DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

26/09/2022

"Elevação" (trechos)


 


Feliz aquele que pode com uma asa vigorosa

ir em direção aos campos luminosos e serenos.

Aquele cujos pensamentos são como pássaros

em direção aos céus da manhã para um livre voo.

Quem planar sobre a vida, e compreender sem esforço,

a linguagem das flores e das pequenas coisas.


Charles Baudelaire (1821-1867)

16/09/2022

Numa noite de verão

 



Dois ramos de brócolis para dissimular quem está nu.

Uma mansão de sete portas fechadas a sete chaves, sem teto.

Uma imensa tela de imagens coloridas.

Um barco sem velas, encalhado em alto mar de águas escuras, numa 

tarde também escura.

Nado de cachorro para atravessar a covardia do medo:

Não verás nada igual ou semelhante!

04/09/2022

Dedo mindinho, seu vizinho...




É fino o fio que aprisiona nossas ideias; quando soltas esparramam-se sobre o papel. Os cabelos, quando soltos, despenteiam os pensamentos cheios de nós, "acostumados" a não terem suas próprias ideias. São tramas traçadas desde muito cedo, (dis)torcidas em seu nascedouro.               Fure o bolo, cate o piolho...!

"Dedo mindinho, seu vizinho, fura-bolo, cata-piolho. Cadê o bolo que estava aqui?"  As crianças estão indo para onde? O bolo emborolou, a massa está falida, o bolo é para poucos!

23/08/2022

Imaginem !

 Osvaldo Goeldi



Buscar estrelas no espaço celeste, e ver  apenas um quadro branco no quadrado do quarto. No entanto, nem todo quadro é quadrado assim como um quarto não é a quarta parte da casa, mas um enlatado debaixo de um viaduto qualquer, onde os os pássaros de aço cantam durante a noite inteira. Imaginem! Imaginem um sonho esquartejado num quarto de hora, em um quarto a céu aberto... onde as palavras, minúsculas gotículas que respingam sobre a cabeça ribombam como raios, como se estrelas cadentes fossem, deslocando-se pelo espaço cerebral. Imaginem! Palavras soltas, desgarradas, mas que aos poucos vão se juntando, aglomerando-se umas às outras; uma multidão de estrelas, digo sons, falo de pessoas amontoadas, de um grande cordão de corpos desvalidos, chumbados e boquiabertos. Onde encontrar estrelas? 

13/08/2022

Paradoxos




Azuis eram as linhas por onde passava o trem que ía de Caixa Prego a Lugar Nenhum. Até que um dia tentaram passar uma cortina de ferro sobre os trilhos, e tudo ficou na penumbra. Hoje em dia, quem passa por aquela estação vê que tudo não passou de uma ilusão de ótica: o que não parece é exatamente o que é!                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       

05/08/2022

Ai de ti, Copacabana (trechos)




Ai de ti, Copacabana, porque eu já te fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.

Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia.

Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

Antes de te perder eu agravarei a tua demência - ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus mrros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.

Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!

Rio de Janeiro, 1958


Rubem Braga, Cachoeiro de Itapemirim(ES) - 1913-1990

31/07/2022

É sempre bom lembrar que...




" o tirano nunca ama e nunca é amado. A amizade é um sentimento sagrado, uma coisa santa. Só existe entre pessoas de bem. Nasce da estima mútua e se alimenta não tanto dos benefícios quanto dos bons costumes. O que dá a um amigo a certeza da amizade do outro é o conhecimento de sua integridade. Tem como garantias sua bondade natural, sua fidelidade, sua constância. Não pode haver amizade onde se encontrem a crueldade, a deslealdade, a injustiça. Quando os maus se reúnem há uma conspiração, não uma sociedade. Não se amam, mas se temem. Não são amigos, mas cúmplices. Mas, mesmo que não fosse assim, seria difícil encontrar um amor sincero num tirano, porque, estando acima de todos e não tendo companheiros, já estaria além dos limites da amizade. Esta floresce na igualdade, desenvolve-se sempre igual e nunca pode falhar. É por isso que existe, como dizem, uma espécie de boa-fé entre os ladrões no momento de repartir o butim, porque então todos são iguais e companheiros. Embora não se amem, pelo menos se temem. Não querem, com sua desunião, diminuir sua força. Mas os favoritos de um tirano nunca podem contar com ele, porque aprenderam que pode tudo, que nenhum direito nem dever o obriga, que está acostumado a não ter nenhuma lei além de sua própria vontade, e nenhum companheiro, por ser senhor de todos. Não é lamentável que, com tantos exemplos evidentes, sabendo que o perigo, está tão presente, ninguém queira aprender a lição das misérias de outros e que tantas pessoas se aproximem ainda tão naturalmente dos tiranos? "


Étienne de La Boétie, filósofo, poeta e escritor francês (1530-1563), em " Discurso da servidão voluntária". 

25/07/2022

Do esquecimento

 




Mundus vult decipi, ergo decipiatur!" ou 

"O mundo quer ser enganado, pois que o seja!"


Ai! Ai! O homem não é mais que um sopro de vento; é menos que uma mosca, pois esse inseto, pelo menos, tem certa consistência, enquanto nós não passamos de bolhas d'água. 

[...]

Onde o ouro é todo-poderoso, de que servem as leis?

Se não tem dinheiro, o pobre perde seus direitos.

O cínico, que é tão frugal e severo em público,

secretamente negocia com a verdade.

Até mesmo Têmis se vende e, em seu tribunal,

a balança pende conforme o vil metal.

[...]


O homem nada mais é que um sopro.

E a trama de seus anos é curta e frágil.

O túmulo segue nossos passos; cabe a nós,

sabiamente, usar o prazer para embelezar,

o mais que pudermos, os nossos instantes.


Petrônio ou Caius Petronius Arbiter, (c. 27-66.C.) em Satíricon. De família rica e aristocrática, Petrônio foi governador e conselheiro do imperador romano Nero. Durante o dia dormia e à noite entregava-se aos deveres e aos prazeres. " O ambiente de Petrônio é o das nossas grandes capitais, da nossa "alta sociedade".(Otto Maria Carpeaux).

14/07/2022

Pareça e desapareça




Parece que foi ontem.

Tudo parecia alguma coisa.

O dia parecia noite.

E o vinho parecia rosas.

Até parece mentira,

tudo parecia alguma coisa.

O tempo parecia pouco, e a gente parecia muito.

A dor, sobretudo,

parecia prazer.

Parecer era tudo

que as coisas pareciam fazer.

O próximo, eu mesmo.

Tão fácil ser semelhante,

quando eu tinha um espelho

pra me servir de exemplo.

Mas vide versa e vide a vida.

Nada se parece com nada.

A fita não coincide

com a tragédia encenada.

Parece que foi ontem.

O resto, as próprias coisas contem.


*****


O par que me parece


Pesa dentro de mim

o idioma que não fiz,

aquela língua sem fim

feita de ais e de aquis.

Era uma língua bonita,

música, mais que palavra,

alguma coisa de hitita,

praia do mar de Java.

Um idioma perfeito,

quase não tinha objeto.

Pronomes do caso reto,

nunca acabavam sujeitos.

Tudo era seu múltiplo,

verbo, triplo, prolixo.

Gritos eram os unidos, o resto ia pro lixo.

Dois leos em cada pardo.

Dois saltos em cada pulo,

eu que só via a metade,

silêncio, está tudo duplo.


Paulo Leminski - Curitiba(PR) - 1944-1989.