28/12/2015

Sobre a brevidade da vida



 
 
Sempre que me ponho a pensar sobre a curta existência que nos é permitida viver, sou levada a refletir sobre o que deixaram escrito os homens da Antiguidade. A sensação que tenho é a de que depois deles não temos feito muitos avanços em direção a um crescimento de nossas mentalidades. Como dizia Sêneca, há cerca de dois mil anos atrás, usamos mil e uma maneiras para prolongar a vida artificialmente, empregamos nosso tempo com futilidades e futricas sobre a vida alheia, sem no entanto enriquecê-la, sem abrir nossas cabeças para o que é novo, diferente de nós.

"A maior parte dos mortais lamenta a maldade da Natureza, porque já nasceu com a perspectiva de uma curta existência e porque os anos que lhe são dados transcorrem rápida e velozmente. De modo que, com exceção de uns poucos, para os demais, em pleno esplendor da vida é que justamente está o abandono. Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas."

Outro grande pensador, Hipócrates, considerado o "pai" da medicina, dizia que:

"A vida é curta, a arte é longa. A ocasião, fugidia. A esperança, falaz. E o julgamento, difícil."
Dinheiro, sucesso, e fama, quando chegam juntos, geralmente provocam estragos em muitas pessoas, principalmente quando ainda se é muito jovem, e sem uma bagagem emocional sólida. Há o desejo de alcançar os "degraus" do poder sem estar preparado para a subida. E entre esses "degraus" existem vários tipos de assédios, inclusive de inescrupulosos. Vêm à tona sentimentos de onipotência, de arrogância, vaidades, e, por que não dizer, de imortalidade! 
Muitos até desejam ir-se embora justamente no auge de suas carreiras para que perpetuem suas imagens per ommina secculum...
 
Nossa vida é tão longa quanto a nossa imaginação!   


22/12/2015

Círculo vicioso

 
 
 
Bailando no ar gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loura estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
 
"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela
Contemplou suspirosa, a fronte amada e bela."
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
 
"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
 
"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela
Por que não nasci eu um simples vagalume?" 
 
 
Machado de Assis

18/12/2015

"O jardineiro é eterno"



 
[...]. Rosas, quando recentes, importam-se pouco ou nada com as cóleras dos outros; mas, se definham, tudo lhes serve para vexar a alma humana. Quero crer que este costume nasce da brevidade da vida. "Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno." E que melhor maneira de ferir o eterno que mofar de suas iras? Eu passo, tu ficas; mas eu não fiz mais que florir e aromar, servi a donas e a donzelas, fui letra de amor, ornei a botoeira dos homens, ou expiro no próprio arbusto, e todas as mãos, e todos os olhos me trataram e me viram com admiração e afeto. Tu não, ó eterno; tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu afliges-te! a tua eternidade não vale um só dos meus minutos.
 
 
Machado de Assis, em Quincas Borba - Capítulo CXLI

15/12/2015

Paisagens com cupim * (Reedição ampliada)


 

 
No canavial tudo se gasta pelo miolo, não pela casca.
Nada ali se gasta de fora. qual coisa que em coisa se choca.
Tudo se gasta mas de dentro:
o cupim entra os poros, lento:
e por mil túneis, mil canais, as coisas desfia e desfaz
Por fora o manchado reboco vai-se afrouxando,
mais poroso, enquanto desfaz-se, intestina,
o que era parede, em farinha.
E se não se gasta com choques,
mas de dentro, tampouco explode.
Tudo ali sofre a morte mansa
do que não quebra, se desmancha.
 
João Cabral de Melo Neto,  em  Poesia completa.

* Os cupins são insetos que se organizam numa sociedade onde cada um deles tem uma função definida. Podem ser encontrados no interior do solo, mas também no interior de móveis de madeira, ou até no interior das paredes das casas e dos apartamentos. São a sociedade dos cupins: os operários, os soldados (responsáveis pela defesa do cupinzeiro), os reis e as rainhas. Uma casa pode ruir da noite pro dia, imperceptivelmente, se seus habitantes não tomarem as devidas precauções contra essa praga que vem se alastrando Brasil adentro!

