialmente os frágeis bezerrinhos - sucumbe sob a impiedosa descarga. Aqui e ali, veen-se grupos de moleques nus a chuparem avidamente os diamantes miraculosos. Seus olhos brilham mais que as pedrinhas geladas no interior de suas bocas.
E, acima da cabeça dos homens e dos animais, a chuva. Uma chuva estuante, uma enorme cortina d'água que o vento agita selvagemente. No chão, a terra seca sorve a água como uma imensa e ressequida esponja, enquanto as cacimbas vazias escancaram ainda mais para o alto a cova negra de suas bocas.
Tudo é alegria e excitação, agora, menos para um ser inteiramente avesso à chuva.
- Droga de aguaceiro! - diz Oxumaré, protegido por um telhadinho de colmo que o vento ainda não conseguiu levar - E esses trovões? E esses coriscos?
Lá no alto, entretanto, também há mais uma pessoa a desgostar do temporal.
- Socorro! Não enxergo nada! exclama ninguém menos que Olorum, o pai dos deuses.
Seja por causa das ofuscantes descargas elétricas ou por uma moléstia desconhecida qualquer, o fato é que o deus supremo não enxerga mais patavinas naquele momento.
Logo os deuses todos amontoam suas caras retintas diante de seu rei e senhor.
- O que houve? dizem todas as bocas alarmadas.
- Estou vendo tudo preto na minha frente, eis o que é! - diz ele.
Exu, o deus traquinas, tenta acalmar a aflição à sua maneira.
- Pudera, com todo mundo em cima! Fora, todos, vamos! - diz ele, espalhando os deuses.
Mas de nada adiantou, até que Oxumaré aproxima-se, rompendo o bloqueio.
- Deixem-me passar, idiotas! Eu sei curá-lo!
Os dois deuses curadores, Omulu e Ossaim, também são violentamente afastados, originando-se daí, uma violenta querela.
- Desde quando pretende usurpar as nossas funções? - diz Omulu por baixo de sua veste de palha.
Ossaim também esbraveja pela boca de Aroni, seu minúsculo e pernalta porta-voz.
- Deixai a mim o encargo de curar o deus supremo e voltai às vossas atribuiçõezinhas subalternas! - diz o pequeno ser (já que, como vimos, Ossaim é incapaz de falar por si próprio).
Mas Oxumaré teima e não deixa ninguém se aproximar, nem mesmo Xangô, o deus da justiça - de quem aliás, terá no futuro, razões de sobra para querer distância.
- Fora todos! - diz o deus inimigo da chuva, enquanto os relâmpagos continuam a espocar.
Sem dar tempo aos demais, Oxumaré saca, então, a sua faca de bronze e a aponta destemidamente para o céu, onde as nuvens continuam a despejar as suas águas. Logo depois, desenha no céu com sua adaga um grande arco multicor, fazendo o temporal cessar instantaneamente.
- Minha visão! Voltei a enxergar! - brada Olorum, feliz e aliviado.
Obra do arco mágico ou não, o fato é que Oxumaré conseguiu curar o deus supremo, que no mesmo instante, ordenou uma grande festa no Orum (ou céu) para homenageá-lo.
Porém, lá com os seus botões, Olorum pensou: "Não posso permitir, de jeito nenhum,
que ele volte a habitar a terra! Vai que eu volto a ser acometido pela mesma moléstia?"
Então, antes que a festa terminasse, o deus supremo anunciou o seu soberano decreto:
- De agora em diante, Oxumaré, você viverá aqui no céu, sem arredar o pé de mim. Apenas uma única vez deverá retornar à terra, e será sempre que a chuva cair!
Oxumaré ficou de todas as cores do arco-íris, enquanto escutava o restante do decreto:
- A partir de hoje, sempre que a chuva cair sobre a terra, o seu arco será visto a brilhar logo em seguida! - finalizou o deus supremo, com um sorriso paternal.
E foi assim que Oxumaré tornou-se o deus do arco-íris.
Extraído de "As Melhores Histórias da Mitologia Africana", de
A. S. Franchini/ Carmem Seganfredo - Artes e Ofícios Editora Ltda. Porto Alegre (RS)

