30/01/2011

Um poema, uma entrevista com walter hugo mãe



o poeta como nu

para o pedro guimarães e para a laura machado


um dia apareceu um poeta sem pétalas,
nunca tal se vira. sem pétalas, dizia-se,
estava igual a nu, coberto de nada que o diferisse,
como se ser poeta não trouxesse marcas à
flor da pele. algumas pessoas riram-se nervosamente,
e só por isso o estranho poeta se foi
embora sem outra notícia




O escritor que não usa maiúsculas para o leitor ficar sem travões

Isabel Coutinho

Quando lhe perguntam se vive da escrita, responde que está a “morrer da escrita”. Licenciado em Direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea, valter hugo mãe, 36 anos, trabalhou no Centro de Estudos Regianos em Vila do Conde, foi sócio-gerente das Quasi Edições em Vila Nova de Famalicão durante anos. Criou Objecto Cardíaco, editora que faliu porque se “atrapalhou com a contabilidade.”Foi poeta antes de ter descoberto a prosa quando, em três dias, “o nosso reino”, primeiro romance que publicou em 2004, lhe começou a aparecer no computador.Por “o remorso de baltazar serapião”, segundo romance, recebeu o Prémio Literário José Saramago – Fundação Círculo de Leitores, o ano passado. Para o Nobel português, este livro foi “uma revolução”, “um tsunami, não no sentido destrutivo, mas da força.” Regressa agora. “o apocalipse dos trabalhadores” é um retrato do nosso tempo, uma história que se passa em Bragança.Nasceu em 1971, na cidade angolana Henrique de Carvalho, mas cedo veio para Portugal. Fez a escola primária em Paços de Ferreira, onde viveu antes de ir morar aos nove anos para Caxinas, zona piscatória de Vila de Conde.De vez em quando é dado a assombros de rebeldia. Na capa de um dos seus livros, “pornografia erudita”, é reproduzida uma fotografia em que aparece nu. Essa capa é posterior a “uma aventura ainda mais pirotécnica”, que foi a experiência de ser fotografado nu na Avenida da Liberdade em Braga, num domingo à tarde. “Precisava de me sentir fora de uma convenção, sentir que ainda tinha força para me reinventar.”Um dos seus amigos, Paulo Brandão, programador do Theatro Circo em Braga, fez a instalação “o teorema de valter” para uma exposição no Museu Nogueira da Silva. “Ele só pensa em coisas escatológicas, tenebrosas e substancialmente imorais. Disse-me que eu ia ser o seu objecto de arte. Pediu-me as minhas unhas, cabelos, pêlos púbicos, urina e ainda esperma. É um dos meus melhores amigos e não tive como não me sujeitar à violência.”Está a trabalhar numa exposição de artes plásticas que fará até ao final do ano e vai publicar um livro onde reúne a sua poesia. Mas nos últimos anos a relação com a prosa tornou-se tão fundamental que está “às aranhas”: muitos dos poemas nunca mais reeditará. Por estes dias, a única poesia que faz são letras para canções (para Mundo Cão, Clã, Rui Reininho, Paulo Praça).P. Como chegou à Maria da Graça e Quitéria? Estas personagens, duas mulheres-a-dias de Bragança, são a alma deste romance com título estranho, “o apocalipse dos trabalhadores”.V.H.M – Não foi por acaso que decidi chamar-lhe Maria da Graça. Ela vai vivendo uma certa desgraça, muito relativa. Faz a opção pelo erro, quando o erro é para ela o caminho da felicidade. Gosto disso na personagem.Nos meus romances preocupo-me obsessivamente com as mulheres. Compadeço-me mais facilmente com a desgraça delas. Porquê? Não sei. Talvez porque adoro a minha mãe e a seguir à minha mãe existe a minha irmã mais velha, que era a minha segunda mãe. E depois há a minha outra irmã – mais velha do que eu e do que o meu irmão -, que era a minha terceira mãe. Sou o mais novo: muito estragado por elas.Enterneço-me mais com a perdição das mulheres do que com a dos homens. As mulheres sobrevivem muito mais, lutam muito mais, resistem muito mais. Mas se tiverem de morrer fazem-no sem tanta hesitação. Isso fascina-me, seduz-me e enternece-me.
O sagrado e o profano, a vivência quotidiana da religião, a relação com Deus e o Diabo são temas do seu universo literário. E neste livro está muito presente a morte.
