12/07/2014

Adeus às águas de um rio


 


uma microfísica dor
aprisionou-me
 turvando as estrelas
 aprofundando a noite
 
não vi o leito
daquele rio
caudaloso e querido
 
plásticos garrafas
sem mensagens
conduziram o cortejo
do seu corpo ao cemitério:
descampados
bancos de areia
barcos encalhados
 
adeus currais de peixes
lavadeiras no cais
mãe d'água
cabeça-de-cuia
 
no calhau da seca transborda
meu peito nas águas da memória
da magia das lendas
contadas à boca noite
 
meu coração disparado
adentra meu corpo
feito bicho assustado
fora de casa
 
água que era sangue
transformada em
carne seca
areia desértica
 
e o poema tenta navegar
sobre a aridez da carne
o ermo das palavras
em suas margens
assoreadas


2 comentários:

  1. UN POEMA TREMEDAMENTE REFLEXIVO. MUEVE FIBRAS.
    UN ABRAZO

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  2. Tão lindo, tão memória, tão nostálgico...
    Beijos,

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