31/10/2011

El otro, el mismo

Todas las cosas son palabras del

Idioma en que Alguien o algo, noche y dia,

Escribe esa infinita algarabia

Que es la historia del mundo. En su tropel


Pasan Cartago y Roma, yo, tu, el,

Mi vida que no entiendo, esta agonia

De ser enigma, azar, criptografia

Y toda la discordia de Babel.


Jorge Luís Borges, Emecé Editores, Buenos Aires, 1964.

28/10/2011

Uma fábula de Leonardo Da Vinci



A Chana e a Vela


As chanas já duravam um mês nas fornalhas dos recipientes de vidro. Ao verem aproximar-se de si uma vela em um belo e lustroso castiçal, com grande desejo forçaram-se a se encostar nele. Uma das chamas resolveu deixar o seu curso natural, moveu-se por dentro de um vazio tição que a nutria e saiu pela abertura oposta de uma pequena fissura para chegar até a vela, que estava perto. Arremesou-se e com suprema gula e voracidade devorou-a, de modo a consumí-la quase que ao seu fim. Querendo preservar o prolongamento de sua vida, em vão tentou retornar à fornalha de onde tinha partido, uma vez que foi obrigada a morrer e perecer junto com a vela.



Ao fim, com pranto e arrependimento, a chama se converteu numa incômoda fumaça, enquanto todas as suas irmãs continuaram numa resplandecente beleza e longa vida.

26/10/2011

Como todo homem normal




[.....]



E estou apaixonado pelo meu tempo,
que é brutal e também está à beira da histeria.
Estou apaixonado pelo meu tempo com os nervos à flor da pele,
com a cabeça se debatendo entre o estrondo e a esperança,
entre a usura e o perigo,
entre a morte e o amor.
E sonho e vocifero
diante de uma surda, ululante multidão
de turbinas, poços de petróleo, gigantescos combinados
si­derometalúrgicos onde o homem cresce na presteza de seus dedos sobre os controles e as ferramentas, fundido no cor­po quente e brilhante das máquinas, que se desgastam inces­santemente fabricando um mundo radiante e futuro, jamais visto, jamais ouvido, jamais tocado, habitado por fantasmas que mal temos tempo de gerar.
Estou apaixonado por uma mulher
belíssima e neurótica como a História,
e me afundo em suas carnes espaçosas para que a aurora
que estamos construindo
não ilumine um planeta solitário
e melancólico.

III

Acho que o mundo pode e deve ser mudado
pedra a pedra e homem a homem,
e com essa fé me deito e me levanto.
Meu coração é um bosque de fúrias e benevolências.
Em minha cabeça, as derrotas, os triunfos
e as utopias abriram oceanos, levantaram barricadas, fizeram mortos e ressuscitaram mortos, ditaram regras de beleza e de moral, fomentaram o desalento e proclamaram políticas salvadoras, inventaram ilhas e culturas e mártires vitoriosos; em minha cabeça, a liberdade coroou ídolos intolerantes a cujos pés em chamas queimei dogmas e idolatrias.
Me refugio em minha cabeça, todo eu metido em minha cabeça,
que é uma bola de futebol chutada por risos pavorosos,
por palavras pavorosas,
por silêncios pavorosos.
Convido a todos os homens da liberdade e do trabalho
a chutar esta bola,
a acertar no alvo com esta bola que assobia.



Manuel Diaz Martinez, Santa Clara, Cuba (1936- )

24/10/2011

Jorge de Lima

Cavalos alados, de Jorge de Lima

XVIII


Éguas vieram, à tarde, perseguidas,

depositaram bostas sob as vides.

Logo após as borboletas vespertinas,

gordas e veludosas como urtigas


sugar vieram o esterco fumegante.

Se as vísseis, vós diríeis que o composto

das asas e dos restos eram flores.

Porque parecem sexos; nesse instante,


os mais belos centauros do alto empíreo,

pelas pétalas desceram atraídos,

e agora debruçados formam círculos;

depois as beijam como beijam lírios.


XXVII


Há uns eclipses, há; e há outros casos:

de sementes de coisas serem outras,

rochedos esvoaçados por acasos

e acasos serem tudo, coisas todas.


Lãs de faces, madeiras invisíveis,

visão de coitos entre os impossíveis,

folhas brotando de âmagos de bronze,

demônios tristes choros nas bifrontes.


Tudo é veleiro sobre as ondas íris,

condores podem ser os baixos ramos,

montes boiarem, aços se delirem.

Vemos ao longe sombras, e são flâmulas,

lábios sedentos, lírios com ventosas,

ódios gerando flores amorosas.


Jorge de Lima nasceu em União dos Palmares(AL), em 1893 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953.

