22/04/2017

"Para você estar passando adiante"



 
Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa
estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar
falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o
futuro do gerúndio.
Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio ou estar enviando pela Internet. O importante é estar garantindo que a pessoa em
questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar lendo
e, quem sabe, consiga até mesmo estar dando conta da maneira como tudo o que ela costuma estar falando deve estar soando nos ouvidos de quem precisa
estar escutando.
Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar achando necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de pessoas infectadas
por essa epidemia de transmissão oral.
Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento
é estar fazendo com que esteja caindo a ficha nas pessoas que costumam estar
falando desse jeito sem estar percebendo.
Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores
que, sim!, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito.
Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho. Sinceramente: nossa paciência está estando a ponto de estar estourando. O próximo "Eu vou estar transferindo a sua ligação"
que eu vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha parte. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos.
As pessoas precisam estar entendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia.
Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento por telemarketing. Daí a estar pensando que "We'll be
sending it tomorrow" possa estar tendo o mesmo significado que "Nós vamos
estar mandando isso amanhã" acabou sendo só um passo. Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo o mundo passou a estar
marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar retornando ligações.
A gravidade da situação só começou a estar evidenciando quando o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo futuro do gerúndio.
A primeira pessoa que inventou de estar falando "Eu vou tá pensando no seu caso" sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade linguística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas
vidas.
Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como "O que
cê vai tá fazendo domingo?" ou "Quando que cê vai tá viajando pra praia?" ou
"Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa".
Deus. O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?
A única solução vai estar sendo submeter o futuro do gerúndio à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, com o "a nível de", o "enquanto", o "pra se ter uma ideia" e outros menos votados. ("Não por acaso", acrescento eu)
A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá insistindo em tá
falando desse jeito?
 
Ricardo Freire é escritor e publicitário dedicado ao turismo; nasceu em Porto Alegre(RS) em 1963.


20/04/2017

Verbo - Nuno Júdice

Van Gogh

 
Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca - onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos palavras;
e roubamos outras palavras, quando não as temos;
e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão.
No dia seguinte,
a mulher a dias há de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.


 Em As coisas mais simples, - Ed. Dom Quixote, Lisboa - 2007 

15/04/2017

Na escuridão miserável



 
 
Eram sete horas da noite quando entrei no carro, ali no Jardim Botânico.* Senti que alguém me observava, enquanto punha o motor em movimento. Voltei-me
e dei com uns olhos grandes e parados como os de um bicho, a me espiar, através do vidro da janela, junto ao meio-fio. Eram de uma negrinha mirrada,
raquítica, um fiapo de gente encostado ao poste como um animalzinho, não
teria mais que uns sete anos. Inclinei-me sobre o banco, abaixando o vidro:
- O que foi, minha filha? - perguntei, naturalmente, pensando tratar-se de esmola.
- Nada não senhor - respondeu-me, a medo, um fio de voz infantil.
- O que é que você está me olhando aí?
- Nada não senhor - repetiu. - Tou esperando o ônibus...
- Onde é que você mora?
- Na Praia do Pinto.
- Vou para aquele lado. Quer uma carona?
Ela vacilou, intimidada. Insisti, abrindo a porta.
- Entra aí, que eu te levo.
Acabou entrando, sentou-se na pontinha do banco, e enquanto o carro ganhava velocidade, ía olhando duro para a frente, não ousava fazer o menor movimento. Tentei puxar conversa:
- Como é o seu nome?
- Teresa.
- Quantos anos você tem, Teresa?
- Dez.
- E o que estava fazendo ali, tão longe de casa?
- A casa da minha patroa é ali.
- Patroa? Que patroa?
Pela sua resposta, pude entender que trabalhava na casa de uma família no Jardim Botânico: lavava roupa, varria a casa, servia a mesa. Entrava às sete
da manhã, saía às oito da noite.
- Hoje saí mais cedo. Foi jantarado
- Você já jantou?
- Não. Eu almocei.
- Você não almoça todo dia?
- Quando tem comida pra levar, eu almoço: mamãe faz um embrulho de comida pra mim.
- E quando não tem?
- Quando não tem, não tem - e ela parecia sorrir, me olhando pela primeira vez. Na penumbra do carro, suas feições de criança, esquálidas, encardidas de pobreza, podiam ser as de uma velha. Eu não me continha mais de aflição, pensando nos meus filhos bem nutridos - um engasgo na garganta me afogava
no que os homens experimentados chamam de sentimentalismo burguês:
- Mas não te dão comida lá? - perguntei, revoltado.
- Quando eu peço eles dão. Mas descontam no ordenado, mamãe disse pra eu não pedir.
- E quanto é que você ganha?
Diminuí a marcha, assombrado, quase parei o carro. Ela mencionara uma importância ridícula, uma ninharia, não mais que alguns trocados. Meu impulso
era voltar, bater na porta da tal mulher e meter-lhe a mão na cara.
- Como é que você foi para na casa dessa...foi parar nessa casa? - perguntei ainda, enquanto o carro, ao fim de uma rua do Leblon, se aproximava das vielas da Praia do Pinto. Ela disparou a falar:
- Eu estava na feira com mamãe e então a madame pediu para eu carregar as compras e aí noutro dia pediu a mamãe pra eu trabalhar na casa dela, então mamãe deixou porque mamãe não pode deixar os filhos todos sozinhos e lá em casa é sete meninos fora dois grandes que já são soldados pode parar que é aqui moço, obrigado.
Mal detive o carro, ela abriu a porta e saltou, saiu correndo, perdeu-se logo na escuridão miserável da Praia do Pinto.
 
