22/06/2017

Graça Pires - Uma claridade que cega



 
Hesitantes, as palavras procuram um ponto de partida,
um recomeço.
Manejo a corda de amarrar
as dobras do tempo
diluindo os nós de sangue
no recuo dos lábios.
Quero descobrir, num vinco de texto,
a caligrafia ajustada ao barro
que molda um favo de puríssima luz
só visível em gramáticas de espanto.
 
 
***
 
Neste momento dou ao meu perfil
a configuração de uma haste
que, ao primeiro sopro do vento,
adivinha um fogo posto nas palavras.
Conheço o rigor das noites
e o alarmante traço
da obsessão pelas trevas
que me cingem os braços
quando o reflexo do luar
incide nas manchas do meu rosto
e com os mais antigos olhos
posso rever o passado:
tantas vezes vida, tantas vezes morte.
 
***
 
Lentos os dias. Lento o vazio das ruas.
Lentos os caminhos sulcados pelas veias.
Tão lentos que um lento gesto
me bastava para conter um verso
por mais silente que fosse.
Agora, as palavras dançam à minha volta.
São serpentinas de todas as cores
enroladas ao corpo.
Difíceis de domar fragmentam-se, voam.
Como vultos imprecisos
no transtorno das mãos.
 
***
 
 
Impossível encontrar o esteio certo
para entrelaçar a subtil anuência da fala.
As palavras, essas
são arrastadas pelo vento
que geme nas montanhas
onde se pode olhar de frente
o imponderável declive da neve
que rasga no peito
uma claridade que cega.
 
***
 
Só folheio os jornais de vez em quando.
Quase tudo que se escreve
são golpes confusos
que abrem nas entranhas a impressão
de um mundo por entender.
A verdade chega-nos apenas
através do silêncio dos que sonharam
um tempo sem estas ruínas
que descarnam e sepultam
a mais valiosa esperança.
 
 
Graça Pires nasceu em Figueira da Foz (Portugal). É licenciada em História pela Universidade de Lisboa. Tem publicados: Outono: lugar frágil, Ortografia do olhar, Conjugar afectos, Uma certa forma de errância, O silêncio: lugar habitado, Uma claridade que cega, entre outros.

19/06/2017

Profético

Hyeronimus Bosch

 
Com as mãos prontas para fazer o mal o governante exige presentes, o juiz
aceita suborno, os poderosos impõem o que querem.
Todos tramam em conjunto.
 
 
Miquéias, profeta do século VIII a. C., morador do antigo Reino de Judá, capital de Jerusalém.

16/06/2017

Fractais

 
Alexandre Farto
 
 
fragmentos de palavras cintilam através do tempo por dias e noites multiplicando-se na mente - grãozinhos de pó que vagueiam no espaço em busca de uma trilha ainda que seja nas páginas brancas de um caderno - nelas não há espaço para vertigem desfiladeiros nem precipícios a transpor - apenas o caminhar de uma mão que tenta ouvir os sussurros do pensar nesse lusco-fusco dos dias; os dedos percorrem ruas imaginárias atravessam pontes circundam curvas de rios ora caudalosos ora turbulentos como se flutuassem entre nuvens de paixão e de espanto. O sussurro do vento alinhava e descostura, constrói e desconstrói palavras e sentimentos como no movimento das ondas de um mar silencioso bravio e turbulento...
 
na morada do eco as palavras ficam distorcidas, transformam-se em lamentos gritos gargalhadas ao relembrar o vivido, a refletir sobre o que ainda está por vir: um porvir não desejado, uma tragicomédia transformada em farsa.

11/06/2017

Uma fábula e uma parábola de Kafka

Mimese, ou realidade?


 
 
 
Pequena fábula
 
"Ah", disse o rato, "o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o
fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas
essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou
no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro." - "Você só
precisa mudar de direção", disse o gato e devorou-o.
 
 
 
 
Desista! (ou Um comentário)
 
Era de manhã bem cedo, as ruas limpas e vazias, eu ia para a estação ferroviária. Quando confrontei um relógio de torre com o meu relógio, vi que já era muito mais tarde do que havia acreditado, precisava me apressar bastante;
o susto dessa descoberta fez-me ficar inseguro no caminho, eu ainda não conhecia bem aquela cidade, felizmente havia um guarda por perto, corri até ele e perguntei-lhe sem fôlego pelo caminho. Ele sorriu e disse:
- De mim você quer saber o caminho?
- Sim - eu disse -, uma vez que eu mesmo não posso encontra-lo.
- Desista, desista - disse ele e virou-se com um grande ímpeto, como as pessoas que querem estar a sós com o seu riso.
 
 
Franz Kafka (1883-1924)

08/06/2017

Um dia


Ulisses e as sereias
 
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
 
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um Rimbaud
um ungaretti um Fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg
 
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como flores
 
Paulo Leminski
 

 
 
 
 
a cacunda do bobo é o poleiro do esperto
 
João Guimarães Rosa, em Sagarana


04/06/2017

Exortação aos crocodilos

Caravaggio
 
[...]
e a morte torna-se alheia, menor, distante, como vista da rua, uma silhueta no
interior de uma janela acesa onde não moramos, aquarelas, estantes, pessoas
e a morte com os outros, não conosco, com os outros, familiar, trazendo pratos,levando pratos ajudando na ceia, ocupando um dos três lugares do sofá,
amável risonha simpática, estudando-os sem pressa e escolhendo um deles sem
que se deem conta, ao observar a fotografia de um grupo sei que a morte é a
criatura sorrindo lá no fundo, meio apagada, que se parece com alguém amigo
de que não lembramos a idade nem o nome, um parente que esteve ali  o
tempo inteiro, anos seguidos, a fitar-nos do álbum e só no momento de nos vir
buscar se apresenta, discreto, delicado, ia apostar que com pena, a morte é um estranho com um pacotinho de bolos que nos cumprimenta de fugida  nas
escadas ou segura a porta do elevador à nossa espera, nos pergunta para que andar vamos e se despede numa inclinação de cabeça continuando a subir
[...]
a morte é esta com a qual me confundem se calha pintar-me, calçar-me,
arranjar-me, pôr brincos, eu não sou assim, não tenho bochechas demasiado
vermelhas, pálpebras exageradas, um batom tão intenso
 
 
Antônio Lobo Antunes, Lisboa,1942. Também é autor de Memória de elefante, Os cus de Judas, Conhecimento do inferno(trilogia), Manual dos inquisidores, Tratado das paixões da alma, A morte de Carlos Gardel.