Tenho uma concepção estranha da morte; acho que é a nossa grande oportunidade. Se não for a morte que nos leva a algum lugar absolutamente incrível, não vai ser rigorosamente mais nada. A menos que se arranje um bilhete para os Açores, a vida é difícil.Tenho esse fascínio de saber o que acontece no momento em que desligamos a máquina. Dia sim, dia não acredito na vida depois da morte. Não consigo escapar à ponderação desse momento.
Embora tenha nascido em África, em Angola.
Só lá estive até aos dois anos e meio. Cresci como uma criança muito feliz em Paços de Ferreira. Não tenho memórias de África, a minha memória mais antiga é do 25 de Abril. De alguma forma foi o dia em que a minha cabeça nasceu.No dia 25 de Abril de 1974 o meu pai tinha uma reunião no Banco de Portugal, em Lisboa, e fizemos a viagem na estradinha antiga, demorámos muitas horas. Não se ouviu rádio, não se tomou qualquer consciência do que estaria a acontecer e quando chegámos a Lisboa a memória que tenho é de estar num parque a brincar com um miúdo loirinho, de olhos azuis, e o meu pai aparecer aos gritos a dizer: “Antónia, Antónia é uma guerra, é uma guerra!” A minha mãe pegou em mim, começamos a correr para o carro, arregalei os olhos, fiquei espantado. Ouvimos uns tiros, provavelmente alguém a matar pardais [risos]. Tenho essa memória e a da expressão que aquele miúdo dizia: “Eu cá vou para o escorrega”, “eu cá vou fazer isto”. Nunca tinha ouvido tal coisa. Fiquei com isto para a vida toda. “Eu cá…” e o meu pai a gritar “é a guerra, é a guerra” porque não percebeu nada do que se estava a passar e ouviu uns tiros.
Também já afirmou que teve uma “meninice livre”, permitida numa vila pequena como era Paços de Ferreira.
Cresci em Paços de Ferreira como uma coisa selvagem. O perigo era zero, vinha todo da nossa cabeça. Perigoso era se houvesse um buraco que não se visse e nos atirássemos lá para dentro. Às vezes sabia-se que os miúdos rachavam a cabeça e partiam as pernas, mas os perigos eram estes. Eram nossos, ninguém nos faria mal. Cresci assim, muito na terra, em cima das árvores e a subir aos castelos de madeira. Já havia muitos madeireiros e muitas fábricas de móveis. A madeira fica empilhada e saltávamos de uns para os outros. Tive uma sorte danada por nunca me ter estropiado. Os meus amigos têm cicatrizes incríveis, uma lojinha de horrores.
Foi aí que frequentou a escola primária.
Não queria lá entrar porque o meu irmão me dizia que batiam muito. Cada um tem que procurar as suas invisibilidades.
Mas, mais tarde, as maiúsculas desapareceram dos seus textos.
A dada altura percebi que as minúsculas ligam o texto, aceleram-no, precipitam o leitor. As vírgulas ficam menos virguladas e os pontos menos pontuados. Então as pausas tendem a ser mais breves. Há uma aceleração que se junta a uma certa urgência da história. O leitor fica sem travões.
Tem tido reacções de leitores? Dificulta-lhes a leitura?
Ao que sei, no início, a primeira reacção é um choque. As pessoas ficam aflitas, não sabem onde parar, não percebem onde a frase acabou. Mas o leitor menos preguiçoso habitua-se ao fim de quatro páginas e consegue deslizar. Consegue seguir naquela leitura com menos travões com alguma destreza. Fico contente quando percebem que este tipo de pontuação os leva mais rápido ao fim da história.
Como começou a arquitectar este romance?
Pelo Andriy [personagem] que vem para Portugal para voltar mais tarde para a Ucrânia rico – uma das ideias mais perversas deste livro. A primeira pulsão teve que ver com xenofobia. Estava com o meu círculo de amigos no café e achei que éramos aborrecidamente convencionais: todos brancos, com uma família portuguesa normalíssima, sem nenhuma mega-desgraça e nenhum brilho especial; não temos nenhum amigo africano, nem transexual, somos chatos de tão normais. Nessa altura entraram uns ucranianos no café e decidimos incluir no nosso grupo alguém que viesse de fora. Precisávamos de gente que nos trouxesse experiências diferentes e nos obrigasse a pensar e a ver as coisas de outra forma. Na altura pensei: precisamos destes ucranianos até ao tutano. É urgente sabermos quem são, de onde vêm e se gostam de aqui estar. Então atirei-me violentamente a eles.
