30/12/2016

Só para "matutar"


Quanto mais os homens marcham, mais se afastam do seu objetivo. Gastam
suas forças em vão. Pensam que andam, mas só se precipitam - sem avançar
- no vazio. Isso é tudo.
 
Enrique Vila-Matas, Barcelona 1948- 
 

 
 
 
 
*****
 
 
 
Às vezes parece
que estamos no centro da festa
No entanto
no centro da festa não há ninguém
No centro da festa está o vazio
Mas no centro do vazio há outra festa
 
Roberto Juarroz, Argentina 1925-1995
 


22/12/2016



 
Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

***

Ávidos de ter, homens e mulheres caminham pelas ruas.
As amigas sonâmbulas, invadidas de um novo a mais querer,
Se debruçam banais sobre as vitrines curvas.
Uma pergunta brusca, enquanto tu caminhas pelas ruas.
Te pergunto: E a entranha?
De ti mesma, de um poder que te foi dado
Alguma coisa clara se fez? Ou porque tudo se perdeu
É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma,
Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga,
Tua aventura de ser, tão esquecida?
Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?
 
Teu outro rosto. Único. Primeiro. E encantada
De ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada.
 
***
 
Enquanto faço o verso, tu decerto vives,
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo
 
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouvido de dentro. É outro o amarelo que te falo
Enquanto faço o verso, tu não me lês,
Sorris se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer,
Uma coisa infinita também morre.. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro que o mínimo pedaço de tão vasto
Não cabe no meu canto
 
 
Hilda Hilst - Júbilo, Memória, Noviciado - Da paixão

18/12/2016

"Deficiências"

Surdo é aquele que não tem tempo para ouvir um desabafo de um amigo, ou
o apelo de um irmão, pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.


 
***
 
Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência
de que é dono do seu destino.
 
René Magritte
 
***
 
Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de miséria, e só tem
olhos para seus problemas e pequenas dores.

 
Claire Tabouret
 
***
 
Louco é aquele que não procura ser feliz com o que possui.
 
***
 
Mudo é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da
máscara da hipocrisia.
 
***
 
Paralítico é aquele que não consegue andar na direção daqueles que precisam
de sua ajuda.
 
***
 
Diabético é aquele que não consegue ser doce.
 
***
 
Anão é aquele que não sabe deixar o amor crescer.
 
Mário Quintana ( 1906-1994)


14/12/2016

Matemáticas e Poesia


Esses números que crescem e crescem sem descanso,
0,9, 0,99, 0,999, 0,9999...
aproximando-se cada vez mais da unidade,
acariciando-a sem conseguir tocá-la;
esta sucessão numérica é também poesia.




Joan Miró

 
É como uma rima inacabada e suspensa,
como uma esperança sempre insatisfeita,
como um desejo que nunca se detém,
como um horizonte próximo inalcançável...
 


 
Triângulos, círculos, polígonos,
elipses, hipérboles, parábolas,
soam em nossos ouvidos desde Euclides
como formas geométricas abstratas,
figuras ideais que convivem conosco,
porque também no amor existem triângulos
e no céu se desenha o arco-íris sem compasso.
 


Abraham Palatinick
 
Seguem sempre juntas linguagem e geometria
pois na fala se escondem as elipses,
nos livros sagrados se fala de parábolas
e nos poemas épicos disparam as hipérboles.
Números e formas, imagens e ritmos,
ordem e luz em versos e em teoremas,
com um toque supremo de harmonia,
estão juntos na memória dos tempos,
juntas estais matemática e poesia.
 
Gonzalo Sánchez Vásquez - Sevilha, 1917-1996


09/12/2016

"Diante da lei"

Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e
pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a
entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.
- É possível - diz o porteiro - Mas agora não.
Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe
de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:
- Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu
sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros.

 
 
 
De sala para sala porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro.
Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.



 
O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a
todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de
perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa
barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a
permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao
lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser
admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete
o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal
e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os
grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode
deixá-lo entrar.   
 
 
 
O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega
tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:
- Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.
Durante todos esses anos o home observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a
entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo.
Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se
de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam.
Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível
da porta da lei. Mas já não tem muito tempo de vida. Antes de morrer, todas
as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta
que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa
curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em
detrimento do homem:
- O que é que você ainda quer saber? - pergunta o porteiro. - Você é insaciável
- Todos aspiram à lei - diz o homem. - Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?
O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:
- Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.
 
