DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

31/12/2011

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

29/12/2011

Mar adentro....


Mar adentro, mar adentro
Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
'más adentro', 'más adentro'.
hasta el más allá del todo
por la sangre
y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.


Ramón Sampedro, Galícia (Espanha) - (1943-1998), no filme Mar adentro, 2004 - direção de Alejandro Amenábar.


Mar adentro, mar adentro

e nesse fundo onde não há mais peso,

onde se realizam os sonhos,

se juntam as vontades

para cumprir um desejo.


Um beijo acende a vida

com um relâmpago e um trovão,

e em uma metamorfose

meu corpo já não é mais meu corpo,

é como penetrar o centro do universo


O abraço mais pueril

e o mais puro dos beijos,

até vermo-nos reduzidos

a um único desejo:

seu olhar e meu olhar

como um eco se repetindo, sem palavras:

mais adentro, mais adentro,

até mais além de todo o resto

pelo sangue e pelos ossos


Mas desperto sempre

e sempre quero estar morto

para seguir com minha boca

enredada em teus cabelos.

27/12/2011

3 poemas de Antonio Brasileiro


ANOTAÇÕES DO IMEMORIADO

A consciência, fiapo de quê,

no mar da alma?


(E o ter que contar os meus segredos,

que eu mesmo guardei

e esqueci.)


O SIM & OUTROS ACHAQUES

A vida inteira anulada

por falta de outros desígnios,



eis que voltamos ao parque

onde os homens se congregam:


ninguém jamais sabe ao certo

onde o sim das grandes aves,


singramos por mares mansos

que julgáramos esquecidos —


mas eis que a vida se perde

por falta de outros desígnios.


Ou não se perde: é só isto.


NUANÇA


Meus caminhos, meus mapas,

meus caminhos.


Tudo está em ordem

em minha vida.


Como se faltasse

alguma coisa.




Antonio Brasileiro, é um poeta e artista plástico, nascido em Matas do Orobó(BA), atualmente reside em Feira de Santana (BA).

25/12/2011

Pequena elegia chamada domingo


O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O Domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Eugênio de Andrade, «As Mãos e os Frutos» em Poesia, Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed.

23/12/2011

Para um caderninho de Natal !!


Uma adolescente a quem desoriento em aulas de Português vem me pedir algumas palavras sobre o Natal. Diante de meu engasgo, ela me diz que
qualquer coisa serve, e sinto que ela pensa em acrescentar, "qualquer coisa, até mesmo o que o senhor me diga". E para não lhe dizer que procure outra pessoa
mais qualificada, começo:
"O Natal é uma festa comercial, minha filha. É a data magna da hipocrisia universal. Nesse dia as pessoas dizem se amar. No Natal, as autoridades, os que
têm boa vida divulgam e querem fazer crer que as diferenças acabaram entre
os homens. Os ricos de bens materiais ficam subitamente espirituais e com o
estômago repleto arrotam que a melhor salvação é a da alma.( penso, enquanto lhe falo, na Pequena vendedora de fósforos, de Andersen, mas minhas palavras
não conseguem a força dessa claridão). No entanto, você sabe, os ricos
continuam humanos em suas mansões e os pobres continuam porcos em seus
casebres, no mesmo dia 25. No outro dia, você sabe...(E penso nos Estranhos frutos, de Billie Holiday, mas minhas palavras não se iluminam com essa luz de negros enforcados em árvores, no sul dos Estados Unidos)
O Natal, minha filha..."
E paro. O seu rosto reflete o desagrado de minhas palavras. Quem ensina a adolescentes aprende a ler nos seus olhos, nas suas bocas, o agrado ou a decepção do que pensa ensinar. Agora enquanto escrevo, percebo que é uma vitória da sociedade de classes a crença em boas famílias, em belos pais, em generosos sentimentos, essa coisa resistente até mesmo em pessoas que só conheceram da vida a humilhação, a patada e os coices.
A jovem com quem falo é uma adolescente pobre, filha natural, com somente esse adjetivo óbvio da natureza, nada mais.Como um fruto da partenogênese. À primeira vista, ela possuiria todas as condições para entender o que lhe digo.
Mas o seu rosto me faz parar. Sinto o grande mal que lhe causo em procurar
ser verdadeiro numa data em que todos pedem e esperam e anseiam que sejamos todos absolutamente falsos.
Talvez, reconsidero agora ao escrever, o seu desagrado se dê porque sou
apenas convencional, comum, de um esquerdismo vulgar, quando queria
ser verdadeiro como o leite que chupei em minha própria mãe. E convencional por convencional, melhor seria que eu escrevesse no seu caderninho uma frase do gênero "sejamos durante todo o ano como neste dezembro 25".


