31/12/2011

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

29/12/2011

Mar adentro....


Mar adentro, mar adentro
Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
'más adentro', 'más adentro'.
hasta el más allá del todo
por la sangre
y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.


Ramón Sampedro, Galícia (Espanha) - (1943-1998), no filme Mar adentro, 2004 - direção de Alejandro Amenábar.


Mar adentro, mar adentro

e nesse fundo onde não há mais peso,

onde se realizam os sonhos,

se juntam as vontades

para cumprir um desejo.


Um beijo acende a vida

com um relâmpago e um trovão,

e em uma metamorfose

meu corpo já não é mais meu corpo,

é como penetrar o centro do universo


O abraço mais pueril

e o mais puro dos beijos,

até vermo-nos reduzidos

a um único desejo:

seu olhar e meu olhar

como um eco se repetindo, sem palavras:

mais adentro, mais adentro,

até mais além de todo o resto

pelo sangue e pelos ossos


Mas desperto sempre

e sempre quero estar morto

para seguir com minha boca

enredada em teus cabelos.

27/12/2011

3 poemas de Antonio Brasileiro


ANOTAÇÕES DO IMEMORIADO

A consciência, fiapo de quê,

no mar da alma?


(E o ter que contar os meus segredos,

que eu mesmo guardei

e esqueci.)


O SIM & OUTROS ACHAQUES

A vida inteira anulada

por falta de outros desígnios,



eis que voltamos ao parque

onde os homens se congregam:


ninguém jamais sabe ao certo

onde o sim das grandes aves,


singramos por mares mansos

que julgáramos esquecidos —


mas eis que a vida se perde

por falta de outros desígnios.


Ou não se perde: é só isto.


NUANÇA


Meus caminhos, meus mapas,

meus caminhos.


Tudo está em ordem

em minha vida.


Como se faltasse

alguma coisa.




Antonio Brasileiro, é um poeta e artista plástico, nascido em Matas do Orobó(BA), atualmente reside em Feira de Santana (BA).

25/12/2011

Pequena elegia chamada domingo


O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O Domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Eugênio de Andrade, «As Mãos e os Frutos» em Poesia, Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed.

23/12/2011

Para um caderninho de Natal !!


Uma adolescente a quem desoriento em aulas de Português vem me pedir algumas palavras sobre o Natal. Diante de meu engasgo, ela me diz que
qualquer coisa serve, e sinto que ela pensa em acrescentar, "qualquer coisa, até mesmo o que o senhor me diga". E para não lhe dizer que procure outra pessoa
mais qualificada, começo:
"O Natal é uma festa comercial, minha filha. É a data magna da hipocrisia universal. Nesse dia as pessoas dizem se amar. No Natal, as autoridades, os que
têm boa vida divulgam e querem fazer crer que as diferenças acabaram entre
os homens. Os ricos de bens materiais ficam subitamente espirituais e com o
estômago repleto arrotam que a melhor salvação é a da alma.( penso, enquanto lhe falo, na Pequena vendedora de fósforos, de Andersen, mas minhas palavras
não conseguem a força dessa claridão). No entanto, você sabe, os ricos
continuam humanos em suas mansões e os pobres continuam porcos em seus
casebres, no mesmo dia 25. No outro dia, você sabe...(E penso nos Estranhos frutos, de Billie Holiday, mas minhas palavras não se iluminam com essa luz de negros enforcados em árvores, no sul dos Estados Unidos)
O Natal, minha filha..."
E paro. O seu rosto reflete o desagrado de minhas palavras. Quem ensina a adolescentes aprende a ler nos seus olhos, nas suas bocas, o agrado ou a decepção do que pensa ensinar. Agora enquanto escrevo, percebo que é uma vitória da sociedade de classes a crença em boas famílias, em belos pais, em generosos sentimentos, essa coisa resistente até mesmo em pessoas que só conheceram da vida a humilhação, a patada e os coices.
A jovem com quem falo é uma adolescente pobre, filha natural, com somente esse adjetivo óbvio da natureza, nada mais.Como um fruto da partenogênese. À primeira vista, ela possuiria todas as condições para entender o que lhe digo.
Mas o seu rosto me faz parar. Sinto o grande mal que lhe causo em procurar
ser verdadeiro numa data em que todos pedem e esperam e anseiam que sejamos todos absolutamente falsos.
Talvez, reconsidero agora ao escrever, o seu desagrado se dê porque sou
apenas convencional, comum, de um esquerdismo vulgar, quando queria
ser verdadeiro como o leite que chupei em minha própria mãe. E convencional por convencional, melhor seria que eu escrevesse no seu caderninho uma frase do gênero "sejamos durante todo o ano como neste dezembro 25".