Franz Kafka ( Praga - 1883-1924)
 
Obs. : todos os desenhos são do autor.


04/12/2016

Os voos de Ronald Polito *

No verdadeiro caminho
 
Voar sem trilhos.
Apalpar através dos véus, dos vidros.
Prender-se à superfície do mundo
desprovido de dedos, dentes, cabelos.
Andar até não conseguir chegar.
Construir um abrigo em labirinto.
Insistir no método difícil da ignorância.
 




 
Câmbio
 
o mar
não tem margem
 
você está sem passagem
em alguma parte dele
tentando ir para
outra parte
 
e se chegar lá
talvez siga viagem
ao ver o mar
à deriva passar
 

 
 
 
Um deus
 
dê-me um minuto
um cajado
um rosto
rotinas para retinas já
então fustigadas
uma cama um dorso
dê-me uma foice
o último terremoto
um touro
o protonauta de neverland
dê-me um sopro

 
 
 
 
* Ronald Polito nasceu em Juiz de Fora (MG) em 1961. É poeta, historiador, tradutor e ensaísta. Tem vários livros de poesia publicados, entre eles Solo, Vaga, Intervalos, De passagem, Terminal. 


27/11/2016

Associações livres


 
 


 
Nós não dominamos o nosso inconsciente
Sigmund Freud
 
Mudez há em demasia. Tantas línguas em tantas bocas desdentadas..., estarão,
ou foram emudecidas? Estará muda a minha, as vossas línguas? A Babel expandiu-se. A diversidade também.
A noite bateu asas, atravessou as janelas do corpo e foi pras calendas do mar...
 
 
Nós não somos o centro do Universo
Galileu
 
 
Paixão não mais! Mais dor, mais consciência de uma enorme pequenez; o que existe por trás dos olhos, quem sabe uma bola de fogo? O mar amarra suas
marés, embalsama a balsa que atravessa os bancos de areia; a chama se inflama, clama, reclama da brasa que se espalha sobre a cama.
Todos pó. Na ponta da língua a agulha que sangra o verbo falar. O vento sopra
frio anunciando a chegada de "novas" palavras, soltas e desconectadas:
sentimentos avulsos são postos à venda no mercado mundial.
Céu azul, marazul; diz-se também ser azul a cor da tristeza, a cor da fome!
Pois não já disseram lá de cima, que a Terra é azul ? A romã não é romana, o
acaso por aqui é raro, por lá é corriqueiro. "Se você tem mais medo da mudança do que da desgraça, o que fará para evitar a desgraça?"
O pensamento é mais rápido do que a velocidade da luz. Glosa, glossário, verbete, palavrário, palavraria: denominações subjetivas - transfugir, transfundir? Transfusão ou confusão? Atresia, oclusão da voz, do verbo...!?


25/11/2016

Bodarrada, poema de Luís Gama



Eu bem sei que sou qual Grilo
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
desta arenga receosos,
hão de chamar-me tarelo,
bode, negro, Mongibe.

Porém eu, que não me abalo,
vou tangendo o meu badalo
com repique impertinente,
pondo a trote muita gente.
Se negro sou, se sou bode,
pouco importa. O que isto pode?

Bodes há de toda a casta,
pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados,
 baios, pampas e malhados,
bodes negros, bodes brancos,
e sejamos todos francos,
uns plebeus e outros nobres,

bodes ricos, bodes pobres,
bodes sábios, importantes,
e também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
marram todos, tudo berra.



Luís Gama - advogado, jornalista, poeta e escritor, nasceu em Salvador (BA) em1830 e faleceu em São Paulo, em 1882 aos 52 anos de idade; era filho de
mãe negra (Luísa Mahin) e de pai branco, que o vendeu quando tinha dez anos de idade. Autodidata, tornou-se famoso por defender a causa dos escravos sem nada cobrar. Um dos raros intelectuais negros no Brasil escravocrata do século
XIX.

