DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

09/06/2011

Sobre pessoas (Crônicas)



O palhaço e o poeta


O palhaço se chamava Benjamin de Oliveiram o negro que se tornou uma lenda viva no mundo circense, em que começou como pau-para-toda-obra, vindo a ser o protagonista de um dos capítulos mais vibrantes de sua história, a partir da Proclamação da República.


Aclamado "mestre de gerações" por Procópio Ferreira - considerado o ator do século - e "rei dos palhaços do Brasil" em importantíssimo pleito, ele foi também o galã teatral que, devido ao preconceito racial, tinha de se pintar com alvaiade para desempenhar o papel de Otelo, que exigia dos atores brancos exatamente o contrário: uma mão de tinta preta em suas caras. Mas ainda é um personagem em busca de autores. Para um romance, um filme, uma peça de teatro, uma minissérie

Não faltam talentos que possam representá-lo em suas diferentes idades (morreu aos 84 anos). Olhem aí o Lázaro Ramos e o Milton Gonçalves, além dessa rapeize revelada em Cidade de Deus. Das peripécias da infância à epopeica fuga da sua aldeia, dos golpes do acaso que o levaram ao estrelato e dele ao seu melancólico fim, temos aí um enredo de alta voltagem, em aventura, ação, suspense, emoção, imprevistos.

Nascido em Pará de Minas, Benjamin de Oliveira era filho de um ex-escravo que foi peão da fazenda do avô de Gustavo Capanema, um dos mais reverenciados ministros de Getúlio Vargas. Primeiro emprego: "madrinha de tropa" de burros. Segundo: vendedor de bolos em porta de circo. Acabou fugindo com uns ciganos, que o escravizaram. Escapou deles e caiu no mato, indo parar no estado de São Paulo. Viu um circo e se apresentou. E, de circo em circo, acabou chegando a Cascadura, aqui no Rio. Surpresa: toda noite Floriano Peixoto, o presidente da República, ía assití-lo. E deixava-lhe uma gorjeta, Isso funcionou como deixa para o circo se mudar para bem perto do palácio da presidência.Resultado: o filho do homem, Florianinho, se apaixonou por uma trapezista e seguiu a trupe quando ela foi embora. E virou circense, na dupla condição de chefe da contabilidade e da carteirada , nas encrencas com a polícia. Bastava ele mostrar o seu documento de identificação para livrar a turma da cadeia.

O palhaço negro, que enriqueceu muitos empresários, terminou os seus dias vivendo de uma mísera pensão, conseguida pelo então deputado Jorge Amado.

Agora vamos ao poeta. Este era o chefe de gabinete de Capanema, no Ministério da Educação e Saúde. Uma vez cai-lhe às mãos o processo 6451/41, do Serviço Nacional de Teatro. Assunto: Benjamin de Oliveira, o mais velho palhaço e antigo empresário do pavilhão-teatro, pede o auxílio de pagamento de passagens de 42 artistas e o transporte de todo o material do seu circo, ida e volta, para uma excursão a Belo Horizonte. "Avaliação": "o teatro do requerente" não se enquadrava na proposta de "educação popular" do governo. Despacho final: "Indeferido, em face do parecer. De ordem do sr. Ministro..."

Autografa-o C.Drummond. Em 30.4.41.

E o palhaço dançou.

Antonio Torres, jornalista e escritor nascido em Sátiro Dias (sertão baiano), autor de Essa Terra, Sobre as pessoas(Editora Leitura), Meu querido canibal, Um cão uivando para a lua, entre muitos outros.

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