DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

26/10/2023

William Shakespeare em Macbeth (trechos) *

 



"Esta terna estrutura, a terra, me parece que se tornou uma estéril excrecência e a excelsa abóbada celeste, o firmamento solidamente suspenso sobre nós, majestoso teto marchetado de ouro flamejante, surge  como uma mistura explosiva de vapores perniciosos".


" Os que dormem, e os que já estão mortos, não passam de pinturas.É tão  somente o olhar de uma criança que se amedronta diante de um diabo desenhado."


" E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco - faz isso por uma hora e, depois não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado".


William Shakespeare (1564-1616) nasceu e morreu em Stratford, Inglaterra. Começou a escrever poemas desde cedo, até tornar-se um dos mais consagrados dramaturgos do seu tempo. Além de Macbeth escreveu inúmeras peças, entre as quais: Hamlet, Rei Lear, Otelo, A tempestade, Romeu e Julieta. Macbeth foi escrita entre 1605 e 1606.

24/09/2023

Dos secretários que os príncipes têm junto de si *

 




Não é de pouca importância para um príncipe a escolha dos ministros, os quais são bons ou não, segundo a prudência do governante. E a primeira conjectura a se fazer da inteligência de um senhor resulta da observação dos homens que o cercam; quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputá-lo sábio, porque soube reconhecê-los competentes e conservá-los. Mas quando não são assim, sempre se faz mau juízo do príncipe, porque o primeiro erro dele reside nessa escolha. [...] E porque são de três espécies as inteligências - uma que entende as coisas por si; outra que discerne o que os outros entendem; e a terceira que não entende nem por si, nem por intermédio dos outros, sendo a primeira excelente, a segunda muito boa e a terceira inútil, - estavam todos acordes que, se o príncipe não se classificava no primeiro grau, estava, necessariamente, no segundo. Porque, toda vez que alguém tem a capacidade de conhecer o bem e o na fala ou no ato de uma pessoa, mesmo que por si não consiga solucionar os problemas, discerne as más e as boas obras do ministro, exalta estas e corrige aquelas; e o ministro não pode enganá-lo, e então se conserva bom.

Mas, para que um príncipe conheça o ministro, existe um método infalível. Quando vires o ministro pensar mais em si do que em ti, e que em todas as ações procura o interesse próprio, podes concluir que jamais será um bom ministro, e nele nunca poderás confiar; aquele que tem o Estado de outrem em suas mãos não deve pensar nunca em si, mas sempre no príncipe, e não recordar nunca algo que não seja da sua competência. Por outro lado, o príncipe, para conservá-lo bom ministro, pense nele, honre-o, faça-o rico, vinculando-o a sua pessoa, fazendo-o participar das honrarias e cargos, a fim de que veja não poder ficar sem a proteção principesca; mas que as muitas honras não o façam desejar mais honras, as muitas riquezas não façam desejar maiores riquezas, e os muitos cargos o façam temer as mudanças. Pois, quando os ministros e o príncipe relacionam-se assim preparados, podem confiar um no outro; do contrário, o fim será sempre danoso, para um para o outro.


Extraído de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, Florença(Itália) - 1469-1527 - Diplomata, poeta, historiador e músico. 

03/09/2023

"Mensagem"

 

Os deuses vendem quando dão.

Compra-se a glória com desgraça.

Ai dos felizes, porque são

só o que passa!


Baste a quem baste o que lhe basta

O bastante de lhe bastar!

A vida é breve, a alma é vasta.

Ter é tardar.


Foi com desgraça e com vileza

que Deus ao Cristo definiu:

assim o opôs à Natureza

e o Filho o ungiu.



Fernando Pessoa

07/08/2023

"Conversas por escrito" *

 


Agora a nossa realidade se desmorona. Despencam-se deuses, valores, paredes...Estamos entre ruínas. A nós, poetas destes tempos, cabe falar dos morcegos que voam por dentro dessas ruínas.. Dos restos humanos fazendo discursos sozinhos nas ruas. A nós, cabe falar do lixo sobrado e dos rios podres que correm por dentro de nós e das casas. Aos poetas do futuro caberá a reconstrução - se houver reconstrução. Porém, a nós,  a nós sem dúvida - resta falar dos fragmentos, do homem fragmentado que, perdendo suas crenças, perdeu sua unidade interior. É dever dos poetas de hoje falar de tudo que sobrou das ruínas - e está cego. Cego e torto e nutrido de cinzas. (...) E se alguma alteração tem sofrido a minha poesia, é a de tornar-se em cada livro, mais fragmentária. Mais obtida por escombros. Sendo assim, cada vez mais, o aproveitamdento de materiais e passarinhos de uma demolição.