22/11/2016

ÁFRICA


 
 
Sou negro
Sou Banto
Sou sudanês
Sou gente
Sou pessoa.
Minha Pátria: o mundo
Minha terra: Áfricas.
Tenho identidade
Tenho nome
Nasci do ventre
Nasci gente.
Sou negro
Negro africanidades.
Negro por natureza.
Sou negro
Tenho cultura.
 Tenho história.
Sou negro
Sou pessoa como você.
Sou negro
Você!!!
Negro eu sou
Você eu não sei.
Honro a minha cor
A minha raça.
Negro de verdade,
de lutas,
de história.
Não sou negro de escravidão.
Sou negro de raça,
de vida
Negro de história.
Negro que colonizou o mundo.
NEGRO COM MUITA HONRA.
Negro das Minhas Áfricas
 
Genivaldo Pereira dos Santos


 


19/11/2016

Ebulição da escravatura

 


A área de serviço é senzala moderna,
Tem preta eclética que sabe ler "start"
"Playground" era o terreiro a varrer.
 
Navio negreiro assemelha-se ao ônibus cheio
Pelo cheiro vai assim até o fim-de-linha;
Não entra no novo quilombo da favela.
 
Capitão-do-mato virou cabo de polícia,
Seu cavalo tem giroflex (rádio-patrulha).
"Os ferros", inoxidáveis algemas.
 
Ração pode ser o salário mínimo,
Alforria só com aposentadoria
Lei dos sexagenários).
 
"Sinhô" hoje é empresário,
A casa-grande verticalizou-se.
O pilão está computadorizado.
Na última página são "flagrados" (foto digital)
Em cuecas, segurando a bolsa e a automática:
Matinal pelourinho.
 
A princesa Áurea canta,
Pastoreia suas flores.
O rei faz viaduto com seu codinome.
 
Quantos negros? Quanto furor?
Tantos tambores... tantas cores...
O que comparar com cada batida no tambor?
 
A escravidão não foi abolida; foi distribuída entre os pobres.
 
Luís Carlos Oliveira é mineiro, mora em Salvador(BA). É autor do livro de poemas Calo ou falo - Editora Writers, São Paulo, 2000.
 
***
 
Esse pixaim é uma sarna, que não me deixa sossegar!
Ele é um escudo e uma arma - por ele comecei a lutar.
É...ele me assusta e encoraja,
com jeito persistente, rude e firme
ele faz com que eu reaja.
Ele é mesmo uma "mola", eu reconheço,
aquela que me impulsiona
e me incita todos os dias ao recomeço;
que me exime, liberta e redime,
e sempre e sempre me emociona!
Ah, esse pixaim não me dá trégua:
"- Vai nega, vai nega, não se entrega!"
 
 
Lina Efigênia Barnabé Cruz (São Paulo)


12/11/2016

Sobre a escova e a dúvida


 
 
II
 
 
A matemática não pôde progredir,
até que os hindus inventassem o zero.
 
O domador de baleias.
 
 
Meu duvidar é da realidade sensível aparente - talvez só um escamoteio das percepções. Porém, procuro cumprir. Deveres de fundamento a vida, empírico modo, ensina: disciplina e paciência. Acredito ainda em outras coisas, no boi, por exemplo, mamífero voador, não terrestre. Meu mestre foi, em certo sentido,
o Tio Cândido.
Era ele pequeno fazendeiro, suave trabalhador, capiau comum, aninhado em meios-termos, acocorado. Mas também parente meu em espírito e misteriousanças. (...) Tinha fé - e uma mangueira. Árvore particular, sua, da gente.
Tio Cândido aprisionara-a num cercado de varas, de meio acre, sozinha ela lá, vistosa, bem cuidada: qual bela mulher que passa, no desejo de perfumada perpetuidade. Contemplava-lhe, nas horas de desânimo ou aperto, o tronco duradouramente duro, o verde-escuro quase assustador da frondosa copa, construída. [...]
Dizia o que dizia, apontava à árvore: - Quantas mangas perfaz uma mangueira, enquanto vive? - isto, apenas. Mais, qualquer manga em si traz, em caroço, o maquinismo de outra, mangueira igualzinha, do obrigado tamanho e formato. Milhões, bis, tris, lá sei, haja números para o infinito. (...)
Daí, um dia, deu-me uma incumbência:
- Tem-se de redigir um abreviado de tudo.
Ando a ver. O caracol sai ao arrebol. A cobra se concebe curva. O mar barulha de ira e de noite. Temo igualmente angústias e delícias. Nunca entendi o bocejo e o pôr-do-sol. Por absurdo que pareça, a gente nasce, vive, morre. Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. Um escrito, será que basta? Meu duvidar é uma petição de mais certeza.
 
João Guimarães Rosa em Tutameia, seu último livro publicado em vida. Guimarães Rosa faleceu poucos meses depois de lançada sua primeira edição,
em 1967.   

