DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

06/07/2020

A uma passante


A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.
Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que luz...e a noite após! -
Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez.
Não mais hei de te ver senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

Charles Baudelaire

26/06/2020

Fazer carreira




Fazer carreira
é sair correndo por fora
- como um ladrão -
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo - subindo ou ao contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?

Armando Freitas Filho, Rio de Janeiro 1940-

20/06/2020




A palavra final

Falo como as plantas.
Digo como as pedras.

Clamo como o réptil
o miasma e o verme.

Quantas vozes tenho
quando estou calado?

Meu silêncio é a voz
vinda do outro lado

Onde a escuridão
dispensa as palavras

a fala espantada
de quem sabe e cala.

Lêdo Ivo - Maceió(AL)- 1924-2012

14/06/2020

De como se deve evitar ser desprezado e odiado


[...] Um dos mais poderosos remédios de que um príncipe pode dispor contra as
conspirações é não ser odiado pela maioria, porque quem conjura sempre pensa
que, com a morte do príncipe, irá satisfazer o povo, mas, quando percebe que
com isso irá ofendê-lo, não se anima a tomar semelhante partido, mesmo porque as dificuldades para os conspiradores são infinitas. [...]
Concluo portanto, que um príncipe deve dar pouca importância às conspirações
se o povo lhe é benévolo; mas quando os cidadãos adversos o odeiam, deve
temer a tudo e a todos. Os Estados bem organizados e os príncipes hábeis procuram com toda a diligência não desesperar os grandes e satisfazer o povo,
conservando-o contente, mesmo porque este é um dos mais importantes assuntos de um príncipe. [...]
Novamente concluo que um príncipe precisa estimar os grandes, mas não se fazer odiado pelo povo.
Nicolau Maquiavel (Florença 1469-1527), trechos de O Príncipe

09/06/2020

SEMPRE





Sempre essa sensação de inquietude
de esperar mais.
Hoje são as borboletas,
amanhã é a tristeza inexplicável,
o tédio ou a atividade desenfreada
de arrumar esse ou aquele quarto,
de costurar, de ir ali ou acolá
cumprir ordens enquanto o tempo
tapar o universo com um dedo.
Fazer minha felicidade com ingredientes
de receita de cozinha,
lambendo os dedos às vezes,
e às vezes sentindo que nunca
poderei me satisfazer;
que sou um barril sem fundo
sabendo que não me conformarei
nunca! Mas buscando absurdamente
me conformar, enquanto meu corpo
e minha mente se abrem, se estendem
com poros infinitos onde se aninha
uma mulher que gostaria de ser
pássaro, mar, estrela, ventre profundo
dando à luz novos universos reluzentes.
E ando estourando pipocas de milho
em meu cérebro, brancos tufinhos
de algodão, rajadas de poemas
que me assaltam o dia inteiro e
me fazem querer inflar como um balão
para ocupar o mundo, a natureza,
para encharcar-me em tudo e estar
em todos os lugares, vivendo uma
em mil vidas diferentes.
No entanto, hei de lembrar que estou aqui
e que continuarei ansiando,
agarrando pitadinhas de claridade,
fazendo eu mesma meu vestido
de sol, de lua, meu vestido verde
da cor do tempo, com o qual
uma vez sonhei viver em Vênus.

Gioconda Belli,  Manágua(Nicarágua)- 1948 

25/05/2020

Prometeu, Friedrich Füger


No jardim dos aflitos os corações pipocam pra fora do peito; as ilusões perdidas encontram-se agora num grande congresso, onde a realidade bate à porta para que todos acordem desse pesadelo que vem assolando o mundo inteiro e a enfrentem.
Um concerto fúnebre entoa uma melodia para que todos bailem numa dança macabra, que remonta a um passado sombrio e assustador.
Os justiceiros de plantão ameaçam: haverá fogo e baionetas em nome da ordem e do poder. Poder para desmantelar, desmontar tudo, torturar e até matar.
Mas, quem já viveu, e sobreviveu, ao tacão de uma ditadura, sabe que o medo tem múltiplas facetas, podendo desencadear reações imprevisíveis.
A lâmina da lucidez é flexível, e quando amolada tem o poder de tornar-se mais afiada e brilhante nos corações e mentes dos seres humanos!  

20/05/2020

À espera dos bárbaros




O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Konstantinos Kaváfis - Alexandria(Egito) 
1863-1933.

15/05/2020

UMA PEQUENINA LUZ, Jorge de Sena - Catarina Guerreiro


Jorge de Sena nasceu em Lisboa, em 1919 e faleceu em 1978 em Santa Bárbara(EUA) 

13/05/2020




Fui para os bosques viver
de boa vontade
para sugar todo o tutano
da vida...
Para aniquilar tudo
o que não era vida
e para, quando morrer
não descobrir que
não vivi!

Henry David Thoreau, Concord(EUA) 1817-1862

01/05/2020

"Todo homem é uma parte..."




Nenhum homem é uma ilha,
inteiramente isolado, todo homem
é uma parte de um continente,
uma parte de um todo.
Se um torrão de terra for levado
pelas águas até o mar, a Europa
ficará diminuída, como se fosse
um promontório, como se fosse
o solar de teus amigos, ou o teu próprio:
a morte de qualquer homem me diminui,
porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntai:
Por quem os sinos dobram.
Eles dobram por ti.

Meditação XVII (1623)
John Donne, Inglaterra, 1572-1631

No man is an island,
entired of itself.
Each is a piece of the continente,
a part of the main.
If a clod be washed away by the sea,
Europe is the less
As well as if a promontory were.
As well as if a manor of thine own
or of thine friend's were.
Each man's death diminushes me,
for Iam involved in man kind.
Therefore, send not to know
for whom the bell tols
It tolls for thee.