13/09/2011

Tenho que falar...




Tenho que falar, não tendo nada a dizer, nada a não ser a palavra dos outros. Não sabendo falar, não querendo falar, tenho que falar. Ninguém me obriga a isso, não há ninguém, é um acidente, é um fato. Nada poderá jamais me dispensar disso, não há nada, nada a descobrir, nada que diminua o que falta dizer, tenho o mar a beber, então há um mar. Não ter sido bobo, é isso que terei tido de melhor, feito de melhor, ter sido bobo, querendo não ser, acreditando não ser, sabendo que era, não sendo bobo de não ser bobo. Pois uma coisa qualquer, isso não funciona, devia funcionar, mas não. É um suplício intricado, impossível de entender, de limitar, de sentir, de suportar, sim, insuportável também, sofro mal também, até isso também faço mal, como uma velha perua morrendo em pé, o dorso carregado de pintinhos, espreitada pelos ratos. Depressa a sequência. Nada de gritos sobretudo, urbanidade, saber morrer, enquanto os outros se divertem, ouço-os daqui, isso estala como espinhos, não, é impossível, sou eu que urro, longe, por trás da minha dissertação. Então nada de uma coisa qualquer. [...]


Samuel Beckett, em O inominável

6 comentários:

  1. EXCELENTE TEXTO. LA IMAGEN; UN TANTO INNATURAL.
    UN ABRAZO

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  2. La imagen es innominable!!!

    un abrazo

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  3. Ci, vc sempre pinça pérolas: invariavelmente! Elas estão, portanto, dentro de vc, e o que está dentro atrai o que está fora. Supertexto esse!
    Beijos,

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  4. Ai, ai, ai! Tânia! Tu, és realmente
    de uma generosidade e delicadeza,
    que me emociono!
    Obrigada por tuas palavras!

    Super beijo

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  5. Mais um post para nos prender a atenção e o pensamento...
    És um peixe de águas profundas, Ci!

    Beijo :)

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  6. Meu querido AC...! Nem sei o quê dizer, Eu só sei que nado, nado e nem sei se é para nada ou para tudo
    pois o mar não está para peixes :)

    beijo grande

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