{.....}


Urariano Mota, jornalista e escritor, autor de Os corações futuristas.

21/12/2011

El hombre imaginario






El hombre imaginario
vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario

De los muros que son imaginarios
penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios

Todas las tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios.

Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario.

Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar
el corazón del hombre imaginario.

Nicanor Parra, Chile, ( 1914- )

19/12/2011

"Los hijos del limo"

"Ophelia", John Everett MillaisViver no agora é viver cara a cara com a morte.

O homem inventou as eternidades e o futuro para escapar da morte, porém cada um desses inventos foi uma armadilha mortal. O agora nos reconcilia com nossa realidade: somos mortais. Só diante da morte nossa vida é realmente vida. No agora nossa morte não está separada da nossa vida: são a mesma realidade, o mesmo fruto.


Octavio Paz, México. - 1914-1998

17/12/2011

ADEUS, CESÁRIA ÉVORA! - Cabo Verde - 1941-2011

Entre o que vejo e o que digo...

Michel Eastman




A Roman Jakobson
1

Entre o que vejo e o que digo,
entre o que digo e o que calo,
entre o que calo e o que sonho,
entre o que sonho e o que esqueço,
a poesia.

Desliza
entre o sim e o não:
diz
o que calo,
cala
o que digo,
sonha
o que esqueço.

Não é um dizer:
é um fazer.
É um fazer
que é um dizer.

A poesia
se diz e se ouve:
é real.
E, apenas digo
é real,
se dissipa.
Será assim mais real?

2

Idéia palpável,
palavra
impalpável:
a poesia
vai e vem
entre o que é
e o que não é.
Tece reflexos
e os destece.

A poesia
semeia olhos na página,
semeia palavras nos olhos.

Os olhos falam,
as palavras olham,
os olhares pensam.

Ouvir
os pensamentos,
ver
o que dizemos,
tocar
o corpo da idéia.
Os olhos
se fecham,
as palavras se abrem.



Octavio Paz, México - 1922-1998 - Tradução:Anderson Braga Horta

15/12/2011

Os lados




Há um lado bom em mim.
O morto não é responsável
Nem o rumor de um jasmim.
Há um lado mau em mim,
Cordial como um costureiro,
Tocado de afetações delicadíssimas.

Há um lado triste em mim.
Em campo de palavra, folha branca.

Bois insolúveis, metafóricos, tartamudos,
Sois em mim o lado irreal.

Há um lado em mim que é mudo.
Costumo chegar sobraçando florilégios,
Visitando os frades, com saudades do colégio.

Um lado vulgar em mim,
Dispensando-me incessante de um cortejo.
Um lado lírico também:

Abelhas desordenadas de meu beijo;
Sei usar com delicadez um telefone,
Nâo me esqueço de mandar rosas a ninguém.

Um animal em mim,
Na solidão, cão,
No circo, urso estúpido, leão,
Em casa, homem, cavalo...

Há um lado lógico, certo, irreprimível, vazio
Como um discurso,
Um lado frágil, verde-úmido.
Há um lado comercNegritoial em mim,
Moeda falsa do que sou perante o mundo.

Há um lado em mim que está sempre no bar,
Bebendo sem parar.

Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.



Paulo Mendes Campos, Belo Horizonte(MG) - 1922-1991

14/12/2011

Fala




Tudo será difícil de dizer:

a palavra real

nunca é suave.

Tudo será duro:

luz impiedosa

excessiva vivência

consciência demais do ser.

Tudo será

capaz de ferir.

Será agressivamente real.

Tão real, que nos despedaça.

