DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

06/10/2009

"Estamos informados de tudo, mas não sabemos de nada"

A diversidade tecnológica quer significar diversidade democrática. A tecnologia põe a imagem, a palavra e a música ao alcance de todos, como nunca antes ocorrera na história humana, mas essa maravilha pode se transformar num logro para incautos
se o monopólio privado acabar impondo a ditadura da imagem única e da música única. Ressalvadas as exceções, que afortunadamente, existem e não são poucas, essa pluralidade tende, em regra, a nos oferecer milhares de possibilidades de escolher entre o mesmo e o mesmo. Como diz o jornalista argentino Ezequiel Fernandez-Moore, a propósito da informação: "Estamos informados de tudo, mas não sabemos de nada".

Voo e vertigem da tecnologia da comunicação, que parece bruxaria: à meia noite, um computador beija a testa de Bil Gates, que de manhã desperta transformado no homem mais rico do mundo. Já está no mercado o primeiro microfone incorporado ao computador, para que se converse com ele.
No ciberespaço, Cidade Celestial, celebra-se o matrimônio do computador com o telefone e a televisão, convidando-se a humanidade para o batismo de seus filhos assombrosos.

(...)

Encélado, uma das luas geladas de Saturno

Ao redor da Terra gira um anel de satélites cheios de milhões e milhões de palavras e imagens, que da Terra vêm e à Terra voltam. Prodigiosas engenhocas do tamanho de uma unha recebem, processam e emitem, na velocidade da luz, mensagens que há meio século exigiriam 30 toneladas de maquinaria. Milagres da tecnociência nestes tecnotempos: os mais afortunados membros da sociedade midiática podem desfrutar suas férias atendendo o telefone celular, recebendo e-mail, respondendo ao bipe, lendo faxes, transferindo chamadas do receptor automático, fazendo compras pelo computador e preenchendo o ócio com os videogames e o telefone portátil.

No século XVI, alguns teólogos da igreja católica legitimavam a conquista da América em nome do direito da comunicação: "Jus communications" - os conquistadores falavam, os índios escutavam. A guerra era inevitável justamente quando os índios se faziam de surdos. Seu direito de comunicação consistia no direito de obedecer. No final do século XX, aquela violação da América ainda se chama encontro de culturas, enquanto continua se chamando comunicação o monólogo do poder.

"Torre de Babel", de Pietr Bruegel
Trechos extraído do livro "De pernas pro ar", de Eduardo Galeano

04/10/2009

Mercedes Sosa - 1935-2009







Popularmente conhecida como "La negra" , por seus cabelos lisos e negros, Mercedes Sosa conquistou multidões de fãs em toda América Latina com sua voz grave e possante, sem jamais abrir mão de seu engajamento político, obrigando-a a exilar-se da Argentina durante a ditadura militar naquele país(1976-1983). Embora afastada dos palcos há alguns anos devido a problemas de saúde, conseguiu gravar um disco ("Cantora") com estrelas da música espanhola e latino-americana, como Joan Manuel Serrat, Luís Alberto Spinetta, Shakira e Caetano Veloso.
Nascida na província de Tucumán em 1935 (cidade onde foi celebrada a independência da Argentina, em 9 de julho de 1816), Mercedes cresceu em um bairro pobre, em meio à cultura popular, antes de tornar-se professora de dança folclórica, sempre vestida com seu tradicional poncho vermelho. Ao lado de seu marido, o músico Manuel Oscar Matus, com quem teve um filho, reorganizou o movimento "Novo Cancioneiro", resgatando o folclore e gravando seu primeiro disco: "Canciones con fundamiento". Em 1979, por ocasião de um concerto em La Plata, foi proibida de cantar, mesmo não estando impedida de permanecer em seu país. Ela prefere então instalar-se em Paris e posteriormente em Madri para que tenha a liberdade de cantar. Só retornará à Argentina em 1982, para uma série de concertos em Buenos Aires. A partir de então é convidada para apresentar-se nos lugares mais prestigiados do mundo, como a Capela Sixtina, no Vaticano, no Carnegie Hall de Nova York, no Coliseu, em Roma, por ocasião de um concerto pela paz, do qual participou Ray Charles.
Musicalmente foi uma cantora que desafiou temas ortodoxos, misturando o folclore ao rock, gravando com cantores de óperas. Deu grande contribuição à obra poética da chilena Violeta Parra, gravando inclusive uma de suas canções mais belas: "Gracias a la Vida".
Recebeu vários prêmios ao longo de sua carreira e, em 1992, ao ser condecorada "Cidadã honnoris de Buenos Aires", declarou:
" Estes prêmios me são concedidos não apenas porque canto, mas porque eu penso. Eu penso nos seres humanos e na injustiça. Creio que se não pensasse, meu destino não teria sido o mesmo"
Faleceu ontem, dia 3 de outubro, vítima de problemas hepáticos, aos 74 anos.

