13/09/2017

Obscurantismo

 
A artista Ana Norogrando definiu como “estarrecedora” a polêmica criada em torno da exposição, “sob a égide de um discurso moralista baseado na intolerância, no preconceito e na inveja”. Para ela, a decisão do Santander Cultural em cancelar a exposição é “uma guinada à Idade Média”.
“Algumas pessoas intolerantes, em sua maioria jovens, evidenciam desconhecimento total da arte, suas manifestações e história. Resultado de nossa educação! Seres humanos insensíveis à diversidade! Lembro de meu tempo na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), interior do RS. Há 30 anos atrás já convivíamos com a pluralidade de modo natural, fazia parte de nossa vida! Então, é assombroso assistir tudo isso, hoje, no século XXI”, escreveu ela em seu post.
Ana Norogrando pondera que a temática da exposição queer não é nem sequer inovadora e que a proposta da curadoria não é “fechada”, o que abre a possibilidade para outras visões sobre o tema, a exemplo de outros museus do mundo que já fizeram exposições sobre o mesmo tema.
“A temática Queer não é inovadora, pelo menos para quem conhece um pouco mais. É um tema já muito trabalhado e publicado internacionalmente, inclusive na moda. O mérito da exposição é olhar por este tema a Arte no Brasil. Assim, quanto mais projetos e ações efetivas houverem para a visibilidade da Arte Brasileira, melhor! Façamos!”, afirmou.
Já a ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda comparou o episódio com a peça de teatro Roda Viva, proibida pela ditadura civil-militar, em 1968, após atos de violência cometidos contra o elenco por integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

 
 
Adriana Varejão



Fernando Baril

 
Bia Leite


Ana Norogrando


Uma horda de nazistas pasta em Porto Alegre

 
Nazistas promoviam a queima de livros e se esmeraram em condenar as artes “degeneradas”, assim como fez um grupo de gaúchos a propósito de uma exposição sobre diversidade sexual
reprodução/Arquitetura da destruição
arquitetura da destruição

Obras abstratas, impressionista ou produzidas por judeus eram classificadas como "arte degenerada" pelos nazistas
Soube que o espaço Santander Cultural antecipou o fim de sua exposição artística Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira porque os fanáticos do movimento MBL a atacaram, e atacaram seus frequentadores. Que estes herdeiros dos Freikorps futuramente hitleristas – base que foram dos SA e dos SS – tenham atacado a exposição e seus frequentadores não surpreende. O que surpreende é a inércia das autoridades diante deste ato de barbárie, porque pelo visto a reação a ele ficou entregue à iniciativa dos frequentadores e aos seguranças particulares.
Os nazistas esmeraram-se em condenar a literatura e as artes “degeneradas”. Promoveram queimas de livros em toda a Alemanha. A mais famosa foi a do 10 de maio de 1933 na hoje Bebelplatz, a praça em frente à Universidade Humboldt. O próprio diretor da Faculdade de Direito, logo em frente, se encarregou de trazer uma braçada de livros da biblioteca sob sua guarda, para a pira da vergonha histórica, entanto descrita como “da construção do novo homem germânico”, nada mais nada menos que por Goebbels, o ministro da Propaganda presente.
Estes cretinos do MBL, Kataguiris e Holidays à frente, se esmeram na mesma direção. Mas o mais estarrecedor, do mesmo modo que na Alemanha dos anos 1920/30, é que isto volta a se dar, como então, sob o beneplácito das autoridades constituídas.
Não foi outro o comportamento de Hindenburg. Ou das autoridades locais onde o nazismo chegava ao poder. Destruíram a Bauhaus em Weimar, nas outras cidades onde o movimento se refugiou, até que, de Berlim, os seus professores e artistas que conseguiram escapar foram para os Estados Unidos e outros países que os acolheram.
É isto que estamos assistindo em Porto Alegre. Nada mais, nada menos. Revoltante. Revoltante a atitude das hordas MBL-fascistas, revoltante a pusilanimidade das autoridades responsáveis, pusilânime a atitude do Santander Cultural… Bem, a do banco nem surpreende tanto. Afinal, é um banco, um mero banco.
Mas há mais. Porto Alegre teve momentos de glória internacional. Na Revolução de 1930. No último foco de resistência ao golpe de 1964. Na fundação do Fórum Social Mundial, quando a capital dos gaúchos foi proclamada “a capital do século 21”.
Ainda quando a administração popular consagrou a cidade junto à ONU, graças ao Orçamento Participativo e outras iniciativas. Por onde se viajava, o viajante deparava com a realidade de que Porto Alegre era uma referência mundial.
Mas a partir do momento em que a parcela mais empedernida da classe média (da burguesia nem é bom falar) se deu conta de que o povão das periferias estava disputando espaço nos shopping, no aeroporto e nas escolas superiores, o quadro mudou. Esta parcela optou pela direita – e desde então tem votado religiosamente (o termo é bem aplicado) contra tudo o que cheira a popular. Governos de direita.
Agora estamos chegando ao “Gloria in Excelcis Third Reich”, ou “Drittel Reich”, dos Kataguiris da vida.
Que vergonha, classe média de Porto Alegre!

