26/12/2013

Meus poemas de dezembro




Ausência

Por muito tempo achei
que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegado nos meus braços
que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade


***

O que eu gosto do teu corpo

o que eu gosto do teu corpo é o sexo
o que eu gosto do teu sexo é a boca
o que eu gosto da tua boca é a língua
o que eu gosto da tua língua é a palavra

Julio Cortázar


***

Papagaio

estranho o poder do poeta
escolhe entre quase e cais
quais palavras lhe convêm
depois as empilha papagaio
e as solta no céu do papel

Chacal


***

Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado entre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

Ana Cristina Cesar


***


O bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase

por onde ele passa
nascem palavras
e frases

com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve

o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve

Paulo Leminski


***

Reclame

Se o mundo vai bem
a seus olhos, use lentes
- ou transforme o mundo

ótica olho vivo
agradece a preferência

Chacal


22/12/2013

Dos espaços gelados




[....] Só uma pessoa muito delicada pode entrar em um quarto vazio onde há um espelho vazio, e com tal leveza, com tal ausência de si mesma, que a imagem não marca. Como prêmio essa pessoa delicada terá então penetrado em um dos segredos invioláveis das coisas: viu o espelho propriamente dito.
E descobriu os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou mais blocos de gelo. Espelho é frio e gelo. Mas há a sucessão de escuridões dentro dele - perceber isso é instante muito raro - e é preciso ficar à espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar e surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. [...] É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água.
Não, eu não descrevi o espelho - eu fui ele. E as palavras são elas mesmas, sem tom de discurso.


Clarice Lispector, em  Água Viva.


15/12/2013

Habitar o tempo






Para não matar seu tempo, imaginou:
vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
no instante finíssimo em que ocorre,
em ponta de agulha e porém acessível;
viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
habitá-lo, na agulha de cada instante,
em cada agulha instante: e habitar nele
tudo o que habitar cede ao habitante.
 
E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível.
 
Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
matar o tempo, enchendo-o de coisas;
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas;
pois como o tempo ocorre transparente
e só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),
para habitá-lo: só no passado, morto.
 
João Cabral de Melo Neto

12/12/2013

A voz do escritor

 
 
imageria, libertação, vocabulário saltam do corpo e do passado do escritor, e gradualmente passam a ser os próprios reflexos de sua arte. embora sob o nome de estilo, uma linguagem autossuficiente é desenvolvida, e tem suas raízes somente nas profundezas da mitologia pessoal e secreta do autor...sua moldura de referencia é biológica ou biográfica e não histórica.
 
Roland Barthes
 
 


08/12/2013

Na minha cidade tem poetas, poetas, poetas...

 Composição do uruguaio Leo Masliah, versão de Carlos Sandroni 
 


07/12/2013

Chico Albuquerque 
 
 


05/12/2013

Nelson Mandela - 1918-2013




"Ainda há gente que não sabe,  quando se levanta,  de onde virá a próxima refeição e há crianças com fome que choram."

03/12/2013

Os mandamentos do escritor

 

 
 

El decálogo de Juan Carlos Onetti
 
I.  No busquen ser originales.  El ser distinto es inevitable cuando uno no se preocupa de serlo.
 
II. No intenten deslumbrar al burgués. Ya no resulta. Éste sólo se asusta cuando le amenazan el bolsillo.
III. No  traten  de  complicar al  lector,  ni  buscar  ni  reclamar  su  ayuda.
 
 IV. No escriban jamás pensando en la crítica,  em  los  amigos o parientes,  en la dulce novia o esposa.  Ni siquiera en el lector hipotético.
 
V. No  sacrifiquen la sinceridade  literaria  a  nada. Ni a la política ni al triunfo.  Escriban siempre para ese otro,  silencioso e implacable,  que llevamos dentro y no es posible engañar.
 
VI. No sigan modas,  abjuren del  maestro sagrado antes del tercer canto del gallo.
 
VII. No se limiten a leer los libros ya consagrados. Proust y Joyce fueron despreciados cuando asomaron la nariz, hoy son genios.
 
VIII.  No olviden la frase, justamente famosa: 2 más dos son cuatro; pero ¿y si fueran 5?
 
IX.  No desdeñen temas con extraña narrativa, cualquiera sea su origen. Roben si es necesario.
 
X. Mientan siempre.
 
XI. No  olviden que Hemingway escribió: “Incluso di lecturas de los trozos ya listos de mi novela, que viene a ser lo más bajo en que un escritor puede caer.”