02/10/2009

El dia que me quieras


A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) incluiu o tango da Argentina e do Uruguai como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, no último dia 30 de setembro, na cidade de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.
O tango tradicional é originário do vale do Rio da Prata, que banha os dois países, dançado pelas classes populares das cidade de Buenos Aires e Montevidéu.









Acaricia mi sueño

el suave murmullo

de tu suspirar...

Como rie la vida

si tus ojos negros

me quieren mirar

Y si es mio el amparo

de tu risa leve

que es como un cantar

ella aquieta mi herida

todo, todo se olvida...

El dia que me quieras

la rosa que engalana

se vestira de fiesta

con su mejor color

Y al viento las campanas

dirán que ya eres mia

Y locas las fontanas

se cantarán de amor


La noche que me quieras

desde el azul del cielo

las estrellas cellosas

nos mirarán pasar

y un rayo misterioso

hará nido en tu pelo

Luciérnaga curiosa

que verá que eres mi consuelo


Alfredo de Pera/Carlos Gardel

30/09/2009

" Caso do Burro "


Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da Travessa de São Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este espetáculo fez parar o nosso Aires, não menos condoído do asno do homem. A força despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou não sair do lugar; mas, não obstante esta superioridade, apanhava que era o diabo. Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos durou esta situação; finalmente o burro preferiu a marcha à pancada, tirou a carroça do lugar e foi andando.
Nos olhos redondos do animal viu Aires uma expressão profunda de ironia e paciência. Pareceu-lhe o gesto largo de espírito invencível. Depois leu nele este monólogo: "Anda, patrão, atulha a carroça de carga para ganhar o capim de que me
alimentas. Vive de pé no chão para comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame um nome feio, mas eu não te chamo de nada; ficas sendo sempre o meu querido patrão. Enquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu domínio não vale muito, uma vez que me não tiras a liberdade de teimar..."
"Vê-se, quase que se lhe ouve a reflexão", notou Aires consigo.
Depois riu de si para si, e foi andando. Inventara tanta coisa no serviço diplomático,
que talvez inventasse o monólogo do burro. Assim foi, não lhe leu nada nos olhos, a
não ser a ironia e a paciência, mas não se pode ter que lhes não desse uma forma de
palavra, com as suas regras de sintaxe. A própria ironia estava acaso na retina dele.
O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio. Tudo é que o dono tenha um lampejo de imaginação para ajudar a memória
a esquecer Caracas e Cármem, os seus beijos e experiência política.


Extraído de " Esaú e Jacó " , de Joaquim Maria Machado de Assis ( 1839-1908)

26/09/2009

Felippo Bentivegna - A busca da memória através da Arte


Felippo Bentivegna nasceu na Sicília em 1888. Aos 25 anos emigrou para os EUA. Lá, apaixonou-se por uma americana. Por causa desse amor entrou em duelo com um rival, que desfechou-lhe um golpe na cabeça fazendo-o perder a memória. Em razão de sua incapacidade para trabalhar, foi mandado de volta à Itália. Após a Segunda Guerra Mundial, Bentivegna foi considerado desertor e condenado à prisão por três anos. Submetido a exames psiquiátricos foi considerado louco e posto em liberdade. Resolveu então comprar um lote de terra nas encostas do Monte Kronio, região rica em rochas calcáreas, onde construiu seu "castelo encantado", com centenas de cabeças humanas. Era ridicularizado pelos vizinhos, que o chamavam de louco por seu comportamento bizarro.




