DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

28/08/2024

Verborragia

 




Letras palavras verbos frases escorrem entre pernas indo se acomodar empilhadas sobre os pés. Letras palavras verbos rasgados esparram-se em vozes dissonantes: pernas e pés correm pelas galerias de nobres salões verdes-amarelos de fome e de vergonha.  

15/08/2024

Os bens alheios *

 




    Nada é mais deplorável e digno de lástima - dizem os ladrões - do que o gesto de um homem surpreendido em flagrante delito contra a propriedade. Treme, balbucia, levanta pesadamente as mãos, agitando-as no como se estivessem vazias. Declara afinal, que não apanhou nada, que tudo é mentira, que se trata sem dúvida de um engano constrangedor.

   Na realidade, é muito difícil reconhecer os próprios erros, e ninguém entrega com prazer o que lhe pertence. Os ladrões, sempre inclinados à fraqueza, sentem um aperto no coração e acabam por levar alguma coisa contra a vontade do dono. Correm graves riscos os que tentam roubar sem o auxílio de um revólver, pois os proprietários os insultam e terminam por tomar a ofensiva. Frequentemente, os jornais nos informam sobre algum imprudente que foi ferido, impunemente, enquanto fugia com as mãos vazias. Entretanto, dizem os ladrões, de vez em quando conseguem encontrar algumas almas arrependidas que devolvem tudo o que têm em demasia, e que acolhem a visita noturna solenemente, como um fato providencial. 


* Juan Jose Arreola, Jalisco (México) - 1918-2001

em Confabulário Total [1941-1961]

07/08/2024

Consequências

 




Por conseguinte, estaria sozinha?

E lá no alto viu um céu coberto de ruas e avenidas e

uma enorme cratera que era sua boca(do céu ou 

dela?)cheia de dentes afiados, e ameaçadores e brancos como as nuvens.  

Uma voz rouca e tonitruante uivava puxando os 

cabelos(de quem?)

Quantos personagens voaram como pássaros cegos

 numa noite escura sobre a cidade coberta de densas

 nuvens prenunciadoras de ventos devastadores;

 quantos se perderam pelos caminhos entre ruínas, palavras ardendo, em chamas, gritos seculares 

 irrompendo do silêncio entre as pedras.

Quantos relatos vãos? Para onde? Para quem?

03/08/2024

Sequências

 




Parou de ler o relato no ponto em que um personagem

 parava de ler o relato no lugar onde um personagem

 parava de ler e se dirigia à casa onde alguém que o

 esperava tinha começado a ler um relato para matar o

 tempo e chegava ao lugar onde um personagem

 parava de ler e se dirigia à casa onde alguém que o

 esperava tinha começado a ler um relato para matar o

 tempo.


Julio Cortázar, em Papéis Inesperados, uma coletânea de textos inéditos e dispersos, escritos pelo autor ao longo de sua vida, e publicados em 2009, vinte e cinco anos após sua morte.

12/07/2024

Das Indefinições




Bem que podia escrever alguma coisa, mas o que é

alguma coisa? 

Mesmo sem saber bem sobre o quê, sobre quem ou

ou tal e qual e etecétera e tal, porque "ao fim e ao

cabo", como dizem atualmente, (virou moda?) é tudo 

igual mesmo pondo e tirando do lugar. 

Nada está no mesmo lugar ou tudo ou quase tudo está

fora-de-lugar, fora-da-lei que nem nos tempos idos e 

sofridos dos reis onde reinava o "cala a boca", o 

calabouço.

Parece até que foi ontem...foi? Não foi?   Ah! Tá tão

recente...mas tem gente que nem se lembra mais   ou

faz de conta que; outros nunca ouviram falar sobre....

Não sei se é refluxo ou reflexo de um antigo fluxo sem

nexo nem amplexo pros dias e noites de hoje em dia...

pois já lá se vão muitos desvios e desvãos entre tantos

devaneios alheios a certos interesses, ou quem sabe...

alhures, sem nenhum parentesco à vista ou a prazo...

sem nenhuma terra achada nos cais, nos aeroportos  e

rodoviárias desse nosso país...!? "Quem acha vive    se

perdendo", como dizia o poeta Agenor, que de sua 

Cartola nos deixou um legado de lindas pérolas para o

nosso cancioneiro popular. Entre achados   e  perdidos

mortos e feridos, vamos endoscopiando em busca    de

alguns pólipos, a ver se saudáveis ou malignos,   para

mantê-los ou extirpá-los.

25/05/2024

HESITAÇÃO

 




O HOMEM no meio da escada hesitava há vários dias entre subir e descer.

Os anos passavam e o homem continuava a hesitar: subo ou desço?

Até que certo dia a escada caiu.


GOÇALO M. TAVARES, em O senhor Brecht

20/05/2024

O "olho clínico" de Machado de Assis *

 




A impunidade é o colchão dos tempos; dormem-se aí sonos deleitosos. 

Casos há em que se podem roubar milhares de contos de réis...e acordar

com eles na mão.


Vaca e dinheiro são, como se sabe, expressões correlatas; diz-se vaca 

do orçamento; diz-se também: o pelintra meteu a boca na teta, quando 

se quer deprimir alguém, que andou mais depressa que nós, etc.


Mete dinheiro no bolso. Vende-te bem, não compres mal os outros, 

corrompe e sê corrompido, mas não te esqueças do dinheiro, que é com 

ele que se compram os melões. Mete dinheiro no bolso.



* Pequenos trechos de crônicas escritas por Machado de Assis, da série

"Balas de Estalo" (ao todo foram 126), entre 1883-1886, publicadas no 

jornal A Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro.

28/04/2024

Memória, montagem *

 Beatriz Milhazes




O poema é um animal;

nenhum poema se destina ao leitor;

ou, como um quadro, assume o poder dos feitiços, objectos mágicos ou

 instrumentos de esconjurar os espíritos, ou a emoção, ou o 

inconsciente,

 guardando o homem de uma oculta dependência de tudo;

porque se vive dos lucros da superstição;

e é forçoso existir a natureza, outorgada às nossas violações;

ou que as regras de organização do poema são as mesmas da natureza, 

mas os elementos com que o poema se organiza não estão na natureza;

e o poema não transcreve o mundo, mas é rival do mundo.

São casas de Aristóteles, Benjamin, Picasso, Huidobro, Malraux.

Casas para onde se entra e de onde se sai, por portas travessas ou

 janelas, por telhados e escadas derradeiras, pela frente, abrindo túneis

 nas caves, escrevendo torto em linhas direitas, ateando fogos, pelas

 traseiras.


Extraído de PHOTOMATON & VOX, de Herberto Helder, Funchal (Ilha da

 Madeira), 1930-2015.

30/03/2024

Quando o escritor dá um "puxão de orelhas" no leitor *

 Ana Hatherly



Como a senhora pôde ser tão desatenta ao ler o último capítulo, madame? Nele eu já dissera que minha mãe não era papista - Papista! Perdoe-me, mas o senhor não afirmou nada disso. Madame, com sua licença, repito mais uma vez que o afirmei de modo claro, ao menos tão claro quanto as palavras, por inferência direta, são capazes de comunicar. - Senhor, neste caso devo haver pulado uma página. - Não, madame, a senhor não pulou sequer uma palavra. - Então eu cochilei, senhor. - Madame, meu orgulho não lhe faculta esse refúgio. - Pois bem, declaro, então, que nada sei a esse respeito. - Madame, eis a falta que lhe imputo; e, à guisa de castigo, insisto que a senhora volte imediatamente, ou melhor, assim que chegar ao próximo ponto final, releia todo o capítulo.

          Impus essa penitência à senhora não por capricho nem por crueldade, mas com a melhor das intenções; de modo que não pedirei desculpas quando ela retornar: - foi para censurar um hábito mui prejudicial que aflige milhares de outras pessoas - o de ler sempre em frente, mais em busca das aventuras do que da profunda erudição e conhecimento que um livro desta casta, se lido da forma adequada, haveria sem dúvida de propiciar.


*Laurence Sterne (Clonmem, Irlanda-  1713-1768) em A vida e as opiniões do cavaleiro Tritram Shandy

13/03/2024

Sobre o Tempo *

 



Soneto 123


De me fazer mudar, não te gabes, ó Tempo.

As pirâmides que de novo construíste

para mim nada têm de novo nem de estranho;

são elas do já visto a imagem disfarçada.

Os dias breves são: deixamo-nos arrebatar

por coisas bem senis, mas dadas como novas, [...]

Desafio a um tempo, a ti e a teus anais:

não me espanta ou me encanta o presente ou o passado;

falsa a tua lembrança e falso o que se vê,

que se aumenta ou reduz por tua presa incessante.

Faço este voto ao qual sempre me apegarei:

Fiel sempre, apesar de ti, de tua foice.


*****


Soneto 77


Ao espelho verás declinar-te a beleza

e a volúvel montra ir-se teu rico tempo;

[...]

As rugas que um sincero espelho mostrará

far-te-ão relembrar a tumba escancarada;

na montra, a hora que foge a ti ensinará

que para a eternidade o tempo a furto avança.


* William Shakespeare - 1564-1616