Fernando Sabino, nasceu em Belo Horizonte(MG) em 1923 e faleceu no Rio de Janeiro em 2004. Escreveu contos crônicas e romances. É autor de O grande mentecapto, O encontro marcado, O menino no espelho, entre outros

O Jardim Botânico é um bairro situado na zona sul do Rio de Janeiro; a Praia do Pinto fica no bairro Leblon, também na zona sul.  

12/04/2017

Sujeitos




 
Os sujeitos bons não resolvem os males do mundo, mas são como a aragem que faz bem. E como se divertem! Grande é a folgança deles, que se alegram
por tabela e são felizes de carambola.
Adolpho Bloch recebendo alegremente tudo que é cachorro magro e mulher doida que surge na porta de sua oficina, enchendo de presentes os dois molecotes filhos do porteiro de seu edifício. O pianista Bené Nunes se fantasiando de Papai Noel e passando o dia de Natal inteiro num automóvel, visitando os amigos casados, distribuindo presentes pela criançada, de surpresa... Eu poderia citar muita gente. Há muita gente boa, mas quero contar
a história de Bororó.
Encontrei o velho boêmio comovido. Aparecera em sua casa um moleque de
morro pedindo comida. Sua mulher e sua filha arrumaram um prato para o
menino, visivelmente esfomeado. Todos saíram de perto, para que ele ficasse
à vontade. Em um instante o garoto devorou a metade do prato - e parou de
comer. Bororó estranhou; o menino explicou que preferia levar a outra metade
para outro moleque, seu amigo, que ele sabia estar com uma fome danada. Depois pediu que nunca jogassem comida fora; ele viria buscar os restos para
seus irmãozinhos - com 10 ou 12 anos, tinha seis irmãozinhos menores. Resultado: Bororó assumiu a responsabilidade de sete garotos...Meirinho e compositor, Bororó se diverte como um príncipe. Ganhou uma batelada de netos
e sorri, feliz, o avô magnífico.
Eu conheço uns sujeitos que coçam a cabeça, ficam velhos, carecas, enrugados,
com úlceras nervosas quando ouvem dizer que vai aumentar o imposto sobre as
grandes rendas...Ah, os pobres-diabos, como eles sofrem!
 
 
Rubem Braga - Correio da Manhã, 1º de fevereiro de 1955

06/04/2017

À luz de tochas e velas


 
 
Por isso, quando vires, com frequência, uma toga pretexta * ou um nome célebre no foro, não tenhas inveja, já que essas coisas se obtêm a custo da própria vida. A fim de que um único ano lhe seja dado todos os seus anos serão consumidos. A vida abandonou alguns logo na sua primeira fase, antes de conseguirem atingir o máximo de sua ambição; outros, após terem cometido diversas desonestidades e galgado a mais alta posição, vem-lhes à mente a amarga convicção de ter trabalhado tanto por uma vã inscrição num túmulo. Por último, os velhos, muito ocupados com as frescas esperanças, que não convém senão à juventude, sucumbem de fraqueza entre os esforços enormes e sôfregos. Vergonha daquele a quem, pela idade avançada, falta fôlego no tribunal, defendendo causas vis e buscando o aplauso de um auditório ignorante. Pobre daquele que, cansado mais de viver do que de trabalhar, sucumbe entre suas próprias ocupações. Coitado daquele que ao morrer, o herdeiro, o qual muito tem feito esperar, escarnece contando seu dinheiro. [...]
Aos cinquenta anos, a lei dispensa do serviço militar; aos sessenta, não convoca os senadores, mas os homens mais dificilmente concedem a si próprios o repouso do que a lei. Nesse meio tempo, enquanto furtam e são furtados, enquanto um acaba com o descanso do outro, enquanto são reciprocamente infelizes, a vida é sem proveito, sem prazer, sem nenhum progresso do espírito.
Ninguém tem a morte diante dos olhos, todos projetam longe as esperanças. Alguns chegam a organizar aquelas coisas que estão além de suas vidas: a construção de grandes mausoléus, a dedicatória de serviços públicos e jogos
fúnebres e orgulhosas exéquias. Francamente, os funerais destes, como se tivessem vivido pouquíssimo, deveriam ser conduzidos à luz de tochas e velas.
 
Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.), filósofo, dramaturgo e escritor, nascido em Roma no início da Era Cristã. Foi conselheiro na corte do imperador Calígula e tutor e conselheiro do imperador Nero. Tendo sido acusado de participar de um golpe para assassinar Nero, recebeu deste, a ordem de suicidar-se, que ele cumpre, abrindo suas veias.
 
* toga pretexta era a vestimenta dos altos funcionários e generais; os adolescentes também a usavam até os dezessete anos, quando então recebiam a toga viril. 

01/04/2017

Wislawa Szimborska 1923-2012)

 
 
Os pensamentos que me visitam nas ruas movimentadas
 
 
Rostos. Bilhões de rostos na face da terra.
Dizem que cada uma é diferente dos que já se foram da face da terra.
e dos que virão um dia.
Mas a Natureza - quem é que a entende?
- cansada do trabalho que nunca acaba
talvez repita suas ideias antigas
e ponha-nos rostos já usados outrora.
Pode ser Arquimedes de jeans que passa ao seu lado,
a czarina Catarina com roupa de brechó,
um dos faraós de pasta e óculos.
A viúva de um sapateiro descalço
vinda de uma Varsóvia pequenina ainda,
um mestre da gruta de Altamira levando as netas para o zoológico,
um vândalo cabeludo a caminho do museu
para se deliciar do passado.
Os que tombaram há duzentos séculos,
  há cinco séculos, há meio século.
       Alguém levado em carruagem dourada,
        alguém levado em vagão de extermínio.
Montezuma, Confúcio, Nabucodonosor,
suas babás, suas lavadeiras e Semíramis que só fala inglês.
Bilhões de rostos na face da terra.
Meu, seu, de quem - você nunca saberá.
Talvez a Natureza tenha que ludibriar
para dar conta dos prazos
e da demande pesque até o que estava submerso
no espelho da deslembrança.
 
 
Tradução de Henryk  Siewierski  

31/03/2017

A velhinha profissional, os professores e as professoras

" e o salário, ô ! "
 
 
A "Velhinha profissional" é uma personagem criada pelo humorista Chico Anysio ( 1931 - 2012 ). Transcrevo aqui um diálogo ocorrido com o também humorista André Lucas (filho adotivo de Chico Anysio) no programa do Jô Soares. Gostaria de postar o vídeo, mas infelizmente, o blogger não me permitiu, não sei exatamente o porquê.
 
 
André Lucas: qual é a sua profissão?
Velhinha Profissional: puta
André Lucas: a sra. é o que?
Velhinha Profissional: puta, meu filho, nunca comeu uma? p-u t-a: puta
A. L.:: sei..., mas puta em que sentido?
V. P.: de preferência horizontal, mas também pode ser "de ladinho", não sou muito de escolher serviço não...
A. L.: ah...minha sra., a sua profissão é de família?
V. P.: não, criatura, não, meu pai era professor, minha mãe era professora, minhas duas irmãs, professoras...
A. L.: sua família era de professores e a sra. vira puta?
V. P.: dei sorte!
A. L.: há quanto tempo a sra. tá na profissão?
V. P.: ah...faz tempo...eu emputecí ...quando eu emputecí, o
Sílvio Santos ainda era camelô, o Sílvio foi meu cliente, eu adorava o Sílvio...
A. L.: por que?
V. P.: porque ele não fazia nada, ele só ria...ele me pagava com o "carnê do baú"...
A. L.: a sra. foi precoce, hein?
V. P.: é...no berçário as crianças todas botavam a chupeta na boca, eu já sentava em cima...
A. L.: e agora, o que a sra. faz?
V. P.: agora faço menos, porque a idade atrapalha um pouco, mas eu ainda faço um coqueirinho, um bate-estaca...frango assado tem muita saída, uma ou outra chupetinha, que vocês agora chamam de "boquete", aliás, meu filho, um copo d'água e um "boquete" não se nega a ninguém!
A. L.: bom, pra sra. ter direito a previdência, tem que ter dado alguma coisa...
V. P.: mas isso foi o que eu fiz a minha vida inteira!
A. L.: olha, eu vou dar um conselho pra sra.: por que a sra. não conta a sua vida na televisão? quem sabe a sra. fica famosa...até pode entrar pra política...?
V. P.: para com isso, na política já estão os meus filhos... 


