25/11/2011

Graciliano Ramos

Foto: Evandro Teixeira

Falo somente com o que falo:

com as mesmas vinte palavras

girando ao redor do sol

que as limpa do que não é faca;

de toda uma crosta viscosa,

resto de janta abaianada,

que fica na lâmina e cega

seu gosto da cicatriz clara.

* * *

Falo somente do que falo:

do seco e de suas paisagens,

Nordestes, debaixo de um sol

alí do mais quente vinagre;

que reduz tudo ao espinhaço,

crosta e simplesmente folhagem,

folha prolixa, folharada,

onde possa esconder-se a fraude.

* * *

Falo somente por quem falo:

por quem existe nesses climas

condicionados pelo sol,

pelo gavião e outras rapinas;

e onde estão os solos inertes

de tantas condições caatinga

em que só cabe cultivar

o que é sinônimo da míngua.

* * *

Falo somente para quem falo:

quem padece sono de morto

e precisa um despertador

acre, como o sol sobre o olho;

que é quando o sol é estridente,

a contra-pelo, imperioso,

e bate numa porta a socos.

João Cabral de Melo Neto, em Poesias Completas - Editora Sabiá.

4 comentários:

  1. Ci,
    Do que sei do Brasil, parece-me que ele tem uma grande diversidade de territórios e de gentes. Do nordeste me vão chegando algumas notícias, quase todas elas marcadas pela agrura da vida. Mas uma adversidade que, apesar de tudo, tem moldado muitas pessoas de carácter.

    Beijo :)

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  2. Tens razão, AC, somos um país cheio de diversidades e adversidades, também;acho até que
    somos vários Brasis dentro de um só
    Brasil, cada qual com características próprias, inclusive
    de linguagem. Mas o Nordeste é a região mais sofrida, mais pobre, não por falta de riquezas, mas devido a sua má utilização, e, devido a muitas dificuldades, o nordestino foi aprendendo a se tornar forte, apesar de tudo!
    Acho que João Cabral foi o poeta
    que melhor retratou a condição do
    nordestino, que conseguiu extrair
    beleza dessa paisagem quente, seca,
    mas iluminada pelo sol!

    beijos :)

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