Quando lhe perguntavam por quê esculpia em pedras, respondia:
" Buscando a Grande Mãe dentro da terra. Ela é a semente do homem."





Faleceu aos 79 anos de idade, em 1967. Boa parte de sua obra foi perdida. Durante muito tempo ficou no abandono, exposta às intempéries do tempo e sujeita a destruição de vândalos e a saques.

18/09/2009

Um Ano "Cirandeirando"...

... E para comemorar este primeiro aninho de blogosfera, ofereço aos meus amigos(as) virtuais, uma "salada artística" da fotógrafa chinesa Ju Duogi, que utilizando
folhas, frutas e legumes cozidos, reproduziu telas de alguns pintores mundialmente consagrados... Mas, antes da "salada", quero ter o prazer e a honra de lhes apresentar um poema da paulista Nydia Bonetti, nossa companheira de blogosfera (http://nidyabonetti.blogspot.com/), que além de engenheira é uma
poeta de primeira linha:
a vida é mesmo rara
ave que canta breve
e logo voa
dente de leão
soprado pelo vento
bolha de sabão
fagulha de fogueira
cinzas nos olhos
depois do incêndio
bolhas que ardem
em nossas mãos vazias
de primaveras

"A Liberdade guiando o povo", de Eugène Delacroix




"O Beijo", de Gustave Klimt




Napoleão Bonaparte, de Jacques-Louis David
As fotos de Ju Duogi foram extraídas do site da BBCBRASIL.

13/09/2009

Os Joões-Ninguém ( Los Nadies )

Sonham as pulgas comprar um cão
e sonham os Joões-Ninguém deixar de ser pobres
Que algum dia mágico lhes traga a boa sorte,
que chova a cântaros a boa sorte.
Porém, a boa sorte não choveu ontem,
nem hoje, nem amanhã, nem nunca
Nem a chuvinha cai do céu, nem a boa sorte,
por muito que os Joões-Ninguém a chamem
Ainda que lhe acenem com a mão esquerda,
ou se levantem com o pé direito, ou comecem
o ano mudando de escova de dentes
Os Joões-Ninguém: os filhos de ninguém,
os donos de nada
Os Joões-Ninguém: os nenhuns, os sem nome,
correndo como lebres, morrendo a vida
Fodidos e refodidos
Aqueles que não são, ainda que sejam
Que não falam idiomas, apenas dialetos
Que não professam religião, apenas superstição
Que não fazem arte, apenas artesanato
Que não fazem cultura, apenas folclore
Que não são seres humanos, apenas recursos humanos
Que não têm rosto, apenas braços
Que não têm nome, apenas um número
Que não figuram na história universal,
apenas na crônica vermelha da imprensa local
Os Joões-Ninguém que custam menos
que a bala que os mata!
Tradução livre de "Los Nadies", de Eduardo Galeano, escritor uruguaio.
Foto extraída de: Agência Carta Maior
Escultor de cerâmica marajoara
Refugiados da Etiópia - Foto: Sebastião Salgado

08/09/2009

Jacinta Passos - Resgatando uma Poeta Brasileira!




Canção do Amor Livre

Se me quiseres amar, não despe somente a roupa
Eu digo: também a crosta feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti, pelo sangue recebida, tecida de medo
e ganância má. Ar de pântano diário nos pulmões.
Raiz de gestos legais e limbo do homem só numa ilha.
Eu digo: também a crosta essa que a classe gerou vil,
tirânica, escamenta.
Se me quiseres amar. Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos de fogo e cobre.
Madeira e água deslizante, fuga ai rija cintura
de potro bravo. Teu corpo.
Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.


William Turner

Meu Sonho


O meu sonho mais risonho

é suave e pequenino, resumindo
entretanto o meu destino.