Não há piedade nos signos e nem no amor:

o ser é excessivamente lúcido

e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade)


Orides Fontela, São João da Boa Vista(SP) - 1940-1998

13/12/2011

Fazer 80 anos


Meu irmão mais velho fez 80 anos há pouco. O irmão que veio depois dele fez 80 anos este ano. O terceiro irmão fará 80 ano que vem. Minha irmã está no caminho. Se a moda pega, acabo chegando lá.
Não é só na minha família. No Rio todo mundo está fazendo 80 anos. Você abre os jornais e escritores e artistas todos têm 80 anos. Ziraldo já anunciou que fará 80 ano que vem. Virou moda. Como se dizia na minha infância: “O último a fazer 80 anos é mulher do padre!”.
Estou sabendo que essa mania pegou também em Minas. O Jota Dângelo lá em São João del-Rei está fazendo 80 anos. Não sei como, porque outro dia ele fez 70. Já o Carlos Dênis, o Fábio Lucas, o Edmur Fonseca se reuniram celebrando isto. Rui Mourão e o Ciro Siqueira já passaram por isto. O José Bento Teixeira de Salles lá vai pros 90. As mestras dona Angela Leão e a Maria Luiza Ramos cruzaram os 80. Elza de Moura – testemunha ocular da famosa Escola de Aperfeiçoamento –, adiantadíssima, está com 95.
Essa moda pegou lá fora: no Texas, meu tradutor Fred Ellison e sua mulher, ao chegar à casa dos 90, mudaram de casa. Manolo Graña, escritor argentino e genro do Drummond, está com 95 e acabou de chegar ao Brasil para participar das comemorações do aniversário de poeta, que, aos 87, nos deixou, pois achou que já estava de bom tamanho.
Antigamente as pessoas faziam 80 anos aos 50. Lembro-me quando vários escritores fizeram 50 anos e os jornais os celebraram. Usavam terno, óculos, bigode. Hoje, os de 80 usam jeans e tênis, parecem ter 50.
Quando menino e lia a Bíblia, ficava perplexo com a história de Matusalém. Está lá no livro de Gênesis, cap. 5: “Enoch, que era pai de Matusalém, tinha 65 anos quando gerou Matusalém e porque andava com Deus, depois que gerou Matusalém viveu 300 anos”. Quer dizer: 65+300=365. E porque “andava com Deus”, ele não morreu, “ Deus o tomou”. Quer dizer, virou imortal sem precisar entrar para a Academia Brasileira de Letras.
Mas em termos numéricos isso não foi muita coisa, porque o dito Matusalém, que tinha 187 anos quando gerou Lamech, viveu mais 782 anos, totalizando 969 primaveras. E é dessa família de longevos que veio Noé. Quer dizer, vivia-se muito, mas deram com os burros n’agua.
Certa vez, quando descobri o tempo, escrevi uma crônica – “Fazer 30 anos”. Era a primeira epifania espaço-temporal. E ficava imaginando a crônica que faria para os 40, 50, 60, 70, 80 etc. Não as fiz. Pelo menos diretamente, embora meus textos comprovem que sou um escritor crônico.
Umas das vezes em que descobri que o tempo estava passando sobre mim à minha revelia e me amassando, foi quando um repórter pediu minha opinião sobre determinado assunto. Perguntei-lhe a quem mais ele estava fazendo aquela pergunta. Fiquei pasmo: eram Mário Lago, Barbosa Lima Sobrinho, Niemeyer, ou seja, todos com a idade do Matusalém.
Tenho que repetir algo que já contei (os idosos são assim, recontam coisas). Encontrei numa manhã de sábado um amigo de 86 anos. Naquele tempo eu tinha uns 50 e o achava velhíssimo. Aí ele me contou algo espantoso. Os que perambulam além do tempo vão entender. Disse que havia conversado há pouco com um almirante de 95 anos. E que ao término da conversa o almirante, emocionado e agradecido, lhe disse:
– Ah! Foi tão bom te encontrar! Finalmente eu pude falar com alguém sobre a década 30!

Affonso Romano de Sant'Anna, Belo Horizonte(MG), 1937 - escritor e poeta

11/12/2011

Fisionomia

Gerhard Richter
não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói



Ana Cristina Cesar, Rio de Janeiro (1952-1983)

08/12/2011

Do Livro do desassossego

Igor Siwanowicz213.


Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que sentí outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.

Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Sentí-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio.

[...]

Ainda há dias sofrí um impressão espantosa com um breve escrito do meu passado. Lembro-me perfeitamente de que o meu escrúpulo, pelo menos relativo, pela linguaem data de há poucos anos. Encontrei numa gaveta um escrito meu, muito mais antigo, em que esse mesmo escrúpulo estava fortemente acentuado. Não me compreendí no passado positivamente. Como avancei para o que já era? Como me conhecí hoje o que me desconhecí ontem? E tudo se me confunde num labirinto onde, comigo, me extravio de mim.


