DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

11/06/2016

Testamento



 

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros - perdi-os...
Tive amores - esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
 
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
 
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!...Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
 
Criou-me desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
 
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta que não lutei!
 
 
Canção das Duas Índias
 
Entre estas Índias de leste
E as Índias ocidentais
Meu Deus que distância enorme
Quantos Oceanos Pacíficos
Quantos bancos de corais
Quantas frias latitudes!
Ilhas que a tormenta arrasa
Que os terremotos subvertem
Desoladas Marambaias
Sirtes sereias Medeias
Púbis a não poder mais
Altos como a estrela d'alva
Longínquos como Oceanias
- Brancas, sobrenaturais -
Oh inacessíveis praias!...
 
 
Os nomes
 
Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste, mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
- Tantos gestos, palavras, silêncios -
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já nos soa como os outros.
 
Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.
Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.
Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos
[claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo
[de dizer "Meu Deus, valei-me".
 
Adelaide não foi para mim Adelaide somente
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopeia.
Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.
Os epitáfios também se apagam, bem sei.
Mais lentamente, porém, do que as reminiscências
Na carne, menos inviolável do que a pedra dos túmulos.
 
 
Manuel Bandeira, Recife(PE) 1886-1968

06/06/2016

Uma crônica de Raquel de Queiroz *




Bonecas russas
 
 
Não me lembro como se chamam as tais bonecas folclóricas russas: são as que
são ocas e abre-se a boneca maior e dentro dela há uma menor, e dentro dessa
outra menor ainda, e depois outra e mais outra, até chegar à última, que é uma
simples miniatura de boneca. No mesmo gênero, também é aquele conto de fadas: "Lá no mar tem uma ilha, dentro da ilha tem um castelo, dentro do castelo tem uma torre, dentro da torre tem um quarto, dentro do quarto tem
uma arca, dentro da arca tem uma caixa, dentro da caixa tem um cofre, dentro
 do cofre tem um frasco, dentro do frasco tem uma pomba, dentro da
pomba tem um ovo, dentro do ovo tem uma chave e é essa chave que abre  a
porta da prisão onde está a princesa encantada".

Pois a gente também é assim. A princípio eu pensava que, com a passagem das
diferentes idades do homem, o maior ia substituindo o menor, quero dizer, o
menino ficava no lugar do nenê, o adolescente no do menino o moço no do adolescente, o homem feito no do moço, o de meia-idade no do homem feito,
 o velho no lugar do de meia-idade e por fim o defunto no lugar de todos. Mas
depois descobri que os indivíduos passados não desaparecem, se incorporam, ou, antes, o indivíduo novo incorpora os superados como se os devorasse, e uns vão ficando dentro dos outros, tal com as bonecas russas do começo da história.

E assim, dentro de cada um de nós, a gente procurando sempre encontra os perfis superpostos encartados um por dentro do outro, sem se misturarem. É
só saber como esgaravatar e você descobrirá  fácil no sentencioso senhor de cinquenta anos o inseguro pai de família principiante que ele foi aos trinta anos ou o belo atleta descuidado que foi aos dezoito. Ali está cada um, aparentemente esquecido mas incólume. E estanques todos. Porque um não penetra no outro e aparentemente um não tem o mínimo em comum com o outro; nem sequer um influi no outro - as mais das vezes são antípodas e adversários.
 

Faça uma experiência: pegue um livro, uma foto, reveja um filme, encontre alguém, qualquer desses serve, contanto se refira especificamente a determinado tempo de sua vida. E então magicamente se suscita aquele instante perdido do passado, com uma força de momento atual. Espantado, você se indaga: então esse fui eu? Que tem em comum com o você de hoje aquele estranho que subitamente acordou ao apelo do seu nome, debaixo da sua pele? Terá em comum só mesmo o nome e a pele, porque o resto, no corpo e na alma, tudo é outro, deformado ou gasto, mas sempre diferente. Você é outro, outro. E quase não acredita ter sido você também aquele rapaz desvairado, ou sonso, ou bobo e terrivelmente inexperiente que de súbito emergiu de dentro dos seus ossos e das suas velhas lembranças.  
Em sua avó venerável você também pode descobrir a rapariga inconsequente que ela foi um dia, e no seu severo confessor de hoje o seminarista em crise religiosa de trinta anos atrás. È só saber procurar. A gente diz isso "águas passadas". Mas talvez seja melhor dizer águas represadas, águas recalcadas. Porque basta bater na pedra, a fonte emerge, o que não aconteceria se as águas fossem passadas realmente.

