31/08/2012

Espelho


Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão.
Não sou cruel, apenas verdadeiro -
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Na maior parte do tempo medito sobre a parede em frente.
Ela é rosa, pontilhada. Já olhei para ela tanto tempo,
Eu acho que ela é parte do meu coração. Mas ela oscila.
Rostos e escuridão nos separam toda hora.

Agora sou um lago. Uma mulher se dobra sobre mim,
Buscando na minha superfície o que ela realmente é.
Então ela se vira para aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e as reflito fielmente.
Ela me recompensa com lágrimas e um agitar das mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.
Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma velha
Se ergue em direção a ela dia após dia, como um peixe terrível.

Sylvia Plath, Massachusets (EUA) - 1932-1963
Tradução: André Cardoso

6 comentários:

  1. Não sou cruel, apenas verdadeiro -

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  2. Que lindo. Lembrou João Nogueira:

    "(...) Pois me beijaram a boca e me tornei poeta/ Mas tão habituado com o adverso /
    Eu temo se um dia me machuca o verso /
    E o meu medo maior é o espelho se quebrar"

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    Respostas
    1. Gosto muito das composições de João Nogueira, era um excelente letrista.
      Obrigada pela visita, Tati. Espero que esta seja a primeira de muitas outras :)

      um beijo

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