07/11/2016

Minha tristeza de porcelana

Kate Macdowell


Minha tristeza de porcelana, minha tristeza
de todos os momentos, disse: queres casar comigo?
Hoje estás tão esquiva e tão vulgar,
tão cotidiana, tão humana,
minha pobre tristeza.
Ouve: quero beijar-te toda;
beijar-te dos pés à cabeça,
doidamente, num arrepio
E possuir o teu pequeno corpo,
teu frágil e pequenino corpo,
onde escondes uma alma tiritante de frio.
Minha tristeza de porcelana,
és como um vaso chinês, onde floresce, longo,
o lírio artificial da minha dor.
Se alguém te esfacelasse.
se alguém, um pobre alguém,
te apertasse entre os dedos,
e eu te perdesse,
que seria de mim?
Não tenho o luxo dos prazeres ricos,
não tenho o dinheiro que é preciso
para vestir a minha alma um pijama de seda
com que ela passeia o seu tédio na alameda
vazia e branca da minha vida.
Vê, eu só tenho dois olhos
para te olhar, minha tristeza;
só tenho duas mãos para apertar as tuas mãos.
 
Carlos Drummond de Andrade


03/11/2016

Palavras tiradas de uma ilha para criptografar na "nuvem"





Não dominamos o nosso inconsciente
 
Sigmund Freud
 
Trans
 
parecer formar portar bordar correr sexualizar ferir figurar fundir
mutar pirar plantar passar por tornar vasar fugir fundir fusão;
transcender trancrever transitar transgredir transir transmitir transviar
transigir... 

29/10/2016

Graciliano Ramos: escritor & leitor



 
O escritor é o guardião do repertório das histórias que o povo conta e vive, mas é antes de tudo o guardião da língua de que se serve este povo para contar as histórias do passado e as histórias que os acontecimentos de hoje (em todo o território nacional) fabricam. Numa sociedade complexa como a nossa, seria muito simples se o escritor fosse só o contador de histórias. Ele deve preservá-las, passá-las adiante, mas é responsável pela língua que as gravou. Para isso, é preciso que alargue as suas próprias possibilidades de fabricar uma linguagem, entrando por formas linguísticas que não possui, que não comanda. É assim que acaba por ter acesso ao coletivo da língua e à ficção do outro. Abrindo fronteiras, desbravando território estranho. Ganha, passa, recupera.
[...] Assim como o escritor se interessa pelo alargamento das suas fronteiras linguísticas, também o leitor tem de trabalhar nesse sentido se quiser acompanhar o romancista, lendo sua obra. Dessa forma terá acesso a um pensamento diferente do seu. Terá um melhor conhecimento do outro, do intricado funcionamento da sua cabeça e da maneira como fabrica soluções e problemas. Tudo isso sem a interferência de uma única subjetividade individual ou de classe. [...]
O leitor de jornal (ou de romance espontâneo) não quer fazer esforço algum quando lê. Contenta-se em absorver a escrita de um outro como se fosse um papel mata-borrão. Deixa-se guiar apenas pelas faculdades da memória e não pelas da reflexão. Este leitor tem uma visão fascista da literatura. Fascismo não é apenas governo autoritário e forte, de preferência militar, que deixa que se reproduzam, sem contestação, as forças econômicas da classe dominante. Fascismo existe todas as vezes em que o ser humano se sente cúmplice e súdito de normas. Amolecem o cérebro, espreguiçam os músculos, soltam a fibra.
(...) A verdadeira leitura é uma luta entre subjetividades que afirmam e não abrem mão do que afirmam, sem as cores da intransigência. O conflito romanesco é, em forma de intriga, uma cópia do conflito da leitura. Ficção só existe quando há conflito, quando forças diferentes digladiam-se no interior do livro e no processo da sua circulação pela sociedade. Encontrar no romance o que já se espera encontrar, o que já se sabe, é o triste caminho de uma arte fascista, onde até mesmo os meandros e os labirintos da imaginação são programados para que não haja a dissidência de pensamento.
 
Extraído de Em liberdade, escrito por Graciliano Ramos quando saiu da prisão em 1937, revisto e datilografado em 1946, e entregue a um amigo (não mencionado). Em 1952 o autor pediu ao amigo que queimasse o que havia escrito, pedido evidentemente não atendido. O escritor, poeta e ensaísta Silviano Santiago (Formiga(MG) - 1936) que editou e publicou esse diário, intitulou-o de ficção, mesmo baseando-se num trabalho de rigorosa pesquisa e na realidade factual. Além dessa obra, Silviano é autor de Uma literatura nos trópicos (ensaio), Crescendo durante a guerra numa província ultramarina,(poesia), Ensaios antológicos, entre outros. 