25/07/2010

La biblioteca de Babel


La escritura metódica me distrae de la presente condición de los hombres. La certidumbre de que todo está escrito, nos anula o nos afantasma. Yo conosco distritos en que los jóvenes se prosternan ante los libros y besan con barbarie las páginas, pero no saben descifrar una sola letra. Las epidemias, las discordias heréticas, las peregrinaciones que inevitablemente degenran en bandolerismo, han diezmado la población. Creo haber mencionado los suicídios, cada año más frecuentes. Quizá me engañen la vejez y el temor, pero sospecho que la especie humana - la única - está por extinguirse y que la Biblioteca perdurará: iluminada, solitaria, infinita, perfectamente inmóvel, armada de volúmenes preciosos, inútil, incorruptible, secreta.
Acabo de escribir infinita. No he interpolado ese adjetivo por una costumbre retórica; digo que no es ilógico pensar que el mundo es infinito. Quienes lo juzgan limitado, postulan que en lugares remotos los corredores y escaleras y hexágonos pueden inconcebiblemente cesar - lo cual es absurdo - . Quienes lo imaginan sin limites, olvidan que los tiene el número posible de libros. Yo me atrevo a insinuar esta solución del antiguo problema: La Biblioteca es ilimitada y periódica. Si un eterno viajero la atravesara en cualquier direción, comprobaria al cabo de los siglos que los mismos volúmenes se repiten en el mismo desorden (que, repetido, seria un orden: el Orden). Mi soledad se alegra con esa elegante esperanza.



Extraído de "Ficciones", de Jorge Luís Borges (1899-1986)

23/07/2010

Denis Diderot, de Louis-Michel van Loo
Mon ami, faisons toujour des contes...

Le temps se passe, et le conte de la vie

s'achève, sans qu'on s'en aperçoive...



Meu amigo, façamos sempre os contos...

O tempo passa, e o conto da vida se acaba,

sem que percebamos...



Denis Diderot (1713-1784)

22/07/2010

O que eu gosto do teu corpo...

Kurt Schwitters (1887-1948)


O que eu gosto do teu corpo é o sexo.

O que eu gosto do teu sexo é a boca.

O que eu gosto da tua boca é a língua.

O que eu gosto da tua língua é a palavra.




Júlio Cortázar, em "Papéis Inesperados"

19/07/2010

'Eterno feminino'....

Foto: Alexander Rodchenko

"O feminino é eterno, mas o 'eterno feminino' não existe, porque muda. Mas o 'eterno feminino' é um termo perigoso inventado pelos homens para significar que as mulheres não são conhecíveis e que são uns seres mais ou menos indecifráveis. Não é
verdade, as mulheres são conhecíveis, conhecem-se a si próprias. O facto de escaparem muitas coisas, acontece a todos nós, que escapamos uns aos outros, senão matávamo-nos entre nós, porque a forma de fixar uma relação é a morte, e então já não vale a pena porque já cá não estávamos para a gozar."




Helder Macedo, poeta e romancista nascido na África do Sul, em 1935. Viveu sua adolescência em Moçambique, mudando-se para Lisboa. Posteriormente mudou-se para Londres, fez licenciatura em Letras e História e um doutorado em Letras, na Universidade de Londres.Tem publicado os romances "Partes da África", "Pedro e Paula" , "Vícios e Virtudes" , "Sem Nome" e vários livros de poemas, entre os quais estão "Viagem de Inverno", "Das Fronteiras" e "Poesia". Atualmente reside em Londres.

18/07/2010

Segredos inconfessáveis...!

Foto: Marcos Moreira

Existem nas recordações de todo homem, coisas que ele só revela aos amigos.
Há outras que não revela, mesmo aos amigos, apenas a si mesmo e mesmo assim, em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de revelar até a si próprio.




Fiódor Dostoievski, escritor russo, autor de "Crime e Castigo", "O idiota", "Os irmãos Karamazov", "Recordações da casa dos mortos", entre muitos outros. (1821-1881)

16/07/2010

Do tempo dos quintais...

guabiroba


Guardo na boca os sabores

da guabiroba e do jambo,

cor e fragrância do mato, colhidos no pé. Distintos.

Araticum, araçá,

ananás, bacupari,

jatobá...todos reunidos

congresso verde no mato,

e cada qual separado,

cada fruta, cada gosto

no sentimento composto

das frutas todas do mato

que levo na minha boca

tal qual me levasse o mato.



Carlos Drummond de Andrade, "Antologia", in Boitempo, coletânea de poemas escritos entre os anos de 1968, 1973 e 1979.