Quem são eles?
Trabalham em Vila do Conde nas obras ou fazem limpezas. Muitos têm cursos superiores. Foi uma excelente conquista ter aquelas pessoas como amigas. Quando um deles finalmente me conseguiu explicar a expressão Grande Fome da Ucrânia – não conseguia formulá-la assim, dizia que era “muita fome ucraniana” -, fui pesquisar e percebi que todo o século XX da Ucrânia é atravessado por um enfraquecimento psicológico e físico das pessoas, que tem que ver com o facto de terem morrido milhões à fome e poucos anos depois na Segunda Guerra Mundial morreram ainda mais. Diziam-me que um ucraniano quando foge de alguma coisa foge da fome, mesmo que coma. Porque o medo de voltar a passar fome é uma coisa das novas gerações ainda. É impressionante.Tentei fazer alguns paralelos e não temos nada assim. Poderíamos sentir a necessidade da liberdade porque alcançámo-la apenas em 1974. Mas as novas gerações estão a leste do 25 de Abril. Foram essas coisas que me convenceram que precisava de ter uma personagem ucraniana no livro e de combater a nossa pequena xenofobia de estarmos todos os dias sentados com as mesmas pessoas e não nos disponibilizávamos a um esforço mínimo de chegar ao espaço do outro.
O seu percurso é singular: publicou vários livros de poesia, está traduzido no estrangeiro. Durante anos fugiu da prosa mas foi através dela que encontrou o seu lugar na nova geração de escritores portugueses.
Há quem não goste nada da minha poesia. A prosa veio ao meu encontro, eu não estava à procura. Era tão reaccionário que quando fiz a pós-graduação com o professor Luís Adriano Carlos eu dizia nas aulas: “Abaixo a prosa! Os prosadores são todos uns chatos. Contar historinhas? As historinhas estão todas na Bíblia. A mim interessa-me é o trabalho da linguagem, a força das expressões, a poesia e os poetas é que são.”Por causa dessa pós-graduação, que deviria ter sido um mestrado, tranquei-me em casa e estive dias a vegetar em frente ao computador.Ao fim de dois dias, um domingo, completamente moído do cérebro, prestes a entrar numa depressão e a telefonar ao professor a dizer “não vou fazer mestrado, não consigo escrever uma linha sobre isto estou sem cabeça”, vi subitamente no ecrã do computador um documento que dizia “era o homem”. Abri e tinha uma única frase: “era o homem mais triste do mundo.” [Primeira frase do seu primeiro romance: "era o homem mais triste do mundo, como numa lenda, diziam dele as pessoas da terra, impressionadas com a sua expressão e com o modo como partia as pedras na cabeça e abria bichos com os dentes tão caninos da fome."] Não sei se foi a ligação mágica ao que eu estava a sentir, a minha vida ali parada, prossegui aquela frase até às 52 páginas escritas. Fui levado pela mão por aquele texto. Acabei “o nosso reino” e fiquei tão obcecado que imediatamente comecei a escrever “o remorso de baltazar serapião”.
Como chegou depois este manuscrito à sua editora, Maria do Rosário Pedreira?
Fiquei indefeso perante aquilo. Não conseguia discernir, não sabia o que aquilo era. Tinha conhecido o editor João Rodrigues que na altura estava na Ambar e gostei tanto dele que queria que ele editasse o meu livro. Mas não tinha lata de lhe aparecer assim a pedir para me editar o livro. Escrevi então uma carta à Maria do Rosário Pedreira, minha amiga, a explicar-lhe que embora quisesse que ela lesse, o romance era para ele. Precisava de ter a certeza de que não estaria a incomodá-lo se lhe mandasse o livro.Ela recebeu o livro numa sexta, vim a Lisboa na terça ver a Adriana Calcanhoto, ela disse que queria jantar comigo e disse-me: “Já li o teu romance e o romance é meu.” Como assim?, perguntei. “Não vou dar este romance a ninguém. Desculpa, podes adorar o João Rodrigues, o que quiseres, mas este romance é meu!”Garantidamente foi um dos dias mais felizes da minha vida. Entrei numa dimensão da qual não quero sair. A hipótese de fantasiar ainda mais a minha vida foi-me permitida pela prosa.