* Raquel de Queiroz nasceu em Fortaleza(CE) em 1910 e faleceu em 2003 no Rio de Janeiro.
Era jornalista, cronista, romancista e dramaturga. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. É autora de vários romances, entre os quais estão O Quinze, Memorial de Maria Moura, Dora Doralina.


Publicado em: 23/09/2000, Correio Braziliense – Brasília – DF


02/06/2016

Das singularidades do Não



 
 
É maravilhoso o não porque é um centro vazio, mas sempre frutífero. Para um espírito que diz não com trovões e relâmpagos, o próprio diabo não pode força-lo a dizer sim. Porque todos os homens que dizem sim  mentem; quanto aos homens que dizem não, bem, encontram-se na feliz condição de ajuizados viajantes pela Europa. Cruzam as fronteiras da eternidade sem nada além de uma mala, isto é, o Ego. Enquanto, em compensação, toda essa gentalha que diz sim viaja com pilhas de bagagem e, malditos sejam, nunca passarão pelas portas da alfândega.
 
 
Trecho de uma carta de Herman Melville (N.Y., 1819-1891) para o escritor Nathaniel Hartworne (1804-1864), de quem era amigo.
 



28/05/2016

Estilhaços


 
 

Sempre diga sim
Diga sempre sim
Sim, diga sempre
Diga sim, sempre
Sempre diga: sim!
 
"Água mole em pedra dura..."
 
Nunca diga não
Não diga não, nunca!
 
Mesmo caladas as
pedras-palavras um dia
se transformarão em lama
que por sua vez se tornarão
pó, e
de grão em grão serão
uma grande Babel de
palavras cruzadas expostas.
É mesmo? Não diga...
As pedras não falam
As pedras ouvem, e
escutamos através delas
As pedras veem e nós
enxergarmos os rabiscos
nelas deixados através
de séculos, de milênios
apesar dos predadores
das pedradas nas Genis da vida...

"Em terra de cego quem tem um olho...",
dirá sempre não!


25/05/2016

Se fosse apenas na Itália...!?

"...nós não temos parlamentares, temos paralamentares. E tanto a Câmara quanto o Senado têm dado demonstrações disso: são absolutamente lamentáveis. Não há nenhuma grande liderança, não há nenhum partido coeso, com posições definidas, e com fidelidade à programação partidária. Isso realmente desapareceu.

Giorgio Agamben filósofo e ensaísta italiano

18/05/2016

A Babel e seus labirintos



 
 
Sonhei que ontem é hoje, e que havia uma máquina trituradora esmagando alimentos pensamentos pessoas rastros passos dados passados no liquidificador
da memória; sonhei também com um dicionário analógico de páginas amarelecidas com palavras de baixo calão: corrupções corruptores corruptos corruptelas dança de cadeiras de cabeças guilhotinas carrascos verdugos vetustos togas capas máscaras torturas torturados e torturadores o pai o filho o neto o tataraneto, e o espírito santo "lavando" e enlameando os destinos da nação... Entrei num supermercado e encontrei pó-de-canela com pelo de rato, leite misturado com soda cáustica, feijão com pedras, carne bovina, frango e peixe alimentados com hormônios e antibióticos; saí dali para uma fábrica de roupas: jovens Penélopes tecendo roupas dia e noite noite e dia numa odisseia
de fome e exploração que se transformam em altas grifes com direito a desfiles "fashion" internacionais com lucros astronômicos para a indústria da moda...
Entrei em túneis, percorri labirintos e não encontrei a mão de Ariadne para indicar a saída! Nos manicômios e hospitais psiquiátricos seres humanos são tratados como bichos enfurecidos como se cada um de nós não carregasse uma boa dose de loucura. - o "louco" destrói a natureza pelo poder? o "louco" acumula riqueza em paraísos fiscais, investe-se de autoridade quando assume cargos públicos delegados através de voto popular? 
Os labirintos da sociedade estão recheados de Fausto e Mefistófeles que tecem em seus cantos escuros armadilhas sob a forma de pontes que desmoronam no meio do caminho entre o sonho e a realidade. A grande Babel da história guarda em sua memória sonhos e pesadelos de outrora e de hoje à revelia de seus autores ou detratores. Os labirintos são intermináveis...    