É de cor azul sonora como o mar

que longe chora.

É cor de infinito e de ânsia,

cor de céu, cor do mar, cor de distância.

Tem a leve suavidade da saudade.

E a cantante doçura de um regato

que murmura. Macio e encantador,

é carícia de pluma e perfume de flor.

O meu sonho mais risonho,

é para mim cada momento:

o motivo maior de doce encantamento.

(publicado no D.O. da Bahia, jan. 1991)


Foto extraída do blog acreditandonotruque de Janaína Amado, sua filha



Jacinta Passos, professora, jornalista e poeta, nasceu em 1914, numa fazenda pertencente ao município de Cruz das Almas (a 146 m de Salvador), no recôncavo baiano. Trabalhou como jornalista em jornais de Salvador, além de escrever para jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Teve posição marcante em defesa dos direitos da mulher. Foi militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e durante a ditadura militar de 1964, foi presa e internada em sanatórios como louca, chegando a receber eletrochoques. Publicou quatro livros de poemas: "Momentos de Poesia", "Canção da Partida", "Poemas Políticos" e "A Coluna". Faleceu num sanatório de Sergipe, em 1973.

Será publicado em breve o livro Jacinta Passos-Canção Atual, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia(Fapesb) contendo textos inéditos, sua biografia e ensaios escritos por intelectuais, sobre sua obra, graças à iniciativa de sua filha Janaína. Sinto-me orgulhosa e privilegiada de ter conhecido alguns de seus poemas e um pouco de sua biografia. E honrada por apresentá-la aqui, a vocês, meus queridos amigos virtuais, em especial, Janaína, sua filha, que gentilmente permitiu-me fazer a postagem.
Acho que tenho obrigação de fazer isso. E o faço também com muito prazer.

07/09/2009

À VIDA !




Não roubarás minha cor vermelha


de rio que estua.


Sou recusa. És caçador.


Persegues: eu sou a fuga


Não dou minha alma cativa!


Colhido em pleno disparo,


curva o pescoço o cavalo árabe


- e abre a veia da vida.




Marina Tsvetáieva, poeta russa que matou-se durante o período stalinista, na
Rússia. (1892-1941) - Tradução de Haroldo de Campos

03/09/2009

Um pouco de Mitologia...

Quinto Horácio de Flaccus
Epístola aos Pisões

Se um pintor à cabeça humana unisse pescoço de cavalo, e de diversas penas vestisse o corpo organizado de membros de animais de toda a espécie, de sorte que a mulher
de belo aspecto, em torpe e negro peixe rematasse, vós, chamados a ver esta pintura,
o riso sofreríeis? Pois convosco assentai ó Pisões, que a um quadro destes será mui semelhante àquele livro no qual ideias vãs se representam (qual o sonho dos enfermos), de tal modo, que nem pés, nem cabeça a uma só forma convenha. De fingir ampla licença ao poeta e ao pintor sempre foi dada. Assim é, e entre nós tal
liberdade pedimos mutuamente, e concedemos; mas não há de ser tanta que se ajunte
agreste com suave, e queira unir-se ave e serpente, cordeirinho e tigre.


Trecho de "Ars Poetica", de Quintus Horatius Flaccus ( 65 a.C - 8 a.C), filósofo, poeta lírico e satírico, considerado um dos maiores poetas da Roma Antiga.

Erato - de Simon Vouet (1590-1649)

Erato, uma das nove musas que presidiam as artes e as ciências, com o dom de inspirar os governantes e restabelecer a paz entre os homens(!?). Era filha de Zeus,
o rei dos deuses e de Mnemosine, a deusa da memória. Representava a Poesia Lírica.


Clio e o carro da História
Clio também, era uma das nove musas que habitavam o Olimpo, irmã de Erato. Era considerada a musa da História e da Criatividade, divulgando e celebrando as realizações. A ela é atribuída a invenção da guitarra e a introdução do alfabeto fenício na Grécia. Um dos nove livros de Heródoto (historiador da Antiguidade), leva o nome de Clio em homenagem à deusa.