DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

14/03/2010

Ave, Poesia! A alma de alguns poetas...


Adélia Prado


Exausto


Eu quero uma licença de dormir

perdão pra descansar horas a fio

sem ao menos sonhar a leve palha

de um pequeno sonho.

Quero o que antes da vida foi o sono

profundo das espécies, a graça

de um estado.

Semente.

Muito mais que raízes.




Affonso Manta


A Poesia

A poesia tem os olhos inocentes

Inocentes de saberem tudo

A poesia nos envolve

como o silêncio do tempo que passa

A poesia é um pássaro branco

voando na velocidade da luz

A poesia embriaga como o vinho

e nos mantém vivos como o ar

A poesia é um rio imenso

um rio que deságua no infinito

A poesia é um mar profundo,

profundo como o mistério da vida






Florbela Espanca


Poetas


Ai, as almas dos poetas

não as entende ninguém;

são almas de violetas

que são poetas também.


Andam perdidas na vida,

como as estrelas no ar;

sentem o vento gemer

ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito

dores amargas e secretas

é que em noites de luar

pode entender os poetas


E eu que arrasto amarguras

que nunca arrastou ninguém

tenho a alma pra sentir

a dos poetas também!





Olavo Bilac



foi numa noite de agosto

que apareceu a tal lua

os lábios naquela água

o corpo dado aos amantes

amantes não sabem nada

que há tempos não se via

a gargalhada menina

da lua de rica rima

poetas que não se fiem

poetas nada sabem

que é até mesmo uma pena

que esta caneta tão prima

não seja feita mais fina

como ponta de um punhal

11/03/2010

A lenda de Fausto

Ilustr. de Retzsch p/a Segunda Parte de "Fausto"

Sublime Gênio, tens-me dado tudo,
Tudo o que eu te pedí. Não me mostraste
Em vão, dentro do fogo, o teu semblante,
Por reino deste-me a infinita Natureza,
E forças por sentí-la, penetrá-la.
Não me outorgaste só contato estranho e frio,
Deixaste-me sondar-lhe o fundo seio,
Como se fosse o peito de um amigo.
Expões-me a multidão dos seres vivos,
E a conhecer, na plácida silveira,
Nos ares, na água, os meus irmãos ensinas.
E quando o furacão no mato ruge,
Desmoronando-se, o gigante pinho
Vizinhos troncos e hastes espedaça,
E, troando, o morro a queda lhe acompanha;
Então me levas à tranquila gruta,
Revelas-me a mim mesmo, e misteriosos
Prodígios se abrem dentro do meu peito.
E, suavizante, ala-se-me ante o olhar
A lua límpida: flutuantes surgem
Das rochas úmidas, do argênteo bosque,
Alvas visões de antanho, a mitigar
O prazer austero da contemplação.
("Floresta e Gruta")

Da sabedoria é conclusão superior:
Faz jus à liberdade e à sua existência
só quem diariamente a conquistar com destemor.
Cercado de perigos é assim a vivência
Dessas crianças, adultos e velhos a se agitar.
Gostaria eu de tal multidão vislumbrar
E conviver com homens livres em terra livre
Para poder dizer ao momento fugaz:
Continua aqui. És belo! Não te vás!
Os vestígios de meus dias, na Terra passados,
Nem em milênios poderão ser apagados.

