30/12/2014

Um desejo de falar

 



de uma plantação de borboletas que nunca deixaram de ser casulos e voavam à procura de canções de mel de abelhas; de um jardim outrora das delícias cheio de pássaros sem asas empalhados sobre árvores secas; de tartarugas que corriam em disparada para o fundo do mar na tentativa de salvar seus filhotes; de um corredor escuro ladeado de prateleiras cheias de livros que sussurravam palavras anecóicas saídas do bico dourado de um papagaio...

Um desejo atravessado de falar pelos cotovelos das esquinas da boca latindo palavras de aparente desconexão que saltam da garganta e se esparramam sobre o chão até o ventre da Terra, criando raízes formando túneis e labirintos que se bifurcam interminavelmente; de religar as sinapses do pensamento para formar um grande coral de vozes dissonantes e criativas numa sinfonia em Sol Maior!

28/12/2014

A Funda


 


Era uma vez um menino chamado Davi N.,  cuja pontaria e habilidade no manejo da atiradeira despertavam tanta inveja e admiração entre seus amigos da vizinhança e da escola, que viam nele — e assim comentavam entre si quando os pais não podiam escutar — um novo Davi. O tempo passou. Cansado do tedioso tiro ao alvo que praticava disparando pedrouços contra latas vazias e pedaços de garrafa, Davi descobriu um dia que era muito mais divertido exercer contra os pássaros a habilidade com que Deus o tinha dotado, de modo que dali em diante a exercitou contra todos os que se punham ao seu alcance, em especial contra Pardais, Cotovias, Rouxinóis e Pintassilgos, cujos corpinhos sangrentos caíam suavemente sobre a grama, com o coração ainda agitado pelo susto e a violência da pedrada. Davi corria alegre até eles e os enterrava cristãmente. Quando os pais de Davi se aperceberam desse costume do seu bom filho se alarmaram muito, lhe perguntaram o que é que era aquilo, e denegriram a sua conduta com termos tão ásperos e convincentes que, com lágrimas nos olhos, ele reconheceu sua culpa, se arrependeu sincero, e durante muito tempo se aplicou em disparar apenas sobre os outros meninos. Dedicado anos depois às Forças Armadas, na Segunda Guerra Mundial Davi foi promovido até general e condecorado com as cruzes mais altas por matar sozinho trinta e seis homens, e mais tarde degradado e fuzilado por deixar escapar com vida um Pombo mensageiro do inimigo.


Augusto Monterroso nasceu em Tegucigalpa(Honduras) em 1921; ainda jovem mudou-se para o México, onde faleceu, em 2003.

21/12/2014

Saudade

 
 
Saudade de mim, de ti,
de muitos...
da chuva que me caía como
pedaços de estrelas cintilantes
chicoteando meu corpo,
sussurrando em meus ouvidos
o cantar dos pássaros
anunciando um Novo Dia
 
Saudade da chuva que regava
meu verde bosque perfumado
de frescuras primaveris
pleno de abismos inexplorados
 
Saudade de um não-ser querendo
ser
e não sendo o desejado,
germinando pensamentos
mergulhados em águas profundas
e desconhecidas
 
Uma saudade misturada
ao vivido ou
 ao que jamais será vivido
 
Saudade da não-saudade
do Nada,
do antes de existir
sem ter morrido,
sem ter nascido.
 
Uma saudade metafísica,
talvez?

18/12/2014

23. Absurdo




Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos.. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas - agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caninho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler, ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.
 
 
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

15/12/2014

O Banquete

 Nestes tempos de muito consumo e de muita comilança lembrei-me de O banquete, de Platão,(427 a.C. 347 a.C.) onde ele nos relata uma reunião de amigos da qual participaram Sócrates, Aristófanes, Agaton e outros filósofos de Atenas, que tinham como desafio fazer a melhor definição de Eros (o Amor). Segue abaixo um pequeno trecho da fala de Aristófanes:
 
[...] Parece-me que os homens não perceberam nada do poder de Eros. Se o tivessem percebido, dele seriam os templos mais imponentes, os mais vistosos altares teriam sido erguidos em seu louvor, para ele arderiam os mais fartos sacrifícios. Não seria como agora, quando nada disso se vê, embora necessitemos dele acima de tudo. Eros é, ao que tudo indica, o mais filantrópico dos deuses, o mais benéfico aos homens, médico de males que, ao curar proporciona o mais completo bem-estar ao gênero humano. [...] Importa que compreendam primeiro a natureza humana e as características dela. Nossa natureza primitiva não era a atual, era diferente. Para começar, a humanidade compreendia três sexos, não apenas dois, o masculino e o feminino, como agora. O andrógino era então, quanto à forma e à designação, um gênero comum, composto do macho e da fêmea. (...) A forma de cada homem era um todo esférico. O dorso e os flancos fechavam-se em círculo. Cada um desses seres era provido de quatro mãos; movia-se com igual número de pernas. Um pescoço torneado sustinha dois rostos, semelhantes em tudo. Uma era a cabeça em que se opunham dois rostos. Os rostos ostentavam quatro orelhas e um par de genitais, a exemplo destes, dobrados eram os outros órgãos. Andavam eretos como os homens de agora em qualquer direção que se locomovessem.(...)De pernas erguidas, formavam uma roda. Rolavam céleres com seus oito membros estendidos. Três eram os gêneros. O gênero masculino primitivo era descendente do sol, o feminino, da terra; o que reunia os dois gêneros em si mesmo, descendia da lua, dotado de características desses dois astros. Lembravam os genitores na circularidade e no deslocamento. Terríveis na força e no vigor, extraordinários na arrogância, desafiaram os deuses. (...) Ao cabo de cansativa deliberação, sentenciou Zeus: "Julgo ter encontrado um recurso para preservar os homens e enfraquecendo-os deter a insolência. Seccionarei cada um em dois para torna-los mais fracos e mais prestativos a nós visto que serão mais numerosos. Andarão eretos, sustentados por duas pernas. Se mesmo assim continuarem insolentes, se não se aquietarem, desferirei outro golpe para deixá-los saltitando numa perna só". Com esse decreto Zeus cortou o homem em dois como se partem sorvas para conserva ou como se dividem ovos à crina. A cada golpe, Apolo, sujeito a ordens, virava o rosto e o pescoço partido na direção do corte com o objetivo de tornar mais ordeiro o homem ciente de sua própria mutilação. Apolo mudou-lhe a direção do rosto, puxou a pele de todos os lados para o ventre, nome atual, como se faz para produzir uma bolsa. Os movimentos dirigiam-se decisivos ao centro, deixando uma abertura, agora chamada umbigo. (...) Como a natureza humana foi dividida em duas, cada uma das partes, saudosa, unia-se  à outra, aos abraços, ardentes por se confundirem num único ser. Morriam de fome e de inércia, porque não queriam fazer nada separadamente. Quando morria uma das partes, a sobrevivente procurava outra e a estreitava nos braços. A meia-mulher procurava outra meia-mulher(mulher agora), o meio-homem procurava outro meio-homem e assim se aniquilavam. Condoído, Zeus transportou as partes pudendas para a frente. Eles as traziam, como agora, fora do corpo, mas geravam e se reproduziam não unidos um com o outro, mas em comércio com a terra, como as cigarras. O propósito era este: se o enlace fosse de um homem com uma mulher, haveria descendência e a constituição de uma família, mas se dois homens se abraçassem, a conjunção os devolveria tranquilos ao trabalho, às outras ocupações do dia a dia. Eros, que atrai um ao outro está implantado nos homens desde então para restaurar a antiga natureza. faz de dois um só e alivia as dores da natureza humana. Cada um de nós é, portanto, a metade complementar de outro (um símbolo). Somos como uma das partes de um linguado cortado ao meio, dois formando um. Cada qual anda à procura de seu próprio complemento.