Trechos de uma entrevista concedida a Isabel Coutinho do blog ciberescritas, em 2008.

27/01/2011

Enquanto agonizo (trechos)

Manabu Mabe


(...) um riacho de amarelo nem água nem terra rodopia, dobrando a estrada amarela nem terra nem água, morro abaixo se dissolvendo numa massa inquieta de cor verde escura nem terra nem céu.

***

(.....) eu pensava como as palavras descrevem uma linha reta e fina, rápida e inofensiva, e em quão terrivelmente vai pela terra, aferrando-se a ela, para que depois de um tempo as duas linhas estejam separadas demais para que uma mesma pessoa passe de uma a outra; e que pecado e amor e medo são apenas sons que pessoas que nunca pecaram nem amaram nem temeram utilizam para designar o que jamais tiveram nem poderão ter até que esqueçam as palavras.

***

{......}

Às vezes não tenho tanta certeza de quem tem o direito de dizer quando uma pessoa está louca e quando não. Às vezes penso que nenhum de nós é totalmente louco e que nenhum de nós é totalmente são até que o nosso equilíbrio diga ele é desse jeito. E como se não importasse o que o sujeito faz, mas a forma como a maioria das pessoas o vê quando ele faz.


William Faulkner, escritor norte-americano (1897-1962)

25/01/2011

Limites



Quién dijo alguna vez:

hasta aqui la sed,

hasta aqui el agua?


Quién dijo alguna vez:

hasta aqui el aire,

hasta aqui el fuego?


Quién dijo alguna vez:

hasta aqui el amor,

hasta aqui el odio?


Quién dijo alguna vez:

hasta aqui el hombre,

hasta aqui no?


Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.

Sangran.




Quem disse alguma vez:

até aqui a sede,

até aqui a água?


Quem disse alguma vez:

até aqui o ar,

até aqui o fogo?


Quem disse alguma vez:

até aqui o amor,

até aqui o ódio?


Quem disse alguma vez:

até aqui o homem,

até aqui não?


Somente a esperança tem joelhos nítidos.

Sangram



Juan Gelman, Buenos Aires, 1930

24/01/2011

VERGONHA NACIONAL !!

Crônica de Luiz Fernando Veríssimo sobre o "BBB"

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado
pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço...A décima terceira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil, encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB 10 é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB 10 é a realidade em busca do IBOPE..
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB 10. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
Se entendi corretamente as apresentações, são 15 os “animais” do “zoológico”: o judeu tarado, o gay afeminado, a dentista gostosa, o negro com suingue, a nerd tímida, a gostosa com bundão, a “não sou piranha mas não sou santa”, o modelo Mr. Maringá, a lésbica convicta, a DJ intelectual, o carioca marrento, o maquiador drag-queen e a PM que gosta de apanhar (essa é para acabar!!!).
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível.Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?
São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados..
Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia.
Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis, são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína, Zilda Arns).
Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?
(Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!)
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema..., estudar.... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... ,telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.
Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.

22/01/2011

Um dia...



Um dia irei enfim

até ao fim do mundo.

Irei até ao fim do fundo.

Até ao fim do fim.

Irei por ti, por mim,

meu amor vagabundo,

um amor tão profundo

não termina assim.

Um dia irei enfim

até ao findo mundo,

até ao fundo fim.

Até ao fim de mim.



Extraído de "Barroco Tropical", de José Eduardo Agualusa, escritor angolano, de Huambo.

20/01/2011

Mal me quer ou bem me quer...

