DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

31/07/2011

Música





A Pedro Nava


Uma coisa triste no fundo da sala. Me disseram que era Chopin. A mulher de braços redondos que nem coxas martelava na dentadura dura sob o lustre complacente. Eu considerei as contas que era preciso pagar, os passos que era preciso dar, as dificuldades...

Enquadrei o Chopin na minha tristeza e na dentadura amarela e preta meus cuidados voaran como borboletas.


Carlos Drummond de Andrade, em Alguma Poesia - Edit. Nova Aguilar, 1977.

28/07/2011

Poesia angolana




Herança de morte



Lírios em mãos de carrascos

Pombal à porta de ladrões

Filho de mulher à boca do lixo

Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas

Assim construímos África nos cursos de herança e morte

Quando a crosta romper os beiços da terra

O vento ditará a sentença aos deserdados

Um feixe de luz constante na paginação da história

Cada ser um dever e um direito

Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança.


Amélia Dalomba, Cabinda (Angola), 1961

Tela de Eleutério Sanches, pintor angolano de Luanda

26/07/2011

Sobre a brevidade da vida...





Sempre que me ponho a pensar sobre a curta existência que nos é permitida viver, sou levada a refletir sobre o que deixaram escrito os homens da Antiguidade. E a sensação que tenho é a de que depois deles não temos feito muitos avanços em direção a um crescimento de nossas mentalidades. Como dizia Sêneca, há cerca de dois mil anos atrás, usamos de mil maneiras para prolongar a vida e desvencilhar-se de mil futilidades que a perturbam, sem no entanto, enriquecê-la. –
“A maior parte dos mortais lamenta a maldade da Natureza, porque já nascem com a perspectiva de uma curta existência e porque os anos que lhe são dados transcorrem rápida e velozmente. De modo que, com exceção de uns poucos, para os demais, em pleno esplendor da vida é que justamente está o abandono.”
A morte da cantora inglesa Amy Winehouse, ocorrida recentemente, no auge de sua carreira musical e de sua juventude, provocou-me indagações sobre o porquê de uma vida tão meteórica. Dela e de várias outras estrelas do universo artístico, como Janis Joplin, Elis Regina, Jimmy Hendrix e tantos outros.Hipócrates, considerado o pai da Medicina, dizia que

“A vida é curta, a arte é longa. A ocasião, fugidia. A esperança,falaz. E o julgamento, difícil.”
Sêneca nos dizia também que “Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas.”

Dinheiro,sucesso, e fama,quando chegam juntos, geralmente provocam estragos em muitas pessoas, principalmente quando ainda se é muito jovem e sem uma bagagem emocional sólida. Há o desejo de alcançar os “degraus da fama" sem estar preparado para empreender a subida. E entre esses “degraus” existe o assédio dos fãs, o compromisso com empresários inescrupulosos, sempre exigindo mais, as oportunidades para consumir drogas as mais variadas possíveis, e o cerco vai se fechando imperceptivelmente... Sem contar com a possibilidade de virem à tona sentimentos de onipotência, de arrogância, vaidades, e por que não dizer, o desejo de imortalidade! Muitos até querem ir-se embora justamente no auge de suas carreiras, para que perpetuem as suas imagens per ommina secculum...Como poderemos saber? Quem somos nós para julgarmos?


Imagem: Vida e Morte, de Gustave Klimt

25/07/2011

Vida toda linguagem







Vida toda linguagem,


frase perfeita sempre, talvez verso,


geralmente sem qualquer adjetivo,


coluna sem ornamento, geralmente partida.


Vida toda linguagem,


há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome


aqui, alí, assegurando a perfeição


eterna do período, talvez verso.


Vida toda linguagem,


feto sugando em língua compassiva


o sangue que criança espalhará - oh metáfora ativa!


leite jorrado em fonte adolescente,


sêmen de homens maduros, verbo, verbo.


Vida toda linguagem,


bem o conhecem velhos que repetem,


contra negras janelas, cintilantes imagens


que lhes estrelam turvas trajetórias.


Vida toda linguagem -


como todos sabemos


conjugar esses verbos, nomear


esses nomes


amar, fazer, destruir,


homem, mulher, e besta, diabo e anjo


e deus talvez, e nada.


Vida toda linguagem,


vida sempre perfeita,


imperfeitos somente os vocábulos mortos


com que um homem jovem, nos terraços


do inverno, contra a chuva,


tenta fazê-la eterna - como se lhe faltasse


outra, imortal sintaxe


à vida que é perfeita


língua


eterna.



Mário Faustino, jornalista e poeta, nasceu em Teresina(PI) em 1930 e faleceu em 1962, em acidente aéreo no Perú.

Foto: José Albano

Imagem do cabeçalho: Lalla Essayadi, artista plástica marroquina.

