28/01/2017

Os Bruzundangas, de Lima Barreto (trechos)


 
 

 
A glória das letras só a tem quem a elas se dá inteiramente;



QUERIA EVITAR, MAS ME VEJO OBRIGADO A FALAR NA literatura da Bruzundanga. É um capítulo dos mais delicados para tratar, do qual não
me sinto completamente habilitado.
Dissertar sobre uma literatura estrangeira supõe, entre muitas, o conhecimento de duas coisas primordiais: ideias gerais sobre literatura e compreensão fácil do idioma desse povo estrangeiro. Eu cheguei a entender perfeitamente a língua da Bruzundanga, isto é, a língua falada pela gente instruída e a escrita por muitos escritores que julguei excelentes; mas aquela em que escreviam os literatos importantes, solenes, respeitados, nunca consegui entender, porque redigem eles as suas obras, ou antes, os seus livros, em outra muito diferente da usual, outra essa que consideram como sendo a verdadeira, a lídima, justificando isso por ter feição antiga de dois séculos ou três.
Quanto mais incompreensível é ela, mais admirado é o escritor que a escreve, por todos que não lhe entenderam o escrito. [...]
Nela, há a literatura oral e popular de cânticos, hinos, modinhas, fábulas, etc.;
mas todo esse folclore não tem sido coligido e escrito, de modo que, dele, pouco lhes posso comunicar. [...]
O que caracteriza a literatura daquele país é uma curiosa escola literária lá conhecida por "Escola Samoieda".
Não que todo o escritor bruzundanguense pertença a semelhante rito literário; os mais pretensiosos, porém, e os que se têm na conta de sacerdotes da Arte, se dizem graduados, diplomados  nela. Digo "caracteriza", porque, como os senhores verão no correr destas notas, não há na maioria daquela gente uma profundeza de sentimento que a impila a ir ao âmago das coisas que fingem amar, de decifrá-las pelo amor sincero em que as têm de querê-las totalmente, de absorvê-las. Só querem a aparência das coisas. Quando (em geral) vão estudar medicina, não é a medicina que eles pretendem exercer, não é curar, não é ser um grande médico, é ser doutor; quando se fazem oficiais do exército ou da marinha, não é exercer as obrigações atinentes a tais profissões, tanto assim que fogem de executar o que é próprio a elas. Vão ser uma ou outra coisa pelo brilho do uniforme. Assim também são os literatos que simulam sê-lo para ter a glória que as letras dão, sem querer arcar com as dores, com o esforço excepcional que elas exigem em troca. A glória das letras só a tem quem a elas se dá inteiramente; nelas, como no amor, só é amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com fé cega. Os samoiedas, como vamos ver, contentam-se com as aparências literárias e a banal simulação de notoriedade, umas vezes por incapacidade de inteligência, em outras por instrução insuficiente ou viciada, quase sempre, porém. por falta de verdadeiro talento poético, de sinceridade, e necessidade, portanto, de disfarçar os defeitos com politiquices e passes de mágica intelectuais.
 
Lima Barreto (Afonso Henriques de) nasceu no Rio de Janeiro em 1881 e faleceu em 1922 aos 44 anos. É autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha, Triste fim de Policarpo Quaresma, Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá, Histórias e sonhos, Marginália, Feiras e Maferás, Bagatelas, e Clara dos Anjos.


22/01/2017

Pequena coletânea de poetas piauienses


 
 
Desconstrução
 
O poema é um vazio
no rosto indignado do poeta
O poeta deve esse chamado
ao vento favorável
às histórias antigas
e às pernas
 
Pétalas, céu, sonhos e homens
tudo é vazio e desconhecido
pretextos perfeitos para poemas

E quando vierem perguntar
coisas sobre profissões
responda como poeta
explique por horóscopos, aforismos ou luar
 
Se perguntarem ainda se andas enlouquecendo
acrescente: "estou enriquecendo"


Lívia Maria nasceu em União(PI) em 2000. É estudante do 1º ano do Ensino Médio. Reside em Teresina(PI)
 
 
***
 
Quase poema 1
 
Procuro um poema,
Novo, derramando sangue,
Cheirando mal.
Procuro um poema
Com a cor do sol,
O brilho da tua pele
Com sabor de língua.
 
Quase poema 2
 
Possuo um poema
De carne e osso,
Sem coração.
Porão
Onde escondo
Medos e
Disfarces.
 
Quase poema 3
 
A palavra acesa
Um poema que fere.
Meu corpo,
Estendido nos braços
De um verso em construção
Grita rimas sem cor.
 
Ednólia Santos é natural de Cocal. Tem publicado o livro Poemas que neguei
entre caminhos.
 