25/10/2016

A função do escritor - Anton Tchekhov

Que o mundo «está infestado com a escória do gênero humano» é perfeitamente verdade. A natureza humana é imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura é separar o trigo do joio é rejeitar a própria literatura. A literatura artística é assim chamada porque descreve a vida como realmente é. O seu objetivo é a verdade - incondicional e honestamente. O escritor não é um confeiteiro, um negociante de cosméticos, alguém que entretém; é um homem constrangido pela realização do seu dever e  sua consciência. Para um químico, nada na terra é puro. Um escritor tem de ser tão objectivo como um químico.
Parece-me que o escritor não deveria tentar resolver questões como a existência de Deus, pessimismo, etc. A sua função é descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.
Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundem duas coisas: resolver um problema e enunciar corretamente um problema. Para o artista, só a segunda cláusula é obrigatória.
Acusam-me de ser objetivo, chamando-me de indiferente em relação ao bem e ao mal, falta de ideias e ideais, etc. Querem que, ao descrever ladrões de cavalos,  diga: «Roubar cavalos é mau». Mas isso é sabido há séculos sem que eu tenha de dizê-lo.  Deixem que um júri os julgue; a minha tarefa é simplesmente mostrar que gênero de pessoas são. Escrevo: estão a lidar com ladrões de cavalos e, assim, deixem-me dizer-lhes que não são mendigos, mas gente bem alimentada que segue um culto especial e que roubar cavalos não é simplesmente roubo, mas uma paixão. Claro que seria agradável combinar arte com sermões, mas, quanto a mim,  é impossível,  por questões técnicas. Para descrever ladrões de cavalos em setecentas linhas, tenho de falar, pensar e sentir à maneira deles. De outro modo, a história não será tão compacta como os contos deveriam ser. Quando escrevo, conto inteiramente com o leitor para que este acrescente os elementos subjetivos que faltam na história.
 
Anton Tchekhov, era médico, dramaturgo e escritor. Nasceu em 1860 em Taganrov, na Rússia e faleceu em 1904 na Alemanha. Deixou-nos uma vasta obra literária abrangendo peças teatrais e inumeráveis contos. Entre suas peças mais conhecidas podemos mencionar O jardim das cerejeiras, A gaivota, As três irmãs. Entre os inúmeros contos estão O beijo, A dama do cachorrinho, A arte da simulação, O escritor, O espelho, A morte do funcionário, Um homem extraordinário, Enfermaria número seis, e muitos outros.

21/10/2016

Uma crônica de Rubem Braga

Lembrança de Guignard
 
 
 
 
 
 
 


 
As pessoas retratadas por Alberto da Veiga Guignard têm um certo ar de família, alguma coisa que as liga - não importam cor, idade, classe. E já vi,
em fila de cinema, em festinha de família, em cabaret do interior, em solenidade escolar - já vi pessoas que parecem retrato de Guignard.
Esse ar de família só pode ser uma certa candura, uma insistente infância, alguma coisa que é Guignard e que banha numa luz especial tudo o que ele vê ou inventa. E suas flores e suas paisagens combinam com suas figuras. Aquela cabocla retratada ali, de blusa vermelha, pode rezar naquela igrejinha que está no alto do morro em outro quadro; e, com certeza, reza. E está tão integrada na paisagem ingênua do interior que o artista, amorosa e gentilmente, acabou enfeitando sua blusa com duas palmeiras.
Guignard nasceu em Nova Friburgo (fevereiro, 1896) e foi menino para Petrópolis, onde estudou no Franco-Brasileiro e morava numa daquelas casas de pé-direito alto, com varanda e escada, gradil e portão, jardim e quintal - e um avô de longas barbas brancas e os tios Carvalhais que vinham almoçar aos domingos, e uma certa menina de chapéu de palha com fita que o nosso menino amou em segredo, e sua mãe, sua irmã, seu pai, que um dia morreu ali. Foi então (tinha um avô francês) lavado para a Suíça e França - morou em uma bela casa tirolesa de madeira, perto de Zurique, morou no sul da França, onde
começou a estudar Agronomia...
Mas o menino só gostava de desenhar. Então mandaram ele aprender desenho -
mas não, meu Deus do céu, como se aprende nessas escolas vigaristas de hoje
em dia, mas aprender deveras, ali no castigo, fazer pé, fazer mão, fazer flor. E
pintura, e gravura; terminou seu curso em Florença, e expôs em Veneza, na Suíça, em Paris, amou, foi feliz, foi infeliz, separou, juntou, sofreu; em 1925 estava enjoado da arte acadêmica, foi deixando seu lirismo correr solto, como
se estivesse pintando por música.
Em 1929, veio para o Brasil, ganhou prêmios, ensinou, morou em Copacabana
em Itatiaia, redescobriu o Brasil e descobriu Minas, e contou tudo isso - a gente, as casas, as montanhas, as flores, as igrejas, as festas de São João - na arte mais autêntica, mais simples, mais feliz que já se fez neste país.
Um amigo encontrou-o um dia em Ouro Preto, ele parece que tinha tomado umas e outras, disse: "Belas moças aqui, lindas moças..."
Com o mesmo lirismo puro do menino de Petrópolis, 1905.
 