Como podemos ver, essa busca continua até os dias atuais. Com ou sem Deus, mutilados ou não, cada um de nós carrega em si uma certa dose de arrogância. Mesmo necessitando uns dos outros, poucos são aqueles que o admitem, raros os que de fato se preocupam uns com os outros.
Façamos um banquete universal no qual todos possam compartilhar!!!

11/12/2014

Antony Gormley




Qual o papel do poeta na seleção natural?
 


o poeta - atleta do abismo
espreita o entardecer
por detrás
da história
 
O poeta
- alpinista do nada -
pendura-se na fenda
do portal do tempo
 
Vê o branco
- o não desvio -
- o não impulso -
e não mais se move.
 
 
Matilha
 
 
Nomeados
os lobos
desembanhei os caninos
- incógnitos
e ensaiei a dança
solitária
do uivo
na imensidão astral

Jorge Elias Neto

 


08/12/2014

Eupalinos ou o arquiteto (trecho - II)


 

 
[...] O corpo é um instrumento admirável, pelo qual me asseguro de que os viventes, tendo-o cada qual a seu serviço, dele não dispõem em plenitude; extraem apenas prazer, dor e os atos indispensáveis para viver. Ora confundem-se com ele, ora distraem por algum tempo de sua existência; ora animais, ora puros espíritos, ignoram os vínculos universais que possuem. Graças, no entanto, à prodigiosa substância de que são feitos, participam do que veem e do que apalpam.
 
 
Paul Valéry

04/12/2014

Sísifo & Tédio

Sísifo, de Max Klinger, 1914

 
 
o tempo flui na fruiçãodos dias não vividos; corpo e mente separados
no templo do (des)prazer, o eterno ir-e-vir de Sísifo ou a maldição sobre o acorrentado Prometeu por ousar ser Homem?
 
sexo drogas e pedras muitas pedras rolando no templo do homem-máquina:
o robô-pássaro emite mensagens de última geração em nuvens de paixão cibernética - faz-se e desfaz-se do amor na velocidade da luz;
na velocidade da luz mergulha  no obscurantismo das ideias
 
Sísifo e o Tédio -
quem será engolido por quem?
O Homem criou uma máquina à sua imagem e semelhança
qual dos dois sobreviverá?

30/11/2014

Eupalinos ou o Arquiteto (trecho)






Ó corpo meu, que me lembrais o temperamento de minha índole, o equilíbrio de vossos órgãos, as justas  proporções de vossas partes, que vos fazem existir e vos restabelecem no seio das coisas moventes, vigiai minha obra; ensinai-me silenciosamente as exigências da natureza; comunicai-me essa grande arte da qual sois feito, da qual sois dotado, de sobreviver às estações e de vos refazer dos acasos. Que eu encontre em vossa aliança o sentimento das coisas verdadeiras; moderai, fortalecei, assegurai, meus pensamentos. Perecível que sois, vós o sois bem menos que os meus sonhos; perdurais mais que uma fantasia; [...] Instrumento vivo da vida, sois para cada um de nós o único objeto que se compara ao universo. [...] Sois verdadeiramente a medida do mundo, do qual minha alma apresenta-me apenas o exterior. Ela [a alma] o concebe sem profundidade, e tão futilmente, que por vezes se engana, contando-o entre seus sonhos; [...] Enfatuada de suas efêmeras fabricações, crê-se capaz de uma infinidade de realidades diferentes; imagina existirem outros mundos; mas vós a chamais de novo a vós mesmos, como a ãncora  a si, o navio...Mas possa a obra que agora quero fazer, obrigar-nos a nos responder e surgir unicamente de nosso entendimento!  [...]Cumpre agora que corpo e alma se unam em uma construção bem ordenada."

Paul Valéry


26/11/2014

... II




colher folhas
desfolhar pétalas
nadar em plânctons
plantar prantos
desaguar em labirintos
 
meros sonhos adormecidos
nos solstícios primaveris
saudade fatiada
entre luz e sombra...

germinou cresceu floriu
sobre o tapete passos
apressados rosas despetaladas
para o espetáculo continuar
no jardim das ilusões perdidas...