 
***
 
Cantiga
 
O meu boi não morreu,
Se escondeu dentro de mim,
No carrascal dos desejos,
Sem água, sem sal, sem capim.
Seu chocalho ouço a distância
Vejo seus rastros no asfalto,
Rumino com ele as agruras
Da vida nos sobressaltos.
 
Não mando ninguém buscar outro,
Escrevo assim meu destino
Meu sangue rubro, ladino,
Me fez selar o cavalo
Encher o peito e partir:
- Vou rastejar o meu boi
Nas soltas do Piauí.
 
Leandro Fernandes, é poeta e médico cardiologista. Nasceu na capital, Teresina. É autor de "Lampião: A medicina e o cangaço" (em parceria com Antônio Amaury Correa de Araújo)
 
***
 
Procurador de enigmas
 
Parei o tempo.
Ele não parou por mim!
[tão de repente tão leve sono
no imponderável (?)]
Nem poderia paralisar-se,
porque fiquei no tempo
como carrossel ilhado
[querendo não passar
querendo não acabar
no enigma do sonho inviolável (?)]
 
O tempo não parou para mim!
Ele não aparou os seus fantasmas
na vivenda dos mistérios
sempre em oferenda.
 
Procurador do seu destino miserável,
o tempo enterrou-se em mim.
 
Diego Mendes Sousa nasceu em Parnaíba em 1989. Tem vários livros de poesias publicados, entre eles Metafísica do encanto, Candelabro de álamo,
Fogo de Alabastro.
 
***
 
Crachá liberal
 
Isolam velhos
E dão-lhes crachás
De trânsito livre
 
Província submersa
 
Aqui tudo me desconhece
E me parece estranho
Sinto que algo se perdeu
Entre concreto, insensatez
E abandono
 
Paulo Tabatinga é natural de Teresina. Além de poeta é fotógrafo e cinegrafista.
 
 
 Extraído do livro Baião de Todos - Edição comemorativa - FUNDAPI


19/01/2017

Busca



 
inútil d(escrever) (te)
esboçar traços ou linhas posso
até dar(te) uma roupagem
vestir de pétalas de rosas
aromatizar(te) com
os mais finos perfumes
invocar os pássaros para
entoar uma canção
 
- queres uma canção matinal? ou
preferes uma crepuscular?
 
dizem que as palavras têm
um suprapoder
sonhemos, então...
mas sem tirar a roupa
 
faz tanto frio aqui
dentro...
e as palavras quando nuas
ficam foscas toscas na forma
quase rasas se desmancham
flutuam no ar penetram
nos poros do infinito 
 
 
no raso das águas
rasgo meus olhos
para (te) ver
PALAVRA

15/01/2017

Machado de Assis: por um cálice de poder relativo

Rua da Carioca, séc. XIX

 
 