23/10/2011

Sobre os sentidos...

Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...

Se falo da Natureza não é porque saiba o que ela é.

Mas porque a amo, e amo-a por isso.

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem porque ama, nem o que é amar.

Alberto Caieiro, por Fernando Pessoa


***


Sim, eu sou um homem e choro.

Um homem não tem olhos?

Não tem também mãos, sentidos,

inclinações, paixões?


Por que é que um homem não deveria chorar?

August Strindberg


***


O poeta faz-se vidente através de um longo

e imenso desregramento de todos os sentidos.

Arthur Rimbaud


***


Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, razão e intelcto, pretenda que não os utilizemos.

Galileu Galilei


***


O "puro espírito" é uma pura estupidez: retire o sistema nervoso e os sentidos, o chamado "envoltório mortal", e o resto é um erro de cálculo - isso é tudo!

Friedrich Nietzche

21/10/2011

Matisse Deixa a palavra escorregar,

como num jardim o âmbar e a cidra.

Magnânimo e distraído,

devagar, devagar, devagar...


Boris Pasternak, Moscou (1890-1960)


*****


Há muitos, muitíssimos leitores que não gostam que se os levem a pensar, e que querem que se lhes digam apenas o que já sabem!


Miguel de Unamuno, Espanha (1864-1986)

19/10/2011

Delacroix - Viagem a Marrocos

Fantaisie ou jeu de la poudre devant l'entrée de Meknesos desenhos...






Mesquita em Meknes


mosaicos (detalhes)



No século XIX, era comum a presença de artistas integrando comitivas diplomáticas. O objetivo disso era documentar a expedição com relatos dos fatos e inventariar as paisagens, a fauna e a flora dos territórios explorados. Em 1832 o pintor francês Eugène Delacroix (1798-1863) fez parte de uma comitiva diplomática francesa, acompanhando o conde de Mornay até as cidade de Tanger e Meknes, em Marrocos. Em seus cadernos Delacroix registrou cenas feitas a bico de pena, lápis e aquarela. Há também registros de acontecimentos vividos, de cerimônias presenciadas por ele. Mesmo antes de sua viagem já era conhecido seu interesse por culturas "não européias". Para ele, o oriente simbolizava o mistério, o desconhecido e uma promessa de sensualidade: "O pitoresco é abundante por aqui. Seria capaz de fazer a fortuna de vinte gerações de pintores", diz ele em carta escrita a Armand Bertin. No entanto, ele tinha consciência da fragilidade de sua tarefa, pois escreveu para seu amigo Pierret: "Estou certo de que a grande quantidade de informações curiosas que levarei daqui não servirá muito. Longe do país onde foram feitas, serão como árvores arrancadas de seu solo natal. Meu espírito esquecerá essas impressões e eu teri que exprimir friamente a sublime e impressionante vivacidade que ocorre aqui nas ruas." Não existe nenhuma referência à tensão que envolvia o fato de a comitiva francesa ficar confinada por vários dias, aguardando que a delegação argelina saísse da cidade de Meknes. Um dos objetivos estava relacionado a problemas diplomáticos de navios franceses apreendidos na Argélia. Mas Delacroix estava preocupado apenas em pesquisar dados dessa nova cultura que se apresentava a seus olhos. Suas anotações referem-se à memória dos fatos e costumes; a diferença entre muçulmanos e judeus, seus hábitos e vestimentas, os adereços das mulheres, enfim, os costumes do povo.


FONTE: Tiraz - Revista de Estudos Árabes e das Culturas do Oriente Médio-2005.

17/10/2011

Sem chance de ajuda

"Le Cloun" - Henri Matisse há um lugar no coração que

nunca será preenchido


um espaço


e mesmo nos

melhores momentos

e

nos melhores tempos

nós saberemos


nós saberemos

mais que

nunca


há um lugar no coração que

nunca será preenchido


e


nós iremos esperar


e


esperar

nesse lugar


Charles Bukowski, poeta e escritor alemão nascido em Andermach em 1920. Ainda criança mudou-se com os pais para a Califórnia(EUA). Faleceu em 1994.

16/10/2011

Por que você me trata mal...?







O Mundo


O mundo é pequeno pra caramba!

Tem alemão, italiano, italiana

O mundo filé à milaneza,

tem coreano, japonês, japonesa

O mundo é uma salada russa,

tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia

O mundo é uma esafiha de carne

tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire.


O mundo é azul lá de cima.

O mundo é vermelho na China.

O mundo tá muito gripado,

açúcar é doce, o sal é salgado.


O mundo - caquinho de vidro -

tá cego do olho, tá surdo do ouvido.

O mundo tá muito doente:

o homem que mata, o homem que mente.