Juan Carlos Onetti, escritor uruguaio (1909-1994)

01/12/2013

Os buracos do espelho


 
 

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
 
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar,  e não se ouve
 
já tentei dormir a noite inteira
quatro,  cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
 
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora
 
Arnaldo Antunes

28/11/2013

O presente

 
 
 
Vou-te dar um presente
eu gosto de presentes
é uma caixa de jóias
é tão bonita
dentro está um anel com uma pedra preciosa
porque é tão grande?
toma cuidado
dentro está um anel com uma pedra preciosa
mas talvez nunca o chegues a pôr no dedo
na caixa está uma serpente
para pegares no anel tens de abrir a caixa
se abrires a caixa a serpente pode picar-te o dedo
e tu podes morrer
se não abrires a caixa

Adília Lopes, Lisboa, 1960-

25/11/2013

Sob as ondas da imaginação

Nas águas salgadas mergulho as cordas do meu corpo que entoa canções que se propagam em ondas elétricas pelo Universo.
Água viva, água pura, água suja, plásticos, metais, garrafas transportam mensagens de amor, pedidos de ajuda. Meu corpo preso balança no vaivém das ondas, ora calmas, noutras agitadas, formando redemoinhos, oprimindo meu peito, afunilando meu coração.
Águas salgadas que se evaporam, deixando apenas rastros, miniaturas de palavras em estatuetas de sal sob a ação do tempo...


20/11/2013

As muralhas da noite

 
 

A mão ia para as costas da madrugada
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.
Entre os dentes do mar acendiam-se braços.
Os dias namoravam sob a barba do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões, camas, cadeiras,
 manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.
Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas da madrugada
 entre os dentes do mar.
 
 
João Maimona, Angola

19/11/2013

Sem título


 Todos os livros ainda estão para serem lidos e suas leituras possíveis são múltiplas e infinitas; o mundo está para ser lido de outras formas; nós mesmos ainda não fomos lidos.
 
Jorge Larrosa, filósofo e professor da Universidade de Barcelona



16/11/2013

...se pudesse...


(...) se pudesse me imaginar numa floresta, emboscado num bosque, ou girando em círculos,  seria o fim dos meus tatibitates,  descreveria as folhas,  uma a uma,  no momento de brotar,  no momento do húmus,  são bons momentos para quem não tem de dizer.  Mas não sou eu, não sou eu,  onde é que estou,  o que estou fazendo, todo esse tempo, (...)
  

Samuel Beckett,  O Inominável

12/11/2013

Dobradinha

Vivian Maier

 
Não sou vítima de nada; não sou vítima da ilusão do conhecimento. Escrever é literalmente um jogo de espelhos, e no meio desse jogo representam-se a cena multiplicada de uma carnificina metafisicamente irrisória.  As caçadas celestes, o esotérico pentagrama corporal, a antropofagia mágica, imprimiram-se no filme docemente truculento do cinema geral do bairro condenado à fruição analfabeta.


Herberto Helder


***

Arakem Alcântara
 
Terrível não é a altura, mas o declive. O declive de onde o olhar se precipita para baixo e a mão se estende para cima. Ali o coração é tomado de vertigem ante a sua dupla vontade.
 
 
Friedrich Nietzche
 
 
 

09/11/2013

Epigrama

 

 
 
A loucura é a grandeza dos simples:
assim são eles mais do que eles,
colhendo flores brancas e reles.
 
Os doidos, de olhos arregalados,
crescem devagar como as árvores:
só não dão folhas e frutos.
 
Amo as suas frases sem sentido:
dobram nelas os sinos abstractos
de um campanário sem janelas.
 
Dai-me ó loucos, a vossa razão
- esses remos de subir o tempo
até à fonte de um deus obsceno e nu.
 
Nuno Júdice,  Lisboa,  (1949  -   )


04/11/2013

"Curiosidades"

Os egípcios utilizavam as fibras  do papiro (planta encontrada às margens do Nilo), cujas tiras serviam como superfície resistente para a escrita hieroglífica. O desenvolvimento do papiro ocorreu em 2 200 a.C. dando origem à palavra papel.