* Trecho de uma entrevista que Manoel de Barros (Corumbá-MS, 1916-2014) concedeu à revista Grifo - 1970-1980.

01/08/2023

Aporias

 


Lembrança e esquecimento; amor e ódio; vida e morte.

Uma cabeça cheia de vazios, de pontos interrompidos, de sonhos 

revelados, lembranças esfumaçadas, pesadelos que se tornam reais. 

Pancadarias, violência, espancamentos até a morte, perversidade, 

racismo, xenofobia. Pandora escancara a porta da sua caixa. É o

salve-se quem puder. Até quando?

Carrega-se um fardo ancestral que supõe-se amá-lo.

Quedas e tombos superam o levantar-se. Tanto mar, tanto amor, e

quantas ilhas de ódio a dividir continentes humanos!

22/07/2023

O voo de Minerva


 


"A ave de Minerva só levanta voo ao entardecer. Quando a Filosofia chega, com sua luz crepuscular, a um mundo que declina, é porque alguma manifestação de vida está prestes a desaparecer. Não vem a Filosofia para renová-la, mas para reconhecê-la. A coruja Minerva alça voo com o início do crepúsculo."


Georg Wilhelm Friedrich Hegel, filósofo. Stuttgart, Alemanha (1770-1831) Autor de  Fenomenologia do Espírito, considerada um marco na filosofia de todos os tempos.

09/07/2023

Relógio *



As coisas são

As coisas vêm

As coisas vão

As coisas

Vão e vêm

Não em vão

As horas

Vão e Vêm

Não em vão



***


Marcha


Todos virão para o teu cortejo nupcial

A princesa Patoreba

Coroada de foguetes

A Senhora Dona Sancha

Que todos querem ver

O tangolomango

 E seus mortos mastigados

Nas laboriosas noites processionais


Todos comparecerão

O camarada barbudo

O bobo-alegre

O salvado de diversos pavorosos incêndios

O frade mau

O corretor de cemitérios

E onde estiver

O Pinta-Brava

Meu irmão

Tatá, Dudu, Popó, Sici, Lelé


Não quero sombra de cera

Nem noite branca de reza

Quero o velório pretoriano

De Sócrates

Não o bestiário

De Casanova

Não quero tochas


Não quero vê-las

Tatá, Dudu, Popó, Sici, Lelé

O tio da América

A igreja da Aparecida

O duomo de Milão

O trem, a canoa, o avião

Tudo darei às mesas anatômicas

Do mastigador de entranhas


*Oswald de Andrade (São Paulo(SP)1890-1954) - em Poesias Reunidas - 1971

02/07/2023

O ovo *

 


Eu tenho uma galinha que põe cem ovos por mês, mas não consigo entender por que vem três de cada vez. No meu quintal tinha cinquenta mil galinhas e vendi tudo pra vizinha Mariquinha. Agora só fiquei com um pintinho novo e comecei tudo de novo com o ovo.



Geraldo Vandré
( Geraldo Pedroso de Araújo Dias) João Pessoa(PB)1935-

17/06/2023

Da natureza das coisas *





Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui.

Fragmento ajusta-se a fragmento

e as coisas assim crescem.

Até que as conhecemos e as nomeamos.

Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos.

Formados dos átomos que caem velozes ou lentos

vejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem; é certo 

que a natureza está em nós

até mais do que nossa consciência sobre nós mesmos.


Tu também, ó Terra, teus impérios, países e mares,

a menor de todas as galáxias,

também formada assim,

também tu te irás, ó Terra,

e hora a hora vais indo, ó Terra.


Nada subsiste. Teus mares desaparecerão em névoa;

as areias abandonarão o seu lugar,

e onde hoje se acamam outros mares

abrirão com suas foices de brancura, outras baías.


* Tito Lucrécio Caro poeta romano(96 a.C. - 55 a.C.)

Poema escrito no século I a.C. - Tradução de Antonio José de Lima Leitão (1787-1856)

07/05/2023

Re[FLUXO DE CONSCIÊNCIA]





Se eu não fosse eu não seria como tu que vives como um tatu, fuçando as entranhas da terra para alimentar-se dos vermes.

Não canto. Não rio. Não choro. E chove muito. Vejo cristais refletindo um mundo sendo estilhaçado frenética e friamente. Há vislumbres de novas configurações geopolíticas no ar, no planeta Terra. Tudo que nasce um dia morre, para que a vida possa continuar...