11/12/2015

Nas franjas da noite


Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros,
 ninguém tenha. O maior direito que é meu
- o que quero e sobrequero -:
 é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!
 
João Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas
 
 

 

 
Existem muitas noites numa noite só como muitas folhas há na cabeça de um vivente, essa árvore que amarelece com o passar dos dias. Todos observam mudos e imóveis o fenecer de uma árvore que um dia deu frutos pra alimentar toda uma aldeia. Do seu tronco construíram-se barcos e todos lançaram-se ao mar, e todos alimentaram-se dos peixes. Os cabelos da árvore, de tanto crescer espalharam-se pelas areias da praia, mergulharam no mar, agitaram o mar em altas ondas: mar alto, maremoto mar e morte, mar e lama e nojo e vômitos.
O sal do fundo da terra transformou o que era podre em algas, e os pássaros em voos rasantes cantavam carregando em seus bicos outros organismos para outras plagas; outros bichos se reproduziam sob formas diversas aninhando-se em outras árvores, outros pousos. Nas noites daquela noite ecoaram gritos e  ranger de dentes, e cantares de galos nos quintais da memória, a memória que jamais dorme, que sempre se renova, que transforma seus galhos, suas folhas e seus frutos. A árvore de raízes profundas permanece altiva a observar do alto, apesar dos fortes vendavais, as intempéries que acometem a natureza humana.
 
A vida é mais forte e mais poderosa do que as palavras de um poema. Muito mais que a pequenez do homem. 
 
A vida é mais forte que qualquer arte.


09/12/2015

Luiz Gama e a boca da verdade

 



Guardadas as "devidas proporções", e o contexto da época, esse poema parece ter sido escrito recentemente!!!


SORTIMENTO DE GORRAS
 
(Para gente de grande tom)
 
Seja um sábio o fabricante,
Seja a fábrica mui rica,
Quem carapuças fabrica
Sofre um dissabor constante;
 
Obra pronta, voa errante,
          Feita avulso, e sem medida;
Mas no voo suspendida,
 
Por qualquer que lhe apareça,
Lá lhe fica na cabeça,
Té as orelhas metidas.
 
(F. X. de Novais)
 
Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha,
Por anil nos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois tudo no Brasil é raridade!
 
Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecendo os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E curvos à mania que domina
Desprezam a vovó que é preta mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade
Pois tudo no Brasil é raridade!
 
Se o Governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
O jumento transforma em sor Barão;
Se o estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu — apolhado!
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois tudo no Brasil é raridade!
 
Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o camelo seja gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos
Patetas que nem servem p'ra meirinhos
E que sendo formados bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
 
Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros, e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o Tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados — mac-lama,
Novidade que esfalfa a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p'ro regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
 
Se cotamos vadios empregados,
Porque são de potência afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
 
Se faz oposição o Deputado,
Com discurso medonho, enfarrusca
E pilhado a maminha da lambança,
Discrepa do papel, e faz fundança;
Se esperto capadócio ou maganão,
Alcança de um jornal a redação,
E com quanto não passe de um birbante
Vai fisgando o metal aurissonante,
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
 
Se a guarda que se diz — Nacional,
Também tem caixa-pia, ou musical,
E da qual dinheiro se evapora,
Como o — Mal — da boceta de Pandora;
Se depois se conserva a — Esperança;
E nisto resmungando o cidadão                  
Lá vai ter ao calvário da prisão;
Não te espantes, ó Leitor da pepineira ,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
 
Se temos majestosas Faculdades,
Onde imperam egrégias potestades,
E, apesar das luzes dos mentores,
Os burregos também saem Doutores;
Se varões de preclara inteligência,
Animam a defender a decadência,
E a Pátria sepultando em vil desdouro,
Perjuram como Judas — só por ouro:
É que o sábio, no Brasil, só quer lambança,
Onde possa empantufar a larga pança!            *
 
Se a Lei fundamental — Constipação,
Faz papel de falaz camaleão,
E surgindo no tempo de eleições,
Aos patetas ilude, aos toleirões;
Se luzidos Ministros, d'alta escolha,
Com jeito, também mascam grossa rolha;
E clamando que — são independentes —
Em segredo recebem bons presentes:
É que o sábio, no Brasil, só quer lambança,        .
Onde possa empantufar a larga pança!
 