Publicada no Diário de Notícias - 2 de setembro de 1969 

16/10/2016

Discurso da servidão voluntária II




É certamente por isso que o tirano nunca é amado nem ama: a amizade é um nome sagrado, é uma coisa santa; ela nunca se entrega senão entre pessoas de bem e só se deixa apanhar por mútua estima; se mantém não tanto através de benefícios como por meio de uma vida boa; o que torna um amigo seguro do outro é o conhecimento que tem de sua integridade; as garantias que tem são sua bondade natural, a fé e a constância. Não pode haver amizade onde está a crueldade, onde está a deslealdade, onde está a injustiça.

***

Pobre e miseráveis povos insensatos, nações obstinadas em vosso mal e cegas ao vosso bem. deixais levar, à vossa frente, o mais belo e o mais claro de vossa
renda, pilhar vossos campos, roubar vossas casas e despojá-las dos móveis antigos e paternos, viveis de tal modo que não podeis vos gabar de que algo seja vosso; e pareceria ser agora uma grande fortuna para vós conservar a meias vossas famílias e vossas vidas vis; e todo esse estrago, esse infortúnio,
essa ruína vos advém não dos inimigos, mas do inimigo, e daquele que engrandeceis, por quem ides valorosamente à guerra, para a grandeza de quem não vos recusais a apresentar vossa pessoa à morte.

***
Há três tipos de tiranos: uns obtêm o reino por eleição do povo; outros pela força das armas; outros por sucessão de sua raça. Como se sabe bem, os que
o adquiriram pelo direito de guerra, comportam-se no reino como se estivessem
em terra conquistada. [...] Parece-me que aquele a quem o povo deu o Estado
deveria ser mais suportável e creio que o seria; mas assim que se vê elevado
acima dos outros, decide não sair mais.
 
***
 
Aquele que vos domina tanto só tem dois olhos, duas mãos. só tem um corpo
e não tem outra coisa além do que tem o menor homem do grande e infinito
número de vossas cidades, senão a vantagem que lhe dais para destruir-vos.
De onde tirou tantos olhos com os quais vos espia, se não os colocais a serviço
dele? Como tem tantas mãos para golpear-vos, se não as toma de vós? Os pés com que espezinha vossas cidades, de onde lhe vem senão dos vossos? Como
ele tem algum poder sobre vós, senão por vós?
 
Etienne de La Boétie filósofo, poeta, ensaísta. Nasceu em Sarlat (França) em
1530 e faleceu, ainda jovem, em 1563.


10/10/2016

Às escuras






Amanhece. Nada é igual, tudo difere. Nada mudou, mas o galo que anunciava a aurora desapareceu. E os quintais. Já as galinhas aumentaram exponencialmente. Nem por isso têm vez ou voz: geradas em chocadeiras industriais, são alimentadas compulsivamente vinte e quatro horas por dia, ininterruptamente. O galo de hoje é invisível, não canta mas continua dando ordens no grande terreiro nacional.
Escurece. Tudo é vazio e branco. Na linha do horizonte a palavra sumiu entre as paralelas linhas do caderno. O poema enamorou-se do silêncio, emaranhou-se
na madrugada fria e sonolenta. Teve um sono profundo. Desapareceu.

04/10/2016

Triste Bahia!

Salvador, antiga Baixa dos sapateiros

 
 
Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Está e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.
A ti tocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado.