Mal me quer a solidão
Bem me quer a tempestade
Mal me quer a ilusão
Bem me quer a liberdade
Mal me quer a ilusão
Bem me quer a liberdade
Mal me quer a voz vazia
Bem me quer o corpo quente
Mal me quer a alma fria
Bem me quer o sol nascente
Mal me quer a alma fria
Bem me quer o sol nascente
Mal me quer a casa escura
Bem me quer o céu aberto
Bem me quer o mar incerto
Mal me quer a terra impura
Mal me quer a solidão
Entre o fogo e a madrugada
Bem me quer ou mal me quer
Muito pouco ou quase nada
Bem me quer ou mal me quer
Muito pouco, tudo ou nada!

Estações internas



Estou contando com a primavera
Ultimamente não tem havido flores
dentro de mim: tenho andado
meio chuvoso, horizontes nublados,
embora tempestuosos, são
frios, frios.
Hoje de manhã não abrí a janela
Saí de surpresa. E de surpresa
ví o dia: estava lindo.
E fiquei com vontade
de mudar minha meteorologia
interior. Decididamente vou romper
com este inverno. Estou muito úmido
por dentro. Para tanto, receita
simples. Vou com o vento comer,
devorar um raio, um raio de sol.



José Carlos Limeira, Salvador (BA)

19/01/2011

O troca-troca de Bule Bule


A máquina de lavar louça
eu troquei numa gamela,
deixe quem quiser falar,
mamãe se dá bem com ela

Troquei a geladeira numa talha,
minha blusa de náilon num gibão,
o meu filtro chinês por um purrão,
meu chapéu de baeta num de palha,
minha moto num burro de cangalha,
meu revólvver numa baleadeira,
o tapete importado numa esteira,
uma jarra vidrada por moringa,
meu uísque escocês dei por pinga
e a guitarra em viola de madeira...

A máquina de lavar roupa,
eu troquei....

A lasanha gostosa do almoço
eu conseguí coragem pra trocar
por buchada e carne pra assar,
vou comendo com bem menor esforço
troquei quibe por carne de pescoço,
cocaína branquinha por rapé,
o sapato caríssimo do meu pé,
troquei numa alpercata de rabicho.
Faço isso com garra e com capricho,
ser feliz eu espero, tenho fé.

A máquina de lavar roupa,
eu troquei numa gamela...
Deixe quem quiser falar,
mamãe se dá bem com ela,
mamãe se dá bem com ela...!


Itálico

Não me leve pro mar...
Não me leve pro mar,
que eu não vou
porque eu não sei nadar...!

Bule Bule, poeta, repentista e músico, de Antonio Cardoso (BA)

16/01/2011

O excesso mais perfeito




Queria um poema de respiração tensa e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse ao ver,
lá no fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.
Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos de dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura
e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente
da pureza do granito e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo.
E alí ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão) preciosas.
Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.
Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifônico
a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos, de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só de fulguração
do seu olhar. Dourado.
Música, música, música e a explosão de cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murilo calado, ao ver que simples
eram os seus anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e perfeito excesso.
Gôngora empalidecer
como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu, carregada
de nada.



Ana Luísa Amaral, Em Às vezes o paraíso
"A leitora", tela de Pierre-August Renoir

Lavadeiras do rio Jequitinhonha - MG

15/01/2011

Brincando com o cérebro...


De aorcdo com uma peqsiusa
de uma uinrvesriddae ignlsea,
não ipomtra em qaul odrem as
Lteras de uma plravaa etãso,
a úncia csioa iprotmatne é que
a piremria e útmlia Lteras etejasm
no lgaur crteo. O rseto pdoe ser
uma bçguana ttaol, que vcoê
anida pdoe ler sem pobrlmea.
Itso é poqrue nós não lmeos
cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa
cmoo um tdoo.

Sohw de bloa.

Fixe seus olhos no texto abaixo e deixe que a sua mente leia corretamente o que está escrito.

35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 M05TR4R COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R CO1545 1MPR3551ON4ANT35! R3P4R3 N155O! NO COM3ÇO 35T4V4 M310 COMPL1C4DO, M45 N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3, S3M PR3C1S4R P3N54R MU1TO, C3RTO? POD3 F1C4R B3M ORGULHO5O D155O! SU4 C4P4C1D4D3 M3R3C3! P4R4BÉN5!

Consegues encontrar 2 letras B abaixo? Não desistas senão o teu desejo não se realizará...

RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
RRRRRRRRRRRBRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
RRRRRRRRRRBRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR

Uma vez que encontrares os B

Encontra o 1

IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIII1IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

Uma vez o 1 encontrado.