Se a Justiça, por ter olhos vendados,
É vendida, por certos magistrados,
Que o pudor aferrando na gaveta,
Sustentam — que o Direito é pura peta;
E se os altos poderes sociais,
Toleram estas cenas imorais;
Se não mente o rifão, já mui sabido:
Ladrão que muito furta é protegido —
É que o sábio, no Brasil, só quer lambança,
Onde possa empantufar a larga pança!
 
Se ardente campeão da liberdade,
Apregoa dos povos a igualdade,
Libelos escrevendo formidáveis,
Com frases de peçonha impenetráveis;
Já do Céu perscrutando alta eminência
Abandona os troféus da inteligência;
Ao som d'aragem se curva, qual vilão,
O nome vende, a glória, a posição:
É que o sábio, no Brasil, só quer lambança,
Onde possa empantufar a larga pança!
E se eu, que amigo sou da patuscada,
Pespego no Leitor esta maçada;
Que já sendo avezado ao sofrimento,
Bonachão se tem feito pachorrento;
Se por mais que me esforce contra o vício,
Desmontar não consigo o artifício;
E quebrando a cabeça do Leitor
De um tareio não passo, ou falador,
É que tudo que não cheira a pepineira
Logo tacham de maçante frioleira.
 
 
Luiz Gama, poeta e abolicionista, nasceu em Salvador (BA), em 2l de junho de 1830. Era filho de Luísa Mahin, (Luísa era da tribo Mahin, vinda de Benin e pertencia a Nação Nagô) líder da revolta dos Malês, movimento que reuniu vários grupos étnicos, participando ativamente em organizações de escravos revoltosos. Seu pai, cujo nome ainda hoje é desconhecido, era de uma família de portugueses ricos e viciado em jogos de cartas. Após desperdiçar toda a sua fortuna para pagar dívidas, vendeu o próprio filho. Luiz Gama tinha então 10 anos de idade; nasceu livre, mas tornou-se escravo de um fazendeiro de Lorena(SP) que o levou para o Rio de Janeiro juntamente com outros escravos. Do Rio foi pra São Paulo, onde frequentou a Faculdade de Direito, como ouvinte. tornando-se rábula, isto é, um advogado sem diploma, autodidata que empenhava-se arduamente na defesa dos negros escravos, gratuitamente. Faleceu em 1882.


06/12/2015

Mesmices midiáticas

 

 
(...) É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que impor as próprias decisões com a violência. As formas conhecidas de política - Estado nacional, soberania, participação democrática, partidos políticos, direito internacional - já chegaram ao fim da história.
 Giorgio Agamben




Houve um tempo em que se ligava o rádio e podia-se ouvir notícias "frescas", da hora. Dizia-se que o rádio era melhor que o jornal impresso e a televisão, porque tinha sempre repórteres nas ruas atentos ao que acontecia. Hoje em dia, tanto o rádio como o jornal impresso nos dão apenas notícias requentadas (salvo raríssimas exceções), "pescadas" da internet. E depois que surgiu o aplicativo whatsapp  a coisa ficou mais séria: os locutores solicitam aos seus ouvintes que enviem mensagens informando sobre o que acontece nas ruas, porque o eles, os profissionais, nada mais têm a informar, claro, as empresas de comunicação lucram cada vez mais, e o mercado de trabalho fica cada dia mais reduzido. Fica-se então a maior parte do tempo ouvindo notícias requentadas, notícias sobre o trânsito, e a opinião dos "âncoras" e seus convidados sobre a situação do país. Aliás, por quê esse personagem é chamado de âncora? Por quê todos eles são tão empostados, tão artificiais, tão engravatados e tão engolidos pelo paletó? E por que será que eles falam tanto em "liberdade de expressão", "liberdade de imprensa"? Liberdade pra quem? Essas pessoas empostadas à frente das câmeras de televisão, ou como locutores de rádios AM/FM nada mais são do que os verdadeiros representantes dos grandes grupos empresariais, seus porta-vozes oficiais, pagos a preço de ouro! E ainda recebem "prêmios"!, dados por eles mesmos, diga-se de passagem.  A maneira arrogante como falam, a ambiguidade que é dada às notícias de forma a confundir o telespectador/ouvinte, mostra claramente a manipulação que é feita dos fatos. Eles pensam que não sabemos separar o joio do trigo, que não temos capacidade para distinguir alhos de bugalhos, e por isso acham-se no direito de "analisar", de "interpretar" os fatos para todos nós, pobres e ignorantes. Eles se julgam mesmo "os tais", que podem deturpar e distorcer os fatos a seu bel prazer; agem como se tivessem um rei na barriga, e xingam, dizem impropérios, até parece que estão acima do bem e do mal . Os "políticos"? Uma grande parcela desses que se julgam os "representantes do povo", têm concessão de rádio e televisão, ou seja, veiculam as notícias de acordo com seus interesses. Alguém já viu, leu, ou escutou alguma reportagem da "grande imprensa" sobre a verdadeira história do Brasil? Já viu alguma contextualização dos fatos que ocorrem ou ocorreram em nosso país? Por que será que omitem tantos fatos importantes que ocorrem nesse nosso imenso país cheio de diversidades culturais? O Brasil é muito mais, mas muito mais, mesmo, do que São Paulo & Rio & Brasília.
 É realmente lamentável. Ainda bem que existem outras vias pra se obter informações críveis, e bons livros pra se ler!!!