22/11/2014

Transeunte





em ruas de portas
fechadas trafegam
gaiolas voadoras
chão chumbado
plúmbeo e impropérios
 
pássaros empalhados
vociferam trinados
dissonantes
 
estranha língua
lâmina afiada
camaleão do asfalto
sangra em lascas
de pedras polidas
 
línguas de fogo
rasgam
o céu da boca
em fagulhas
rasgam
 corpos de borboletas
sem asas
espalhadas no asfalto
 


19/11/2014

Zumbi somos todos nós!!!



O dia 20 de novembro, considerado o Dia da Consciência Negra no Brasil por ser a data do nascimento de Zumbi. deveria ser feriado nacional. Nossa dívida ao povo africano é impagável. Zumbi foi um homem que lutou até á morte contra a escravidão de seu povo, pela liberdade e pelo direito a uma vida digna. Os africanos foram tirados de seus países à força para trabalhar gratuitamente nas grandes fazendas dos senhores brancos.
 E a homenagem que considero verdadeiramente justa é respeitá-los como seres humanos dando-lhes iguais condições e oportunidades de trabalho, saúde e educação.  




16/11/2014

Sem aviso



 
Tanta coisa que eu não sabia. Nunca tinham me falado, por exemplo, deste sol duro das três horas. também não me tinham avisado sobre este ritmo tão seco da vida, desta martelada de poeira. Que doeria, tinham me avisado. Mas o que vem para a minha esperança do horizonte ao chegar perto se revela abrindo asas de águia sobre mim, isso eu não sabia. Não sabia o que é ser sombreada por grandes asas abertas e ameaçadoras, um agudo bico de águia inclinado sobre mim e rindo. E quando nos álbuns de adolescente eu respondia com orgulho que não acreditava no amor, era então que eu mais amava; isso eu tive que aprender sozinha. Também não sabia no que dá mentir. Comecei a mentir por precaução, e ninguém me avisou do perigo de ser tão precavida; porque depois nunca mais a mentira descolou de mim. E tanto menti que comecei a mentir até a minha própria mentira. E isso ´já atordoada eu sentia - isso era dizer a verdade. Até que decaí tanto que a mentira eu a dizia crua, simples, curta: eu dizia a verdade bruta.

Clarice Lispector


13/11/2014

Manoel de Barros - 1916-2014


 
 
A maior riqueza
do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
palavras que me aceitam
como sou
- eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
 portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis
que vê a uva, etc, etc
Perdoai, mas eu
preciso ser Outros
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
 
 
***
 
 
Quando o mundo abandonar o meu olho,
quando o meu olho furado de belezas for esquecido pelo mundo,
Que hei de fazer?
Quando o silêncio que grita do meu olho, não for mais escutado
Que hei de fazer?
Que hei de fazer se de repente
a manhã voltar?
Que hei de fazer?
Dormir, talvez chorar

12/11/2014

Do amor


Amor e Psique, Edward Münch
 
 
Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para dar-se a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente - tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo que no meio do mal-estar, dia após dia, não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.
 
 
Giorgio Agamben, em Ideia da prosa - Autêntica Editora

10/11/2014

Quantos muros nos separam...?


Decorridos vinte e cinco anos da queda do muro de Berlim (O8.11.1989) vemos repercutir o fato internacionalmente como uma grande vitória, como se não existissem muitos outros criados antes deste; como se de lá para cá não tivessem erguido outros tantos. Em 1989 havia cerca de onze, entre muros, barreiras ou muralhas erguidas, e hoje, em pleno século XXI, já temos mais  de cinquenta e cinco, que correspondem a exatos 8.000kms!
E quais seriam os motivos ou pretextos para a construção desses muros?
- "impedir conflitos entre os povos"
- evitar "atos terroristas"
- impedir que migrantes estrangeiros ultrapassem as fronteiras

A partir de tais alegações ergueram-se os muros que separam de forma descontínua, Israel e Cisjordânia e a faixa de Gaza; o muro que separa a Coréia do Norte da Coréia do Sul, considerado o mais antigo de todos; entre Israel e Egito; entre a Índia e Bangladesh, a mais longa fortificação, com seus três mil quilômetros formando um verdadeiro "buraco geográfico"
 
 
Israel/ Cisjordânia
 
 
México/EUA
 
 
Índia/ Bangladesh 
 


O muro marroquino ou "muro de areia", que divide o Saara ocidental em dois

 
Marrocos/Saara ocidental 
 
O muro de Berlim foi derrubado, mas a Alemanha continua dividida em duas, não existe integração entre elas, seja política, econômica ou social. A "irmã pobre" é sempre vista de esguelha, sem as mesmas oportunidades de emprego.

Muros, barreiras, muralhas são os preconceitos, a intolerância ao que é diferente, a dificuldade para dividir com o outro, a ausência de solidariedade num mundo cada dia mais voltado para o lucro e o poder. Um mundo que estimula cada vez mais o culto à imagem, ao narcisismo desenfreado, quase patológico. Os muros invisíveis, esses sim, são tão ou muito mais perigosos que os tornados "acidentes geográficos".

09/11/2014

Sola voy con mi pena...

 
solo voy con mi pena
sola va me condena
correr es mi destino
para burlar la ley
perdido en el corazón
de la grande babylon
me dicen el clandestino
por no llevar papel
pa'una ciudad del norte
yo me fui a trabajar
me vida la dejé
entre ceuta y Gibraltar
soy una raya en el mar
fantasma en la ciudad
mi vida va prohibida
disse la autoridad
solo voy en el corazón
de la grande babylon
me dicen el clandestino
yo soy el quiebra ley
 
mano negra clandestina
peruano clandestino
marijuana ilegal
 
argelino clandestino
nigeriano clandestino
boliviano clandestino
colombiano clandestino
uruguaio clandestino
mano negra clandestina
marijuana ilegal



 



07/11/2014

Ideia da felicidade



 
Em todas as vidas existe qualquer coisa de não vivido, do mesmo modo que em toda palavra há qualquer coisa que fica por exprimir. O caráter é a obscura força que se assume como guardiã dessa vida intocada: vela atentamente por aquilo que nunca foi e, sem que o queiras, inscreve no teu rosto a marca disso. Por essa razão, a criança recém-nascida parece já ter semelhanças com o adulto: de fato, não há nada de igual entre esses dois rostos, a não ser, num como no outro, aquilo que não foi vivido.
A comédia do caráter: no momento em que a morte arranca das suas mãos o que essas tenazmente  escondem, aquilo de que se apodera é apenas uma máscara. Nesse momento, o caráter desaparece: no rosto do morto já não há marcas do que não foi vivido, as rugas gravadas pelo caráter alisam-se. Assim se brinca com a morte: ela não tem nem olhos nem mãos para o tesouro do caráter. Esse tesouro - aquilo que nunca foi - é recolhido pela ideia da felicidade. Ela é o bem que a humanidade recebe das mãos do caráter.
 