Flávio Aguiar correspondente em Berlim para o Rede Brasil Atual

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10/09/2017

Das palavras interditas



 
entre parêntesis provisórios segue-se
lutando contra a página em branco
luzidia e indiferente
 
tanto esquecimento
 lembranças outras
muito a desaprender
 
 a aurora esvai-se
é o irromper da noite
 do sono nas veias
pedaços de equívocos
embaralhados
mal costurados guardados
em gavetas:
os cômodos do medo
e da ignorância
 
e a boca cheia de pedras
e silêncios:
nem elas nem eles
sabem das palavras interditas...?

29/08/2017

"No ajuste de contas" *



A nossa burguesa finança governamental só conhece dois remédios para equilibrar os orçamentos: aumentar os impostos e cortar lugares de amanuenses e serventes. Fora desses dois paliativos, ela não tem mais beberagem de feiticeiro para curar a crônica moléstia do déficit.
Quanto a cortar lugares, é engraçado o que se passa na nossa administração. Cada ministro, e quase anualmente, arranja uma autorização para reformar o seu ministério. De posse dela, um, por exemplo, o da Guerra, realiza a sua portentosa obra e vem cá para fora blasonar que fez uma economia de sessenta e nove contos, enquanto o do Exterior, por exemplo, com a sua aumentou as despesas de sua pasta em mais de cem contos.
Cada secretário do presidente concebe que governo é só e unicamente o seu respectivo ministério e cada qual puxa a brasa para a sua sardinha.
Cabia ao presidente coordenar estes movimentos desconexos, ajustá-los, conjugá-los; mas ele nada faz, não intervém nas reformas e deixa correr o marfim, para não perder o precioso tempo que tem de empregar em satisfazer os hipócritas manejos dos caixeiros da fradalhada obsoleta ou em pensar nas coisas de sua politiquinha de aldeola.
Enquanto as reformas com as hipotéticas economias são em geral obra dos ministros, o aumento de imposto parte, em geral, dos nossos financeiros parlamentares. Eles torram os miolos para encontrar meios e modos de inventar novos; e, como bons burgueses que são, ou seus prepostos, sabem, melhor que o imperador Vespasiano, que o dinheiro não tem cheiro. Partem desse postulado que lhes remove muito obstáculo e muitas dificuldades e chegam até às latrinas, como aconteceu o ano passado.
Essa pesada massa de impostos, geralmente sobre gêneros de primeira necessidade, devendo ser democraticamente igual para todos, vem verdadeiramente recair sobre os pobres, isto é, sobre a quase totalidade da população brasileira, que é de necessitados e pobríssimos, de forma que as taxas dos Colberts da nossa representação parlamentar conseguem esta coisa maravilhosa, com as suas medidas financeiras: arranham superficialmente os ricos e apunhalam mortalmente os pobres. Pais da pátria!
Desde que o governo da República ficou entregue à voracidade insaciável dos políticos de São Paulo, observo que o seu desenvolvimento econômico é guiado pela seguinte lei: tornar mais ricos os ricos; e fazer mais pobres os pobres.
São Paulo tem muita razão e procede coerentemente com as suas pretensões; mas devia ficar com os seus propósitos por lá e deixar-nos em paz. Eu me explico. Os políticos, os jornalistas e mais engrossadores das vaidades paulistas não cessam de berrar que a capital de São Paulo é uma cidade europeia; e é bem de ver que uma cidade europeia que se preza não pode deixar de oferecer aos forasteiros o espetáculo de miséria mais profunda em uma parte de sua população.
São Paulo trabalha para isso, a fim de acabar a sua flagrante semelhança com Londres e com Paris; e podem os seus eupátridas estar certos que ficaremos muito contentes quando for completa, mas não se incomodem conosco, mesmo porque, além de tudo, nós sabemos com Lord Macaulay que, em toda a parte, onde existiu oligarquia, ela abafou o desenvolvimento do gênio.
Entretanto, não atribuirei a todos os financeiros parlamentares que têm proposto novos impostos e aumento dos existentes; não atribuirei a todos eles, dizia, tenções malévolas ou desonestas. Longe de mim tal coisa. Sei bem que muitos deles são levados a empregar semelhante panaceia, por mero vício de educação, por fatalidade mental que não lhes permite encontrar os remédios radicais e infalíveis para o mal de que sofre a economia da nação.