Georg Faust, ilustração de Rembrandt

A figura lendária de Fausto aparece no século XVI. As informações são escassas, incompletas e controvertidas. O local de seu nascimento é atribuído a Knittlingen,(Alemanha), onde se encontra o Faust-Museum. Também a data de seu nascimento é controvertida, pois há fontes que afirmam ter acontecido em 1466, outras em 1478 ou em 1480, 1481. Entretanto, há um consenso de que Fausto teria estudado alquimia, astrologia, magia e vidência. Seu desejo maior teria sido abarcar todos os conhecimentos de sua época, invocando Mefistófeles (o demônio ou "o inimigo da luz"), com quem negocia para viver vinte e quatro anos sem envelhecer. Durante esse período, o diabo serviria a Fausto, recebendo sua alma em troca. Ao final desse vinte e quatro anos, seria então levado para o inferno. Mas nesse intervalo de anos, surge, inesperadamente, a figura de Margarida, por quem se apaixona e a quem recorre para salvá-lo do contrato que foi assinado com seu próprio sangue. Seu destino porém, já estava traçado inevitavelmente.
A lenda de Fausto é considerada um arquétipo (um modelo, um exemplo)da alma humana, tendo despertado interesses de artistas, músicos, poetas, dramaturgos.
Em 1587, Johan Spiess, livreiro e escritor de Frankfurt am Mein, faz a primeira narrativa literária dessa personagem no "Livro Popular", onde o indivíduo está disposto a aliar-se a Mefistófeles para "especular os elementos...dia e noite, pretendendo descobrir os fundamentos de tudo, tanto no céu quanto na terra." Em 1589 o escritor e dramaturgo inglês Christopher Marlowe(1563-1593), apresenta numa peça teatral ("História trágica do Doutor Fausto") o dilema do novo homem ocidental, dividido entre a religiosidade medieval e o humanismo renascentista. A personagem torna-se desse modo uma figura recorrente no decorrer de cinco séculos da literatura ocidental. Contudo, a expressão máxima dessa personalidade tão controvertida é-nos apresentada pelo poeta Johan Wolfgang Goethe (1749-1832), através de sua obra-prima "Fausto", que se estende por 12.111 versos, que no dizer de Erwin Theodor, nos apresenta "as principais conquistas intelectuais, realizadas na Antiguidade, Idade Média e Renascimento".

Fotos e fonte de pesquisa - wikimedia - "Fausto" - tradução de Jenny Klabin Segall (1981)

04/03/2010

Dois poemas...



Alma (des) encontrada


Arranquei os espinhos do teu corpo
com os dentes
e lambí meus lábios
com os tentáculos de minhas mãos vazias.
Arranquei os dentes de teus espinhos
e pisei as tuas curvas de serpente
que me furaram a pele
e me deixaram surdo.

Arranquei o corpo dos teus espinhos
e a essência do teu perfume
cegou-me o ego.

Arranquei os espinhos do teu corpo
com os dentes
e tento sair do labirinto
de não ser mais eu.





Marataoã



O rio corre em meu coração
e separa os sentimentos da areia.
A vaga da água vai
virando pó em pensamento
e a estrada encurta distâncias.

O rio viaja no horizonte
onde dançam os cabelos das carnaúbas
e soluçam os olhos do sol.

O rio corre em meu coração
e deságua nas correntezas do caminho.


Dilson Lages Monteiro, poeta piauiense, nascido em Barras do Marataoã em
1973. É autor de "Os olhos do silêncio", "O sabor dos sentidos" "+ Hum " (poemas)

27/02/2010

Poesia Africana - Moçambique


Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço.

Fugitivas dos Munhuanas e dos Xipomanines,

viemos do outro lado da cidade

com nossos olhos espantados,

nossas almas trançadas,

nossos corpos submissos e escancarados.


De mãos ávidas e vazias,

de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,

de corações amarrados de repulsa,

descemos atraídas pelas luzes da cidade,

acenando convites aliciantes

como sinais luminosos na noite.


Viemos...

Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,

do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,

do doer espáduas todo o dia vergadas

sobre sedas que outras exibirão,

dos vestidos desbotados de chita,

da certeza terrível do dia de amanhã

retrato fiel do que passou,

sem uma pincelada verde forte

falando de esperança.


"Moças das Docas", de Noemia de Sousa, poeta e jornalista nascida em Catembe, Moçambique. Viajou por todo o continente africano fazendo reportagens sobre as guerras e posteriormente mudou-se para a Europa. Faleceu em Cascais(Portugal)
(1926-2002). Tem publicado o livro de poemas "Sangue Negro".

25/02/2010

"As Flores do Mal"...