30/11/2015

Nosso cérebro e a liberdade de expressão

 

 
Nosso cérebro é uma máquina complexa e perfeita. Sua formação acontece após três semanas da concepção do feto com cerca de 100 bilhões de células repletas de conexões que vão se formando a cada estímulo, criando as mais diversas imagens. A porta de entrada para essas imagens é exatamente o buraco negro que há no centro do olho, nossa lente natural: o cristalino. É através dele que passam os raios luminosos. A luz atinge o fundo do olho, a retina, onde existe uma verdadeira floresta com aproximadamente 125 milhões de células sensíveis à luz; cada uma dessas células capta um pouquinho do que vemos enviando essa informação para o cérebro, que por sua vez organiza esses fragmentos de informações para montar a imagem completa. Esse processo tem início ainda no útero da mãe, quando o bebê tenta enxergar, mas só vê em preto e branco. Após o nascimento surgem as células específicas para detectar as cores. Elas agrupam-se numa área da retina, que tem o formato de um vulcão: é a mácula, que ficará pronta a partir dos 4 anos de idade, quando então a visão atinge o máximo de nitidez e flexibilidade.
E por quê todos esses prolegômenos? Por uma razão muito simples, porque é básica, e como tal é essencial. Como é possível admitirmos, aceitarmos ser invadidos, desrespeitados todos os dias de nossas vidas por programas televisivos de tão baixo nível? A Constituição Federal, em seu Art.21, Inciso XVI, diz, com todas as letras: "Programas que incitam a violência e estimulam a sexualidade precoce, não contribuem para o enriquecimento cultural da população. O ministro Antônio de Pádua Ribeiro, do Superior Tribunal de Justiça também acrescenta: "O direito à liberdade está no mesmo plano constitucionalmente assegurado, como a difusão de programas educativos, artísticos e informativos e o respeito a valores éticos e sociais da pessoa e da família. [...] Eventuais restrições à liberdade de expressão nada teriam de autoritário ou arbitrário ao respeitarem o direito alheio."
 
Expor garotas jovens, seminuas, a exibirem seus traseiros como fazem os açougueiros com os traseiros bovinos em seus frigoríficos é algo artisticamente belo e dignificante para as mulheres, ou para qualquer ser humano que se preze? Utilizar mulheres negras (e nordestinas!?) com dificuldade de articular palavras, gagas, acrescenta alguma coisa além de preconceitos e falta de respeito à dignidade humana? Ter defeitos físicos é motivo pra rir, fazer galhofa, ridicularizar uma pessoa?
Por quê não se vê um programa que nos mostre a diversidade de nossa cultura popular, da nossa literatura, de nossos poetas, de nossa cultura indígena?
É isso que chamam de "liberdade de expressão"? Liberdade de expressão de quem? Pra quem? Não somos obrigados a aceitar esses tipos de programas, afinal de contas, somos cidadãos que pagamos impostos, e todos esses programas são concessões financiadas por nós, brasileiros, eleitores. E não é só uma questão de usar o controle remoto e mudar de canal, porque a maioria esmagadora desses programas são de péssima qualidade!
Chega de permitir que o pânico invada as nossas casas. Já temos manipulação de "notícias" ancoradas por marinheiros piratas de paletós e gravatas. Sem contar (ainda por cima!), com as inumeráveis vinhetas de politiqueiros a nos infernizarem com suas mentiras, diuturnamente!
Temos um cérebro refinadíssimo, que pensa, analisa, critica, e em perfeitíssimas condições de distinguir o que é bom, saudável e inteligente. 