 
Giorgio Agamben, em  Ideia da prosa - Autêntica Editora

05/11/2014

O Enigma





As pedras caminhavam pela estrada. Eis que uma forma obscura lhes barra o caminho. Elas se interrogam, e à sua experiência mais particular. Conheciam outras formas deambulantes, e o perigo de cada objeto em circulação na terra. Aquele, todavia, em nada se assemelha às imagens trituradas pela experiência, prisioneiras do hábito ou domadas pelo instinto imemorial das pedras. As pedras detêm-se. No esforço de compreender, chegam a imobilizar-se de todo. E na contenção desse instante, fixam-se as pedras – para sempre – no chão, compondo montanhas colossais, ou simples e estupefatos e pobres seixos desgarrados
. Mas a coisa sombria – desmesurada, por sua vez – aí está, à maneira dos enigmas que zombam da tentativa de interpretação.
 É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios. Carecem de argúcia alheia que os liberte de sua confusão amaldiçoada. E repelem-na ao mesmo tempo, tal é a condição dos enigmas. Esse travou o avanço das pedras, rebanho desprevenido, e amanhã fixará por igual as árvores, enquanto não chega o dia dos ventos, e o dos pássaros, e o do ar pululante de insetos e vibrações, e o de toda vida, e o da mesma capacidade universal de se corresponder e se completar que sobrevive à consciência.
 O enigma tende a paralisar o mundo. Talvez que a enorme Coisa sofra na intimidade de suas fibras, mas não se compadece nem de si nem daqueles que reduz à congelada expectação.
Ai! de que serve a inteligência – lastimam-se as pedras. Nós éramos inteligentes, e contudo, pensar a ameaça não é removê-la; é criá-la.
Ai! de que serve a sensibilidade – choram as pedras. Nós éramos sensíveis, e o dom da misericórdia se volta contra nós, quando contávamos aplicá-lo a espécies menos favorecidas.
Anoitece, e o luar, modulado de dolentes canções que preexistem aos instrumentos de música, espalha no côncavo, já pleno de serras abruptas e de ignoradas jazidas, melancólica moleza.
Mas a Coisa interceptante não se resolve. Barra o caminho e medita, obscura.

Carlos Drummond de Andrade

02/11/2014

Somos todos um palimpsesto? *




O coração após certo momento da vida é qual palimpsesto, nada se pode escrever nela sem primeiro raspar o texto da época anterior.
 
 
Joaquim Nabuco, escritor e líder abolicionista, nascido em Recife(PE)
1849-1910.
 
 
 
* Palimpsesto é aquilo que se apaga para escrever novamente; foi uma técnica adotada durante a Idade Média entre os séculos VII a XII, devido ao alto custo do pergaminho. Consistia em apagar um texto através de sucessivas lavagens ou raspagens com pedra pomes.
 
 


01/11/2014

A árvore



 
O frio olhar salta pela janela
para o jardim onde anunciam
a árvore.
 
A árvore da vida? A árvore
da lua? A maternidade simples
da fruta?
 
A árvore que vi numa cidade?
O melhor homem? O homem além
e sem palavras?
 
Ou a árvore que nos homens
adivinho? Em suas veias, seus cabelos
ao vento?
 
(O frio olhar
volta pela janela
ao cimento frio
do quarto e da alma:
 
calma perfeita,
pura inércia
onde jamais penetrará
o rumor
 
da oculta fábrica
que cria as coisas
do oculto impulso
que explode em coisas
 
como na frágil folha
daquele jardim.)
 
 
João Cabral de Melo Neto

29/10/2014

Se houvesse degraus na terra




Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
 
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço á boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
 
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
 
Herberto Helder, Funchal (Ilha da Madeira) - 1930-


27/10/2014

Algumas páginas da história do Brasil

A história é vital para a formação da cidadania porque nos mostra que para compreender o que está acontecendo no presente é preciso entender quais foram os caminhos percorridos pela sociedade brasileira; senão parece que tudo começou quando tomamos consciência das nossas vidas.

Boris Fausto, historiador




22/10/2014

Conto em gotas - ( final )



 
 
De tanto caminhar já sentia na planta dos pés as agulhadas daquelas minúsculas pedrinhas de pó infiltradas em sua carne: ardiam, estavam em brasas os pés e aquele ardor irradiava-se pelas pernas subiam pelas coxas afogueando seu ventre prenhe de estórias por nascer.
 
Na ilha onde se encontrava não havia glicínias azuis. Quando acordou viu ao redor a vastidão da caatinga, o mandacaru em flor, o canto triste do assum preto, a asa branca debatendo-se contra um carcará.
Puxou o fio da meada para sair do labirinto e viu que o dia estava brilhante e ensolarado e belo. Não era azul era laranja. A estória era outra e ainda está para ser contada, não em gotas, mas aos jorros...!

