DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

11/01/2009

Tarsila do Amaral


Tarsila do Amaral nasceu em Capivari, SP, em 1886 e faleceu na cidade de São Paulo,
em 1973. Filha de uma família da aristocracia paulista, aos dezesseis anos foi estudar
em Barcelona, na Espanha onde aprendeu desenho e pintura. Em 1922 ingressou no
Salão dos Artistas Franceses, vindo em seguida para São Paulo onde criou o grupo "Cinco Modernistas" juntamente com Menotti del Picchia, Mário de Andrade, Anita
malfatti e Oswald de Andrade, com quem veio a casar-se em 1926. A preocupação do
grupo era sobretudo mostrar a mecanização dos seres humanos. Em 1928 pintou
Abaporu, que em tupi-guarani significa "homem que come carne humana" e ofereceu
a Oswald, que inspirado neste quadro escreveu "Manifesto Antropófago", provocando
uma grande polêmica no meio artístico e grandes mudanças na arte brasileira.

08/01/2009

Em 10 de maio de 1933, em Berlim, diante das câmeras, o ministro da propaganda
Paul Joseph Goebbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros para
uma multidão entusiasmada de mais de 100 mil pessoas: "Esta noite vocês fazem
bem em jogar no fogo essas obscenidades do passado. Este é um ato poderoso,
imenso e simbólico, que dirá ao mundo inteiro que o espírito velho está morto.
Destas cinzas irá se erguer a fênix do espírito novo". Um menino de doze anos,
Hans Pauker, mais tarde diretor do Instituto Leo Baeck de Estudos Judaicos em
Londres, presenciou a queima e relembrou que, à medida que os livros eram jogados
às chamas, faziam-se discursos para dar solenidade à ocasião."Contra a exacerbação
dos impulsos inconscientes baseada na análise destrutiva da psique, pela nobreza da
alma humana, entrego às chamas as obras de Sigmund Freud, declamou um dos
censores antes de queimar os livros de Freud, Steinbeck, Marx, Zola, Hemingway,
Einstein, Proust, H.G.Wells, Thomas Mann, Jack London, Bertold Brecht e centenas
de outros receberam a homenagem de epitáfios semelhantes.

Extraído de Uma História da Leitura

04/01/2009

Um poema de Vinícius de Moraes ordena, suplica que "Pensem nas crianças mudas telepáticas. Pensem nas meninas cegas inexatas.
Pensem nas mulheres rotas alteradas. Pensem nas feridas como
rosas cálidas"...
É esse poema, A Rosa de Hiroxima, é essa talha em versos que ordena, que resiste e insiste em nossa memória, quando vemos a foto de Samaeah
Hassan, de seis anos, abatida na faixa de Gaza,(Palestina). Essa flor fuzilada, entre gazes, olhinhos semicerrados, e a própria Rosa da Palestina. {..........................................................................................}

Extraído do blog Sapoti de Japaranduba, texto do jornalista Urariano Mota
Imagens de livros projetada sobre a Torre de Davi, cidadela secular
preservada como uma torre militar, na cidade de Jerusalém. Hoje
atração turística.
No primeiro século da era cristã, o filósofo latino Sêneca denunciava o
acúmulo exibicionista de livros:"Muita gente sem educação escolar usa
livros não como instrumento de estudo, mas como decoração para a sala
de jantar". Em 1509, o humanista Geiler von Kaysersberg afirmava que:
"Aquele que quer livros para ganhar fama deve aprender algo com eles;
não deve armazená-los em sua biblioteca, mas na cabeça.Mas este primeiro louco pôs seus livros em correntes e fez deles prisioneiro; se pudessem se libertar e falar(os livros), arrastariam-no até o juiz, exigindo que ele, e não eles, fosse encarcerado".
Na Grécia, em Roma e Bizâncio, o poeta erudito - o doctus poeta, representado segurando uma tabuleta ou um rolo - foi considerado um modelo, mas esse papel estava destinado aos mortais. Os deuses jamais
se ocupavam de literatura;as divindades gregas e latinas jamais eram mostradas segurando um livro. O cristianismo foi a primeira religião a
por um livro nas mãos de seu deus e, a partir da metade do século XIV,
o livro emblemático cristão passou a ser acompanhado por outra imagem
- a dos óculos.