Escrita do antigo Egito


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Os sumérios registravam suas estórias em tijolos de barro, sob a forma de "cunha", que acabou dando o nome ao seu sistema de escrita: cuneiforme.

 

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 Os livros maias tinham páginas semelhantes a um cartão feito de tecido sobre o qual era aplicada uma camada de cal e em seguida desenhados os caracteres e ilustrações. Os cartões eram atados entre si pelas laterais, formando uma longa fita que era dobrada em ziguezague para guardar e ser dobrada para leitura.


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Os romanos escreviam em tábuas de madeira cobertas com cera.

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O papel foi criado pelos chineses no século II, substituindo o papiro e o pergaminho.

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A partir do século XVIII foi criada a técnica da encolagem, que consistia na adição de cola ao papel para impermeabilizá-lo e torná-lo adequado para a escrita.


03/11/2013

Odeon (chorinho)


 
Ai quem me dera
O meu chorinho tanto tempo abandonado
E a melancolia que eu sentia
Tanto ouvia
Ter que fazer canto chorar

Ele me lembra tanto, tanto
De outro encanto de um passado
Que era lindo, era triste, era bom
Igualzinho ao chorinho chamado Odeon

Pensando flauta e cavaquinho
Meu chorinho se desata
Tira da canção no violão esse bordão
Que me dá vida, que me mata
É só carinho, meu chorinho
Quando pega e chega assim devagarzinho
Meia luz, meia voz, meio tom
Meu chorinho Odeon
Abre depressa
Chorinho querido, vem
Mostra a graça que o choro sentido tem
Quanto tempo passou, quanta coisa mudou
Já ninguém chora mais por ninguém

Ah, quem diria que um dia, chorinho meu
Você viria com a graça que o amor lhe deu
Pra dizer não faz mal,
Tanto faz, tanto fez
Eu volto pra chorar por vocês

Chora bastante meu chorinho
Teu chorinho de saudade
Diz ao Bandolim pra não tocar tão lindo assim
Porque parece até maldade
Ai meu chorinho, eu só queria
Transformar em realidade a poesia
Ai que lindo, ai que triste, ai que bom
De um chorinho chamado Odeon

Chorinho antigo, chorinho amigo
Eu até hoje ainda persigo essa ilusão
Essa saudade que vai comigo
Que até parece aquela prece no coração
Se eu pudesse recordar e ser criança
Se eu pudesse renovar minha esperança
Se eu pudesse me lembrar como se dança
Esse chorinho que hoje em dia ninguém sabe mais...

Ernesto Nazareth (música) e letra de Vinícius de Moraes 
 
 



19/10/2013

Candeeiro Encantado

 
 
 


 
 
Lá no sertão cabra macho não ajoelha
nem faz parelha com quem é de traição
puxa o facão, risca o chão que nem centelha
porque tem vez que só mesmo a lei do cão.
 
É Lampa, é Lampa, é Lampa,
É Lampião, meu candeeiro encantado
 
Enquanto a faca não sai toda vermelha
a cabroeira não dá sossego, não.
Revira bucho, estripa como corta orelha
que nem já fez Virgulino, o Capitão.
 
Já foi-se o tempo do fuzil papo amarelo,
pra se bater com poder lá do sertão.
Mas Lampião disse que contra flagelo
tem que lutar com parabelo na mão.
 
Falta o cristão aprender com São Francisco
falta tratar o Nordeste como o Sul
falta outra vez Lampião, Trovão, Corisco
falta feijão, ao invés de mandacaru.
 
Falta a Nação acender seu candeeiro,
falta chegar mais Gonzaga lá do Exu,
falta o Brasil de Jackson do Pandeiro,
maculelê, carimbo, maracatu.
 
Lenine/Paulo César Pinheiro


18/10/2013

O traje novo

 
 
O traje novo que eu desejei
seria claro, leve, inconsútil,
teria raios de sol perdidos,
teria cheiro de campo agreste.
 
Com essa amável túnica branda
eu dançaria pelos caminhos,
aérea, fluida, fantasmagórica,
casada às aves e à ventania.
 
Meus gestos suaves se moveriam
seguindo o embalo verde dos ramos
meu corpo eurítimico encerraria
a ingenuidade profunda e lírica
da água mansa e humilde das fontes.
 