22/07/2011

El poeta declara su nombradía



El ciclo del cielo mide mi gloria,

las bibliotecas del Oriente se disputan mis versos,

los emires me buscan para llenarme de oro la boca,

los ângeles ya saben de memoria mi último zéjel.

Mis instrumentos de trabajo son la humillación

y la angustia;

ojalá yo hubiera nacido muerto.


(Del Divãn de Abulcásin el Hadramí, siglo XII)




O poeta declara seu renome


O círculo do céu mede minha glória,

as bibliotecas do Oriente disputam os meus versos,

os emires me procuram para encher-me de ouro a boca,

os anjos já sabem de memória meu último jézel.

Meus instrumentos de trabalho são a humilhação

e a angústia;

quem me dera eu tivesse nascido morto.



( Em Divã de Abulcásin o Hadrami, século XII)

Imagem do alto: "Cabeça de Medusa", de Michelangelo Merisi, de Caravaggio

20/07/2011

Fábula sem moral






Um homem vendia gritos e palavras e ía bem, embora encontrasse muita gente que discutia os preços e pedia abatimento. O homem concordava quase sempre, e assim pode vender muitos gritos de vendedores ambulantes, alguns suspiros que lhe foram comprados por senhores pessimistas e palavras para lemas, slogans, lembretes e falsas ocorrências.

Afinal o homem percebeu que sua hora havia chegado e pediu audiência ao tiranete do país, que era parecido com todos os seus colegas e o recebeu cercado de generais e xícaras de café.

- Venho vender-lhe suas últimas palavras - disse o homem. - São muito importantes porque nunca lhe vão ocorrer no momento e em compensação lhe convém dizê-las no duro transe para configurar facilmente um destino histórico retrospectivo.

- Traduza o que ele está dizendo - ordenou o tiranete a seu intérprete.

- Ele fala argentino, Excelência.

- O senhor entendeu muito bem - disse o homem. - Repito que venho para vender-lhe suas últimas palavras.

O tiranete pôs-se de pé como é de praxe nessas circunstâncias e reprimindo um tremor mandou que prendessem o homem e o metessem nos calabouços especiais que existem sempre nesses ambientes de governo.

- É uma pena - disse o homem enquanto o levavam. - Na realidade o senhor desejará pronunciar suas últimas palavras quando chegar o momento, e precisará dizê-las para configurar facilmente um destino histórico retrospectivo. O que eu ía vender-lhe é o que o senhor quererá dizer, de modo que não há fraude. Mas como o senhor não aceita o negócio, como não vai aprender essas palavras por antecipação, quando chegar o momento em que elas quiserem brotar pela primeira vez, naturalmente o senhor não poderá dizê-las.

- Por que não poderei dizê-las, se são as que eu quererei dizer? - perguntou o tiranete, já diante de outra xícara de café.

- Porque o medo não lhe permitirá - disse tristemente o homem. - Como o senhor estará com uma corda no pescoço, de camisa e tremendo de terror e frio, os dentes se entrechocarão e não conseguirá articular uma palavra. O carrasco e os assistentes, entre os quais estarão alguns destes senhores, esperarão por decoro, alguns minutos, mas quando brotar de sua boca somente um gemido entrecortado de soluços e súplicas de perdão (porque isso sim o senhor articulará sem esforço) ficarão impacientes e o enforcarão.

Muito indignados, os presentes e em especial os generais cercaram o tiranete para pedir-lhe que mandasse fuzilar imediatamente o homem. Mas o tiranete, que estava-pálido-como-a-morte, expulsou-os aos empurrões e trancou-se com o homem para comprar-lhe suas últimas palavras.

Enquanto isso, os generais e ministros, humilhadíssimos pelo tratamento recebido, prepararam uma insurreição e na manhã seguinte prenderam o tiranete quando ele comia uvas em seu caramanchão preferido. Para que ele não pudesse proferir suas últimas palavras, mataram-no alí mesmo, com um tiro. Depois, puseram-se a procurar o homem que desaparecera do palácio do governo, e não tardaram em encontrá-lo, pois perambulava no mercado, vendendo pregões aos saltimbancos. Metendo-o num carro de polícia, conduziram-no à fortaleza e torturaram-no para que revelasse quais poderiam ter sido as últim as palavras do tiranete. Como não conseguiram arrancar-lhe a confissão, mataram-no a pontapés.

Os vendedores que haviam comprado gritos continuaram apregoando-os pelas esquinas, e um desses gritos serviu depois como contra-senha da contra-revolução que acabou com os generais e os ministros. Alguns deles, antes de morrer, pensaram confusamente que na realidade tudo aquilo tinha sido uma infame corrente de equívocos, e que as palavras e os gritos eram coisas que, a rigor, se pode vender mas não comprar, embora pareça absurdo.

E todos foram apodrecendo, o tiranete, o homem e os generais e ministros, mas os gritos ressoavam de vez em quando pelas esquinas.



Júlio Cortázar, em Histórias de cronópios e de famas.

