DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

17/05/2014

A propósito de Carlos Paredes *




 quando ouço teus
dedos caminhando sobre
cordas tuas mãos em
passos firmes a dedilhar
sentimentos...
de suas janelas
meu corpo fala
as portas se abrem e
meu coração é dor
e é alegria
vejo pesadas nuvens
prenunciando chuva
forte: um manancial
de gotas escorrem
e desaguam no leito
profundo do meu
rio...tocando em
raízes de antanho
atravesso pontes caminhos
sobre pedras repletas de
segredos de subsolo
Ah, guitarra caminhante
incansável em
teu braço tanta
história se revela!

* Carlos Paredes - Coimbra (1925-2004)
 


16/05/2014

Crisálida

  

 
das mãos os nós dos dedos
desato uma crisálida caminha
em círculos ascende
em espiral...

na ponta dos dedos
da noite moldo a argila
dos sonhos
para o dia amanhecer

14/05/2014

O crepitar da música





vagueio entre notas musicais busco
 o som de palavras que expressem esse
 sentimento molhado que desliza
 e paralisa-me
 
  caminho a esmo inebriada
de melancolia entre harpas e flautas
 e cravos
 
ouço o crepitar da música em
 minhas veias
e todas as palavras queimam
tornam-se pó
 
e dos meus olhos cai
uma fina camada de chuva

13/05/2014

dizem

que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente
turvo pela ligeira náusea da velhice
 
conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
presente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo
 
dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer
entre os vivos
 
 
 
Al Berto, Coimbra (1948-1997)

11/05/2014

"Viver é experimentar"




"Porque nós não somos preconceituosos. Porque nós somos um país secular. Sempre tivemos algum grau de aventura, e talvez de um bom liberalismo no seu sentido mais profundo: não econômico, mas de experimentar diferentes caminhos. Foi assim com o divórcio, com a abordagem sobre o álcool, em 1915, o reconhecimento da prostituição e assim por diante. É uma característica do Uruguai."

"Mas a vida é um experimento. Somente os dogmáticos, os sectários, os que se negam a qualquer mudança, podem ficar contra a honradez da palavra experimento. Viver é experimentar, buscar soluções que às vezes funcionam e às vezes não. Por que agora reconhecemos o casamento homossexual e antes não? Por que mudamos? E a escravidão, como foi que acabou? Toda a vida foi assim. Agora, os retrógrados que não querem mudanças certamente vão se assustar. Eu reivindico a palavra experimento."


Jose Mujica, presidente do Uruguai, em entrevista para a BBC Mundo fala sobre a legalização da maconha.

09/05/2014

Sonambulando

  
 
esse mar que vaza dos
olhos sobre o solo esgarçando
as ilhas luminosas do
teu rosto...
 
o escutar desse mar
seus esgares a
natureza em convulsão
os movimentos ondulares
do teu coração separam
as grandes marés que
se alternam e te
conduzem ao centro
da noite para a
reconstituição do dia
 
o infinito espacial
noturno navega nesse
grande mar inconsciente
retirando a poeira das
águas das noites
em vigília


07/05/2014

Das aparências

Aquele que quer pôr o lado frio para fora,
Põe o lado quente, o lado forrado de peles,
para dentro.
Aquele que quer pôr o lado quente para dentro,
Põe o lado frio, o lado de couro,
para fora...
 
 
Henry Wadsworth Longfellow. Maine(EUA) - 1807-1882

06/05/2014

João Tala


 

 
ALÉM DA FORMA DAS SEMENTES
 
 
Todas as palavras de um ngoma são
lamentos da civilização
.Tudo o que
pronuncio é um continente sobre
a memória dos gnomas
 
mas cada língua é uma nação de conversas
fortalece a raça do espírito o poema da
plebe
 
e este povo irmão dissemina na minha
memória o continente erguido da semente 



OBITUÁRIO
 
 
Onde ouvidos repetem pequenas ruínas
sobre o revólver sobre dias túmidos
para decretar morte é como ninguém
para aumentar áfricas laboratoriais e
o latifúndio:

depois dá um tiro na cabeça da história
tal como tropeça no meu palavrão
sem nada para acrescentar à morte
sem nada para acrescentar à vida
sem ser nunca o nome da multidão


João Tala é poeta e ficcionista, natural de Malange (Angola)



 

05/05/2014

Móbile II

diga algo belo
sublime
fale feio o outro
lado da realidade
diga algo original
seja verdadeiro
 
cale a boca
grite!
 
sem começo nem
fim são
palavras soltas para
um dia se alguém as
quiser as palavras que...
 
quando me lembrei
o trem havia partido
café-com-pão-manteiga-não
 
a língua é de todos
a língua não é de ninguém:
não tem pedra
nem tem final
teria um começo?

02/05/2014

Móbile

paredes rochosas
palmeiras angulares
e quinze assaltantes
nada sociáveis
no alto de uma cobertura
de qualquer edifício
 
3 dormitórios todos
com vista para
o mar, e
a água vazando
pela tubulação
encanada
 
vamos nadar
no nada?
 
do alto o mar é cinza
as ondas vão
e vêm como
lençóis ao vento
ou como
uma grande bacia
cheia de espuma
de sabão
 
onde vivo não
é o Brasil real