Encontra o 6

9999999999999999999999999999999999
9999999999999999999999999999999999
9999999999999999999999999999999999
9999999999999999999999999999999999
9999999999999999999999999999999999
9999999999999999999999999999999999
9999699999999999999999999999999999
9999999999999999999999999999999999
9999999999999999999999999999999999
9999999999999999999999999999999999
9999999999999999999999999999999999
9999999999999999999999999999999999


Uma vez o 6 encontrado ......

Encontra o N (É díficil!)

MMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMNMMMMM
MMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMMMMMMM
MMMMMMMMMMMMM

Uma vez o N encontrado...

Encontra o Q..

OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOQOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

12/01/2011

Soneto das definições


Não falarei de coisas, mas de inventos
e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito,
à música das cores e do vento.

Multiplicar-me-ei em mil cinzentos
(desta maneira, lúcido me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cataventos.

Daí, o meu desprezo a jogos claros
e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.

Daí também, a enorme divergência
entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.



DESMANTELO AZUL


Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vestí meus gestos insensatos
e colorí as minhas mãos e as tuas

Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas

E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço

E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nascia um sul
vertiginosamente azul: azul
Carlos Pena Filho, Recife (PE) - 1929-1960

11/01/2011

La vaca estudiosa

"La boca", bairro de Buenos Aires


Habia una vez una vaca
en la Quebrada de Humauaca.
Como era muy vieja
estaba sorda de una oreja
e a pesar de que ya era abuela
se puso unos zapatos rojos
guantes de tul y un par de anteojos.

La vio la maestra assustada
y dijo - Estás equivocada.
Y la vaca respondió:
- Por qué no puedo estudiar yo?
La vaca vestida de blanco
se acomodo en el primer banco.

Los chicos tirábamos tiza
y nos moríamos de risa.
La gente se fue muy curiosa
a ver la vaca estudiosa.
La gente llegaba en camiones,
en bicicletas y en aviones,
y como el bochinche aumentaba
en la escuela nadie estudiava.
La vaca, de pie en un rincón,
ruminaba sola la leción.


Un dia, toditos los chicos
nos convertimos en borricos.
Y en ese lugar de Humahuaca
la unica sabia fue la vaca.


Maria Elena Walsh, nasceu em Buenos Aires (1930-2011). Publicou mais de quarenta livros infantis, entre poesia e prosa, algumas de suas canções foram interpretada por Mercedes Sosa e Joan Manuel Serrat.



Era uma vez, uma vaca
na Quebrada de Humahuaca.
Como era bem velha,
estava surda de um dos ouvidos.
E, embora já sendo avó,
quis um dia frequentar a escola.
Uns sapatos vermelhos calçou,
finas luvas e uma par de óculos usou.

A professora olhou-a assutada
e disse: - Estás equivocada.
E a vaca respondeu-lhe:
- Por que não posso estudar?


A vaca vestida de branco,
sentou-se no primeiro banco.
Nós, os meninos, atirávamos giz
e morríamos de rir.
Veio gente muito curiosa
para ver a vaca estudiosa.
Gente chegava em caminhões,
de bicicleta, de avião.
E como o tumulto aumentava,
na escola ninguém estudava.
A vaca, de pé em um canto
ruminava sozinha a lição.

Um dia, todos os meninos
nos tornamos burros
e naquele lugar de Humahuaca
a única que se tornou sábia foi a vaca.
(Tradução livre)

10/01/2011

Poética

"La vie à plein dents" - Arman

Estou farto do lirismo comedido.
Do lirismo bem comportado.
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas.
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais.
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção.
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis.
Estou farto do lirismo namorador.
Político
Raqu[itico
Sifilítico
De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo.
De resto não é lirismo.
Será contabilidade, tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
o lirismo dos bêbedos
o lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare.
Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Manuel Bandeira, Recife(PE) - 1886-1968

08/01/2011

O homem nasceu para aprender...




...tanto quanto a vida permita.




Quando escrevo, repito o que já ví antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens.


João Guimarães Rosa

07/01/2011

Malangatana: beleza e poesia !