26/03/2017

Rasgão antipoético

Alberto Giacometti


todos líricos, todos poeira poética que ao nascer já caminhamos para a morte: somos todos trágicos; tentamos consertar o concerto da vida cuja partitura que
nos apresentam, cartesianamente, executamos uma sinfonia carnavalesca
para não despencarmos do arame para o abismo da insensatez e da insanidade
mental.
 
***
 
a água molda pedras
o tempo desenha e remodela corpos
os olhos vislumbram imagens fantasmagóricas
ocultas sob a fímbria de pensamentos
velozes são os cavalos
com suas franjas esgarçadas
suas ancas selvagemente sensuais
os palhaços já não choram riem à larga
no picadeiro os cavalos são amestrados
para o funeral dos mortos-vivos
seus amestradores costumam
alimentar a ilusão de que
sairão vitoriosos...


20/03/2017



 
que faria eu sem este mundo sem rosto sem perguntas
onde o ser não dura mais que um instante
onde cada instante transforma em vazio a ignorância de ter sido
sem esta vaga onde finalmente corpo e sombra se entranham
que faria eu sem este silêncio onde murmúrios morrem
ofegando fremindo por amparo rumo ao amor
sem este céu que se eleva acima do pó da sua gravilha
que faria eu que fui ontem hoje
espreitando da minha escotilha em busca de alguém
a criar e a girar alheio à vida num espaço convulso
sem voz entre as vozes encerradas em mim.
 
 
Samuel Becktt, nasceu na Irlanda em 1906 e faleceu em 1989; escritor,
poeta e dramaturgo. 

16/03/2017

O pastel e a crise



 
Quando a crise convida ao pessimismo ou ameaça descambar na depressão, está na hora de ler. Poesia ou prosa, tanto faz. A partir de certa altura, bom mesmo é reler. Reler sobretudo o que nunca se leu, como repeti outro dia a
um amigo que não é chegado à leitura. Ele mergulhou no Proust sem escafandro e se sente mal quando vem à tona e respira o ar poluído aqui de fora.
Verdadeiro sábio era o Rubem Braga. Tinha com a vida uma relação direta, sem
intermediação intelectual. Houvesse o que houvesse, trazia no coração uma medida de equilíbrio que era um dom de nascença, mas era também fruto do
aprendizado que só a experiência dá. No pequeno mundo do cotidiano, sabia
como ninguém identificar as boas coisas da vida. E assim viveu até o último
instante.
Certa vez, no auge de uma crise, crivada de discursos e de diagnósticos, o
Rubem estava de olho nas frutas da estação. Madrugador, cedinho já sabia
das coisas. Quando o largo horizonte nacional andava borrascoso, ele se punha
a par das nuvens negras, mas não mantinha o olhar fixo no pé-direito alto da
crise. Baixava o olhar ao rodapé, pois o sabor do Brasil está também no rés do
chão. Num dia de greve geral, inquietações no ar, tudo fechado, o Rubem me
telefonou: Vamos ao bar Luís, na rua da Carioca? Vamos ver a crise de perto.
E lá fomos. O bar estava aberto e o chope, esplêndido. Começamos por um
preto duplo, que a sede era forte. Depois mais um, agora louro. E outro. Claro
que não faltou o salsichão com bastante mostarda. Calados, mas vorazes, cumpríamos um rito. Alguém por perto disse a Vila Militar tinha descido com os
tanques. Saímos dali e fomos a um sebo. O Rubem comprou Xanã, de Carlos
Lacerda, com dedicatória. Depois pegamos o carro e voltamos pelo Aterro, onde se pode exercer o direito da livre eructação. Tinha sido um perfeito programa
cultural. E sem nenhum incentivo do governo.
Vi agora na televisão que o maracujá está em baixa e me lembrei do velho Braga. Nem tudo está perdido. Fui à feira e comprei também dois suculentos abacaxis. Caem bem nesta hora de atribulação nacional. Só falta agora descobrir um bom pastel de palmito na Zona Norte. Se o Rubem estivesse aí,
lá iríamos nós atrás da deleitosa descoberta. Depois, de cabeça erguida, enfrentaríamos a crise e até o caos.
 
 
Otto Lara Resende, 1922-1992, São João del Rei(MG), jornalista e escritor.