DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

29/09/2011

Fecundação

Foto: Henri Cartier-Bresson

Teus olhos me olham

longamente

imperiosamente

De dentro deles teu amor me espera.

Teus olhos me olham numa tortura

de alma que quer ser corpo,

de criação que anseia ser criatura.

Tua mão contém a minha

de momento a momento;

é uma ave aflita

meu pensamento

na tua mão.

Nada me dizes,

porém entra-me a carne

a persuasão de que teus dedos

criam raízes

na minha mão.

Teu olhar abre os braços,

de longe,

à forma inquieta de meu ser,

abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar

penetrações supremas

e sinto, por sentí-lo, tal prazer,

há nos meus poros tal palpitação,

que me vem a ilusão

de que se vai abrir

todo o meu corpo

em poemas.


Gilka Machado, (1893-1980) escrevia poemas eróticos e sensuais desafiando a sociedade moralista e conservadora da época, despertando críticas ferrenhas até dos círculos intelectuais, notadamente dos modernistas, como Mário de Andrade, que chegou a chamá-la de "escandalosa" (!?). Apesar de ser polemizada tornou-se bastante popular e produziu uma extensa obra poética colocando a mulher numa posição ativa em meio ao universo machista da época. São dela Cristais Partidos (1915), Poesias (1915), Estados de Alma (1917), Meu glorioso pecado (1918), Mulher Nua (1922), entre outros.

27/09/2011

A natureza distribuída do pensamento



Sir Charles Sherrington (Londres, 1859-1952) foi um dos primeiros neurocientistas a reconhecer a natureza distribuída do pensamento ao demonstrar que funções neurológicas básicas, como os arcos reflexos espinhais, dependem da cooperação contínua de múltiplas estruturas periféricas e centrais. Ao definir que essa colaboração entre estruturas neurais caractrizava um sistema integrado, ele ajudou a lançar a área de pesquisa conhecida como neurociência de sistemas. Curiosamente, apesar da magnitude impressionante de seu trabalho experimental, Sherrington também se dedicava à literatura, como forma de expressar suas teorias sobre a mente humana. No livro O homem em sua natureza, ele usou de uma prosa quase poética para descrever sua intuição sobre o funcionamento íntimo do cérebro:

"O cérebro está acordando e com ele a mente retorna. Como se toda a Via Láctea entrasse, subitamente, numa dança cósmica, a massa de tecido neural se transforma num tear encantado no qual milhões de lançadeiras tecem, instantaneamente, um padrão etéreo, um padrão sempre cheio de significado, mas nunca definitivo; uma harmonia de padrões, sempre em fluxo."

Em Muito além do nosso eu, de Miguel Nicolelis, nascido em São Paulo, formado em medicina e doutorado pela Universidade de São Paulo. Atualmente

está à frente de um grande laboratório na Universidade de Duke (EUA).

25/09/2011

Não sou eu que gosto de nascer...


A loucura, longe de ser uma anomalia, é uma condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela, e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela, e ela ser pequena, é ser desiludido. Ter consciência dela, e ela ser grande, é ser gênio.


Fernando Pessoa


É dito: pelo chão você não pode ficar,


porque lugar de cabeça é na cabeça.


Lugar de corpo é no corpo.


Pelas paredes voê também não pode.


Pelas camas também você não vai poder ficar.


Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar,


porque lugar da cabeça é na cabeça.


Lugar de corpo é no corpo.


*****


Não sou eu que gosto de nascer


Eles que me botam para nascer todo dia


E sempre que eu morro me resuscitam


Me encarnam me desencarnam me reencarnam.


Me formam em menos de um segundo.


Se eu sumir desaparecer eles me procuram


onde eu estiver...


Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto


Ou pra cabeça deles e pro corpo deles.



*****


Eu sobreviví do nada, do nada.


Eu não existia.


Não tinha uma existência


Não tinha uma matéria.


Comecei existir com quinhentos milhões


e quinhentos mil anos.


Logo de uma vez, já velha.


Eu não nascí criança, nascí já velha


Depois é que eu virei criança.


E agora continuei velha,


Me transformei novamente numa velha.


Voltei ao que eu era, uma velha.


*****


Não deu tempo.


Eu estava tomando claridade e luz


Quando a luz apagou


A claridade apagou


Tudo ficou nas trevas


Na madrugada mundial


Sem luz.