Foram-se as horas, foram-se os dias,
foram-se os sonhos. Naquela estrada
por onde andei na inquieta procura
do traje claro, leve, inconsútil,
o sol morrera. Na noite eterna
havia corpos despedaçados,
vozes gemiam gemidos roucos,
lobos uivavam gelando a treva.
 
E a noite enorme vestiu-me inteira
de uivos de lobos, corpos rangentes,
roucos gemidos, roucos gemidos,
roucos gemidos.
 
Oneyda Alvarenga, Varinha(MG) - 1911-1984. Além de poeta e jornalista, Oneyda era musicista e folclorista; e dirigiu a Discoteca Pública Municipal da Prefeitura de São Paulo. Foi aluna de Mário de Andrade, tornando-se sua colaboradora nos trabalhos de pesquisa sobre o folclore e a música brasileira. 


15/10/2013

Uma corajosa moça mal comportada


 


    Léa Maria Aarão Reis


  26 de junho de 1968. Passeata dos cem mil, uma das maiores manifestações de rua da história republicana, no Brasil. Cidadãos de todas as origens, idades, credos e profissões desfilavam pela Avenida Rio Branco, Centro do Rio de Janeiro com uma disposição nunca vista antes. Homens e mulheres desciam dos edifícios de escritórios a todo instante para engrossar a multidão que protestava contra o arrocho, cada vez maior, da ditadura civil-militar no país. Na linha de frente da passeata - a foto é histórica -, um grupo de belas mulheres, atrizes e estrelas do cinema, televisão e teatro, de braços dados, desafiavam, corajosamente, o sistema e os generais. Tonia Carrero, Eva Wilma, Odete Lara, Leila Diniz e Norma Bengell, ela na época com 33 anos, abriam o cortejo. Seis meses depois Norma era presa e o AI-5 amordaçava as moças da comissão de frente, a multidão reunida na avenida e todos brasileiros. Menina criada no Lido, em Copacabana, bairro carioca reduto dos funcionários públicos, nos anos 50, filha de mãe enfermeira e de origem classe média simples, Norma era uma bonita moça recém saída da adolescência, inteligente, com educação básica, um admirável corpo e a determinação singular para os seus 15 anos: queria ser alguém especial na vida. Dura tarefa para a garota de origem modesta, em um tempo em que as mulheres casavam e se conformavam em ser donas de casa bem comportadas como lembrou há dias a recém premiada Nobel da Literatura, a escritora canadense Alice Munro, de 82 anos. Com Norma foi diferente. Ela afirmou, dentre outras conquistas pessoais e profissionais, o protagonismo da mulher da sua geração, das moças que, como ela, não seguiam os modelos sociais ainda rígidos da época. Leila Diniz, uma companheira de geração, costuma ser lembrada como o belo fetiche da liberação da mulher brasileira. Não chegou a envelhecer; morreu jovem e bonita e sua lenda foi preservada. Já Norma, assim como Leila outra moça mal comportada, contribuiu até mais, para salvar quantas meninas da repressão, do conservadorismo e da ignorância. Mas morreu aos 78 anos, e pobre. O primeiro emprego, modelo de uma célebre loja de alta costura carioca, não durou muito. A atmosfera esnobe do lugar e o físico voluptuoso de Norma não se deram bem. Da passarela de moda pulou para o teatro revista, um gênero que, na época, fazia grande sucesso. Ali Norma começou a construir seu prestígio como uma das estrelas dos espetáculos de plumas da boate Night and Day. Trabalhou no primeiro filme, O homem do Sputnik, em 59, e sucedeu Elis Regina no show de bolso Contraponto, da mitológica boate daqueles breves anos dourados, a Zum Zum. Lá tentou a profissão de cantora com a sua voz afinada, mas pequena, adequada para a bossa nova recém nascida; mas insuficiente para voos mais altos. Numa madrugada, no badalado restaurante Fiorentina frequentado por boêmios, artistas, jornalistas e respectivos aspirantes, Norma recebeu do respeitado diretor Ruy Guerra o convite para participar do filme Os cafajestes (1962). Sua sorte ia mudar. Mas havia uma peculiaridade no trabalho: ela devia ser filmada nua – nu frontal -, na sequência de um estupro, à noite, em uma praia. Norma topou. Sua corrida desesperada, sem roupa, pelas areias da Praia do Forte, em Cabo Frio, lindamente iluminada pelo excelente fotógrafo paulista Tony Rabatoni, ia catapultar a moça para a fama, aqui e lá fora. A ajuda veio na mesma época com o filme de Anselmo Duarte, O pagador de promessas, Palma de Ouro do Festival de Cannes. Norma filmava com Anselmo, em São Paulo, e ao mesmo tempo trabalhava com Ruy, no Rio. Na Ponte Aérea, comprava o passaporte de entrada definitiva no mundo artístico: sessenta filmes como atriz, um deles como diretora (era o que mais desejava fazer, quando mocinha), Eternamente Pagu, vários discos gravados e inúmeros trabalhos no teatro e na televisão. Na fase seguinte das várias vidas que viveu intensamente, casou com o ator italiano, Gabrielle Tinti, viveu em Roma no círculo de amigos do legendário cineasta Luchino Visconti e só voltou ao Brasil mais tarde, quando se tornou diretora. Depois da contenda do bloqueio de seus bens pela justiça por um suposto desvio do dinheiro captado para a produção de O guarani, filme que estava dirigindo em 2007, Norma foi sendo posta à margem pelo mercado de trabalho, por vários amigos e conhecidos. “Mesmo se um dia eu ganhasse o Oscar seria sobre o episódio do processo que iam falar”, costumava dizer, entristecida. Norma Bengell foi importante não só para a nossa cultura, como para a política em um sentido mais amplo, comenta o cientista político, Antonio Lassance: “Ela ajudou, se expondo, a combater a ditadura, colocou a cara a tapa contra o regime e arriscou seu prestígio em defesa da liberdade, da democracia e da luta contra o atraso. Hoje, muitos artistas se alinham justamente no sentido contrário e emprestam suas caras ao atraso. Foi figura de destaque na bossa nova e no cinema novo e representou, na época, um novo país que estava surgindo, mais industrializado e mais urbano.” Mesmo nos últimos cinco anos de vida, de doença e solidão, o rosto da Bengell, como era carinhosamente chamada, permaneceu iluminado pelo seu olhar perturbador, penetrante e meio esgazeado, de permanente espanto. Alguém que amou viver e quis entender a geleia geral que a vida é.
 