17/10/2014

Conto em gotas - (continuação II)





 
Terceira gota 
 
Caminhando pelas ruas da linguagem, deu-se conta de que embora andasse por elas desde cedo, lhe pareciam estranhas, não conseguia dialogar; passava horas, às vezes dias num silêncio sem fim. Voz e corpo desencontrados coabitando as mesmas palavras, partilhando as mesmas dores, os mesmos sonhos – atravessados na garganta. Com passos lentos, tentava seguir os pássaros, perguntando-se  - onde estaria sua língua que só balbuciava o dejà vu? Que só gaguejava dislexias?
As ruas da linguagem são amplas largas como avenidas de mãos duplas, e de repente ao virar a cabeça percebeu estar numa encruzilhada que bifurcava-se em várias delas, eram estreitas e de mão única. Aquela mão tinha dedos longos como galhos secos sem folhas: era um livro de muitas estórias, de páginas avulsas espalhadas pelo chão. Soprava um vento forte, as folhas voavam para o alto, em todas as direções como se quisessem alcançar os pássaros. E voavam as páginas as palavras as estórias os pássaros e os sonhos contidos naquela mão em forma de labirinto... 

14/10/2014

Conto em gotas (continuação)




 
 
Segunda gota

 
Seguindo aquela algaravia musical olhou pro alto e foi seguindo o voo dos pássaros. Ao passar por uma transversal de palavras parou, precisava alinhar alguns vocábulos de asas caídas; estavam muito machucados, cheios de hematomas provocados por uma discussão com um grupo de expressões vulgares. Após alojá-los confortavelmente, arrancou-lhes as penas ensanguentadas, envolveu-os com uma fina camada de carinho; em seguida, jogou sobre eles um balde de adjetivos para protegê-los do vazio que os rondava. Agora seria apenas uma questão de tempo para compreender a melodia da linguagem às vezes triste, outras sem ritmo sem cor sem nexo aparente. Aprenderia algum dia o som de sua língua?

13/10/2014

Até quando ficaremos nas ilusões, ou nas más intenções?

PODE NÃO SER A OPINIÃO DE TODA A IGREJA, MAS É A DE UM BISPO EMÉRITO, DOM LUÍS ECCEL, DA CIDADE DE CAÇADOR(SC), que atualmente reside em BRUSQUES (SC):

Até quando ficaremos nas ilusões, ou nas más intenções? Pessoas sensatas sabem sobejamente que o candidato do PSDB é apenas verniz, em tudo o que diz e propaga. Basta conhecer um pouquinho só da nossa história política... Problemas e defeitos encontramos em todas as pessoas, instituições, clubes, Igrejas, associações e partidos políticos... Mas todos sabem, ou deveriam saber que o governo de FHC fez o que fez, conhecido como privataria tucana; roubos bilionários, salário mínimo baixíssimo, desemprego alarmante, havia até advogados e engenheiros nas filas disputando as poucas vagas para garis. Inflação altíssima, os bancos lucrando como nunca, enfim o Brasil foi colocado de joelhos diante dos EUA e seus fortes aliados. O Lula nos colocou de pé! Os títulos de “doutor honoris causa” por ele recebidos estão aí para confirmar. Os escândalos financeiros do PSDB foram muitos e astronômicos, porém tudo foi engavetado, pois o STF, e os grandes meios de comunicação estavam, e estão, sempre do lado dessa direita fascista e golpista. O PSBD com seus aliados não estão nem aí para saúde, educação, moradia, vida digna para o povo, especialmente os excluídos. O Brasil jamais viu avanços nos seus 500 anos de história, como nos governos de Lula e Dilma. E a ONU declarou o Brasil, pela primeira vez, há poucos dias, fora do mapa da fome. Só os mal intencionados não percebem esses grandes avanços, em todas as áreas da sociedade brasileira, apesar de ter muito por fazer, e sempre terá. Minha única e exclusiva preocupação é com o povão; tenho certeza, infelizmente, que se Aécio chegar lá, será a retomada do entreguismo: Petrobras, pré-sal, bancos públicos, desprezo das políticas públicas, desemprego voltando, inflação disparando e povão pagando o pato, para eles continuarem a se locupletar e novamente se aliar aos EUA entregando o que temos de riqueza natural. Consciência eles não têm, por isso o remorso passará bem longe deles. Mandem de volta para seus países de origem os médicos que aqui chegaram com o programa +médicos, e quero ver se os médicos brasileiros irão para os rincões mais remotos, ou mesmo para as periferias mais pobres deste país. Alguns alegam que ganham pouco, que faltam instrumentos, etc; mas por que FHC não resolveu o problema da saúde antes de entregar nossas riquezas para alguns poderosos, e abastecer suas contas nos paraísos fiscais? E a classe média acha isso tudo muito bom...Infelizmente é da natureza das toupeiras serem parcial ou totalmente cegas! Fato é que Dilma já fez bastante pela saúde, e o projeto é dos melhores, com a ajuda dos royalties do pré- sal, em favor da saúde e da educação. Tenho certeza de que desde o início do governo Lula, a direita tentou derrubá-lo, desmoralizando o governo petista, com toda sorte de armações, as mais diabólicas, mirabolantes e sórdidas. A elite nunca aceitou perder o poder, muito menos para um operário. E a grande mídia (PIG) faz passar todas essas mentiras como se fossem verdades, e os “incautos ficam indignados”, ( santa ingenuidade, ou venenosa maldade) sem mesmo buscarem elementos para refletir seriamente. Eu sempre acompanhei tudo muito bem! Não suporto tansisse, assim busco informações em fontes fidedignas. A filósofa Marilena Chauí tem razão em declarar a obtusidade absoluta, especialmente, da classe média. Esta classe juntamente com outra, não aceita que pobres possam usar os mesmos perfumes importados, viajar nos mesmos aviões, e comprar nas mesmas lojas; não preciso ir longe, vejo esta estultice anacrônica aqui na “minha” cidade... Alguém poderia alegar que mesmo estudando muito, é de direita, eu respondo como o grande Victor Hugo: “algumas pessoas pagariam para se venderem”! A direita fascista golpista, escrota e asquerosa dá muita risada dos seus eleitores. Dizem: como é fácil convencer os eleitores deste país! Voltemos a nos refestelar entregando as nossas riquezas naturais, e com os impostos provenientes do povo, e vez ou outra lhes daremos umas esmolas... Outro problema sério: é sabido que a direita foi, é, e sempre será aliada da ditadura que persegue, prende, tortura, mata, e faz os cadáveres desaparecerem. Pior ainda, o vice do  Aécio foi aliado da ditadura e a defende sempre. O governo do PT deixou de fazer algo importante? Sim! Poderia ter começado o processo de declaração de nulidade da entrega da Vale do Rio Doce com nossas riquezas minerais, a preço de banana, pelo FHC, uma das empresas mais ricas do mundo. E assim teríamos mais dinheiro para a saúde e educação. Não sei se iria conseguir o intento, pois a justiça normalmente é injusta, e a maioria dos ministros do STF é de direita, ou seja, não estão nem aí para os problemas do povo. Poderia ter feito a reforma agrária e urbana, ter taxado as grandes fortunas; democratizado os meios de comunicação para que os poucos detentores de hoje deixem de distorcer, mentir e manipular o povo... Mas tem um grande mérito, entre tantos outros, apurar as irregularidades no uso da verba pública, não engavetando nada, como era costume na era anterior ao governo petista.
Outro questionamento sério que devemos fazer: Por que o Aécio construiu os aeroportos particulares, com dinheiro público, e os mesmos ficam trancados? Você já se perguntou sobre isto? Fico pensando: não seria para tráfico de drogas, que causam tantas desgraças, mortes e violência, especialmente aos nossos jovens? Para que outro motivo faria isso? Você se lembra daquele helicóptero que foi pego com quase 500 quilos de cocaína? Era de gente próxima a ele. E por que não se falou mais nisso? Se fosse 1 quilo só, com alguém do PT, estariam falando até hoje, especialmente a globo e veja.
O FHC disse que os eleitores de Dilma são pessoas desinformadas dos grotões. Eu tenho certeza que os eleitores do PSDB é que são desinformados, não conhecem nada da nossa história; aliás, o grau de ignorância dos eleitores de FHC e Aécio é tão alarmante que supera até as expectativas das “pesquisas” da GLOBO, VEJA e CIA... Desconhecem totalmente as roubalheiras bilionárias da direita fascista e golpista, ou são coniventes... Portanto, nunca vote na direita, pois é colocar a raposa para cuidar do aviário!
Não sou dono da verdade, mas receba um fraterno abraço de quem tem mente e olhos bem abertos para saber claramente onde estão as verdades e as mentiras, em todos os espaços, sejam eles públicos ou privados, no meu e no seu também... Se quiser acreditar, acredite; se quiser continuar na obscuridade, fique à vontade! Porém seria muito interessante que todos(as) buscássemos conhecer a verdadeira história deste país, em fontes que não sejam as dos grandes meios de comunicação que aí estão para emburrecer o povo, e com isso continuar lucrando com suas mentiras com caras de verdades. Não sou candidato à cargos, mas a colaborar para que o povo tenha vida com dignidade! Isso faz 500 anos que a direita já provou que não dá! Cada um(a) analise a realidade de acordo com a quantidade de neurônios que tem... Fique com Deus! Ou fique com a globo, veja, época e cia... Dê uma olhada no link abaixo! Dom Luiz http://plantaobrasil.com.br/news.asp?nID=82174