Não trabalho com a inteligência


Nem com o pensamento


Mas também não uso a ignorância.



Stela do Patrocínio, era uma das internas da Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, no bairro da Taquara, em Jacarepaguá(RJ). Nasceu em 1941 e a partir de 1962 alí passou sua vida até falecer em 1977. Deixou um livro publicado Reino dos dos bichos e dos animais é o meu nome, que chegou a concorrer ao Prêmio Jabutí, em 2002, ficando como finalista.

22/09/2011

Uma "caçoada" de Mário de Andrade





"Prazeres e dores prendem a alma no corpo como um prego. Tornam-na corporal. Consequentemente é impossível para ela chegar pura nos infernos."

( Platão - 427 a.C - 347 a.C.)




Meu corpo profundo ante a manhã Sol

A vida carnaval...

Amigos

Amores

Risadas

Os piás imigrantes me rodeiam pedindo retratinhos

de artistas de cinema,

desses que vêm nos maços de cigarros.

Me sinto a Assunção de Murillo!

Já estou livre da dor...

Mas todo vibro da alegria de viver.

Eis porque minha alma é impura.


Após escrever esse poema Mário de Andrade teria sido vítima de pilhérias, e para "caçoar" dos que o criticaram, escreveu então esse outro a partir da epígrafe de Platão (acima)


PLATÃO

Platão! Por te seguir como eu quisera

Da alegria e da dor me libertando

Ser puro, igual aos deuses que a Quimera

Andou além da vida arquitetando!

Mas como não gozar alegre quando

Brilha esta alva manhã de primavera

- Mulher sensual que junto a mim passando

Meu desejo de gozos exaspera!

A vida é bela! Inúteis as teorias!

Mil vezes a nudeza em que resplendo

A clâmide da ciência, austera e calma!

E caminho entre aromas e harmonias

Amaldiçoando os sábios, bendizendo

A divina impureza de minha alma.


Mário de Andrade, São Paulo(SP) - 1893-1945

21/09/2011

Das árvores, poema




As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco

se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,

e deles nascem folhas, e as folhas, multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,

e então crescem as flores, e as flores produzem frutos

e os frutos dão sementes,

e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.

Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.

Sós.

De dia e de noite.

Sempre sós.


Os animais são outra coisa.

Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,

fazem amor e ódio, e vão à vida

como se nada fossem.


As árvores não.

Solitárias, as árvores,

exauram a terra e o sol silenciosamente.

Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;

com o vento soltam ais como se suspirassem;

e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.

Nas planícies, nos montes, nas florestas,

a crescer e a florir sem consciência.


Virtude vegetal viver a sós

e entretanto dar flores.


Antonio Gedeão (Rômulo Vasco da Gama de Carvalho)

Lisboa - 1906-1977

20/09/2011

A origem do mundo...!?



A versão feminina para a origem da vida

Um dia, no jardim do Éden, Eva disse a Deus:
- Deus, tenho um problema!
- Qual é o teu problema, Eva?
- Deus, sei que me criaste e me deste este maravilhoso jardim e todos estes
maravilhosos animais e esta serpente tão graciosa, mas... não sou feliz.
- Porquê, Eva? - disse a voz lá de cima.
- Deus, estou sozinha e não aguento comer mais maçãs.
- Bem, Eva, nesse caso, tenho uma solução. Criarei um homem para ti...
- O que é um homem, Deus?
- Um homem será uma criatura defeituosa, com muitos atributos negativos.
Mentiroso, arrogante, vaidoso; em resumo, fará da tua vida um inferno. Mas será maior, mais rápido, e vai caçar e matar animais para ti, porém, para que não te queixes, criá-lo-ei com o objetivo de satisfazer as tuas necessidades físicas. Será patético e sentirá prazer em coisas infantis, como lutar e dar
pontapés numa bola. Não será muito inteligente e vai precisar do teu conselho
para pensar adequadamente.
- Parece ótimo - disse Eva com um sorriso irônico.
- Porém...
- Qual é o problema, Deus?
- Bem... irás tê-lo com uma condição.
- Qual, meu Deus?
- Como te disse, será orgulhoso, arrogante e egocêntrico... Assim terás
que deixar que ele acredite que eu o fiz primeiro.

OBS: recebí essa "anedota" por e-mail. Não sei qual o sexo de quem fez a versão !

18/09/2011

Um poema de ÂNGELO DE LIMA



Para-me de repente o pensamento.

Como que de repente refreado

Na doida correria em que levado

Ía em busca da paz, do esquecimento...

Para surpreso, escrutador atento,

Como para um cavalo alucinado

Ante um abismo súbito rasgado.

Para e fica e demora-se um momento.

Para e fica na doida correria...

Para à beira do abismo e se demora

E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora...

Mas a espora da dor seu flanco estria

E ele galga e prossegue sob a espora.

Após dois anos de sua sua participação na revolução republicana de Portugal em 1891, Ângelo de Lima (Porto, 1872 - Lisboa, 1921) ficou internado no Hospital Psiquiátrico Conde Ferreira, na cidade do Porto, durante quatro anos. Após outros dois anos foi internado novamente, dessa vez em Lisboa, permanecendo no manicômio até a sua morte.



15/09/2011

Por um novo olhar sobre a obra de Arthur Bispo do Rosário

Uma apresentação de Bispo do Rosário









"Vaso sanitário"






"Roda da fortuna"












Arthur Bispo do Rosário nasceu em Japaratuba(SE), em 1909 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1989. Considerado louco por alguns e gênio por outros, era descendente de escravos africanos. Trabalhou durante algum tempo na marinha e posteriormente como empregado doméstico de uma tradicional família carioca, de onde saiu uma noite dizendo ir apresentar-se na Igreja da Candelária. Para lá não mais voltou, acabando por ser detido e fichado pela polícia como negro, sem documentos, e conduzido ao Hospício Pedro II (onde também foi internado Lima Barreto). Dalí foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, sob o dignóstico de "esquisofrênico-paranóide", permanecendo naquela instituição por mais de 50 anos, onde aliás, veio a falecer. Sua obra é constituída de 804 peças todas a partir de objetos que usava no seu dia-a-dia ou que encontrava na própria Colônia, ou ganhava de outros internos. São canecas, chapéus, peças musicais, de arquitetura, pandeiros, roda de bicicleta e até um batedor de ovos. Não têm data nem assinatura. Seu trabalho já participou da 46ª Bienal de Veneza, possui trabalhos expostos em Valência (Espanha) e a partir desse mês de setembro ganhará uma exposição individual em Lyon (França) e em Bruxelas (Bélgica).

Já foi comparado a Marcel Duchamp e a Van Gogh. Extraí um trecho de um artigo escrito por Alfredo Braga, em 2001, porque achei bastante interessante e elucidativo:

"Machado de Assis, o Shakespeare dos Trópicos.

Portinari, o Picasso de Brodovski.

Flávio de Carvalho, o Francis Picabia brasileiro.

Bispo do Rosário, o nosso Van Gogh.

É admirável que esse triste mecanismo de justificação da vida e da obra dos artistas nacionais, ainda pretenda ser uma forma de Elogio.
Mais do que uma aproximação razoável, percebe-se nesse provinciano jogo, um aflito gesto de compensação; e essas disparatadas comparações fazem parte do nosso dia-a-dia; haja vista para algumas longas elucubrações sobre arte e artistas, em cadernos especiais de jornais e revistas, e em certas monografias e teses universitárias.
Por outro lado, há alguns anos tenho reparado que quando algum crítico, historiador, ou "curador", vem falar de Arthur Bispo do Rosário, en passant, como quem não quer nada, inclui, sempre de viés, e sem se comprometer, alguma alusão à obra de Marcel Duchamp, mas nunca afirma ou nega coisa alguma.
É claro que a simples justaposição das fotografias da Roda da Fortuna, de Bispo do Rosário, e da Roda de Bicicleta, de Marcel Duchamp, não autoriza ninguém a teorizar sobre semelhanças, nem sobre coincidências significativas, ou arquétipos, ou inconsciente coletivo. Mas, talvez nas enormes distâncias entre esses dois artistas é que repouse uma esquisita proximidade que vai provocar, naqueles eruditos, o susto, e disparar o paralisante pudor acadêmico1.
É cada vez mais evidente que os temas, ou os assuntos das obras desses dois artistas, são os mesmos, como os Moinhos e os Trituradores, e mesmo quando os títulos aparentemente as afastam, a forma, ou o formato das obras, volta a aproximá-las; por exemplo: os Moldes Málicos, de Duchamp, e As Faixas e Cetros em Homenagem às Misses, ou os O.R.F.A., de Bispo do Rosário, ou A Noiva Despida pelos Seus Celibatários, mesmo, ou A Cama de Romeu e Julieta.
Mas, de um outro modo, e como razoável explicação das exageradas coincidências, e dos temas e procedimentos recorrentes em ambos os artistas, o Prof. Luis Camilo Ozório2, neste caso, descrendo da possibilidade de uma matriz, ou fonte comum, como, por exemplo, a do inconsciente coletivo à maneira de Jung, ponderou que Arthur Bispo do Rosário apenas teria folheado alguma reportagem sobre Marcel Duchamp em revistas da época, e se impressionado, a ponto de incorporar aqueles motivos e posturas artísticas à sua obra em processo.
Agora já não é importante amealhar argumentos para sustentar uma ou outra hipótese: ambas são absolutamente prováveis, e apenas o prazer da polêmica faria pender para este ou para aquele lado a orientação dos raciocínios. Então, uma comparação entre os dois artistas não postula a justificação de Arthur Bispo do Rosário, mas procura outra compreensão não contaminada por simplificações decorrentes da sua condição de interno em um hospício para alienados; naquela época e naquela cidade, outras pessoas eventualmente estressadas por qualquer circunstância, naquelas condições socioeconômicas, estariam sujeitas ao mesmo diagnóstico e tratamento, mas dificilmente nos proporcionariam semelhante produção artística.
Arthur Bispo do Rosário não é "o nosso Duchamp" e muito menos "o nosso Van Gogh", mas olhando com atenção para a obra de Duchamp, vamos compreender melhor a de Bispo do Rosário, pois, apesar dos sotaques, ambos conversam no mesmo registro, falam do mesmo modo e dos mesmos assuntos.
A diferença de importância ou de qualidade entre as duas obras, só está na enorme diferença com que cada uma foi abordada e estudada.[...]"

13/09/2011

Tenho que falar...




Tenho que falar, não tendo nada a dizer, nada a não ser a palavra dos outros. Não sabendo falar, não querendo falar, tenho que falar. Ninguém me obriga a isso, não há ninguém, é um acidente, é um fato. Nada poderá jamais me dispensar disso, não há nada, nada a descobrir, nada que diminua o que falta dizer, tenho o mar a beber, então há um mar. Não ter sido bobo, é isso que terei tido de melhor, feito de melhor, ter sido bobo, querendo não ser, acreditando não ser, sabendo que era, não sendo bobo de não ser bobo. Pois uma coisa qualquer, isso não funciona, devia funcionar, mas não. É um suplício intricado, impossível de entender, de limitar, de sentir, de suportar, sim, insuportável também, sofro mal também, até isso também faço mal, como uma velha perua morrendo em pé, o dorso carregado de pintinhos, espreitada pelos ratos. Depressa a sequência. Nada de gritos sobretudo, urbanidade, saber morrer, enquanto os outros se divertem, ouço-os daqui, isso estala como espinhos, não, é impossível, sou eu que urro, longe, por trás da minha dissertação. Então nada de uma coisa qualquer. [...]


Samuel Beckett, em O inominável

11/09/2011

Poema para as Mãos Esquerda e Direita



A mão esquerda sente a água passar

A direita amarra nós

A direita dá pontos numa costura

A esquerda desliza na seda

A direita come

A esquerda escuta debaixo da mesa

A direita jura

A esquerda usa os anéis

A direita ganha, a esquerda perde

A esquerda segura as cartas

A esquerda toca acordes enquanto a direita

corre, corre para cima e para baixo

e quando a direita não pode dormir

e dá a volta ao mundo

em luta contra o tempo

a esquerda fica enterrada

Ah, mão esquerda, você é tão

tranquila

Você tem filhos, cachorro, amantes,

dívidas

É a direita que compra as guloseimas

muda a marcha

corre atrás de cargos elevados

põe na boca do bebê uma

colherzinha de prata

É a direita que segura a faca

para reduzir a pedacinhos a mão

esquerda

A mão esquerda serve

um cão cego

segurando em sua boca

a luva da mão direita

A faca baixa, retine

Na mão esquerda

é a única chance da direita


Marilyn Thompson, em Athlantic Monthly, 1975 - Desenhando com o

artista interior, de Betty Edwards.