Quando se tratou aqui da abolição da escravatura negra, deu-se fenômeno semelhante. Houve homens que por sua generosidade pessoal, pelo seu procedimento liberal, pelo conjunto de suas virtudes privadas e públicas e alguns mesmo pelo seu sangue, deviam ser abolicionistas; entretanto, eram escravocratas ou queriam a abolição com indenização, sendo eles mais respeitáveis e temíveis inimigos da emancipação, por não se poder suspeitar da sua sinceridade e do seu desinteresse.
É que eles se haviam convencido desde meninos, tinham como artigo de fé que a propriedade é inviolável e sagrada; e, desde que o escravo era uma propriedade, logo…
Ora, os fundamentos da propriedade têm sido revistos modernamente por toda a espécie de pensadores e nenhum lhe dá esse caráter no indivíduo que a detém. Nenhum deles admite que ela assim seja nas mãos do indivíduo, a ponto de lesar a comunhão social, permitindo até que meia dúzia de sujeitos espertos e sem escrúpulos, em geral fervorosos católicos, monopolizem as terras de uma província inteira, títulos de dívida de um país, enquanto o Estado esmaga os que nada têm com os mais atrozes impostos.
A propriedade é social e o indivíduo só pode e deve conservar, para ele, de terras e outros bens, tão-somente aquilo que precisar para manter a sua vida e de sua família, devendo todos trabalhar da forma que lhes for mais agradável e o menos possível, em benefício comum.
Não é possível compreender que um tipo bronco, egoísta e mau, residente no Flamengo ou em São Clemente, num casarão monstruoso e que não sabe plantar um pé de couve, tenha a propriedade de quarenta ou sessenta fazendas nos estados próximos, muitas das quais ele nem conhece nem as visitou, enquanto, nos lugares em que estão tais latifúndios, há centenas de pessoas que não têm um palmo de terra para fincar quatro paus e erguer um rancho de sapê, cultivando nos fundos uma quadra de aipim e batata-doce.
As fazendas, naturalmente, estarão abandonadas; por muito favor, ele ou seus caixeiros permitirão que os desgraçados locais lá se aboletem, mas estes pobres roceiros que nelas vegetam, não se animam a desenvolver plantações, a limpá-las do mato, do sapê, da vassourinha, do carrapicho, porque, logo que o fizerem, o dono vendê-las-á a bom preço e com bom lucro sobre a hipoteca com que a obteve, sendo certo que o novo proprietário expulsá-los-á das terras por eles beneficiadas.
Na Idade Média e, mesmo no começo da Idade Moderna, os camponeses de França tinham contra semelhantes proprietários perversos que deixavam as suas terras en friche, o recurso do haro, e mesmo se apossavam delas para cultivá-las; mas a nossa doce e resignada gente da roça não possui essa energia, não tem mesmo um acendrado amor à terra e aos trabalhos agrícolas e procedem como se tivessem lido o artigo XVII da Declaração dos Direitos do Homem.
O que se diz com relação à propriedade imóvel, pode-se dizer para a móvel. Creio que é assim que os financistas denominam as apólices, moedas, títulos, etc.
O povo, em geral, não conhece esta engrenagem de finanças e ladroeiras correlativas de bancos, companhias, hipotecas, cauções, etc.; e quando, como atualmente, se sente esmagado pelo preço dos gêneros de primeira necessidade, atribui todo o mal ao taverneiro da esquina.
 
* Trechos do artigo escrito por Afonso Henriques de Lima Barreto(1881-1922), em 11.05.1918, no jornal carioca A.B.C.
 

28/08/2017

Quem é essa mulher? - Hombres necios *




Hombres necios que acusáis
a la mujer sin razón,
sin ver que sois la ocasión
de lo mismo que culpáis.
 
Si com ânsia sin igual,
solicitáis su desdén,
por que quereis que obren bien
si las incitáis al mal?
 
Combatís su resistência,
y luego com gravedad
decís que fue liviandad
lo que hizo la diligencia
 
Bien com muchas armas fundo
que lidia vuestra arrogância
pues em promessa e instancia
juntáis diablo carne y mundo
 
***
 
Homens néscios que acusais
as mulheres sem ter razão,
sem ver que sois a causa
daquilo de que a culpais.
 
Se com ânsia inigualável
solicitais seu desdém,
como quereis que hajam bem
se as incitais para o mal?
 