Por que você me trata mal

se eu te trato bem?

Por que você me faz o mal

se eu só te faço o bem?


Todos somos filhos de deus

só não falamos a mesma língua!


André Abujamra

Só rindo...!!!



15/10/2011

Aula de português


A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.



Carlos Drummond de Andrade

13/10/2011

Folhas das folhas de relva - fragmentos






Com música forte eu venho,
com minhas cornetas e meus tambores:
não toco hinos
só para os vencedores consagrados,
toco hinos também
para as pessoas batidas e assassinadas.
Vocês já ouviram dizer
que ganhar o dia é bom?
Pois eu digo que é bom também perder:
batalhas são perdidas
com o mesmo espírito
com que são ganhas.
Eu rufo e bato o tambor pelos mortos
e sopro nas minhas embocaduras
o que de mais alto e mais jubiloso
posso por eles.
Vivas àqueles que levaram a pior!
E àqueles cujos navios de guerra
afundaram no mar!
E a todos os generais
das estratégias perdidas,
que foram todos heróis!
E ao sem número dos heróis maiores
que se conhecem!

2.
Quem é que vai por aí
aflito, místico, nu?
Como é que eu tiro energia
da carne de boi que como?
O que é um homem, enfim?
O que é que eu sou?
O que é que vocês são?
Tudo o que eu digo que é meu,
vocês podem dizer que é de vocês:
de outro modo, escutar-me
seria perder tempo.
Não ando pelo mundo a lastimar
o que o mundo lastima em demasia:
que os meses sejam de vácuo
e o chão seja de lama
e podridão.
A gemer e acovardar-se,
cheio de pós para inválidos,
o conformismo pode ficar bem
para os de quarta categoria;
eu ponho o meu chapéu como bem quero,
dentro ou fora de portas.
Por que iria eu rezar?
Por que haveria eu de me curvar
e fazer rapapés?
Tendo até os estratos perquirido,
analisado até um fio de cabelo,
consultado doutores
e feito os cálculos apropriados,
eu não encontro gordura mais doce
do que a inserida em meus próprios ossos.
Em toda pessoa eu vejo a mim mesmo,
nem mais nem menos um grão de mostarda,
e o bem ou mal que falo de mim mesmo
falo dela também.
Sei que sou sólido e são,
para mim num permanente fluir
convergem os objetos do universo;
todos estão escritos para mim
e eu tenho de saber o que significa
o que está escrito.
Sei que sou imortal,
sei que esta minha órbita não pode
ser traçada
pelo compasso de um carpinteiro qualquer.
Sei que não passarei
assim que nem verruga de criança
que à noite se remove
com um alfinete flambado.
Eu sei que sou majestoso,
não vou tirar a paz do meu espírito
para mostrar quanto valho
ou para ser compreendido:
tenho visto que as leis elementares
jamais pedem desculpas.
(Eu reconheço que afinal de contas,
não levo meu orgulho
além do nível a que levo a minha casa.)
Existo como sou,
isso é o que basta:
se ninguém mais no mundo
toma conhecimento,
eu me sento contente;
e se cada um e todos
tomam conhecimento,
eu contente me sento.
Existe um mundo
que toma conhecimento,
e este é o maior para mim:
o mundo de mim mesmo.
Se a mim mesmo eu chegar hoje,
daqui a dez mil ou dez milhões de anos,
posso alcançá-lo agora bem-disposto
ou posso bem-disposto espetar mais.
O lugar de meus pés
está lavrado e ajustado em granito:
rio-me do que dizem ser dissolução
- conheço bem a amplitude do tempo.


(......)



Walt Whitman, Huntington(Long Island) - 1819-1892
Tradução de Geir Campos, 1983, Brasiliense

11/10/2011

Das releituras





Para alguns livros não estamos prontos.

Quando os lemos, tal leitura esconde

o visto e o não visto nos pespontos.

Se algo clama, não sabemos onde.


Desses muitos livros nos livramos

como quem se esquece de si mesmo.

Num dia a árvore perde os ramos,

noutro as raízes, e vai a esmo


até perder o ar que nunca teve,

a música, a memória, o chão

que não conhece e que não reteve

uma só lembrança dos que vão


à míngua, de milênio em milênio.

Entretanto, nada disso importa.

Urge voltar, e vencer o gênio

que outrora nos fechara a porta.


Iacyr Anderson Freitas, em Poesia Sempre - Patrocínio do Muriaé(MG), 1963.

09/10/2011

Saudades de Dom Quixote...!

Dom Quixote, de Salvador Dali

[...]