NÃO MERECEMOS e NÃO QUEREMOS esse tipo de mídia! 

26/11/2015

Sonho de papel




 
Cada dia mais Tirésias tateio no escuro; cada dia mais claro lá fora cerra-se a cortina. Não. É preciso dizer: arranquei-me da pele (outra vez), estirei-a na embira só pra me ver secar ao sol. Olhei praquele céuzão azul, praquela vastidão infinitiva, e foi quando vi o voo delas a farejar o meu perfume. Levantei-me hirta de dor e de medo e mergulhei-me em busca do meu fio...
Nas franjas de Mnemosyne busco o fio de Ariadne pra sair do labirinto, mas sua cabeça, hoje calva e sem rumo anda com os pés no esquecimento, perdeu-se na desrazão. No silêncio da noite procuro Morfeu: em vão, hoje ele é virtual dependente de Matrix. Talvez seja necessário fazer umas "atualizações", umas "selfies" pra postar no instagram. Quem dorme na rua sob a luz das estrelas, quer apenas uma cama de papelão pra embalar seu sonho de papel.

21/11/2015

Espelho d'água





Romperam-se as comportas: lá vem água-e-olhos-paus-e-pedras-cipós-e-lodo-e-lama-e-lágrima-e-prantos. Nosso pesar preso no peito é como uma pena que avoa esparsa através do vento que assopra sem rumo certo...
Desidratei as lágrimas que desciam pelo rosto. O arco-íris que havia na íris dos olhos transformou-se em preto e branco. Caí-me debruçada sobre sonhos legendados em idiomas indecifráveis, e o espelho da pupila reflete apenas imagens opacas e distorcidas. Os dias foram apagados para dar passagem à noite, e o coração balança entre mãos frias e trêmulas.
Enquanto o fogo queima desce uma lágrima que abre frestas de janelas formando um imenso espelho d'água de desolação e tristeza.

19/11/2015

Poesia Afro-brasileira - IV


 
 


A PALAVRA NEGRO
 
A palavra negro
tem sua história e segredo
veias do São Francisco
prantos do Amazonas
e um mistério Atlântico

A palavra negro
tem grito de estrelas ao longe
sons sob as retinas
de tambores que embalam as meninas
dos olhos

A palavra negro
tem chaga tem chega!
tem ondas fortesuaves nas praias do apego
nas praias do aconchego

A palavra negro
que muitos não gostam
tem gosto de sol que nasce
A palavra negro
tem sua história e segredo
sagrado desejo dos doces voos da vida
o trágico entrelaçado
e a mágica d’alegria
A palavra negro
tem sua história e segredo
e a cura do medo
do nosso país

A palavra negro
tem o sumo
tem o solo
a raiz.

AVE
 
Não sou urubuwww.fora
pra comer a carniça do Ocidente
e a podre culpa de brancos
Nem sou a pomba da paz
pra churrasquinho dos ditadores
Sou a ave da noite
Sou ávida noite
que bate asas de vento
e traz um canto agourento
ao sonho dos opressores
e traz um canto suave
a despertar outras aves
pro revoar da justiça.

Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, nasceu em Ourinhos(SP) e vive na cidade de  São Paulo. É mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de Campinas(SP). É autor de Poemas da Carapinha, Batuque de tocaia(poemas), Flash crioulo sobre o sangue e o sonho(poemas) e Quizila(contos).


18/11/2015

Poesia Afro-brasileira - III



 


Ai de mim!
 
