05/01/2012

Verbo

Henri Matisse

Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.


Nuno Júdice, em “As Coisas Mais Simples”, Ed. Dom Quixote, Lisboa 2007

11 comentários:

  1. Maravilhoso. As palavras sobre a mesa dão um banho nas cartas que escondem-se sob as mangas.
    Vou procurar esse livro!
    Adorei :)
    Beijos, Ci!!

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  2. Ci, que maravailha, você não sabe, eu guardo palavras, eu sei e sinto que um dia as palavras guardadas haverão de encontrar-se com outras, em algum lugar de um tempo qualquer...e dirão coisas que antes eram indizíveis! Ci, eu juro que guardo palavras e que amei esse Verbo. E você me descobre coisas tão profundas, tão lindas!

    Beijos,

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  3. Tânia, ví-me sentada à mesa, rodeada de pessoas e imaginando
    quantas palavras guardamos e tantas
    que esfriam noite adentro para no dia seguinte serem jogadas no lixo!
    Embora não seja poeta, mas sou humana(risos)!, ainda tenho uma leve expectativa de que certas palavras um dia terão alguma serventia, porque tenho mania de colecionar gavetas de poetas! :)

    um beijo, e gratíssima por tuas palavras; venho notando que começaste esse novo ciclo com tua
    sensibilidade à flor da pele, estás cada vez mais poética!!!

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  4. Se ao menos se arregaçassem as mangas, não é, Le? Quantos verbos
    seriam conjugados...!?

    beijosss

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  5. Ci, eu acho que você se engana e É, sim, poeta! Teus versos correm no teu sangue, seus comentários em blogues(que acompanho tantas vezes) atestam isso. SER POETA e ESCREVER VERSOS são coisas diferentes, embora às vezes coincidam! rs E você não está livre verter os versos que correm no sangue...rs
    Beijos,

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  6. Ah, Tânia, quem me dera ser livre
    para sangrar em versos! Taí uma coisa que gostaria, é claro que nunca sabemos o que se nos pode acontecer amanhã, não é? :)

    beijo grande!

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  7. Mais uma pepita de teu incansável garimpo.
    Concordo com a Tania, não precisas escrever versos pra ser poeta. Tua sensibilidade está revelada nessa escolha, nesse garimpo. Um dia, sem que percebas, começarás a produzir poemas, naturalmente. Isso se já não o fazes.rsrsrs Pode crer, amiga.

    Abç fra/terno.

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  8. Belo!

    Cirandeira, peço licença para publicar esse poema no meu blog, no próximo sábado. Deixarei o link do seu blog, pode ser? ;)

    Um abraço!

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  9. Claro, Margot! Vamos conjugar o verbo, expandí-lo, compartilhar as
    palavras! Que possamos todos abrir
    as gavetas de todos os poetas!

    beijosss

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  10. Será mesmo, Eurico? Quem sabe um
    dia eu acredite nisso, quem sabe?
    Em todo o caso, agradeço pelo
    estímulo.

    um abraço

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