14/05/2016

Dois poemas de José Emílio Pacheco *

Mercado de Tlatelolco, cidade do México
 
 
Un Ritual
 
 
El ritual cotidiano deja una enseñanza: la verdadeira recompensa del trabajo es el placer que hay en intentar hacerlo bien, aun a sabiendas de que en poco tiempo nuestro esfuerzo será inútil y habrá que recomenzar a partir de cero.
 
Um Ritual
 
O ritual cotidiano deixa um ensinamento: a verdadeira recompensa do trabalho é o prazer que existe em tentar fazê-lo bem feito, ainda que sabendo que em pouco tempo nosso esforço terá sido inútil e terá que ser recomeçado a partir do zero.
 
***
 
Desorden de los factores
 
Todo me sale al revés a pesar de mis buenas intenciones. La noche que me invade no sabe que es noche. La vida se me acaba sin entender de que se trata. El mundo insiste en ser como es, no como yo quisiera. El desorden de los factores divide la multiplicación y suma una resta divisória.
 
Tudo me acontece ao contrário apesar de minhas boas intenções. A noite que me invade não sabe que é noite. A vida se esvai sem que eu entenda do que se trata. O mundo insiste em ser como é, não como eu gostaria. A desordem dos fatores divide a multiplicação e acrescenta uma diminuição divisória.
 
* José Emílio Pacheco nasceu no México em 1939. É poeta, romancista e ensaísta. 

08/05/2016

Pedras poéticas

Destruição do sítio de Palmira (03.2015)


Enquanto alguns tentam destruir a cultura milenar de seu povo, o escultor Nizar Ali Badr, da cidade de Latakia (principal porto da Síria) tenta reconstruir essa mesma história, no que ele denomina de "jabl safoon", ou composição de pedras, oriundas da cidade de Djebel Al Agraa, a 50km de Latakia. Segundo o escultor, "o que acontece na Síria é semelhante a uma arena de touros em combate. O mundo assiste e aplaude; todos participam da dança sobre os corpos dos pobres". Seu trabalho é, simplesmente, uma poesia que nos toca profundamente, que através dos recursos existentes em seu país, mostra-nos qual a verdadeira função do artista; mostra-nos que até as pedras podem falar sem emitir qualquer palavra!
 

Nizar Ali Badr
 
 



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 


04/05/2016

Alberto da Cunha Melo *

 

 
 
Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento: escrevemos
cada vez mais, para um mundo
cada vez menos.
 
***
 
 
Quero o poema
terra-a-terra,
o poema raso
e rasteiro,
o poema vil,
louco e lindo
feito o bem sobre o mal.
 
***
 
Aos mestres, com desrespeito
 
Dizem que meu povo
é alegre e pacífico.
Eu digo que meu povo
é uma grande força insultada.
Dizem que meu povo
aprendeu com as argilas
e os bons senhores de engenho
a conhecer seu lugar.
Eu digo que meu povo
deve ser respeitado
como qualquer ânsia desconhecida
da natureza.
Dizem que meu povo
não sabe escovar-se
nem escolher seu destino.
Eu digo que meu povo
é uma pedra inflamada
rolando e crescendo
do interior para o mar.
 
 
* Alberto da Cunha Melo (1942-2007), nasceu em Jaboatão dos Guararapes(PE). Poeta, jornalista, escritor e sociólogo, deixou publicados Clau(poemas), Dois caminhos e uma oração, e Cão de olhos amarelos.

02/05/2016

"Exercício de história comparada"

Semelhanças e diferenças entre o golpe de hoje no Brasil e o golpe nazista em 1933

Hitler deu um golpe inteiramente 'legal', através de uma votação no Parlamento. com o apoio da classe média alta. Se olharmos os métodos, como se parecem!

 

Flávio Aguiar
reprodução
“Nem sempre o que é, parece. Mas o que parece, seguramente é”. Ditado brasileiro.

Muito se tem escrito, contra e a favor, sobre semelhanças e diferenças entre o golpe nazista de 1933 e o que hoje está em curso no Brasil.