14/07/2010

Escrever é .....



"Escrever é traduzir. Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa língua.
Transportamos o que vemos e o que sentimos para um código convencional de signos, a escrita...E deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não tanto a integridade da experiência que nos propusemos transmitir, mas uma sombra, ao menos do que no fundo do nosso espírito sabemos bem ser intraduzível, por exemplo, a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o rasto de um sonho que o tempo não apagará por completo."



José Saramago (1922-2010)

13/07/2010

Gritar

"Clio, a musa da História", de Pierre Mignard


Aqui a ação simplificou-se.

Derrubei a paisagem inexplicável da mentira.

Derrubei os gestos sem luz

e os dias impotentes.

Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos.

Ponho-me a gritar.

Todos falavam demasiado baixo

e escreviam demasiado baixo.

Fiz retroceder os limites do grito.


A ação simplifica-se.


Porque eu arrebato à morte essa visão da vida

que lhe destinava um lugar perante mim.


Com um grito

tantas coisas desapareceram

que nunca mais voltará a desaparecer

nada do que merece viver.


Estou perfeitamente seguro que o Verão

canta debaixo das portas frias

sob armaduras opostas.

Ardem no meu coração as estações

as estações dos homens e seus astros

trêmulos de tão semelhantes serem.


E o meu grito nu sobe um degrau

da escadaria imensa da alegria.


E esse fogo nu que pesa

torna a minha força suave e dura.


Eis aqui a amadurecer um fruto

ardendo de frio orvalhado de suor.

Eis aqui o lugar generoso

onde só dormem os que sonham.

O tempo está bom, gritemos com mais força

para que os sonhadores durmam melhor

envoltos em palavras

que põem o bom tempo nos meus olhos.

Estou seguro de que a todo momento

filha e avó dos meus amores

da minha esperança,

a felicidade jorra do meu grito

para a mais alta busca.

Um grito do qual o meu seja o eco.



Paul Éluard, pseudônimo de Eugène Emile Paul Grendel

(1895-1952) - Tradução de Antonio Ramos Rosa/Luísa Neto Jorge

12/07/2010

Tráfico de mulheres na Europa.....

Leilão de escravas brancas, Jean-Leon Gerôme (Antiguidade)

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), há cerca de 140 mil mulheres vítimas do tráfico relacionado ao mercado da exploração sexual na Europa.
Estima-se que, por ano, são feitas 70 mil novas vítimas do crime organizado pela exploração sexual. A Organização estima ainda que estas 140 mil mulheres traficadas façam, juntas, cerca de 50 milhões de programas sexuais por ano, a um valor médio de 50 euros cada. No total, isso representa um lucro anual que atinge 2,5 bilhões de euros, o equivalente a R$ 5,5 bilhões!



Trecho extraído do artigo da jornalista Tatiana Félix, em www.cartamaior.com.br

10/07/2010

Roberto Piva - (1937 - 2010)


"O objetivo de toda Poesia & de toda Obra de Arte foi sempre uma mensagem de Libertação Total dos Seres Humanos escravizados pelo masoquismo moral dos Preconceitos, dos Tabus, das Leis a serviço de uma classe dominante cuja obediência leva-nos preguiçosamente a conceber a Sociedade como uma Máquina que decide quem é normal & quem é anormal."

08/07/2010

Acrílica s/tela - "cirandeira"
Ciência

Começo a ver no escuro
um novo tom
de escuro


Começo a ver o visto
e me incluo
no muro


Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga


E a esmerilhar a graça
da vida, em sua
fuga



Carlos Drummond de Andrade, em "Reunião", 1969

06/07/2010

Microcontos da ABL

Massartwork, Jonathan Callan

"Toda terça ía ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida."


Microconto de Bibiana Silveira da Pieve, do Rio de Janeiro, primeiro lugar no Concurso de Microcontos do ABLETRAS, promovido pela Academia Brasileira de Letras. Participaram 2.293 candidatos. O próximo desafio promovido pela ABL será dar continuação ao conto "A Cartomante", de Machado de Assis, o fundador da Academia. Alguém se habilita?




"Joguei. Perdí outra vez! Joguei e perdí por meses, mas posso apostar: os dados é que estavam viciados. Somente eles, não eu."



Carla Ceres Oliveira Capeleti, de Piracicaba, SP - classificada em segundo lugar.