 
Deu de abrir comissuras na minha pele,
Porque ele partiu.
E nunca mais voltou pra minha alcova,
Pro meu convento de moça.
Pra minhas paúras,
Pra minha pioras de noiva,
Pros meus pincéis de Almodóvar,
Pra minha cova roxa.
Eu fico esperando volta.
Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!
 
Deu de abrir fissuras na minha boca,
Porque ele partiu.
E eu fiquei oca,
Fiquei seca,
Virei louça,
Vivi morta.
Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!
 
Deu de abrir fendas no amor,
Porque ele partiu,
E nunca mais voltou.
Eu sucumbi ao sol:
Comi calêndulas,
Girassóis feridos,
Flores de abóboras,
Serpentes de vidro.
Abri a porta e gritei:
Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!
 
 
Livro
 
 
Lanço-te, marujo!
Urge o arremesso do desbravamento,
O amansar da fúria contida nos dicionários.
Estende o teu olhar pras gentes e vê o que querem.
Vê o paladar apurado do povo,
Agita os braços ante o infante de leituras.
Dou-te todo o meu mar salgado,
Minhas mulheres que choram e riem alto,
Minhas noivas dispostas ao divórcio das prendas,
Arquétipos da minha avó cabocla.
Vai, marujo!
Arrisca teu perfil às tintas, ao incesto das editoras,
Aos naufrágios à beira da porta,
Aos críticos que rasgarão teu ofício de dias.
Vai, portuoso!
Beija na boca todas as mulheres que querem o teu beijo,
Todos os homens dispostos ao risco.
Abre teu pórtico de páginas aos servos, aos escravos,
Aos que vivem sob vigências de feudos modernos.
Vai, marujo! Gruda nas casas novo ato de liberdade,
Conspira com os nossos,
E toma da noite sua embriaguez,
Sua inspirada subversão de Musa.
Vai, marujo!
Lança-te ao mar com tudo que nele há
De Pessoa, de Neruda, de Carlos, de Adélia,
De Cora, de Bandeira, de Clarice, de Lorca.
Vai! E afoga meus navios velhos, viola minhas certezas,
Viola minhas mentiras, meus fingimentos de Poeta,
Viola minha caixa de Pandora,
Meu anonimato, meu suicídio diário,
Minha textura de negra, minha candura de puta.
Vai! Antes que eu me lance sem âncoras,
Pois que deixo velas, remos e medos muitos.
 
Rita Santana nasceu em Ilhéus(BA), em 1969. É poeta, atriz, escritora e professora, formada em Letras. Recebeu o prêmio Braskem de Cultura e Arte-Literatura em 2004. Publicou o livro de contos Tramela pela Fundação Casa de Jorge Amado. Os dois poemas apresentados acima fazem parte do seu livro de poemas Tratado das Veias, divulgado na Bienal do Livro da Bahia (2005).


17/11/2015

Poesia Afro-brasileira - II


 
 
Ser escritora afro-brasileira é ter a possibilidade
de recontar sua própria história, utilizando a nossa própria forma de expressão. Ter a possibilidade de ser o diretor, roteirista, ator, atriz, produtores musicais das trilhas sonoras que conduzem nossas vidas.
 
(Esmeralda Ribeiro, em Afroescritores)
 

 
 
RESSURGIR DAS CINZAS

Sou forte, sou guerreira,
tenho nas veias sangue de ancestrais.
Levo a vida num ritmo de poema-canção,
mesmo que haja versos assimétricos,
mesmo que rabisquem, às vezes,
a poesia do meu ser,
mesmo assim, tenho este mantra em meu coração:
“Nunca me verás caído ao chão”.
Sou destemida,
herança de ancestrais,
não haja linha invisível entre nós
meus passos e espaços estão contidos
num infinito túnel,
mesmo tendo na lembrança jovens e parentes que, diante da batalha deixaram a talha
da vida se quebrar,
mesmo tendo saudade cultivada no portão.