Extraído de  www.cartamaior.com.br

12/10/2013

Uma "desleitura" de Canção do exílio

 
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torre de ametista,
os sargentos do exército são monistas cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
 
 
Murilo Mendes, Juiz de Fora(MG) - 1901-1975

11/10/2013

Não me arrependo de nada!

 


 
Não, nada de nada,
Não, não lamento nada
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, para mim tanto faz
 
Não, nada de nada
Não, não lamento nada
Está pago, varrido, esquecido
Não me importa o passado
 
Em minhas lembranças
Acendi o fogo
Minhas mágoas, meus prazeres
Não preciso mais deles
 
Varridos os amores
E todos os seus temores
Varridos para sempre
Recomeço do zero
 
Não, nada de nada
Não, não lamento nada
Pois minha vida, minhas alegrias,
Começam contigo a partir de hoje


Edith Piaf nasceu em 19.12.1915
 
e faleceu no dia 10.10.1963

04/10/2013

Morte de africanos em Lampedusa

 
 
 
Não existe um documento da cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie
Walter Benjamin
 
 
 
Cerca de quinhentos africanos provenientes em sua maioria da Eritréia, e da Somália (norte da África) foram vítimas do naufrágio do barco provocado por incêndio criminoso. O número de mortos já alcança mais de trezentas pessoas, incluindo jovens e crianças. Todos eles tentavam fugir das péssimas condições de vida em seu país de origem; na esperança de uma vida melhor se submeteram a condições impostas por indivíduos totalmente destituídos de escrúpulos.
A tragédia (que não é a primeira!) ocorreu nas proximidades da ilha de Lampedusa, ao sul da Sicília, na Itália.
Fico a perguntar-me: até quando esse povo tão sofrido e tão corajoso suportará essa barbárie?


01/10/2013

Os versos de rua

Existem versos em demasia no mundo. Como o vagabundo, que engendra e abandona, a buscar outro atalho, ainda que nada o obrigue ou que espere. Vejo-os formar-se indefesos e saírem em busca de alguém que os protejam. A imensa maioria lhes dá as costas. Quando eles se aproximam, as pessoas desviam o olhar e agem como se eles não existissem. Em seu desamparo os versos se drogam, aspirando o Nada, e ficam inertes na esquina.
 
