05/07/2014

Em memória de Ivan Junqueira (1934-2014)


 
 
 

Variações sobre o branco



  Branca é a página onde escrevo
com ódio, amor, desespero;
branco, o papel onde as letras
põem o luto que há no texto.
Branca é a chama que não queima,
mas que o espírito incendeia,
fustigando-lhe as certezas
com fáusticas labaredas.
Branca, a fronte que se alteia
e após se inclina ante o peso
de uma vida cujo espelho
reflete a imagem do medo.
Branco, o espaço onde latejam
o sol, a lua, as estrelas;
branco, até mesmo o conceito
de que cega é a luz do preto.
Branco, afinal, o arremedo
dos lábios que não se beijam
e sobre os quais jaz o selo
de um asco sem endereço.
 
 
Cinco movimentos
 
 
    Que amor é esse que, desperto, dorme
e quando acorda faz-se ambíguo sonho,
transfigurando o belo no medonho
e em noite espessa a vida multiforme?
 
Então amor é só o que suponho,
o que não digo por ser tão informe
que fôrma alguma lhe é jamais conforme
como este molde em que teimoso o ponho?
 
Será amor o que se esquiva à fala
ou à linguagem que o pretende claro?
E o que seria esse tremor mais raro
que ao aflorar parece que se cala?
Amor oblíquo que olha de soslaio,
mas que ilumina e queima como raio....
 
 
 
Talvez o Vento saiba
 
.   Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.
Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.
Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.

Um comentário:

  1. EXCELENTÍSIMOS VERSOS!!!! GRACIAS POR COMPARTIR.
    UN ABRAZO

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