23/09/2013

Antonio Ramos Rosa: "Estou vivo e escrevo sol..."


 
Estou vivo e escrevo sol
 
 
Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
 
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no ato de escrever e sol
 
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objetos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
 
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde




*****

As palavras juntam-se e juntando-se separam-se
Será a sua fluência o movimento da liberdade?
Elas atravessam o vazio do tempo e são formas do tempo
que flui no exterior e no íntimo de nós

Nomear é a elevação de um nível em lúcida perspectiva
e libertar a possibilidade de ser
o que em si não é e só será em forma decisiva
no movimento em que estremece e que está sempre oculto

Há palavras que surgem oscilando sonâmbulas
há outras que entremostram a nudez do linho em seu pudor
há algumas que são apenas formas de água ou desenhos do vento

Mas todas elas obedecem a uma única pulsação
que dir-se-ia o frêmito das veias sobre a página

Mas se não forem mais do que lâmpadas de areia com alguma espuma
nelas ainda cintilará um pálido fulgor solar
que ilumine a agonia do seu vacilante nascimento


Antônio Ramos Rosa, nasceu em Faro, Portugal, e faleceu nesta segunda-feira, à tarde, aos 88 anos de idade.


3 comentários:

  1. e ao sol -
    morreu no equinócio...
    (o voo da claridade)

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  2. já ta fazendo falta, cirandeira.
    ontem teve sarau no céu.

    bjs,

    r.

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