{.....}


Urariano Mota, jornalista e escritor, autor de Os corações futuristas.

21/12/2011

El hombre imaginario






El hombre imaginario
vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario

De los muros que son imaginarios
penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios

Todas las tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios.

Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario.

Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar
el corazón del hombre imaginario.

Nicanor Parra, Chile, ( 1914- )

19/12/2011

"Los hijos del limo"

"Ophelia", John Everett MillaisViver no agora é viver cara a cara com a morte.

O homem inventou as eternidades e o futuro para escapar da morte, porém cada um desses inventos foi uma armadilha mortal. O agora nos reconcilia com nossa realidade: somos mortais. Só diante da morte nossa vida é realmente vida. No agora nossa morte não está separada da nossa vida: são a mesma realidade, o mesmo fruto.


Octavio Paz, México. - 1914-1998

17/12/2011

ADEUS, CESÁRIA ÉVORA! - Cabo Verde - 1941-2011

Entre o que vejo e o que digo...

Michel Eastman




A Roman Jakobson
1

Entre o que vejo e o que digo,
entre o que digo e o que calo,
entre o que calo e o que sonho,
entre o que sonho e o que esqueço,
a poesia.

Desliza
entre o sim e o não:
diz
o que calo,
cala
o que digo,
sonha
o que esqueço.

Não é um dizer:
é um fazer.
É um fazer
que é um dizer.

A poesia
se diz e se ouve:
é real.
E, apenas digo
é real,
se dissipa.
Será assim mais real?

2

Idéia palpável,
palavra
impalpável:
a poesia
vai e vem
entre o que é
e o que não é.
Tece reflexos
e os destece.

A poesia
semeia olhos na página,
semeia palavras nos olhos.

Os olhos falam,
as palavras olham,
os olhares pensam.

Ouvir
os pensamentos,
ver
o que dizemos,
tocar
o corpo da idéia.
Os olhos
se fecham,
as palavras se abrem.



Octavio Paz, México - 1922-1998 - Tradução:Anderson Braga Horta

15/12/2011

Os lados




Há um lado bom em mim.
O morto não é responsável
Nem o rumor de um jasmim.
Há um lado mau em mim,
Cordial como um costureiro,
Tocado de afetações delicadíssimas.

Há um lado triste em mim.
Em campo de palavra, folha branca.

Bois insolúveis, metafóricos, tartamudos,
Sois em mim o lado irreal.

Há um lado em mim que é mudo.
Costumo chegar sobraçando florilégios,
Visitando os frades, com saudades do colégio.

Um lado vulgar em mim,
Dispensando-me incessante de um cortejo.
Um lado lírico também:

Abelhas desordenadas de meu beijo;
Sei usar com delicadez um telefone,
Nâo me esqueço de mandar rosas a ninguém.

Um animal em mim,
Na solidão, cão,
No circo, urso estúpido, leão,
Em casa, homem, cavalo...

Há um lado lógico, certo, irreprimível, vazio
Como um discurso,
Um lado frágil, verde-úmido.
Há um lado comercNegritoial em mim,
Moeda falsa do que sou perante o mundo.

Há um lado em mim que está sempre no bar,
Bebendo sem parar.

Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.



Paulo Mendes Campos, Belo Horizonte(MG) - 1922-1991