Mesmo assim, tenho este mantra em meu coração:
“Nunca me verás caída ao chão” .
Sou guerreira como Luiza Mahin,
Sou inteligente como Lélia Gonzáles,
Sou entusiasta como Carolina de Jesus,
Sou contemporânea como Firmina dos Reis
Sou herança de tantas outras ancestrais.
E, com isso, despertem ciúmes daqui e de lá,
mesmo com seus falsos poderes tentem me aniquilar,
mesmo que aos pés de Ogum coloquem espada da injustiça
mesmo assim tenho este mantra eu meu coração:

“Nunca me verás caída ao chão”.
Sou da labuta, sou de luta,
herança dos ancestrais,
trabalhar, trabalhar, trabalhar,
mesmo que nos novos tempos irmãos seduzidos
pelo sucesso vil me traiam, nos traiam como judas
sob a mesa, meu, ganha-pão.
Mesmo que esses irmãos finjam que não nos vêem,
estarei ali ou onde estiver, estarei de corpo ereto,
inteira,
pronunciando versos e eles versando sobre o poder,
mesmo assim tenho esse mantra em meu coração

“Nunca me verás caída ao chão”.
Me abraço todos os dias,
me beijo,
me faço carinho, digo que me amo, enfim,
sou vaidosa espiritual,
mesmo com mágoas sedimentadas no peito,
mesmo que riam da minha cara ou tirem sarro do meu jeito,
mesmo assim tenho esse mantra em meu coração:

“Nunca me verás caída ao chão”.
Me fortaleço com os ancestrais,
me fortaleço nos braços dos Erês.
podem pensar que me verão caída ao chão,
saibam que me levantarei
não há poeiras para quem cultua seus ancestrais,
mesmo estando num beco sem saída, levada por um mar de águas,
mesmo que minha vida vire uma maré,
vire tempestade, sei que vai passar.
Porque são meus ancestrais que se reúnem num ritual secreto
para me levantar.
Eu darei a volta por cima e estarei em pé, coluna ereta,
cheia de esperança, cheia de poesia e com muito
axé
por isso, desista, tenho este mantra em meu coração:
“Nunca me verás caída ao chão."


Esmeralda Ribeiro nasceu em São Paulo(SP) em 1958. É jornalista, poeta, contista e ensaísta. É integrante dos cadernos Quilombhoje e Cadernos Negros, onde publica ensaios, contos e poemas. É autora do livro de contos Malungos e Milongas.

13/11/2015

Dos pés à cabeça



 
Aquela que caminha sobre a cabeça talvez seja o espectro daquela que dorme numa caixa fechada entre vasos sanguíneos e sinapses intracranianas. Escrevi dorme? Absolutamente! - a ideia nunca dorme, tem medo de morrer - quando uma raiz emerge da terra enroscando-se na árvore ela não dá frutos, é estrangulada.
Os pés caminham sobre o chão seco, sob um sol escaldante a derreter seus miolos; o sol ilumina, mas também pode cegar, aquece, e pode queimar. Até aqui nada de novo, claro. Tantas coisas são óbvias, nem por isso evitamos os desastres, que de tão evidentes tornam-se imperceptíveis. Uma porção de terra isolada é chamada de ilha, um conjunto de ilhas chama-se arquipélago, mas cada ilha permanece em si mesma. Pode-se naufragar sem nunca ter entrado num navio. Uma cabeça pode pirar sem ser uma pira pra carregar a chama das ideias; pode desmoronar do alto do corpo e tornar-se apenas bruma pelo ar...
Os caminhos que a mente percorre são amplos e em permanente mutação...

10/11/2015

Poesia Afro-brasileira: A voz negra de Conceição Evaristo


 


Meia lágrima

 Não,
a água não me escorre
entre os dedos,
tenho as mãos em concha
e no côncavo de minhas palmas
meia gota me basta.

Das lágrimas em meus olhos secos,
basta o meio tom do soluço
para dizer o pranto inteiro. Sei ainda ver com um só olho,
enquanto o outro,
o cisco cerceia
e da visão que me resta
vazo o invisível
e vejo as inesquecíveis sombras
dos que já se foram.

Da língua cortada,
digo tudo,
amasso o silêncio
e no farfalhar do meio som
solto o grito do grito do grito
e encontro a fala anterior,
aquela que emudecida,
conservou a voz e os sentidos
nos labirintos da lembrança.
 
Vozes mulheres

 A voz da minha bisavó
Ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida. A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
 
 
Todas as manhãs

 Todas as manhãs acoito sonhos
e acalento entre a unha e a carne
uma agudíssima dor.