A Natureza é um templo onde vivos pilares
deixam às vezes soltar confusas palavras;
o homem o cruza em meio a uma floresta de símbolos
que o observam com olhares familiares.
Como os longos ecos que de longe se confundem
em uma tenebrosa e profunda unidade,
vasta como a noite e como a claridade,
os perfumes, as cores e os sons se correspondem.
Há perfumes frescos como as carnes das crianças,
doces como o oboé, verdes como as pradarias,
- e outros, corrompidos, ricos e triunfantes,
como a expansão das coisas infinitas,
como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
que cantam o transporte do espírito e dos sentidos.


Correspondências, de Charles Baudelaire
Tradução de Luciano Ferreira Gatti, doutor em Filosofia pela Unicamp(Universidade de Campinas-SP)

21/02/2010

As "Sete Cidades de Pedra" do Piauí....


O Piauí está localizado na região nordeste do Brasil e faz fronteira com os Estados do
Ceará, Bahia, Pernambuco, Maranhão e Tocantins. Como todo o resto do país, era povoado por muitas tribos indígenas, destacando-se a dos Tremembés, que viviam
próximo ao litoral e ao rio Parnaíba. Quase não vemos ou ouvimos falar a respeito
deste Estado e, quando isto acontece, é quase sempre uma abordagem desfavorável
ou até com uma pitada de ironia ou pilhéria. Mesmo acreditando que não se justifica,
tal comportamento, talvez, advenha do fato de o Piauí ser considerado um dos Estados mais pobres de nossa federação. Como se os piauienses fossem os responsáveis por sua pobreza! Mal entendidos à parte, sua população é alegre, afável e hospitaleira; além de possuir uma pequena faixa litorânea com praias em estado quase natural, possui ainda o único delta de rio das Américas(delta do rio Parnaíba) e
sítios arqueológicos como o Parque Nacional da serra da Capivara(a 510km da capital Teresina) e o Parque Nacional de Sete Cidades, entre as cidades de Piripiri e Piracuruca, a 217km de Teresina.
A descoberta oficial das "Sete Cidades de Pedra", como é conhecida, ocorreu em 1886.
Alí foram encontradas várias formações rochosas, conjuntos de monumentos geológicos, que segundo pesquisadores, foram trabalhados pela ação dos ventos e das chuvas, ao longo de milhares de anos (aproximadamente 90 milhões de anos).
As pinturas encontradas nas paredes das rochas, feitas com tinta vermelha, semelhantes a animais, pessoas e objetos, indicam a passagem do homem pré-histórico por aquela região.



"Mão de seis dedos"

"Pedra do camelo"



"Mapa do Brasil"
"Pedra dos Canhões'
Vista panorâmica das "Sete Cidades de Pedra"

Delta do rio Parnaíba

17/02/2010

Poesia Africana - Angola


Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa


Filha de Tembo
organizo o milho

Trago nas pernas as pulseiras pesadas
dos dias que passaram...
Sou do clã do boi -


Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.
A falta de limite...

Da mistura do boi e da árvore
a efervescência
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar

Filha de Huco
com a sua primeira esposa
uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.


"Rapariga", de Ana Paula Ribeiro Tavares, poeta angolana nascida em Lubango, província da Huila, em 1952. É formada em História, com mestrado em Literaturas Africanas. Reside em Lisboa, onde faz um doutorado e dá aulas na Universidade Católica. Já publicou "Ritos de Passagem", "O Lago da Lua" e "Manual dos Amantes Desesperados".

10/02/2010

Pausa forçada....

Infelizmente a máquina está no" hospital", mais uma vez!
Espero recebê-la de volta antes do carnaval. Se não....
Melhor dormir feito onça!!!

02/02/2010

Pouso


Ó passaro, em minha mão

encontram-se,

tua liberdade intacta

minha aguda consciência.


Ó pássaro, em minha mão

teu canto

de vitalidade pura

encontra a minha humanidade.


Ó pássaro, em minha mão

pousado

será possível cantarmos

em uníssono


se és o raro pouso

do sentimento vivo

e eu, pranto vertido

na palavra?


Orides Fontela (1940-1998)