Combateis sua resistência,
para em seguida dizer
que foi leviandade
o que fez vossa diligência.
 
Com muitas armas
luta a vossa arrogância,
com promessas e solicitudes
juntais diabo, carne e mundo
 
*Sóror Juana Inés de la Cruz, monja católica, poetisa e dramaturga. Nasceu em Nepantia (México) em 1651 e faleceu em 1695.

21/08/2017

Quem é essa mulher ?




Segundo a mitologia grega a deusa Têmis foi uma das esposas de Zeus, o deus do Olimpo. Esse deus truculento e autoritário, reinava através da força, possuía
as mulheres que desejava, à revelia de suas vontades. E Têmis foi uma delas, mas, como era considerada uma mulher sábia, que percebia com agudeza os verdadeiros sentimentos humanos, Zeus permitiu-lhe, ou melhor, resolveu lhe dar uma compensação: seria considerada a representante da Justiça! Só que a lei não seria (nem nunca foi), elaborada por ela, mas por Zeus e seus conselheiros masculinos. Se a mulher fosse, de fato, o símbolo da justiça, com certeza nós mulheres, que somos a maioria absoluta da população mundial, não seríamos as principais vítimas da violência, no Brasil e quiçá, no mundo inteiro.
 
O tapa-olhos na deusa, longe de demonstrar sua imparcialidade diante dos fatos, revela o quanto temos sido impedidas de ver o mundo e os fatos como são de verdade, e de direito. Para completar esse embuste representado como o "símbolo da justiça", falta colocar um tapa-boca na figura da deusa!
Nada é eterno, muito menos a Lei, que não deve ser regida por divindades, mas
por seres humanos, mulheres e homens, de carne e osso!
 
Alguém já se perguntou por quê existem pouquíssimas mulheres nos tribunais de justiça, no Congresso Federal ou em cargos de chefia do poder público? Por quê os salários das mulheres são infinitamente inferiores aos dos homens?
 
É hora de arrancarmos essas vendas que tapam nossos olhos e nossas bocas!  

20/08/2017

A construção poética de Cora Coralina


 

As pedras

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida...
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.

Cora Coralina - Cidade de Goiás, 20.08.1889- Goiânia, 10.04.1985 


17/08/2017

Cegueira

Tribunal de Justiça legitima genocídio dos negros

 

"Quando um tribunal de justiça decide aplicar, como em uma humilhação pública no pelourinho, a desqualificação do ser humano não branco, se confirma a institucionalização do racismo e a legitimação do genocídio dos negros. É urgente se colocar visceralmente em oposição a este que tem sido o maior genocídio brasileiro. O qual, juntamente com o etnocídio e o feminicídio, é a estrutura central das formas de dominação e violência."



Por Edson Teles.

Em junho de 2013 era detido no Centro do Rio de Janeiro, em meio às manifestações contra o aumento das tarifas, Rafael Braga. Catador de material reciclável, Rafael estava próximo ao “local do crime”, apesar de não participar dos protestos, e carregava consigo duas garrafas de produtos de limpeza. Sob a alegação de porte de coquetéis molotov ele foi detido por policiais militares e a Justiça ordenou sua prisão provisória com posterior julgamento. Ao final (como se este tipo de acontecimento tivesse fim) foi condenado a 5 anos de detenção com sentença fundamentada no depoimento de um policial. As provas técnicas, favoráveis ao réu ou desqualificantes da acusação, foram desconsideradas nos laudos ajuntados ao processo. Rafael é negro, pobre, favelado. Como não poderia ser ele o criminoso?