Como é possível que hoje, amanhã ou depois, tornem a falar em crise ministerial, venho sugerir aos meus amigos um pequeno obséquio. Refiro-me
à inclusão de meu nome nas listas de ministérios, que é de costume publicar
anonimamente, com endereço ao imperador.
Há de parecer esquisito que eu, até aqui pacato, solicite uma fineza destas que
tresclara a pura ambição. Explico-me com duas palavras e deixo de lado outras
duas que também podiam ter muito valor, mas que não são a causa do meu pedido.
Na verdade, eu podia comparar a ambição às flores, que primeiro abotoam e
depois desabrocham; podia dizer que, até aqui, andava abotoado. Por outro
lado, se a ambição é como as flores, por que não será como as batatas, que
são comida de toda a gente? E também eu não sou gente? Não sou filho de
Deus? Nos tempos de carestia, a ambição chega a poucos, César ou Sila? Mas
nos períodos de abundância estende-se a todos, a Balbino e a Maximino*. Façam de conta que sou Balbino.
Mas não quero dar nenhuma dessas razões, que não são as verdadeiras causas
do meu pedido. Vou ser franco, vou abrir a minha alma ao sol da nossa bela América.
A primeira coisa é toda subjetiva; é para ter o gosto de reter o meu nome impresso, entre outros seis, para ministro de Estado. Ministro de quê? De qualquer coisa; contanto que o meu nome figure, importa pouco a designação.
Ainda que fosse de verdade, eu não faria questão de pastas, quanto mais não
sendo. Quero só o gosto; é só para ler de manhã, sete ou oito vezes, e andar
com a folha no bolso, tirá-la de quando em quando, e ler para mim, e saborear
comigo o prazer de ver o meu nome designado para governar.
Agora a segunda coisa, que é menos recôndita. Tenho alguns parentes, vizinhos
e amigos, uns na Corte e outros no interior, e desejava que eles lessem o meu nome nas listas ministeriais, pela importância que isso me daria. Creia o leitor
que só a presença do nome na lista me faria muito bem. Faz-se sempre bom juízo de um homem lembrado, em papéis públicos, para ocupar um lugar nos conselhos da coroa, e a influência da gente cresce. Eu, por exemplo, que nunca
alcancei dar certa expressão ao meu estilo, pode ser que a tivesse daí em diante; expressão no estilo e olhos azuis na casa. Tudo isso por uma lista anônima, assinada - Um brasileiro ou A Pátria.
 Não me digam que posso fazer eu mesmo a coisa e mandá-la imprimir, como
se fosse de outra pessoa. Pensam que não me lembrei disso? Lembrei-me;mas
recuei diante de uma dificuldade grave.
Compreende-se que uma coisa destas só pode ser arranjada em segredo, para
não perder o merecimento da lembrança. Realmente, sendo a lembrança do próprio lembrado, lá se vai todo o efeito; para ficar em segredo, era preciso antes de tudo disfarçar a letra, coisa que nuca pude alcançar; e, se uma só pessoa descobrisse a história e divulgasse a notícia, estava eu perdido. Perdido
é modo de falar. Ninguém se perde neste mundo, nem Balbino, nem Maximino.
Eia, venha de lá esse obséquio! Que diabo, custa pouco e rende muito, porque
a gratidão de um coração honesto é moeda preciosíssima. Mas pode render ainda mais. Sim, suponhamos, não digo que aconteça assim mesmo; mas suponhamos que o imperador, ao ler o meu nome, diga consigo que bem podia experimentar os meus talentos políticos e administrativos e inclua o meu nome no novo gabinete. Pelo amor de Deus, não me atribuam a afirmação de um tal
caso; digo só que pode acontecer. E pergunto, dado que assim seja, se não é
melhor ter no ministério um amigo, antes do que um inimigo ou um indiferente?
Não cobiço tanto; contento-me com ser lembrado. Terei sido ministro relativamente. Há muitos anos, ouvi uma comédia, em que um furriel** convidava a outro furriel para beber champagne.
- Champagne! Exclamou o convidado. Pois tu já bebeste alguma vez champagne?
- Tenho bebido...relativamente. Ouço dizer ao capitão que o major costuma bebê-lo em casa do coronel.
Não peço outra coisa; um cálice de poder relativo.

Joaquim Maria Machado de Assis, nasceu no Rio de Janeiro (1839-1908). Foi jornalista, contista (escreveu mais de 200 contos), cronista (mais de 600 crônicas), poeta, romancista e teatrólogo. Foi o fundador da Academia Brasileira de Letras. A crônica acima foi escrita em 20 de abril de 1885.

* Imperadores romanos do início da era cristã.
** furriel era o penúltimo cargo na hierarquia militar do exército no período em que o Brasil foi colônia de Portugal.

  

08/01/2017

"A queimada"



 
Queime tudo o que puder:
as cartas de amor as contas telefônicas
o rol de roupas sujas as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos:
more num covil e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.
 
Ledo Ivo -  Maceió(AL), 1924-2012

05/01/2017

Divagações




As mãos vão se adelgando os dedos vão ficando tortos as linhas vão enviesando os dias vão se tornando noites as noites vão se tornando séculos e todos  vão se transformando num vão:   para frente e para trás num vai e vem infinito enquanto dura a eternidade dos dias;  vão embora sem saírem  do lugar até retrocederem ao riscado das linhas do mapa das mãos pequeninas tateando o chão buscando o equilíbrio do corpo que cai e levanta e cai novamente e se ergue em passos firmes pela vida afora  ziguezagueando caminhos ultrapassando fronteiras vislumbrando arco-íris sob pesadas nuvens bordando a pele delineando uma paisagem de labirintos de dores antigas como uma nuvem invisível que se desfaz ao sabor de cliques digitais que apagam e refazem os sonhos de uma noite em claro no escuro do cinema ao apagar-se uma fantasia em preto e branco. As mãos vão as mãos vêm e veem o corpo dos dedos sibilinos a se enroscarem em palavras e gestos e dores e gemidos e frases soltas e gritos e urros  num traçado destroçado de uma colcha de retalhos cujos fragmentos  espalham –se no chão do papel  de cores indefinidas.


Mãos que acariciam apalpam cortam estrangulam;  mãos sujas mãos lavadas na mesma água tortuosa e tortas como a vida como  nós, os nós que se incrustaram sobre os dedos dos pés que tropeçam entre pedras...devagar de vagar  indo...!