Malangatana Valente Ngwenya, nasceu em Matalana, distrito de Marracuene, Moçambique, em 1936 e faleceu em Matosinhos (Portugal), no dia 5 de janeiro de 2011. Antes de tornar-se conhecido internacionalmente por seu trabalho como pintor, escultor, ceramista, poeta, Malangatana foi pastor de gado, criado de meninos, apanhador de bolas de golfe no clube da elite colonizadora da ex-Lourenço Marques(Maputo, a atual capital de Moçambique). Tornou-se pintor profissional graças a ajuda de várias pessoas, como um de seus professores, que lhe dava as tintas para pintar; como também o arquiteto português Miranda Guedes, que lhe cedeu sua garagem para servir de atelier. Chegou a ser preso pela PIDE (polícia da ditadura ), juntamente com o poeta José Craveirinha e Rui Nogar, acusados de ligações com a FRELIMO (Frente para a Libertação de Moçambique).
Sua obra está exposta em vários países do mundo, inclusive no Brasil. Seus murais estão espalhados em vários locais da capital(Maputo), na África do Sul, no Chile, na Colômbia, EUA, Grã-Bretanha e Suécia.
Malangatana era um artista na verdadeira acepção da palavra, para além das artes plásticas, porque era ator de teatro, cantava, dançava, era animador cultural e desenvolvia um trabalho cultural em seu país.
"Transcendências"
Extraído de saavedramusicachibebeepoesia.blogspot.com

A Coruja

A coruja agoira-me
e diz-me que nunca chegarei
além onde o desejo me leva
e assim evapora-se o sonho;


O tambor foi tocado
na noite densa do feitiço
enquanto Kokwana Muhlonga
apitava o Kokwana Hehlise
que morreu depois dos gatos terem miado.


Eu lutando só
é impossível vencer as ondas
que feiticeiramente me esboçam
as corujas, gatos e tambores





"Tentativas vitrálicas"



06/01/2011

"Você sabe com quem está falando?"



Na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático General do nosso Exército, morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia.
Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do General e um dia o General acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do vizinho.
O delegado resolveu passar uma chamada no homem e intimou-o a comparecer à delegacia.
O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fábrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo à intimação recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a lhe dizer. O delegado tinha a lhe dizer o seguinte:
- O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar num troço chamado autoridade constituída? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada Exército Brasileiro, que o senhor tem de respeitar? Que negócio é esse? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse a casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: "dura lex"! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o General, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor.
Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O vizinho do General pediu, com delicadeza, licença para se retirar. Foi então que a mulher do vizinho do General interveio:
- Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?
O delegado apenas olhou-a, espantado com o atrevimento.
- Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não é gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso importunaram o General, ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos importunando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um Major do Exército, sobrinha de um Coronel e filha de um General ! Morou?
Estarrecido, o delegado só teve força para engolir em seco e balbuciar humildemente:
- Da ativa, minha senhora?
E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços, desalentado:
- Da ativa, Motinha. Sai dessa.



A mulher do vizinho, conto de Fernando Sabino, Belo Horizonte(MG)

(1923-2004)

04/01/2011

Instante...

"O espírito da África" (Uganda)


Que faria eu sem este mundo sem rosto, sem perguntas.
Onde o ser só dura um instante e onde cada instante
transborda para o vazio esquecimento de ter existido.
Sem esta onda onde por fim
corpo e sombra juntos se anulam.

Que faria eu sem este silêncio poço fundo de murmúrios
curvando-se a pedir socorro, pedir amor.
Sem este céu posto de pé
sobre o pó do seu lastro

Que faria eu eu faria como ontem e como hoje
olhando para a minha janela vendo se não estou sozinho
a errar e a mudar, distante de toda a vida,
preso num espaço incontrolável
sem voz no meio das vozes
que se fecham comigo.



Samuel Becket, Dublin, Irlanda (1906-1989)

Tradução de Mário Carvalheira.

01/01/2011

Mulher-Coragem!!!

O correr da vida, embrulha tudo. A vida é assim:
esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega
e depois desinquieta. O que ela quer da gente
é coragem. (Texto de Guimarães Rosa, citado no final do discurso de posse de Dilma Roussef como presidenta da República)
Foto: Ricardo Matsukawa


Foto Agência Estado


foto Agência Reuters