"Não sabia ao certo onde tecer sua teia. Escolheu um cantinho de parede da cozinha. Acertou na mosca."


Eryck Gustavo Silva de Magalhães, de Guaratinguetá, SP - classificado em terceiro lugar.

BRAVO!, URUGUAYOS, BRAVÍSSIMO!!!

URUGUAY - Vai dar zebra?


Foto: trekearth Foto: skyscrapercity

Foto: skyscrapercity
Foto: trekearth

Brasil-Uruguay (fronteira




Foto trekeart
Montevidéu - foto: tripadvisor.com
Quem poderia imaginar que nessa Copa, o Uruguay seria o único país do continente latino-americano a enfrentar um time europeu! Após 60 anos ei-lo ressurgindo das cinzas, qual uma fênix... Olé URUGUAY, à la victoria. De todas maneras, ya es campeón, estoy torcendo por una ZEBRA!!!
Confesso que nunca fui torcedora de futebol, nem sou ufanista. Acho que numa competição um ganha e o outro perde, não tem como ser diferente. Na vida também é assim, nem sempre conseguimos o que queremos, mas continuamos, aprendendo a lidar com as frustrações, com as pedras que surgem pelo caminho...No caso de um campeonato mundial como é a Copa, é evidente que cada país torcerá pelos seus jogadores e por seu líder. O Brasil perdeu essa, mas ganhou muitas...! Podemos muito bem torcer pelo time de nosso vizinho, nossos irmãos, do mesmo continente. Jamais torceria por um time europeu, em nenhuma hipótese!, porque não tenho nenhuma identificação com alemães, nem com holandeses. Muito pelo contrário, a História está aí para nos contar o que esses povos fizeram conosco: invadiram nosso continente, mataram populações indígenas inteiras (os verdadeiros habitantes!), trouxeram negros da África em porões de navios, acorrentados, para trabalho escravo, e, ainda hoje, nos olham de cima, com arrogância. Como poderia identificar-me com essa gente?
Acho também que faz muito tempo que o futebol deixou de ser um Esporte para transformar-se num "grande negócio" lucrativo para poucos, pouquíssimos! E a corrupção rola solta, essa é que é a triste verdade. Mas "eles" sabem manipular muito bem os torcedores jogando-os contra o seu técnico e até contra determinados jogadores, dependendo de seus interesses. Trocam a parte pelo TODO, usando sempre um bode expiatório.

04/07/2010

Dois poetas uruguaios

"Mujer a llorar" - Pablo Picasso


Nada


Nada de aquello que perdura a los ojos
sobreviverá
tal vez se muestre de otra forma
o asome entre las sábanas del viento
o mientras crece
se reúna al sol
con los espejos


Roberto Bianchi, Montevidéu, 1940



No quieres venir a llorar conmigo?


No quieres venir a llorar conmigo?
Hay algo
la ciruela morada cayó del árbol
una nube oscurece placidamente
la habitación
nadie?
goteaba la canilla de la cocina
serena y suave
te necesito
estoy descendiendo por una escalera mecánica
que me lleva a ciegas
soy yo?
sin embargo me veo sentada a la mesa
escribiendo
y "cuando quiero llorar no lloro
y a veces lloro sin querer", hermano mio
haremos una reunión
plañidera en las entrañas de la angustia
el tiempo nos mira y nos engaña
trampa?
alucinación?
la ciruela morada
cayó del árbol
lo siento
dijo el viento
y pasó de largo
levandose lo más querido
y aqui estoy
en el borde mismo
de lo que no sabemos
en este rincón
de la casa
te necesito
óigame quién me oiga
quieres venir a llorar comigo?



Amanda Berenguer, Montevidéu. (1924 - )

02/07/2010

Negra

Acrílica sobre papel kraft, de "cirandeira"
A negra para tudo

a negra para todos

a negra para capinar plantar

regar

colher carregar empilhar no paiol

ensacar

lavar passar remendar costurar cozinhar

rachar lenha

limpar a bunda dos nhozinhos

trepar



A negra para tudo

nada que não seja tudo tudo tudo

até o minuto de

(único trabalho para seu proveito exclusivo)

morrer






Carlos Drummond de Andrade, em "Boitempo"

01/07/2010

Aparências...




Um Homem deve ser o que parece ser.

Quanto àqueles que não são o que parecem ser...

Ah, se pelo menos não parecessem ser o que não são!



William Shakespeare, em "Otelo"