Todas as manhãs tenho os punhos
sangrando e dormentes
tal é a minha lida cavando, cavando torrões de terra,
até lá, onde os homens enterram
a esperança roubada de outros homens.

Todas as manhãs junto ao nascente dia
ouço a minha voz-banzo,
âncora dos navios de nossa memória.
E acredito, acredito sim
que os nossos sonhos protegidos
pelos lençóis da noite
ao se abrirem um a um
no varal de um novo tempo
escorrem as nossas lágrimas
fertilizando toda a terra
onde negras sementes resistem
reamanhecendo esperanças em nós.


Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte, é formada em Letras, mestra em Literatura Brasileira e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense(UFRJ- Rio de Janeiro). É autora dos romances Ponciá Vivêncio e Beco da Memória; Insubmissas lágrimas (contos) e Poemas da recordação e outros movimentos.


08/11/2015

Pierre Verger pelos caminhos afro-brasileiros


Pierre Verger
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



 
 
Pierre Verger nasceu em Paris, em 1902. Na década de 1940 mudou-se para o Brasil adotando Salvador(BA) como sua terra natal. Além de fotógrafo, era historiador e etnólogo. Faleceu em 1996 na cidade de Salvador.


06/11/2015

Enigma


 
 
Estranha, essa forma de cair dentro de si e ficar tateando pelas paredes do próprio corpo, tentando fazer uma leitura dos segmentos internos, como se fosse um livro cujas letras são os micro organismos que habitam  e constituem o próprio ser...
Leitura às cegas.
Leitura da dor.
Leitura do medo, do sentimento de desvalia.
Leitura da finitude e incompletude do ser.
 
Eis-me nua ao sopé de mim mesma, tentando alcançar a montanha que me impus. 

01/11/2015

Anotações II




Criar não sei não, talvez remodelar, reinventar, desmanchar, anular, falsear pra tornar real; o anel tornou-se túnel, avenida que desembocou numa rua sem saída, que também pode ser chamada de beco das garrafas, aquelas que voltaram do mar cheias de mensagens borradas. São indecifráveis os pensamentos tão rápidos quanto a velocidade da luz brilhante quanto a do sol do meio-dia, mas já deu meia-noite e agora quem comanda é o farol da lua e das estrelas. Seguro a boca com as mãos pra descansar os lábios de silêncios cansados; nas esquinas do corpo a pele vai se (des)dobrando em páginas, em lombadas de livros amontoados obstaculizando o caminho no lombo de um equino livre e são livros e mais livros curtidos no lombo de porco curtido no vinho com cravo, canela, gengibre e mel de abelhas, uma iguaria tão deliciosa quanto ler um gordo e saboroso livro de nos dar água na boca, e ainda bem que não preciso rimar, porque não quero combinar nada com nada; mas existe muita coisa presa ao lixo da história insistindo na estagnação, no retrocesso, não querendo largar o osso, os cachorros, foram os primeiros animais domesticados pelo homem, talvez seja por isso que hoje em dia nascem mais cachorros do que crianças no mundo! e têm do bom e do melhor: filé mignon, moet & chandon, psicólogos, restaurantes 5 estrelas, desfiles de moda, salão de beleza, altos salários(pagos por nós), e milhares de crianças abandonadas nas ruas fumando crak assaltando transeuntes, mas vamos colocá-las nas cadeias superlotadas de farrapos humanos em nome de cristo jesus marias e josés!
Cuidado com as imitações, amém!

31/10/2015

Os velhos


 
 
Todos nasceram velhos - desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre - sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e já se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
são menos de 50 - enormidade.
Nenhum olha pra mim.
A velhice o proíbe.
Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
 comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo seco e só, atravessando
a floresta dos velhos.
 
 
Para o sexo a expirar
 
 
Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor - o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.
 
Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.
Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.
 
Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sêmen aljofrando o irreparável ermo.
 
(extraído de O amor natural)
 
A outra porta do prazer
 
 
A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.
 
Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreito átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.
 
(extraído de O amor natural)


26/10/2015

Elogio da sombra - Jorge Luís Borges



 
A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as predárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.
 
 
Tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques