DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

20/11/2020

Dia Nacional da Consciência Negra


Pierre Verger




Encontrei minhas origens


Encontrei minhas origens em velhos arquivos... livros

encontrei em malditos objetos troncos e grilhetas

encontrei minhas origens no leste, no mar em imundos tumbeiros

encontrei em doces palavras...

cantos em furiosos tambores...ritos

Encontrei minhas origens na cor de minha pele

nos lanhos de minha alma, em minha gente escura

em meus heróis altivos encontrei

Encontrei-as enfim

me encontrei


Oliveira Silveira, (1941-2009) poeta gaúcho, formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dedicou sua vida à luta contra o racismo; foi o fundador da Associação Negra de Cultura em Porto Alegre, e um batalhador junto ao Congresso Nacional para que o dia 20.11. fosse o Dia Nacional da Consciência Negra. Tem vários livros publicados, entre eles, Banzo, Saudade Negra, Pele Escura, Anotações à Margem.


P.S. : Quero deixar registrado o meu repúdio e a minha indignação diante do crime cometido ontem, contra o cidadão negro João Alberto Silveira Freitas nas dependências do supermercado Carrefour, em Porto Alegre. 

12/11/2020

Do sentimento trágico da vida (trechos)

 Ismael Nery



Há, sem dúvida, algo de tragicamente destrutivo no fundo do amor, tal como se nos apresenta na sua forma animal primitiva, nesse instinto irresistível que leva o macho e a fêmea a confundir as suas entranhas, num estreitamento furioso. Aquilo mesmo que une os corpos, separa sob certos aspectos, as almas; ao abraçarem-se, odeiam-se tanto como se amam, e sobretudo lutam, lutam por um terceiro, que ainda não vive. O amor é uma luta, e há espécies animais em que o macho, ao unir-se com a fêmea, maltrata esta; e outras espécies há em que a fêmea devora o macho logo que este a fecundou.                                                 Tem-se dito que o amor é um egoísmo recíproco. E, de fato, cada um dos dois amantes procura possuir o outro; e se ele procura por este outro, sem nisso pensar, nem propor a sua própria perpetuação, procura portanto, o seu prazer. Cada um dos dois amantes é para o outro, diretamente,, um instrumento de prazer, e indiretamente, de perpetuação. E assim, são tiranos e escravos; cada um deles é ao mesmo tempo, tirano e escravo um do outro.


Miguel de Unamuno, Bilbau (Espanha) - 1864-1900 

04/11/2020

Palavras ao léu

 


Vou selecionar umas palavras para lançá-las ao léu, ao vento, aos crédulos e aos incréus. - Para que? - Para nada, nelhures de pitibilhures, afinal de contas, as palavras podem ser apenas nonadas, ninharias que se acumulam nos ninhos que não são de pássaros, mas que precisam criar asas, voar...Nestes tempos de alta tecnologia tornou-se comum a expressão "viralizou nas redes". Quem surgiu primeiro, os vírus ou as redes? Eis aí uma pergunta de difícil resposta; cá com meus botões, faço apenas algumas suposições, partindo da ideia de que a partir da proliferação das bactérias entre os seres vivos, ocorreu o aparecimento dos vírus. As redes, por sua vez, foram se formando quase que automaticamente para estabelecer conexões ou encadeamentos com esses "indivíduos". O desenvolvimento da tecnologia aconteceu pari passu ao da sociedade, criando as possibilidades para a expansão dos vírus. Tecnologia e pandemia passaram a caminhar de mãos dadas. Hoje o que "cai na rede" já não é apenas peixe, mas também um intricado sistema de (in)comunicação, (des)informação, bem como interligações de computadores para compartilhamentos e intercâmbio de dados. Aquela rede criada pelos índios para pescar ou descansar após seu dia de labuta está em vias de extinção. E as palavras, embora num primeiro momento nos pareçam sem sentido, vão adquirindo novos significados, ampliando seu emprego, voando para outros continentes, quiçá para outras galáxias! 

30/10/2020

Cada uma...!?


 

Até parece um bicho de sete cabeças. E é mesmo. Uma serpente cuja cabeça ao ser cortada se multiplica em várias, simultaneamente. Já que não se sabe qual direção tomar para atingir o alvo desejado, qualquer tentativa serve, não é mesmo? Mas, vender terrenos que estão na lua é desejar o máximo de confinamento para as pessoas. Aparentemente tudo não passa de um engano, mas as cabeças hidrófobas vão se multiplicando, se espalhando sorrateiramente, como quem não quer nada, e querendo. Se colar, colou. Bingo! Constroem-se cortinas de fumaça para embaçar a visão dos desavisados, para desviar a atenção do real objetivo que se deseja alcançar. Estaremos voltando à época da mitologia, ao tempo das cavernas? Peneiras jamais conseguirão tapar a luz do sol. Bicho de sete cabeças, lobisomem, capiroto ou quaisquer outros tipos de avatares sempre serão criados para ludibriar as pessoas. No entanto, mais dia, menos dia, às vezes até séculos podem passar, a história real prevalecerá.

19/10/2020

OLHARES

 



Um dia sementes de ideias brotaram na imaginação para hoje se espalharem em folhas de papel. Meus olhos vislumbraram caminhos até então desconhecidos; mostraram-me pontos obscuros inundados de sombras movediças. Não era noite nem era dia, e tudo era atemporal. Águas jorravam velozes e tenazmente, como cavalos selvagens quando perseguidos. Tateando no escuro abri portas, arrastei-me pelas paredes, mergulhei em pântanos e emergi insone. Rasguei as malhas de uma cortina de renda escura feita de medo e solidão.

Dois olhos - um triste, outro alegre - tentam caminhar juntos; um olho caído e ferido, o outro desdobrando-se atento. Olhares de soslaio a espreitarem pelos cantos, pelas esquinas do rosto. A ampulheta do tempo vai liberando rapidamente uma fina camada de areia: tudo arde e dói, e tudo se torna irremediavelmente seco em volta do olho ferido.

O vento sopra e a malha da renda balança num vaivém de contradições depositadas nesse minúsculo oceano de emoções imprevisíveis. Dois olhos boiam numa bacia de água; flutuam em câmera lenta. Como disse Paul Klee, "um olho vê, o outro sente", e quando um deles não vê, o outro sente ainda mais. Um mergulho no escuro é como mergulhar em si mesmo, se é que me faço entender. Eu mesma ainda estou tentando entender-me. 

08/10/2020

De sabiás e palmeiras

 



Em territórios de cipós e terra seca o chicote come solto o lombo dos desavisados. Em terras de sabiás e juritis, sempre tem um gavião que os carrega pelo bico para o abismo do silêncio.

Em terras onde sabiás ainda cantam em palmeiras, existem homens que têm cara de cavalo e dão coices com esporas. O sertão já foi mar um dia. Estaria se transformando em deserto?

Dizem que "quem canta seus males espanta", mas os cara de cavalo estão devastando as florestas para acabar com o canto dos passarinhos.

29/09/2020

Às escuras




Amanhece. Nada é igual, tudo difere, mas nada mudou. De qualquer forma, aquele galo que cantava ao anunciar a aurora, e mandava nas galinhas, desapareceu por falta de quintais. Já as galinhas, tiveram um aumento exponencial. Nem por isso têm vez ou voz, ao contrário, são geradas em chocadeiras e socadas vinte e quatro horas por dia, ininterruptamente. O galo, aparentemente invisível, não canta mais, só dá ordens aos galinheiros do país.  

22/09/2020

Canção de outono



As pulsações dos violinos outonais

fazem o ser esmorecer sempre iguais.

E todo arfando pálido,

quando soa a hora,

minha alma invade

velha saudade

e após chora.


Se eu assim vago,

vento pressago

me transporta

ao deus-dará

semelhante à

folha morta.


Paul Verlaine, França 1844-1896

13/09/2020

Mãos

Jano, deus do Tempo


as mãos de alguns
(muitos)
estão sujas de sangue
(de) terra lodo lama

 o suor das mãos
do sal que escorre das lágrimas
e se esvai em sangue é o mesmo
que escreve em vermelho
a lixiviação da mente

na lavoura diária
a lama espalha-se
sobre a vida de povos
vulneráveis e indefesos

mãos que torturam
atiram pedras e balas
de borracha e pólvora
mãos lavadas
no lixo da História

05/09/2020

Re[Fluxo de (in)Consciência]




Se jabuti fosse tatu e se a Terra fosse ainda o "paraíso", qual bicho serias tu? Se cobra voasse e fosses um pássaro, em qual tipo de galho pousarias?
Sóssocando o sono para transformá-lo em sonho.
Delírio-delivery. Rio porque é preciso, senão afogo-me nos olhos d'agua do marasmo, asma, almas mortas todas tortas nas ruas, direita, volver! Veremos quão veraz é a veracidade da feroz cidade. Cantar no entanto, é preciso gritar, uivar, urrar, grunhir, zunir;é preciso que chamemos os lobos, os tolos, as gaivotas, os doidos, os animais canibais, mamelucos tupinambás,carajás, caiapós, tupiniquins, guajajaras...Rio, rio, canoa, balsa, barco, rio, rio... Atravessemos cachoeiras, cordilheiras rioabaixo, rioacima, rio, rio naveguemos, porque é urgente urgentíssimo. Jangadas ao mar, à vida, à luta, ao amor, ao sonho! Resistir quem não há de? Não importa se como farsa ou se como tragédia, importa
é que a fome é grande e o que vier  traçamos, para não ter um troço por aí, com uma folha de saudade debaixo do braço, mutatis mutandis, o avesso de tudo é a realidade nua e crua nessa pandêmica panamérica anêmica do sul, que de maravilhosa quase nada tem.
Deixemo-nos ir, precisamos andar, correr, ver o sol;  renascer, sair desse labirinto, desse ziguezague interminável. Deixemo-nos ir aos trancos e troncos e barrancos, aos vômitos. Regurgitando, transbordando tentemos saltar desse navio-fantasma encalhado. Fluxo, refluxo de (in)consciência. Rioriorio, transbordo, gargalho aos borbotões de rosas, de blusas e de calças. Descalça e nua como a lua vista de um alpendre. Não há escolha quando não se tem opção.
 Mas tu, anônimo leitor, não és obrigado a ler o que escrevo, até porque sou um oxímoro, uma ilustre desconhecida. E rio..., como gosto de rir, apesar de tudo!