"O Louco dos Livros" - Alberto Manguel

02/01/2009

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.
Quero que meu soneto no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.
Esse meu verso antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer
tendão de Vênus sob o pedicuro.
Ninguém o lembrará:tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo
claro enigma, se deixa surpreender.

"Oficina Irritada" - Carlos Drummond de Andrade

21/12/2008

Aos que vão nascer

Realmente, eu vivo um tempo sombrio.
A inocente palavra é um despropósito.
Uma fronte sem rugas demonstra insensibilidade.Quem etá rindo
é porque não recebeu ainda a notícia terrível!
Que tempo é este, em que uma conversa sobre árvores
é quase uma falta, pois implica em silenciar tantos crimes?
Esse que vai cruzando a rua calmamente, então já não está
ao alcance dos amigos necessitdados?
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Dizem-me: Vai comendo e bebendo! Alegra-te pelo que tens!
Mas como hei de comer e beber, se o que como é tirado
de quem tem fome e meu copo de água falta a quem tem sede?
No entanto eu como e bebo.
Eu bem que gostaria de ser um sábio.
Nos velhos livros está o que é sabedoria:
manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve
deixar correr sem medo.
Também saber passar sem violência, pagar o mal com o bem,
os próprios desejos não realizar e sim esquecer,
conta-se como sabedoria.Não posso nada disso:
Realmente, eu vivo num tempo sombrio!
Vós, que vireis na crista da maré em que nos afogamos, pensai,
quando falardes em nossas fraquezas, no tempo sombrio
do qual escapastes.
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E entretanto sabíamos:
também o ódio à baixeza endurece as feições:
também a raiva contra a injustiça torna a voz mais rouca.
Ah, e nós que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmos pudemos ser.
Mas vós, quando chegar a ocasião de ser o homem um parceiro
para o homem, pensai em nós com simpatia.
Bertolt Brecht - 1898-1956

11/12/2008

Primeiro levaram os negros,
mas não me importei com isso.
Eu não sou negro.
Em seguida, levaram alguns operários,
mas não me importei com isso.
Eu também não sou operário.
Depois prenderam os miseráveis,
mas não me importei com isso,
porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados,
mas como tenho meu emprego,
também não me importei.
Agora estão me levando,
mas já é tarde.
Como não me importei com ninguém,
ninguém se importa comigo
Bertold Brecht, dramaturgo alemão (1898-1956)

03/12/2008

No Japão do período Heian (794-1192), assim como na Grécia clássica, no islã,
na India pós-védica e em tantas outras sociedades, as mulheres estavam proibidas de ler o que se considerava literatura "séria": deviam confinar-se ao
reino da diversão banal e frívola, que os eruditos confucianos desprezavam, e havia uma distinção clara entre literatura e linguagem "masculina"(com temas heróicos e filosóficos e voz pública) e "feminina"(trivial, doméstica e íntima). Essa distinção foi levada para muitas áreas diferentes: Por exemplo, como os modos chineses continuavam a ser admirados, a pintura chinesa era chamada de "masculina", enquanto a pintura japonesa, muito leve, era "feminina".
Mesmo que todas as bibliotecas de literatura chinesa e japonesa estivessem abertas para elas, as mulheres do período Heian não encontrariam o som de suas vozes na maioria dos livros do período.Portanto, em parte para aumentar
seu estoque de material de leitura, em parte para obter acesso a material de leitura que respondesse às suas preocupações específicas, elas criaram uma literatura própria.Desenvolveram uma transcrição fonética da língua que tinham permissão para falar, o kanabungaka, um japonês expurgado de quase todas as construções com palavras chinesas. Essa língua escrita veio a ser conhecida como "escrita das mulheres" e, estando restrita à mão feminina, adquiriu, aos olhos dos homens que as dominavam, uma qualidade erótica. Para ser atraente, uma mulher precisava não apenas possuir encantos físicos, mas também escrever com caligrafia elegante, bem como ser versada em música e saber ler, interpretar e escrever poesia. Essas realizações no entanto, jamais eram equiparáveis às dos artistas e estudiosos masculinos.

"Uma História da Leitura" - Alberto Manguel