DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

30/05/2011

Da cólera ao silêncio



Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, é enfiar um dedo na garanta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. (...) Escrever - e você sabe disso - pode eliminar essa sensação de gratuidade no eixtir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Eu acho então que se escrever te dá um sentido para estar vivo (ou a ilusão de um sentido, que importa?) então vai e escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora.


Caio Fernando Abreu, jornalista, escritor e dramaturgo. Santiago(RS) - 1948-1996

Instalação de Mathilde Roussel Giraudy

29/05/2011

Capricho



Detrás de cada espejo

hay una estrella muerta

y un arco íris niño

que duerme

Detrás de cada espejo

hay una calma eterna

y un nido de silencios

que no han volado

El espejo es una momia

del manantial, se cierra,

como concha de luz

por la noche

El espejo

es la madre-rocio.

el libro que diseca

los crepúsculos, el eco hecho carne


Federico Garcia Lorca


Capricho


Por trás de cada espelho

há uma estrela morta

e um arco-íris menino

que dorme

Por trás de cada espelho

há uma calma eterna

e um ninho de silêncios

que não voaram

O espelho é uma múmia

do manancial, se fecha

como uma concha de luz

através da noite

O espelho

é o orvalho-mãe,

o livro que disseca os crepúsculos,

o eco feito carne

Tradução livre

26/05/2011

Que esforço!



Morte



Que esforço!

Que esforço do cavalo para ser cachorro!

Que esforço do cachorro para ser andorinha!

Que esforço da andorinha para ser abelha!

Que esforço da abelha para ser cavalo!

E o cavalo,

que flecha aguda ele extrai da rosa!

Que rosa cinza ele levanta de seu focinho!

E a rosa,

que rebanho de luz e de gritos

ela liga ao suco vivo de seu talho!

E o açúcar,

que pequenos punhais ele sonha acordado!

E os minúsculos punhais,

que lua sem estábulo, que nus,

pele eterna e rubor eles procuram!

E entre os toldos,

que Serafim de chama eu procuro, e sou?


Federico Garcia Lorca, Granada(Espanha), 1898-1936

24/05/2011

"A resposta está no vento..."





Quantos caminhos um homem deve andar

para que seja aceito como um homem?

Quantos mares uma gaivota cruzará

para poder descansar na areia?

Quanto tempo as balas dos canhões explodirão

antes de serem proibidas?

A resposta meu amigo, está no vento...

Quantas vezes deve o homem olhar para cima

para poder ver o céu?

Quantos ouvidos o homem deve ter

para ouvir os lamentos do povo?

Quantas mortes ainda serão necessárias

para que saiba que já matou demais?

Quanto tempo pode uma montanha existir

antes que o mar a desfaça?

Quantos anos pode um povo viver

sem conhecer a liberdade?

Quantas vezes um homem vira a cabeça

fingindo não ver o que está vendo?

A resposta meu anigo, está no vento...


Versão da cantora/compositora Diana Pequeno

23/05/2011

"Não nascí para resfriar o mundo..."



Até que os serafins acenem com seus chapéus brancos



Não nascí para resfriar o mundo

Neste lerdo cortejo de omissões

Estas palavras interditas

Suspensas

Não vim quebrar as pernas do sol

Silenciar cada bemol

Não vim para arrebentar o anzol

Do velho Hemingway

Sou mar e trovão no coração

Nascí para amar sem lastro

Para dançar no pátio

It is my way


do livro "A flor dentro da árvore" (inédito) de Bárbara Lia, Assaí(PR), poeta e escritora, autora do romance "Solidão Calcinada".

21/05/2011

Poema da Felicidade Compulsória



Ela é dessas piromaníacas

ateia fogo

ao próprio corpo

pra ter um pouco

de calor

e de luz

Vai dançando nos intervalos

seus pequenos

suicídios

e infernos

em suas próprias

cinzas calcinadas

Do que lhe resta

meia arcada dentária

basta

a faculdade de sorrir

não pode passar em branco


Reinaldo Ramos, Rio de Janeiro

19/05/2011

Jamu Minka - dois poemas



Safari



Aquela tigresa é tanta

que me almoça e janta

faço de conta que a sala é ponto

na geografia da África

e o tapete vira suave savana ao entardecer

quando a pele da noite vem camuflar

nosso safari safado.



Ejacoração



Quando tua ausência se multiplica em dias

eu me divido em saudades

consciente ou não

e de resto sobram poemas

quando a vida devolve oficialmente tua presença

o coração dá voltas

e dispara ejaculando promessas de amor.


Jamu Minka, pseudônimo de José Carlos de Andrade, nascido em Varginha(MG)

18/05/2011

Poema tirado de uma notícia de jornal

Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro

João Gostoso era carregador de feira livre

e morava no morro da Babilônia

num barracão sem número.

Uma noite ele chegou ao bar Vinte de Novembr0

Bebeu

cantou

dançou

Depois se atirou

na Lagoa Rodrigo de Freitas

e morreu afogado.