 

 
 
 
Alguns se dão valor para mostrar-se em lugares públicos. Tão pouco alí os consideram, as pessoas os expulsam de modo grosseiro. Então, eles entram nos vagões do Metrô e tentam divulgar sua mercadoria entre a hostilidade, o desespero ou a indiferença dos passageiros. Não lhes resta outra alternativa senão entrar nas casas, já que não são vistos, e tratar de abrir os olhos, os ouvidos e a mente de quem não os invadiu.
 
 
 
 
 
Como não viver agradecido, se os recolhes por um instante e torna-os parte de tua voz interior, de tua respiração e do fluir rítmico de teu sangue? Pelo menos por essa noite os versos da rua, os filhos da inconsciência e da intempérie, estão a salvo. Amanhã quem sabe. Só existe uma coisa certa: dentro de pouco tempo eles também se terão evaporado. Novas legiões darão testemunho às cidades.
 
 
José Emílio Pacheco, Cidade do México (1939-   )

29/09/2013

O " Brasil Natural" de Valdemir Cunha

 



 

 
 
 

 

 
 

 
 

 

 

 
 
 



 
 


23/09/2013

Antonio Ramos Rosa: "Estou vivo e escrevo sol..."


 
Estou vivo e escrevo sol
 
 
Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
 
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no ato de escrever e sol
 
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objetos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
 
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde




*****

As palavras juntam-se e juntando-se separam-se
Será a sua fluência o movimento da liberdade?
Elas atravessam o vazio do tempo e são formas do tempo
que flui no exterior e no íntimo de nós

Nomear é a elevação de um nível em lúcida perspectiva
e libertar a possibilidade de ser
o que em si não é e só será em forma decisiva
no movimento em que estremece e que está sempre oculto

Há palavras que surgem oscilando sonâmbulas
há outras que entremostram a nudez do linho em seu pudor
há algumas que são apenas formas de água ou desenhos do vento

Mas todas elas obedecem a uma única pulsação
que dir-se-ia o frêmito das veias sobre a página

Mas se não forem mais do que lâmpadas de areia com alguma espuma
nelas ainda cintilará um pálido fulgor solar
que ilumine a agonia do seu vacilante nascimento


Antônio Ramos Rosa, nasceu em Faro, Portugal, e faleceu nesta segunda-feira, à tarde, aos 88 anos de idade.


21/09/2013

Sol de primavera



 
 
 
Quando entrar setembro e a boa nova
andar nos campos
quero ver brotar o perdão
onde a gente plantou juntos
outra vez
Já sonhamos juntos semeando
as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
no que falta sonhar
Já choramos muito, muitos se perderam
no caminho
Mesmo assim não custa inventar
uma nova canção que venha
nos trazer
Sol de primavera abre
as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
só nos resta aprender
 
 
Beto Guedes

18/09/2013

Escritura

Escrevo menos do que vejo
e vejo muito menos do que existe.
No entanto seria suficiente
tomar um feixe de palavras
e sair a errar
pela página em branco
sem perder de vista
que o mundo é vasto
mas não é o único.
 
 
 
Indícios
 
 
Existe um ponto aberto
na porta dos olhos.
Não é um caminho
nem sinal de nada importante
para ninguém.
Apenas ocorre que tem
um ponto aberto
na porta dos olhos.
 
 
 
Teresa Calderón, La Serena, Chile (1955-   )

15/09/2013

Tramas

 
Una palabra
trae
la outra versión
de si:
su no
su necessário
su inaudible.
 
 
Silencio
 
La oscuridad
el hueco
el mundo aparte:
todas la sílabas
que se omitieron
vuelven.
 
