Esses ladrilhos e essa porta branca; o sutiã pendurado na maçaneta da porta; e esse violão mudo a embalar aquela rede vazia que balança com a força do vento... Parece que tudo acabou.
ATLAS, "O Dono do Mundo" !
O´ Fortuna
Como a lua mutável de fase
sempre cresces ou decresces
Vida detestável, ora oprime
ora alivia como um jogo
a mente humana a pobreza e o poder
dissolve como o gelo
Sorte imensa e vazia
Roda, tu giras
destino hostil vã saúde
sempre dissolúvel
obscura e velada
também a mim atormentas
agora por jogo as costas nuas
entrego à tua maldade
A saúde do corpo e da virtude
agora me são contrárias
o afeto e a fraqueza
sempre nos escravizam
nesta hora sem demora
fazei vibrar as cordas
pois a sorte derruba o forte
Chorai todos comigo.
* Trecho da cantata Carmina Burana, de Carl Orff (Munique, 1895-1982)
Quando os maus se reúnem há uma conspiração, não uma sociedade. Não se amam, mas se temem. Não são amigos, mas cúmplices. Mas, mesmo que não fosse assim, seria difícil encontrar um amor sincero num tirano, porque, estando acima de todos e não tendo companheiros, já está além dos limites da amizade.
Os protegidos de um tirano nunca podem contar com ele porque aprenderam que seu protetor pode tudo, que nenhum dever o obriga, que está acostumado a não ter nenhuma lei além de sua própria vontade e nenhum companheiro, por ser o senhor de todos. Não é lamentável que com tantos exemplos evidentes, sabendo que o perigo está tão presente,, ninguém queira tira a lição das misérias de outros e que tantas pessoas ainda se aproximem naturalmente dos tiranos?
Estes miseráveis veem os tesouros do tirano brilhar; admiram alucinados os raios de sua pompa. Deslumbrados com esse esplendor, aproximam-se dele sem se dar conta que se atiram numa chama que vai consumi-los.
Trechos do Discurso da Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie - Sarlat(França) 1530-1563
Chuvisco chuvisquinho chuvascada chuvarada.... Cântaros quebrados, cânticos silenciados, prantos e quebrantos pelos cantos, pelos pântanos lodosos e escorregadios. Pontas de icebergs cada dia mais pontiagudas e visíveis entre lagos e lagoas. Enquanto isso, os jacarés fingem dormir à beira do lago ao som de tronitruantes trovoadas.
Subiu o morro lentamente sem nenhuma pretensão. Queria simplesmente arrebentar a face do sol só porque ele andava de caso com a lua em plena luz do dia! Mas, de repente caiu um meteoro sobre a terra estilhaçando as vidraças que a protegiam: foram cacos para todos os lados, línguas para fora, corações despedaçados... Quando olhou lá do alto foi que percebeu a pequenez do lugar, a miniaturização das criaturas que ali viviam.
Envolvi-me com pedras; sentei, deitei e rolei com elas. Apalpei-as, senti o seu cheiro, sua transpiração, e sua indiferença à minha presença. Ouvi o ruído do vento, seu farfalhar sobre as folhas, sobre os telhados. O vendaval, feito um torpedo, não se deteve diante dos destroços por ele provocados. Brinquei com pedras, joguei-as para cima e para baixo. De tanto misturar-me transformei-me numa delas. Hoje sou manipulada: jogam-me contra os pássaros, contra os animais, contras as pessoas. Sou pedra fria feita da poeira acumulada através dos tempos. Entretanto, posso tornar-me um rochedo, que enfrenta a brutalidade e a insensatez das marés humanas.
"- Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver a água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.
- Bem; a opinião da bolha...
- Bolha não tem opinião..."
* Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839-1908)em Iaiá Garcia (1889)
algo, um resto,
uma sobra,
luzia da terra,
luzia enterrada
essa migalha,
se do passado
ou futuro
não se sabe,
mas segue-se
dando nomes
luminosos
a façanhas
e ossadas dessa terra,
a brasa
na lama,
a luz
no fundo
da terra,
cava-se
até não restar,
e eis
que aqui
jaz
luzia, osso
ou caroço,
resíduo
ou semente,
não
se sabe
será cálcio
ou caule
num sulco
ou túmulo,
mas ainda
luzia luzia,
a primeira,
a primeira que restou
a última
que sobrou,
seus restos
os primeiros,
os últimos
do solo
que se fez
território
a que um dia
dariam outro nome
luzidio,
brasil, a luzia
que certo
não
sonharia
essa nação
de trapos
e bagaço
e lama
e detritos
e pó
que se chamou
colônia,
império,
república
estado-
nação,
não
sonhou
brasil
nenhum,
quiçá
brasil
seja tão
só
o pesadelo
repetindo-se
no vão
do tempo
dentro
do crânio
de luzia
* Poema de Ricardo Domeneck, poeta e artista visual - Bebedouro(SP) 1977- . Atualmente vive em Berlim (Alemanha),
Lendo e escrevendo sobre um Eu em busca de si mesmo, um Eu povoado de Nós, de Ela, de Eles; um Eu que insiste em não desaparecer sendo impessoal, e que se transforma em palavras. Uma tentativa autoficcional de sobrevivência da escrita. Quantas máscaras, quantos fantasmas, quantos personagens estarão submersos ou disfarçados? Múltiplas identidades podem vir à tona em uma só página em poucas linhas...

Aquele azul atravessou o oceano, caiu no deserto e ávido e impetuoso saltou das órbitas e mergulhou não se sabe onde. À procura de quê?