12/10/2014

Relendo Brecht pela enésima vez...




Que tempos são estes, que temos de defender o óbvio?
Que continuemos a nos omitir na política é tudo o que os malfeitores da vida  pública  mais querem!
 
***
 
Desconfiai do mais trivial, na aparência simples. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente, não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sanguinária, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer impossível de mudar!
 
***
 
Aquele que não conhece a verdade é um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso.

11/10/2014

Nudez





sob uma densa floresta
noturno o corpo torna-se
árvore despida
os pensamentos sãos
 
galhos de estrelas
transitam em silêncio
escondem-se
sob a vegetação
da pele - são espantos
medo dos desejos.
 
Floresta povoada de devaneios
e solidão.

09/10/2014

O fascismo ronda o Brasil em 2014 - Frei Beto

Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do fascismo ou colaborando para extirpá-la.


Jean-Marie le Pen, líder da direita francesa, sugeriu deter o surto demográfico na África e estancar o fluxo migratório de africanos rumo à Europa enviando, àquele sofrido continente, “o senhor Ebola”, uma referência diabólica ao vírus mais perigoso que a humanidade conhece. Le Pen fez um convite ao extermínio.
O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy propôs a suspensão do Tratado de Schengen, que defende a livre circulação de pessoas entre trinta países europeus. Já a livre circulação do capital não encontra barreiras no mundo… E nas eleições de 25 de maio a extrema-direita europeia aumentou o número de seus representantes no Parlamento Europeu.
A queda do Muro de Berlim soterrou as utopias libertárias. A esquerda europeia foi cooptada pelo neoliberalismo e, hoje, frente a crise que abate o Velho Mundo, não há nenhuma força política significativa capaz de apresentar uma saída ao capitalismo.
Aqui no Brasil nenhum partido considerado progressista aponta, hoje, um futuro alternativo a esse sistema que só aprofunda, neste pequeno planeta onde nos é dado desfrutar do milagre da vida, a desigualdade social e a exclusão. Caminha-se de novo para o fascismo?
 Luis Britto García, escritor venezuelano, frisa que uma das características marcantes do fascismo é a estreita cumplicidade entre o grande capital e o Estado. Este só deve intervir na economia, como apregoava Margareth Thatcher, quando se trata de favorecer os mais ricos. Aliás, como fazem Obama e o FMI desde 2008, ao se desencadear a crise financeira que condena ao desemprego, atualmente, 26 milhões de europeus, a maioria jovens.
O fascismo nega a luta de classes, mas atua como braço armado da elite. Prova disso foi o golpe militar de 1964 no Brasil. Sua tática consiste em aterrorizar a classe média e induzi-la a trocar a liberdade pela segurança, ansiosa por um “messias” (um exército, um Hitler, um ditador) capaz de salvá-la da ameaça. A classe média adora curtir a ilusão de que é candidata a integrar a elite embora, por enquanto, viaje na classe executiva. Porém, acredita que, em breve, passará à primeira classe… E repudia a possibilidade de viajar na classe econômica. Por isso, ela se sente sumamente incomodada ao ver os aeroportos repletos de pessoas das classes C e D, como ocorre hoje no Brasil, e não suporta esbarrar com o pessoal da periferia nos nobres corredores dos shopping-centers. Enfim, odeia se olhar no espelho…
O fascismo é racista. Hitler odiava judeus, comunistas e homossexuais, e defendia a superioridade da “raça ariana”. Mussolini massacrou líbios e abissínios (etíopes), e planejou sacrificar meio milhão de eslavos “bárbaros e inferiores” em favor de cinquenta mil italianos “superiores”… O fascismo se apresenta como progressista. Mussolini, que chegou a trabalhar com Gramsci, se dizia socialista, e o partido de Hitler se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como Partido Nazista (de Nationalsozialist). Os fascistas se apropriam de símbolos libertários, como a cruz gamada que, no Oriente, representa a vida e a boa fortuna. No Brasil, militares e adeptos da quartelada de 1964 a denominavam “Revolução”. O fascismo é religioso. Mussolini teve suas tropas abençoadas pelo papa quando enviadas à Segunda Guerra. Pio XII nunca denunciou os crimes de Hitler. Franco, na Espanha, e Pinochet, no Chile, mereceram bênçãos especiais da Igreja Católica. O fascismo é misógino. O líder fascista jamais aparece ao lado de sua mulher. Como dizia Hitler, às mulheres fica reservado a tríade Kirche, Kuche e Kinder (igreja, cozinha e criança). O fascismo é anti-intelectual. Odeia a cultura. “Quando ouço falar de cultura, saco a pistola”, dizia Goering, braço direito de Hitler. Quase todas as vanguardas culturais do século XX foram progressistas: expressionismo, dadaísmo, surrealismo, construtivismo, cubismo, existencialismo. Os