Bom, vamos começar por alguns personagens principais. Ninguém de bom senso vai comparar o tacanho e tragicômico Michel Temer com o trágico e sinistro Adolf Hitler. Nem um nem outro merecem tanto. Aquele, “do lar”, este, bem, também era “do lar”, abstêmio, vegetariano, fiel pelo que se sabe, mas, de qualquer modo e por exemplo, os penteados eram completamente diferentes. Além disto, Hitler ficou no poder durante doze anos, de 33 a 45, digamos. Temer não ficará tanto. No Inferno de Dante Hitler estaria na boca de Lúcifer, mascado com os grandes traidores da história. Onde estará Temer? Provavelmente na porta do Inferno. Nem lá ele será admitido. Na porta, sem direito nem a meia-entrada, estão os que carecem até mesmo de um forte caráter pecador. Para alegria dos pós-modernos, estão no não-lugar universal e eterno.

Também ninguém vai comparar o grotesco Cunha ao também grotesco Göring, que foi quem presidiu a sessão do Reichstag que começou o golpe de estado nazista em 23 de março de 1933. Se estivessem num romance de Dostoyevski, ambos seriam qualificados como psicopatas. Mas não esteve um, nem está o outro. Vamos aguardar para ver como a história qualificará o mais recente deles. Boa coisa não será.
Agora, se olharmos os métodos, como se parecem!
 Em primeiro lugar, Hitler deu aquilo que a revista alemã qualificou, em relação ao Brasil, um “kalter Putsch”, um “golpe frio”, ou “branco”, na nossa tradição. Foi um golpe inteiramente “legal”, através de uma votação no Bundestag, o Parlamento, depois confirmado pelo Bundesrat, que equivaleria ao nosso Senado (como deve acontecer), assinado pelo presidente von Hindenburg, e largamente deixado correr ou apoiado pelo Judiciário.

O golpe ganhou o nome histórico de “Ermächtigungsgesetz”, que poderia ser traduzido por “Lei de Empoderamento”. Era muito breve, como o nosso Ato 5: tinha um preâmbulo de algumas linhas e cinco artigos. Em essência, dizia que o Gabinete Executivo - presidido por Hitler - tinha poderes para decretar leis sem aprova-las no Parlamento, e que estas leis estariam acima da Constituição, que não poderia ser invocada para contesta-las. Dizia que a exceção se referia ao Bundestag e ao Bundesrat, coisa que, evidentemente, foi desrespeitada depois. Ou seja, como hoje no Brasil, rasgava-se a Constituição “legalmente”, e abria-se o período de exceção, diante de uma pequena burguesia (hoje diríamos alta classe média) gessificada pelo medo da ascenção dos “debaixo”. Mas tanto lá como hoje, nesta classe média isto não era unânime, diga-se de passagem. Por isto a repressão que se seguiu foi generalizada. E hoje, não será?

Mas houve também o processo de votação. Como o nosso presidente da Câmara, Göring se dedicou a criar regras próprias para a votação. Depois do incêndio do Reichstag, no final de fevereiro de 1933, Hitler desejou que na nova votação que haveria no começo de março ele tivesse assegurada uma maioria absoluta no Bundestag. Isto não aconteceu. O Partido Nacional-Socialista precisava ainda do apoio de partidos de coalizão (basicamente o Partido do Centro, católico - parecido com os evangélicos de hoje - e o Partido Nacional do Povo Alemão, coligado com os nazistas. Por isto os nazis decidiram adotar o caminho da Lei do Empoderamento, para prescindirem deste apoio futuramente. E os outros morderam a isca.

Mas houve mais. A Constituição alemã previa que para uma votação destas, que a modificava, era necessária a presença de dois terços dos deputados, ou seja, 432 dos 584 membros. Para vencer esta dificuldade, Göring inventou uma nova conta. Como os comunistas tinham sido acusados pelo recente incêndio do prédio do Reichstag (o Parlmento se reunia num teatro, a Casa da Ópera Kroll), os deputados do KDP (Kommunist Deutsche Partei) tinham sido presos, banidos, ou estavam foragidos. Assim Góring simplesmente descontou os 81 que eles eram da soma geral, e o quorum ficou reduzido a 378. Boa matemática, não?

Além disto, Göring abriu as portas do Parlamento aos Nazisturmabtellung, os SA, Camisas-Pardas (que depois seriam sacrificados para ratificar o poder dos SS). Hoje, no Brasil, não há SA, mas há as tratativas entre a presidência da Câmara e a Rede Globo, fazendo a votação no domingo, com esta mudando horários de jogos… enfim, cada momento tem a SA que pode e merece.