Manuel Bamdeira, Recife(PE) (1886-1968), Em Libertinagem, 1930.

16/05/2011

Porta Aberta



Os meus segredos gritam alto.

Não tenho necessidade de língua.

O meu coração oferece hospitalidade,

as minhas portas se abrem livremente.

Um épico dos olhos,

o meu amor, sem qualquer fantasia.

As minhas verdades estão previstas,

esta angústia auto-revelada.

Estou despido até aos ossos,

com a minha nudez me escudo.

Visto-me a mim mesmo.

Conservo sóbrio o espírito.

A raiva permanecerá,

os atos dirão a verdade

em linguagem exata e pura.

Detenho a boca mentindo:

a fúria guia o meu grito mais claro

a uma agonia tonta.



Theodore Roethke, Michigan(EUA) - 1908-1963)

15/05/2011

Um conto sul-coreano





Depois que a Coreia se tornou livre da ocupação japonesa em 1945, a penísula foi ocupada pelo exército soviético ao norte e pelos norte-americanos ao sul, sob o pretexto de garantir a ordem social até a realização das eleições, mas o resultado disso foi o fechamento de uma fronteira interna em 1948. Em 1950 eclodiu a guerra que dividiu a Coreia em dois países: a Coreia do Sul e a Coreia do Norte.


A máscara


Levantava o corpo caído baleado na perna quando um facão atravessou-lhe o

peito. No instante em que perdia a consciência, o rosto do outro se gravou na pupila do soldado como que marcado a fogo. O sangue vertido no peito se esparramou sobre a terra. Era uma encosta de montanha parecida com a que

havia perto da vila natal, embora estivesse longe de sua terra.

O sangue permeou a terra e se tornou terra. No começo era de uma cor um

pouco mais escura do que a da terra ao seu redor, mas, aos poucos, foi se tornando uma cor só. A terra era a própria vida para este soldado que no passado arara a terra. A raiz de uma eulália, quase que furtivamente, foi sugando pouco a pouco a seiva do soldado. O soldado se tornou eulália.

Confusas botas militares pisotearam a eulália de cima a baixo da montanha.

No inverno, botas ainda mais pesadas pisaram-na por cima da neve que a cobria. Pisaram-na várias vezes e muitas vezes mais. No entanto, a eulália não morreu. Depois que as botas se foram, a eulália foi sacudida pelo vento de primavera, aquecida ao sol de verão, lavada pela chuva e orvalho, coberta pela neve, e novamente agitada ao vento de primavera. Numa primavera tardia, um camponês ceifou a eulália e a levou para um estábulo.

Tornou-se boi. O camponês dono do estábulo cuidava do boi como o membro

mais precioso de sua família, assim como fizera o soldado quando camponês. O soldado trabalhou arduamente junto ao seu novo dono camponês.

Trabalhou até criar calos no couro. Mas a vida difícilmente melhorava. Entrava ano e saía ano, mas era tudo igual. Numa noite, depois de uma enchente que devastou a plantação, o camponês acariciou o pescoço do

soldado e chorou em silêncio. Depois, o soldado passou pela feira, trem de carga, abatedouro e, finalmente, foi pendurado no açougue de uma cidade. Foi feito em pedaços para ser vendido. Foi quando encontrou alguém que parecia conhecer. Era o homem que lhe atravessara o peito com um facão na encosta da montanha. Arrastava-se pelas ruas mendigando. No resto de comida que havia mendigado de um restaurante, comeu a carne do soldado. O soldado entrou no homem.

O homem recuperou as forças repentinamente, jogou no chão a lata que segurava e saiu andando. No macacão de trabalhador que vestia, todo gasto, pendia mole uma das mangas sem braço. Foi andando até uma fundição e parou em frente. Trabalhara lá como torneiro antes de perder o braço no

campo de batalha. Sem titubear, entrou decidido na fábrica. Estava lá o mesmo supervisor de antigamente.

- Como vai o senhor?

O desagrado era claro na expressão do supervisor. Tirou o cigarro da

boca e o esmagou com a ponta do sapato.

- Senhor supervisor! Não precisa ficar aborrecido. Hoje não vim para

aporrinhar, sabe? Vim trabalhar, como eu fazia antes.

O supervisor lançou um olhar apreensivo para a manga que pendia mole sem braço.

- O que está olhando? Olhando direto nos olhos do supervisor, o homem continuou:

- Tá certo que tenho uma perna inutilizada porque fui baleado, mas isso não

quer dizer que eu não possa fazer o trabalho de torno, não é?

Enquanto falava com todo o corpo, a manga sem braço balançava mole, mole.


Huang Sun-Won(1915-200), tem sete romances, mais de uma centena de contos e poemas publicados. Após a divisão das duas Coreias, teve que fugir para a do Sul por ser de família abastada.

Tradução de Yun Jung Im - "Contos Contemporâneos Coreanos"