Bernardo Soares por Fernando Pessoa - Lisboa, 1888-1935

07/12/2011

Da plasticidade das palavras


As palavras são objetos plasmáveis, ideoplásticos, musicais.

Apalpadas, moldam figuras; sopradas, produzem voz;

atritadas, soltam centelhas, chamas incendiárias.

O artista, em seu ofício, debruça-se sobre elas:

desmonta-as, reinventa-as, dá-lhes novo ser.

Busca, como o pintor materista, esmagá-las sobre o suporte.

Joga-as umas contra as outras.

Seu intento?

Que elas centelhem. Que tragam de dentro sua luz.

E que essa luz alargue os limites da realidade.

Que nos façam adentrar a instância da Arte.

Num mundo absoluto.

Na Poesia.

Carlos Pequeno do Espírito Santo, Olinda(PE)

OBS: esse texto foi extraído do blog EU-LÍRICO, mas o autor possui um blog:

05/12/2011

Um poema de Márcio-André



aqui do estômago desta baleia
a cidade é um cardume cintilante
e
a estátua de Drummond tem as costas ao oceano –
[as estátuas são para os homens não para o mar]
cultivar um peixe por dentro
para um dia comê-lo
esperando uma mulher surgir da precisão da ossada

um dia somos felizes em nosso jardim cetáceo
e ela caminha suavemente ao meu lado
sonhando o domingo mais triste do mundo no subúrbio do lado de lá
um dia estamos na meia idade e bebemos porque não há opção
e o guindaste no cais estará esmagado como um inseto morto
diante das mil falhas na goela das águas

o mar está na foto dos homens não no sonho das estátuas
sua voz através do mar é o próprio mar em travessia

Chamamento remoto
De mulher equilibrada nos rochedos
é também credível viver fora dos peixes
dentro de um farol no extremo das docas

e nos encontramos agora
mais por memória das marés que por limite do acaso
:o mar está entre nós e por isso nos une:

a mesma palavra que cabe em minha boca
cabe na dela
:em sua boca cabem todos os oceanos:


o desfibrilador é antes uma relíquia verbal
que um aparato do esqueleto
o tempo na palavra
tudo que era primeiro moveu-se no verbo
mesmo a bomba cardíaca e seus vasos sanguíneos
é nele que as coisas despertam
e então a língua-que-não-diz
o silêncio
confere a física de cada mundo

o corpo está mais que em volta da espinha
o corpo fabrica um lugar a cada estrela que ganha nome
[o albatroz retém a alba no corpo]
mastigar a palavra
como se mastiga um coração
da válvula às aurículas

cada palavra é um sacrário
um desígnio
um destino

Márcio-André nasceu em 1978, no Rio de Janeiro. Com um trabalho que vai da poesia ao pensamento, passando pela música concreta, a arte digital e a performance, tem sido uma referência internacional da literatura e da poesia experimental. Figura em diversas revistas e festivais pelo mundo, assim como em importantes antologias da nova poesia brasileira, e seus poemas foram traduzidos para oito idiomas. Com Ferreira Gullar, Maria Bethânia, Zeca Baleiro e Edu Lobo, leu poemas para o documentário “Há muitas noites na noite”, de Silvio Tendler. Em 2007, fez um recital solitário nos escombros da cidade fantasma de Pripyat, em Chernobyl, tonando-se o primeiro poeta radioativo do mundo. É editor da Confraria do Vento e curador do evento "Cidade aTravessa: poesia dos lugares". Atualmente vive em Lisboa.

OBS: extraído de: http://www.o-bule.com

03/12/2011

Para os mestres com desrespeito


Dizem que meu povo

é alegre e pacífico.

Eu digo que meu povo

aprendeu com as argilas

e os bons senhores de engenho

a conhecer seu lugar.

Eu digo que meu povo

deve ser respeitado

como qualquer ânsia desconhecida

da natureza.

Dizem que meu povo

não sabe escovar-se

nem escolher seu destino.

Eu digo que meu povo

é uma pedra inflamada

rolando e crescendo

do interior para o mar.




Alberto da Cunha Melo, sociólogo, jornalista e poeta, nascido em Jaboatão dos Guararapes(PE) - 1942-2007

01/12/2011

Casa Vazia


Poema nenhum, nunca mais
será um acontecimento:
Escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos,
composto apenas de nós mesmos,
uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas,
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.


Alberto da Cunha Melo, sociólogo, jornalista e poeta, nascido em Jaboatão dos Guararapes(PE) - 1942-2007