DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

27/11/2010

O real e seu duplo

" Se o real me incomoda e se desejo livrar-me dele, me desembaraçarei de uma maneira geralmente mais flexível, graças a um modo de recepção do olhar que se situa a meio caminho entre a admissão e a expulsão pura e simples: que não diz sim nem não à coisa percebida, ou melhor, diz a ela ao mesmo tempo sim e não. Sim à coisa percebida, não às consequências que normalmente deveriam resultar dela."
Clément Rosset
Gerard Richter




"O rapaz e o leão pintado" ( fábula de Esopo)


Um ancião timorato tinha um filho único cheio de coragem e apaixonado pela caça: sonhou que este morreria nas garras de um leão. Temendo que o sonho se realizasse, mandou construir um palácio custoso e magnífico para servir de morada ao filho. Para distraí-lo, mandara pintar nas paredes, animais de todo tipo, entre os quais figurava um leão. Mas a visão de todas essas pinturas só fez aumentar o desgosto do rapaz. Um dia, aproximando-se do leão, exclamou: "Fera cruel, foi por sua causa e por causa do sonho mentiroso do meu pai que me trancaram nesta prisão para mulheres." Com estas palavras, bateu com a mão na parede para arrancar o olho do leão. Mas um prego se cravou na sua unha causando-lhe uma dor violenta e uma inflamação que resultou num tumor. A febre que então ardia logo fez com que passasse da vida para a morte. Embora fosse pintado, o leão não deixou de matar o rapaz, para quem o artifício do pai de nada valeu.

25/11/2010

Corpo Urb

"Adão e Eva...!?
Caminhando pelas ruas da cidade os meus cabelos são fios de alta tensão, conduzindo uma energia perfumada que conecta-se às narinas tomadas que levam ao cérebro e processa a imagem flor.
Meu pé aralepípedo calçado no site alfalto pisoteia o que ainda resta da terra batida.
E desvia dos que descalços, ainda pisam na terra batida.
O caos perpassa e se instala em meu ventre. Dentro, entre um órgão e outro ocupa espaço me fazendo arrotar palavrões do caralho, puta que pariu, não aguento mais tudo isso!
Erguida, na copa Eu-máquina bebo do óleo preto que me refaz funcionar de novo.


Mariane Bigio, Olinda-PE, participante do 4º Prêmio Internacional Poesia ao Vídeo, promovido pela Festa Literária Internacional de Pernambuco, ocorrida em Olinda.

24/11/2010

Uma Capa

Pudor, de Antoine Corradine






Uma capa fiz do meu canto
De baixo a cima bordada
de antigas mitologias;
mas tomaram-na os tolos
para exibí-la ao mundo
como se para eles fora lavrada
Deixa, canto, que a tomem
pois maior feito existe
em andar nú


William Butler Yeats, Irlanda (1865-1939)

Tradução de José Agostinho Baptista

23/11/2010

A Visita



Como faço todas as tardes, tomei um banho, botei um vestido bem leve, me maquiei, passei perfume, ajeitei os cabelos com gel, fui até a sala, chamei um taxi, descí no elevador, cumprimentei o porteiro, peguei o taxi; dei a volta no quarteirão, saltei, tornei a cumprimentar o porteiro, subí no elevador, parei em frente à porta e toquei a campaínha.

Ninguém abriu.

Insistí, uma, duas, três, quatro vezes. Nada. Não adianta. Não estou. E fico aqui parada, diante da porta, na dúvida:
deixo um bilhete para mim?


Haiconto de Alice Barreira, Barura(Amapá), extraído de http://cesarcar.blogspot.com/

21/11/2010

Noites do Sertão - que saudades...!

Da mandioca quero a massa e o beijú, do mundéu quero a paca e o tatú;
da mulher, quero o sapato, quero o pé: - quero a paca, quero o tatú, quero o mundéu...
Eu, do pai, quero a mãe, quero a filha: também quero casar na família.
foto: Pedro Martinelli

Quero o galo, quero a galinha do terreiro,
quero o menino da capanga do dinheiro...


foto: ribeiraopequeno.com.br


Quero o boi, quero o chifre,
quero o guampo do cumbuco, do balaio, quero o tampo.
Quero a pimenta, quero o caldo, quero o molho
- eu, do guampo quero o chifre, quero o boi.
Qu'é dele, o doido, qu'é dele, o maluco?
Eu quero o tampo do balaio, do cumbuco...
João Guimarães Rosa

Música Popular Brasileira das boas!

20/11/2010

20 de Novembro - Dia da Consciência Negra!

Carla Peairo - Angola




Neste dia em que relembramos o dia do assassinato do líder negro ZUMBÍ DOS PALMARES, ocorrido em 1695, quero deixar registrado o meu abraço fraterno e solidário a todos os negros do Brasil e do continente africano, que ainda hoje são vítimas do preconceito de cor e da discriminação social e econômica. Embora tenha havido avanços no sentido de acabar com tudo isso, ainda temos muito a caminhar...

17/11/2010

As coisas

Portrait Robo, de Mozart-Arman


A bengala, as moedas, o chaveiro, a dócil fechadura,
as tardias notas que não lerão os poucos dias
que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
violeta, monumento de uma tarde
sem dúvida inesquecível e já esquecida.
O rubro espelho ocidental em que arde
uma ilusória aurora. Quantas coisas,
limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
nos servem como tácitos escravos,
cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
nunca saberão que já nos fomos.




Jorge Luís Borges (1899-1986)

16/11/2010

Permanência

foto: trekeart






Minha pele não vê
a superfície da luz oculta
e o tato toca o corpo
sem sentir
o tom das tuas mãos.


Meu nariz não respira
o cair da tua presença
como sombra de meus passos
nem o olfato fala
teu cheiro de flores do campo.


Meus olhos não degustam
a grama da cama macia
e o paladar mastiga os lábios
sem engolir o gosto
dos beijos de açúcar.


Mas a pele, o nariz, os olhos em meu coração, poesia.


Dilson Lages Monteiro, Barras de Marataoã-PI

14/11/2010

O gramático arrependido

Jerusalém




Havia na cidade de Sijistán um senhor que estudava gramática. Certo dia, ele disse ao filho:
- Sempre que você quiser falar alguma coisa, consulte sempre a sua inteligência, pense a respeito com muito cuidado a fim de retificar a frase e somente então pronuncie as palavras, corretas e muito bem medidas.
Então, certo dia de inverno, enquanto ambos estavam sentados juntos diante de uma fogueira crepitante, uma brasa caiu no manto de seda com o qual o pai se cobria; ele estava distraído, mas o filho, que viu o ocorrido, calou-se por alguns instantes, pensativo, e depois disse:
- Papai, quero dizer uma coisa, o senhor me autoriza?
O pai respondeu:
- Se for verdade, fale.
O filho disse:
- Creio que seja verdade.
O pai disse:
- Fale.
O menino disse:
- Vejo algo vermelho.
O pai perguntou:
- O que é?
O menino respondeu:
- Uma brasa que caiu em seu manto!
Então o pai olhou para o manto, do qual uma parte já se queimara. Perguntou ao filho:
- E por que não me falou depressa?
O menino respondeu:
- Refletí a respeito como o senhor ordenou, em seguida retifiquei as palavras, e só então as pronunciei!
O pai jurou solenemente que nunca mais falaria sobre gramática.



Extraído de Histórias para ler sem pressa, escolhidas e traduzidas do árabe por Mamede Mustafa Jarouche, que obteve o Prêmio Jabuti pela tradução de "As mil e uma noites", diretamente do árabe para português.