(...) que a maior parte da gente imagina que não houve cavaleiros andantes; e por me parecer que, o céu lhes não dá a entender milagrosamente que os houve e que os há, qualquer trabalho que se faça será baldado; como muitas vezes a experiência me demonstrou, não quero demorar-me agora em dissipar o seu erro, que é o erro de outros muitos, e limito-me a rogar ao céu que dele o tire e lhe mostre quão proveitosos e necessários foram ao mundo os cavaleiros andantes, nos séculos passados, e quão úteis seriam no presente, se se usassem; mas triunfam agora, por pecado das gentes, a preguiça, a ociosidade, a gula e os regalos.

[...]

Se o meu foi tornasse a ser,

Sem eu ter que esp'rar será,

Ou viesse o tempo já

Do que está pra acontecer...


Glosa


Alfim, como tudo passa,

Passou o bem que me deu

A fortuna nada escassa,

Mas que nunca me volveu,

Por mais que eu peça, ou faça.

Fortuna, bem podes ver

Que já é longo o meu sofrer,

Faze-me outra vez ditoso,

Que eu seria venturoso

Se o meu foi tornasse a ser.


Só quero um gosto, uma glória,

Uma palma, um vencimento,

Um triunfo, uma vitória,

Tornar ao contentamento

Que me é pesar na memória.

Fortuna, leva-me lá,

E temperado estará

Todo o rigor do teu fogo,

Sobretudo sendo logo,

Sem eu ter que esp'rar será.


Sei que sou indeferido,

Pois tornar o tempo a ser,

Depois de uma vez ter sido,

Não há na terra poder

Que a tanto se haja estendido.

Corre o tempo; leve dá

Seu voo, e não voltará,

E erraria quem pedisse

Ou que o tempo já partisse,

Ou viesse o tempo já.


Viver em perplexa vida,

Ora esperando, ora temendo,

É morte mui conhecida,

E é muito melhor morrendo

Buscar para a dor saída.

Eu preferia morrer,

Mas não o devo querer,

Pois com discurso melhor

Me dá a vida o temor

Do que está pra acontecer.


Miguel de Cervantes Saavedra, em Dom Quixote (1547-1616)

07/10/2011

Tomas Tranströmer - haicais



Os fios elétricos

estendidos por onde o frio reina

Ao norte de toda a música.

O sol branco treina correndo solitário

para a montanha azul da morte.

Temos que viver com a relva pequena

e o riso dos porões.

Agora o sol se deita

sombras se levantam gigantescas.

Logo logo tudo é sombra.

(...)


*****


Vida mal soletrada

a beleza continua a viver

como tatuagem.

*****

Grande e vagaroso vento

da biblioteca do mar.

Aqui posso descansar.

*****

Encontramo-nos numa festa

que não gosta de nós.


Tomas Tranströmer, nasceu em Estocolmo, capital da Suécia, em 1931.

É formado em Psicologia e é um grande amante da música. Após sofrer um derrame cerebral que paralisou o lado direito de seu corpo, continua a tocar piano apenas com uma mão. Possui um livro publicado para 50 idiomas, mas ainda não foi publicado em português. É o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2011.






05/10/2011

Aos leitores amigos

Goethe

Poetas não podem calar-se,

querem às turbas mostrar-se.

Há de haver louvores, censuras!

Quem vai confessar-se em prosa?

Mas abrimo-nos sob rosa

No calmo bosque das musas.


Quanto errei, quanto viví,

Quanto aspirei e sofrí.

Só flores num ramo - aí estão;

E a velhice e a juventude,

E o erro e a virtude

Ficam bem numa canção.


Johan Wolfgang von Goethe, Frankfurt am Main(Alemanha)

1749-1832

02/10/2011

Aimin Halabi - Golan

Mármore, sim, mas mole.

E vento, por que não?


Mármore capaz de tudo,

de tudo recolher

e transmudar em nada.

De transmudar o ouro

- alquimia ao contrário - na poeira que o vento

ao próprio vento espalha...


Mármore, sim, mas mole

E mais que mármore mar - que dentro de nós more.

Luta de corpo a corpo

no interior do corpo.

Monólogo do Tempo

no interior da alma.

Monólogo monótono

com saltos inesperados!

Monólogo no mármore

mais mole que a memória...


Mármore e mar, e vento sobre o mar...


Memória!


David Mourão-Ferreira, Lisboa (1927-1996)

01/10/2011

...as águas salgadas do poeta...



A luta branca sobre o papel

que o poeta evita,

luta branca onde corre o sangue

de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida

entre os gestos diários,

susto das coisas jamais pensadas

porém imóveis - naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas

as águas salgadas do poeta

em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas

de que conhece o funcionamento,

a evaporação, a densidade

menor que a do ar.


João Cabral de Melo Neto