A mim foi-me trocando, e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz brichote.


Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!


As cousas do mundo

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa*:
Com sua língua ao nobre o vil decepa.
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
quem menos falar pode, mais increpa*;
quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;
bengala hoje na mão, ontem garlopa*.
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa.
E mais não digo, porque a Musa topa
em apa, epa, ipa,upa.

Todo

o todo sem a parte não é todo;
a parte sem o todo não é parte.
Mas se a parte o faz todo sendo parte,
não se diga que é parte, sendo todo.


* carepa - caspa, pó de madeira

increpa -  acusação, censura

garlopa - plaina, instrumento p/modelar a madeira

 
Gregório de Matos, conhecido como o Boca do inferno, era advogado e poeta nascido em Salvador(BA); sendo de família rica e abastada, fez seus estudos em Coimbra e era desejo do pai que ele se envolvesse nos negócios da família. Mas o Boca de brasa, como também era conhecido, por não ter papas na língua passou a criticar os poderosos que comandavam a economia do estado da Bahia. Perseguido e ameaçado de morte conseguiu ser deportado para Angola, onde ajudou a conter uma rebelião militar, teve permissão para voltar ao Brasil, desde que não fosse pra Salvador; foi então para Recife, permanecendo por lá até sua morte em 1696, vitimado por vírus que contraiu em Angola.   


02/10/2016

Onde está a democracia?



 
Eu tinha dito que iria propor tirar a palavra utopia do dicionário. Mas enfim, não
vou a tanto. Deixa ela lá estar, porque está quieta. O que eu queria dizer é que há uma outra questão que tem que ser urgentemente revista! Tudo se discute
neste mundo, menos uma coisa: a democracia. Ela está aí, como se fosse uma
espécie de santa no altar, de quem já não se espera milagres, mas que está aí
como referência. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma
democracia sequestrada, condicionada, amputada.
O poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a
tirar um governo de que não se gosta e a por outro que talvez venha a se gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas em uma outra grande
esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, a Organização Mundial do Comércio, os bancos mundiais. Nenhum desses organismos é democrático. E, portanto, como falar
em democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos
democraticamente pelo povo? Quem é que escolhe os representantes dos países
nessas organizações? Onde está então a democracia?
 
José Saramago

25/09/2016

Teoria das cores


 
 
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o
peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó
desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário
o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a
chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora
lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho
o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do
real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exatamente quando assentava na sua
fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
 
Herberto Helder, Funchal 1930-Cascais 2015. Os passos em volta
 
* Peço desculpas ao pintor, poeta e editor do azultemporario.blogspot.com.br, por antecipar-me a sua permissão publicando esta sua tela, que considero belíssima! 


18/09/2016

Fragmentos de delírios

Do nada ao sem fim restaram terras de esquecimento inundadas pela impetuosidade do mar da ignorância; da solidão surgiu o farol do conhecimento
abrindo portas descerrando as cortinas da hipocrisia e da superstição.

 
 

 
 
Do silêncio da mata ouço a voz que está perdida em agonia; o ronco surdo da terra mistura-se ao silêncio formando lagos, lagoas-lágrimas, blocos de vocábulos, geleiras de palavras, nuvens de parágrafos suspensos na imensidão
da selva. Um abelhume de línguas atravessa minha garganta descendo por desfiladeiros, escorregando pelas grutas verbais entre serpentes que sinuosamente se escondem em labirintos de braços linguísticos desconhecidos.
 
 
 
A noite misturou-se ao dia e já não sei mais qual a profundidade de minhas pálpebras; meus dedos tortos, teu nariz siliconado e adornado com piercing,
farejam mãos avulsas que dançam no salão oval da catedral ao som de uma canção à capela; várias palavras caminham aleatoriamente. O sono, que propiciava o encantamento para o sonho, agora só aparece através dos barbitúricos.


 
À noite meu pensamento é pólvora que explode em polvorosa; quando nasce
o dia torna-se pó, fica impalpável, placidamente plástico como um cipó de
bambu, que enverga com o vento, mas permanece de pé...
 
A roda roda porque sua natureza é giratória e espiralada, infinita. Se andamos em círculo é porque estamos viciados, estagnados. "Se o homem das cavernas
soubesse no que isso ía dar, nem teria saído de lá".
Como dizia Antonio Machado, (1875-1939) "no mar da mulher poucos naufragam à noite, muitos ao amanhecer".