 
Rodolfo Enrique Fogwill, Buenos Aires (1941-2010)


12/09/2013

O macaco que queria ser escritor satírico





Na Selva vivia uma vez um Macaco que quis ser escritor satírico. Estudou muito, mas logo se deu conta de que para ser escritor satírico lhe faltava conhecer as pessoas e se aplicou em visitar todo mundo e ir a todos os coquetéis e observá-las com o rabo do olho enquanto estavam distraídas com o copo na mão.
Como era verdadeiramente muito gracioso e as suas piruetas ágeis divertiam os outros animais, era bem recebido em toda parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda mais bem recebido. Não havia quem não se encantasse com sua conversa, e quando chegava era recebido com alegria tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, diante dos quais, por mais contrários que fossem a ele em política internacional, nacional ou municipal, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com o intuito de investigar a fundo a natureza humana e poder retratá-la em suas sátiras.
E assim chegou o momento em que entre os animais ele era o mais profundo conhecedor da natureza humana, da qual não lhe escapava nada. Então, um dia disse:  vou escrever contra os ladrões, e se fixou na Gralha;  começou a escrever com entusiasmo,  gozava e ria e se encarapitava de prazer nas árvores pelas coisas que lhe ocorriam a respeito da Gralha; porém de repente refletiu que entre os animais da sociedade que o recebiam havia muitas Gralhas e especialmente uma, e que iam se ver retratadas na sua sátira, por mais delicada que a escrevesse, e desistiu de fazê-lo
. Depois quis escrever sobre os oportunistas, e pôs o olho na Serpente, a qual por diferentes meios — auxiliares na verdade de sua arte adulatória — conseguia sempre conservar, ou substituir, por melhores, os cargos que ocupava; mas várias Serpentes amigas suas, e especialmente uma, se sentiriam aludidas, e desistiu de fazê-lo.
Depois resolveu satirizar os trabalhadores compulsivos e se deteve na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para que nem para quem; porém com medo de que suas amigas dessa espécie, e especialmente uma, se ofendessem, terminou comparando-a favoravelmente com a Cigarra, que egoísta não fazia mais do que cantar bancando a poeta, e desistiu de fazê-lo.
Finalmente elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir suas baterias, pois tudo estava nos amigos que sentavam à sua mesa e nele próprio. Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a se inclinar pela Mística e pelo Amor e coisas assim; porém a partir daí, e já se sabe como são as pessoas, todos disseram que ele tinha ficado maluco e já não o recebiam tão bem nem com tanto prazer.


Augusto Monterroso nasceu em 1921, em Tegucigalpa, capital de Honduras.  Em 1944, mudou-se para o México e, depois de muito observar a fauna daquele país e de outros, se convenceu de que "os animais se parecem tanto com o homem que às vezes é impossível distingui-los deste". Assim surgiu "A ovelha negra e outras fábulas", lançado pela Editora Record - Rio de Janeiro, 1983, com tradução de Millôr Fernandes e ilustrações de Jaguar, de onde extraímos o texto acima (pág. 11).
Dele disse o escritor russo que se criou nos Estados Unidos, Isaac Asimov: "Os pequenos textos de A ovelha negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso, aparentemente inofensivos, mordem os que deles se aproximam sem a devida cautela e deixam cicatrizes. Não por outro motivo são eficazes. Depois de ler "O macaco que quis ser escritor satírico", jamais voltei a ser o mesmo."
Foi agraciado, em 2000, com o Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras. Um dos escritores latinos mais notáveis, Monterroso tem predileção por contos e ensaios. "O dinossauro", uma de suas obras mais célebres, é considerado o menor conto da literatura mundial: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá".
Augusto Monterroso faleceu em fevereiro/2003.

Extraído de  http://www.releituras.com

08/09/2013

A máquina de fazer radadistas


Kurt Schwitters


A máquina de fazer radadistas foi feita para você. Ela compõe-se de uma excepcional combinação de engrenagens, eixos e cilindros, com cadáveres, ácido nítrico e MERZ e foi construída de tal forma, que você entra nela em pleno gozo de suas faculdades mentais e sai completamente sem juízo. Tal efeito traz grandes vantagens para você. Invista o seu dinheiro em uma cura-radadista e você jamais se arrependerá; aliás, a sua capacidade de se arrepender será completamente inexistente após a cura. Não importa se você é rico ou pobre, a máquina de fazer radadistas o libertará — inclusive — da necessidade do dinheiro em si. Se você é capitalista, passará primeiro por um funil, depois por vários cilindros, até mergulhar num banho de ácido. Depois, você entrará em contato físico com alguns defuntos. Vinagre gotejará cubismo dadá. Então você verá o grande Radadá. (Não o presidente do globo terrestre, como muitos pensam). Radadá irradia astúcia e é revestido de cerca de 100.000 agulhas pontiagudas. Depois de ser chacoalhado para lá e para cá, alguém lerá para você meus novos poemas, até você cair inconsciente. Aí você será socado e radadado, para depois, de repente, ser expelido para fora da máquina, transformado em um antiburguês com um novo penteado. Antes da cura, você tinha pavor até do buraco de uma agulha, depois da cura, nada mais o apavora. Você é um Radadista e reza diante da máquina com todo o fervor. — Amém.