fascistas as consideravam “arte degenerada”. O fascismo não cria, recicla. Só se fixa no passado, um passado imaginário, idílico, como as “viúvas” da ditadura do Brasil, que se queixam das manifestações e greves, e exalam nostalgia pelo tempo dos militares, quando “havia ordem e progresso”. Sim, havia a paz dos cemitérios… assegurada pela férrea censura, que impedia a opinião pública de saber o que de fato ocorria no país. O fascismo é necrófilo. Assassinou Vladimir Herzog e frei Tito de Alencar Lima; encarcerou Gramsci e madre Maurina Borges; repudiou Picasso e os teatros Arena e Oficina; fuzilou García Lorca, Victor Jara, Marighella e Lamarca; e fez desaparecer Walter Benjamin e Tenório Júnior.
Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do fascismo ou colaborando para extirpá-la.

07/10/2014

Conto em gotas


 
 
 
Primeira gota
 
 
Às vezes, o dia amanhece azul, cheio de glicínias japonesas! Como sei que o Japão é uma ilha distante do meu horizonte, limito-me a olhá-las de longe, embevecida com tanta beleza. Apesar das tentativas "humanas" para destruí-la, a natureza resiste bravamente, e de lambuja, mostra-se bela e desafiadora!
 
Às vezes também, uma tribo de palavras resolve pedir asilo e antes que eu permita instala-se em minha garganta locupletando-se até da minha voz! Fico pelas tamancas - o tuntum do sangue a pulsar pelas veias passa por meus ouvidos cochichando: estou viva, olha eu aqui pra te perturbar o sono...
 
As glicínias são lindas em seu habitat, depois que as tiramos de lá, morrem; assim os pássaros com suas asas e sua língua musical - prefiro-os soltos para dar asas à minha imaginação e conectar-me com aquele breve instante de vida de uma palavra ou de uma frase ouvida na algaravia do seu canto. Para eles uma questão de comunicação com os seus, de sobrevivência. Para mim um alumbramento, um deleite que de uma certa maneira ajuda-me a sobreviver!

03/10/2014

Yo no se de pájaros...


 
 
Eu não sei de pássaros,
não conheço a história do fogo,
mas acredito que minha solidão
deveria ter asas.
 
 
***
 
dice que no sabe
 del miedo
de la muerte
 del amor
dice que tiene miedo
de la muerte
 del amor
dice que el amor es muerte
es miedo
dice que la muerte
es miedo
es amor
dice que no sabe
 
 
disse que não sabe
do medo
da morte
do amor
 
disse que o amor é morte
é medo
disse que a morte
é medo
é amor
disse que não sabe
 
 
Alejandra Pizarnik, Buenos Aires, 1936-1972

30/09/2014

Quem quiser, que não acredite...!

Man Ray



O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto, cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.

Deus não morreu. Ele tornou-se dinheiro.
 
 
 
Jorge Agamben, Roma, 1942. É autor de várias obras que tratam de filosofia, política, literatura. Entre elas : Ideia da Prosa, O homem sem conteúdo, A comunidade que vem.

28/09/2014

Gostei de ler !!!

Enrique Vila-Matas (Barcelona, 1948), tem sido ultimamente um dos escritores que mais aprecio. Por um motivo muito simples, mas essencial a um escritor: convida-me, e quase me dá a mão para embarcar com ele em suas viagens ficcionais. Através dele tenho revisitado autores como Kafka, Melville, Musil, Robert Walser, Fernando Pessoa, Valéry, e tantos outros. E o mais interessante é sua capacidade de reinventar personagens a partir desses autores, ficções sobre ficções; num voo cujo percurso fazemos sem sair do lugar, podemos ir de repente a Budapeste, a Portugal, aos Açores, de uma forma agradável cheia de ironias, de autocrítica e muita criatividade.
O último livro que li dele, O mal de Montano, é fascinante. Partindo da ideia de que a literatura é uma doença, o autor vai nos demonstrando aos poucos que essa obsessão pode ser exatamente a sua cura; ao encarnar os personagens de outros autores, Vila-Matas tenta evitar a morte da literatura invocando autores já presentes em obras anteriores como Bartleby e companhia, História abreviada da literatura portátil, criando uma espécie de dicionário cujos verbetes muitas vezes são um diário fictício no qual o narrador e seus personagens se misturam num emaranhado de ironias e autoironias, num verdadeiro jogo de xadrez .
A literatura é, de fato, um antídoto para os males desse dia-a-dia cada vez mais cheio de adversidades e de personagens reais que nos provocam muitas vezes ânsia de võmito; a literatura talvez não possa transformar a realidade, mas pode muito bem nos ajudar a suportar de uma forma menos dolorosa nossa dura realidade, e a perceber de uma forma crítica tudo que está por aí... Como escreveu Henri Michaux, "Oceano, que formoso joguete fariam de você, se a sua superfície fosse capaz de sustentar um homem, como frequentemente indica sua aparência, sua lâmina firme. Andariam sobre você. Nos dias tempestuosos, desceriam com ar alucinado por suas rampas vertiginosas". 