19/07/2011

Para quem gosta de ler...






Selecionei trechos de obras de alguns autores objetivando aguçar a sua memória, a sua curiosidade e o seu gosto pela leitura. Será que você topa esse desafio? Você poderá responder (ou não!), através de seu comentário. Vamos lá?



l - (...) O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.

2 - ...e não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida (...)


3 - A camisa havia sido remendada tantas vezes que mais se assemelhava a uma vela, e os remendos, sob a ação do sol, tinham-se esbatido em diversos tons. A cabeça do velho era muito velha.


4 - Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da Hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. O Leonardo, fazendo-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão.


5 - O destino do rei seria o de morrer vítima do filho que nascesse de nosso casamento. No entanto, - todo o mundo sabe e garante, - Laio pereceu assassinado por salteadores estrangeiros, numa encruzilhada de três caminhos.


6 - Como a miséria nas classes baixas é sempre maior que o espírito da fraternidade das classes altas, tudo era distribuído antes mesmo de ser recebido; era como água em terra seca: ele gostava de receber dinheiro, mas sempre estava precisando de mais.


7 - O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não conseguí recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.



- Joaquim Maria Machado de Assis, em Dom Casmurro

- Sófocles, em Édipo Rei

- Manuel Antonio de Almeida, em Memórias de um sargento de milícias

- Victor Hugo, em Os Miseráveis

- João Guimarães Rosa, em Famigerado - Primeiras Estórias

- Ernest Hemingway, em O velho e o mar

- João Cabral de Melo Neto, em Morte e Vida Severina

18/07/2011

Mandela, o mestre do seu destino!

Torre de Soweto, África do Sul



De dentro da noite que me cobre,

preta como a cova, de ponta a ponta,

eu agradeço a quaisquer deuses que sejam,

pela minha alma inconquistável.

Na cruel guerra da situação,

não estremecí, nem gritei em voz alta

sob a pancada do acaso.

Minha cabeça está ensanguentada,

mas não curvada.

Além deste lugar de ira e lágrimas

e apesar da ameaça dos anos,

encontro-me e me encontrarei destemido.

Não importa quão estreito o portal,

quão carregada de punições a lista,

sou o mestre do meu destino,

Sou o capitão da minha alma.


Hoje Nelson Mandela completou 93 anos de luta, de coragem, despojamento, e amor pelo seu povo! Salve, Mandela, axé e muita saúde!!!

16/07/2011

O dilema do poeta...

Gustave Caillebotte




Os poetas (cf. artistas) estão próximos de necromontes, fazendo esforços para ouvir os mortos cantarem. Esses mortos poderosos são as Sereias, mas não cantam para castrar, pois a morte faz amizade com todo poeta (cf. artista). Poesia, o duplo dilema da fantasia de lutar com os mortos poderosos, podendo se definir qualquer poema como o desvio de uma possível morte, pois o poeta, em sua elevação daemônica, adquire poder para uma energia contra si mesmo, e consegue, a um custo terrível, sua mais nítida vitória na luta com os mortos poderosos - o protesto da mente criativa contra a tirania do tempo.




Harold Bloom, escritor, ensaísta e crítico literário.


Nova York (1930- )

14/07/2011

Beleza pura !!!

Esse belíssimo fenômeno óptico que infelizmente não podemos visualizar aqui no hemisfério sul, só acontece nos céus noturnos das regiões polares e é chamado de aurora polar. É provocado pelo choque entre partículas de vento solar, proveniente da corona solar(elétrons, prótons e neutrinos) e a poeira espacial encontrada na via láctea e na alta atmosfera da Terra. No hemisfério norte é também conhecida como aurora boreal, nome dado por Galileu Galilei em 1619, em homenagem à deusa romana do amanhecer Aurora e ao seu filho Bóreas, representante dos ventos do norte. Normalmente ocorre nos meses setembro/outubro e março/abril. No hemisfério sul foi batizada por James Cook de aurora austral. Também pode ser observada em outros planetas do sistema solar como Júpiter, Saturno, Marte e Vênus e já foi provocada artificialmente através de explosões nucleares e em laboratórios.

Em geral, o efeito luminoso é dominado pela emissão de átomos de oxigênio em altas camadas atmosféricas (200km de altitude), produzindo a tonalidade verde. Quando ocorre uma forte tempestade, as camadas mais baixas da atmosfera são atingidas pelo vento solar (100km de altitude), produzindo a cor vermelho escuro, provocada por átomos de nitrogênio.

Na Escandinávia e na Islândia o fenômeno da aurora boreal é bastante comum.


corona da aurora boreal

aurora boreal Nova Zelândia



aurora boreal na Suécia


aurora boreal - estação espacial internacional


aurora boreal vista de estação espacial


aurora boreal planeta Júpiter


aurora austral pelo satélite da Nasa (2005)


Fonte: wikipédia