O processo de votação foi uma farsa. Estaremos falando de 1933 ou de 2016? Tanto faz. Aquele não foi transmitido pela TV, porque TV não havia, pelo menos na escala de hoje. O de hoje foi, para vergonha dos deputados perante o mundo inteiro. Vários deputados do SPD tinham sido presos, ou já haviam fugido para o exterior. Mas o inventivo Göring criou uma nova cláusula, ad hoc: deputados que não comparecessem, mas que não tivessem apresentado uma justificativa por escrito, deviam ser contados como presentes, para para garantir o quorum. (Lembram da alegação de um um deputado pró-impeachment que os deputados ausentes teriam de apresentar atestado médico?).

Bom, na sessão, apenas o líder do que restava do SPD, Otto Wels, que terminaria morrendo exilado na França antes da ocupação, falou contra a nova Lei. Os outros discursos foram acachapantemente ridículos (alguma coincidência será mera semelhança?). Bom, ninguém invocou a mãezinha ou o vizinho, mas saíram coisas como a Pátria e a Ordem. Resultado: 444 a favor da nova lei, 94 contra, todos estes do SPD.

Um detalhe muito interessante: Hitler negociara com Ludwig Kaas, o líder católico, que respeitaria o direito da Igreja e os funcionários católicos nos cargos de Estado, além das escolas. No dia seguinte ao da votação, que foi logo aprovada no Bundesrat e assinada por Hindenburg, Ludwig Kaas foi despachado para o Vaticano para explicar a nova situação ao então Cardeal Pacelli, futuro Papa Pio XII, de triste memória (alguma semelhança com a viagem do ex-companheiro Mateus, hoje senador Aloysio Nunes Ferreira, despachado aos States logo depois da votação na Câmara?) Ele cumpriu a missão religiosamente, como o Mateus. Porém, Hitler lhe prometera (a Kaas) uma carta com as garantias. Ela nunca foi entregue.

Satisfeitas e satisfeitos? É, mas tem mais…

Porque ainda resta o triste papel do Judiciário. Em primeiro lugar, juízes alemães legalizaram a perseguição aos comunistas porque eram “traidores” incendiários do Reichstag. Depois, fizeram vista grossa para as demais perseguições que vieram. Quando não apoiaram. Deve-se lembrar que quem inaugurou a queima de livros em 10 de maio de 1933, na hoje Bebelplatz, foi o diretor da Faculdade de Direito, ao lado, trazendo uma braçada de livros “degenerados” da sua biblioteca.

Hitler acusou um comunista holandês, Marinus Van der Lubbe, e mais quatro outros militantes búlgaros pelo incêndio, que ocorreu em fevereiro de 1933, alguns dias antes da eleição de março. Eles foram levados a julgamento no segundo semestre de 1933. Lubbe foi réu confesso - sabe-se lá como sua confissão foi obtida, mas pode-se julgar pela declaração em juízo de um dos outros acusados, Georgi Dimitrov, de que passara sete meses acorrentado em sua cela, dia e noite. Bem, a gente pode pensar numa justificativa: naquela época não havia delação premiada… Era pancadaria mesmo. Os outros quatro foram absolvidos por falta de provas, mas Lubbe foi condenado à morte e executado no começo de 1934.

Farsa? Sim, mas o pior vem depois.

Em 1967 um juiz da Alemanha Ocidental, na reabertura do processo promovida pelo irmão do condenado, Jan, “comutou” a pena de van der Lubbe de condenação à morte para 8 anos de prisão (!), quando o réu já estava, bem, digamos, no outro mundo. Em 1980, novo julgamento anulou a decisão de 1933 e de 1967. Mas em 1983 nova decisão anulou a de 1980, a pedido do… Ministério Público (!). O caso só foi resolvido definitivamente em 06 de dezembro de 2007 (!), 71 anos depois da decisão original, quando o equivalente ao nosso Promotor Geral da República proclamou “o perdão" de van der Lubbe, com base em uma lei de 1998 que declarara todas os julgamentos da época do nazismo juridicamente nulos.

Até hoje as alegações de que o incêndio foi provocado pelos próprios nazistas para começar sua série interminável de desmandos nunca foi oficialmente investigada. É um bom exemplo para quem acha que o caso das omissões e vagarosidade do Judiciário brasileiro é algo único na história.

Depois deste exercício de história comparada, que as leitoras e os leitores tirem suas próprias conclusões.


                  
  Extraído de www.cartamaior.com.br