21/07/2017

Não leve flores




Não cante vitória muito cedo não
nem leve flores para a cova do inimigo
que as lágrimas dos jovens são fortes
 como um segredo
podem fazer renascer um mal antigo
 
Tudo poderia ter mudado sim
pelo trabalho que fizemos tu e eu
mas o dinheiro é cruel e o vento forte
levou os amigos para longe das conversas
dos cafés e dos abrigos
e nossa esperança de jovens não aconteceu
 
Palavras, sons, são meus caminhos
e eu sigo sim, faço o destino
com o suor de minha mão
Bebi, conversei com os amigos
ao redor de minha mesa
e não deixei meu cigarro se apagar
pela tristeza, sempre é dia de ironia
no meu coração
 
Tenho falado a minha garota
meu bem, difícil é saber o que acontecerá
Mas eu agradeço ao tempo,
o inimigo eu já conheço
sei seu nome, sei seu gosto,
residência, endereço
A voz resiste, a fala insiste, você me ouviu?
a voz resiste, a fala insiste,
quem viver verá!


18/07/2017

Nelson Mandela - 1918-2013 *



 
"O homem que tira a liberdade de outro homem é um prisioneiro do ódio, está aprisionado atrás das barras do preconceito e da estreiteza de espírito. Não serei completamente livre se tirar a liberdade de outrem, e, com certeza, também não serei livre se a minha liberdade me for retirada. Tanto o oprimido
quanto o opressor são privados da sua humanidade. Para ser livre não basta
apenas as correntes de alguém, mas viver de uma forma que se respeite e
melhore a liberdade dos outros".
 
 
Nelson Mandela

* Se ainda estivesse entre nós, hoje estaria completando 100 anos! 


11/07/2017

Manifesto antropófago (trechos)

Só a antropofagia nos une. Economicamente. Filosoficamente.
 
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos
os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
 
Tupi, or not tupi that is the question.
 
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
 
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
 
O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano
informará.
 
Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a
hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No
país da cobra grande.
 
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável
da vida.
 
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos
Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
 
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita
lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o
dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
 
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
 
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu na terra de Iracema, -
o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
 
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D.João VI:
- Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça!
Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações
e o rapé de Maria da Fonte.
 
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud - a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias
do matriarcado de Pindorama
 
 
Oswald de Andrade (1890-1954)
Em Piratininga
Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha. - 1928 
Em Obras completas-6

03/07/2017

Congresso Internacional do Medo

Jackson Pollock
 
 

 
Porque há para todos nós um problema sério...
 
Este problema é o do medo.
 
Antônio Cândido

 
 
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
 
***
 
Nosso tempo
 
Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
 
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.
 
Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir. 
 
Este é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
 obscenos gestos avulsos.
[...]
 
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco
[...]
 
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme.
 
Carlos Drummond de Andrade