25/09/2014

Exilados



 
 
Ensimesmados,
olham a vida
como exilados
fitando o mar.
 
Não estão no mundo
como quem o habita.
Estão de visita
num planeta estranho.
 
 
***
 
 
Pânico
 
 
Não há mais lugar no mundo
Não há mais lugar
 
Aranhas do medo
fiam ciladas no escuro
 
Nos longes, pesam tormentas,
rolam soturnos ribombos.
 
Súbito,
precipita-se nos desfiladeiros
a vida em pânico.
 
 
***
 
 
tão longa a jornada!
e a gente cai de repente,
no abismo do nada!
 
 
***
 
 
persigo um pássaro
e alcanço apenas
no muro
a sombra de um voo
 
 
Helena Kolody, Cruz Machado (PR)- 1912-2004
 


21/09/2014

Gostei de ler


 

" O povo é como tronco de árvore. Todos se apoiam a ele, sobem por ele para apanhar os frutos que estão lá em cima. Não é o povo que lhes interessa. Só os frutos".
 
"A raça humana anda sempre a olhar para trás, para o passado, à procura da cauda perdida na evolução. Por isso o homem não olha para o futuro e agarra-se ao que foi e ao que não foi, mas pensa ter sido, (ou o que gostaria que dele os  outros pensassem)."
 
 
Pepetela, em A geração da utopia, p. 212,  280 - Editora Leya


18/09/2014

Será que os tempos mudaram?




Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança, tomando sempre novas qualidades", já dizia Luís de Camões (1524-1580). Mas se recuarmos muito mais no tempo, poderemos também encontrar Esopo, aquele fabulista que viveu entre 620-560 a.C. Além de ter sido escravo de um senhor, era gago, corcunda, mas dotado de refinadíssima percepção da natureza humana. Após ser alforriado pelo seu senhor saiu viajando pelo mundo a contar estórias baseadas no que ele observava das pessoas, mas tendo o cuidado de atribuí-las a animais, deuses ou seres inanimados. Mesmo assim foi perseguido e acabou sendo assassinado pelos descontentes com suas estórias.

Atualmente, podemos perfeitamente identificar vários personagens das fábulas de Esopo, principalmente nestes tempos de eleições. Quem não percebe os lobos sob a pele de cordeiros, que se disfarçam para mais tarde devorar todo o rebanho de cordeiros? E a raposa, que aproveitando-se dos discursos em voga tenta aliciar os galos desavisados para em seguida servir-lhe de refeição? Os tempos mudaram, os costumes e as técnicas de aliciamento são outras, (mais aperfeiçoadas), mas os lobos e as raposas continuam subestimando a inteligência e a capacidade de percepção das pessoas!!!

17/09/2014

Ofício do poeta

Jardim dos livros, Raquel Caiano
 
 
"Poeta" pertence àquela categoria de palavras que durante um certo tempo, caíram enfermas, em desamparada exaustão: eram evitadas e dissimuladas - seu uso expunha-nos ao ridículo - e foram tão exauridas que, enrugadas e feias, transformaram-se em sinal de perigo. Aquele que, não obstante se punha a exercer a atividade - que como sempre, prosseguiu eistindo - chamava a si próprio "alguém que escreve".
 
 
Elias Canetti, trecho do discurso proferido sobre o Ofício do Poeta, em Munique, 1976.

14/09/2014

Opalescência


 

 

A primeira palavra passou rápido pela cabeça: estava oca. Depois surgiu o vazio, o branco, o nada. Pensou então ser o fim! Mas era apenas o começo de uma dispersão de letras soltas, avulsas, espiando, como que esperando por algo ou alguém. E repentinamente, como pássaros que saem em revoada no fim do dia à procura do ninho, espalharam-se pelo ar.
 Um fino e transparente cordão flutua no espaço a acenar-lhes, chamando-as para dar-lhes abrigo.
 
O vento é forte e as palavras voam sem rumo certo; talvez estejam perdidas, sem identidade e desvalorizadas vagueiam em busca de novos ninhos...

11/09/2014

O infinito


 
 
Tomei por arte
a pretensão do infinito
e uma ousada aspiração de eternidade
 
Mas vejo Hemingway
os dois canos de espingarda na boca,
Villa-Lobos passando giz no taco de bilhar,
Picasso segurando aquela sombrinha,
a mão ingênua de Pasolini apoiando o queixo,
Rimbaud traficando armas na África,
Fellini de pés descalços numa praia de Rimini
 
E eu aqui caneta, papel
e dois tostões de poesia.
 
O infinito é maior
 
 
*****
 
 
dá-me o prazer?
 
 
a mim não importa a janela
nem a vida
muito menos a porta
de entrada
ou de saída
 
sou mais é participar da miragem
e bailar entre os espelhos
 
 
Paulo José Cunha, jornalista, escritor e poeta piauiense.

07/09/2014

AQUARELA DO BRASIL

Favela


Capoeira


São Paulo(SP)


Casa da Linguagem - Belém(PA)


Mercado de Aracaju(SE)
 

Casa dos Contos - Ouro Preto(MG)


Artesanato indígena
 
 
 


Literatura de Cordel