Kurt Schwitters, Alemanha (1887-1948)

06/09/2013

O relâmpago e o vagalume


 
A diferença entre a palavra certa e a palavra errada é a mesma diferença entre o relâmpago e o vagalume. Contudo, todas as palavras brilham. Os vagalumes têm sua beleza no meio da noite. O relâmpago é mais assustador. É perigoso. A palavra certa pode ser fatal!
 
 
Mark Twain, Flórida(EUA) - 1835-1910


05/09/2013

Clube Militar: "Equívoco, uma ova!

Numa mudança de posição drástica, o jornal O Globo acaba de denunciar seu apoio histórico à Revolução de 1964. Alega, como justificativa para renegar sua posição de décadas, que se tratou de um “equívoco redacional”. Dos grandes jornais existentes à época, o único sobrevivente carioca como mídia diária impressa é O Globo. Depositário de artigos que relatam a história da cidade, do país e do mundo por mais de oitenta anos, acaba de lançar um portal na Internet com todas as edições digitalizadas, o que facilita sobremaneira a pesquisa de sua visão da história.

Pouca gente tinha paciência e tempo para buscar nas coleções das bibliotecas, muitas vezes incompletas, os artigos do passado. Agora, porém, com a facilidade de poder pesquisar em casa ou no trabalho, por meio do portal eletrônico, muitos puderam ler o que foi publicado na década de 60 pelo jornalão, e por certo ficaram surpresos pelo apoio irrestrito e entusiasta que o mesmo prestou à derrubada do governo Goulart e aos governos dos militares. Nisso, aliás, era acompanhado pela grande maioria da população e dos órgãos de imprensa.

Pressionado pelo poder político e econômico do governo, sob a constante ameaça do “controle social da mídia” – no jargão politicamente correto que encobre as diversas tentativas petistas de censurar a imprensa – o periódico sucumbiu e renega, hoje, o que defendeu ardorosamente ontem.

Alega, assim, que sua posição naqueles dias difíceis foi resultado de um equívoco da redação, talvez desorientada pela rapidez dos acontecimentos e pela variedade de versões que corriam sobre a situação do país. Dupla mentira: em primeiro lugar, o apoio ao Movimento de 64 ocorreu antes, durante e por muito tempo depois da deposição de Jango; em segundo lugar, não se trata de posição equivocada “da redação”, mas de posicionamento político firmemente defendido por seu proprietário, diretor e redator chefe, Roberto Marinho, como comprovam as edições da época; não foi, também, como fica insinuado, uma posição passageira revista depois de curto período de engano, pois dez anos depois da revolução, na edição de 31 de março de 1974, em editorial de primeira página, o jornal publica derramados elogios ao Movimento; e em 7 de abril de 1984, vinte anos passados, Roberto Marinho publicou editorial assinado, na primeira página, intitulado “Julgamento da Revolução”, cuja leitura não deixa dúvida sobre a adesão e firme participação do jornal nos acontecimentos de 1964 e nas décadas seguintes.

Declarar agora que se tratou de um “equívoco da redação” é mentira deslavada.
Equívoco, uma ova! Trata-se de revisionismo, adesismo e covardia do último grande jornal carioca

Nossos pêsames aos leitores.

General de Divisão Clóvis Purper Bandeira, assessor da Presidência do Clube Militar

extraído de www.viomindo.com.br  .

29/08/2013

Corte transversal do poema


 
 
A música do espaço para, a noite se divide em dois pedaços.
Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça,
fica com um braço de fora.
Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos.
Um anjo cinzento bate as asas
 em torno da lâmpada.
Meu pensamento desloca uma perna,
 o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados.
Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia,
um olho andando com duas pernas.
O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem.
A outra metade da noite foge do mundo empinando os seios.
Só tenho o outro lado da energia,
me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou.


Murilo Mendes, Juiz de Fora(MG) - 1901-1975