No início de 2017, após um mês de regime semi-aberto (acabara de cumprir mais de 3 anos de privação de liberdade), foi novamente encarcerado. Pasmem: Rafael foi acusado de tráfico de drogas e associação criminosa por supostamente portar menos de um grama de maconha e 9 gramas de cocaína, além de um rojão. Apesar de testemunha corroborar a versão de Rafael de que teria sido uma detenção forjada, a versão aceita pela Justiça foi a do testemunho dos policiais. Afinal, ele é negro, favelado e pobre. Como não seria ele um traficante?
Recentemente, impetrado um habeas corpus por seus advogados em defesa de sua liberdade, desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negaram o pedido. Instância jurídica que legitima, com este ato, o genocídio do negro no Brasil.
Ao se negar habeas corpus a jovens pobres e negros não se trata necessariamente do cumprimento da lei. Porém, é a norma do ordenamento jurídico. São incontáveis as tentativas de liberdade, pedidas e negadas, pelas defensorias públicas em nome de adolescentes e jovens detidos sem direito à defesa e cujos encarceramentos se fundamentam somente em testemunhos de agentes de segurança. É clara a intenção dos juízes em manterem preso Rafael e outros jovens negros, com ou sem provas. São vários os casos em que indivíduos ricos que recebem a liberdade ou a troca de punição aos seus atos por internações, penas alternativas e, até mesmo, absolvição.
Mas por que manter um jovem negro na prisão sem provas seria um ato genocida, como afirma este texto?
Isto se deve ao racismo institucional, existente no judiciário, mas também nas polícias, nos sistemas educacionais e de saúde, nas universidades, no sistema de transporte público, nos partidos e nas organizações políticas. Assim como é difuso e disseminado nas práticas sociais e nas relações econômicas e culturais e nas mais enraizadas ocorrências do cotidiano.
Existe no país um racismo ao estilo brasileiro cuja fonte liberal discursiva são as ideias de “democracia racial” e “mestiçagem”, por muitos anos veiculadas como conhecimento inequívoco, inclusive nas principais universidades. Mas nada mais é do que uma política de embranquecimento e assimilação das “populações nativas”. Um processo “civilizatório” desenvolvimentista nacional.
Para uma criança negra e pobre nascer no país é preciso enfrentar um sistema de saúde racista. Segundo o Ministério da Saúde, através da campanha “Racismo faz mal à saúde” (2014), 66% das mortes em partos são de mulheres não brancas. As gestantes negras adentram ao SUS e, na maioria dos casos têm suas gestações mal acompanhadas, isto quando recebem este atendimento. Seus sofrimentos e reclamações, se ocorrem, são de modo geral desconsiderados. Diante de alguma gravidade, pouco é feito e alega-se sua condição de resistência à dor e ao sofrimento. Após o nascimento, enquanto 78% das mulheres brancas recebem orientação sobre amamentação, pouco mais da metade das mulheres negras recebem o mesmo tratamento. Se sobreviver ao nascimento, a criança negra (e também a indígena) tem o dobro de chance de falecer nos cinco primeiros anos de vida em relação à criança branca. Isto é genocídio.
As escolas destinadas aos pobres e negros, públicas e localizadas nas periferias, são cada vez mais de baixa qualidade e precárias, esquecidas pelo poder público. Segundo o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), uma em cada quatro crianças abandonam a escola ainda no ensino fundamental. Em sua ampla maioria crianças negras. A evasão escolar se dá pela pobreza destes indivíduos, que desde muito cedo têm que se envolver em alguma atividade econômica. Bem como é o resultado da discriminação racial intramuros escolares e da ausência de repertório próprio da cultura afrodescendente nos currículos.
Tal como no sistema escravocrata, às meninas negras é imposto, desde cedo, o trabalho doméstico. Segundo dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho), de 2013, 93% das crianças e adolescentes envolvidos em trabalho no país são meninas negras. Este é o genocídio da identidade e da dignidade desta população.
Na universidade, as recentes políticas afirmativas, tímidas diante do quadro de racismo existente, pouco transformaram a situação. Houve o acesso de indivíduos negros, em especial nas universidades públicas federais, mas mantendo uma proporção inegavelmente branca. O conteúdo dos currículos continua estudando metodologias e pensadores de uma tradição eurocêntrica, operando uma espécie de categorização da cultura e do pensamento negro como um saber menor, desqualificado e não autorizado. No quadro docente, assim como entre os pós graduandos, a presença de indivíduos não brancos atinge proporções ainda mais desiguais. Até hoje são quase nulos os programas de pesquisa acad6emica que possuem cotas raciais.
A violência policial tem sido o foco das campanhas e manifestações de movimentos negros e objetivamente nomeada por estes sujeitos de genocídio do negro brasileiro. Na idade de 21 anos, o jovem negro tem 147% maiores chances de ser assassinado do que um branco. E, infelizmente, no discurso de uma sociedade branca e masculinizada, de viés liberal, a instituição de proteção ao indivíduo é a que mais mata violentamente o jovem negro.
A designação de genocídio para o que ocorre no cotidiano da sociabilidade brasileira pode parecer, à primeira vista, um exagero emotivo e desproporcional. Afinal, o brasileiro nasceu e cresceu sob a ideia de que nestas terras se experimenta um sincretismo racial. O que vem ocorrendo com a população negra, desde sempre, mas agora com o incremento das máquinas políticas – suas tecnologias e estratégias de controle –, é um genocídio institucional e sistêmico. Justamente por seus aspectos cotidianos e discursivos se efetiva de modo silencioso e, para alguns, invisível, apesar de ser tão evidente como o cheiro do podre invadindo o olfato. Nos é tão próximo quanto um fenômeno que se encontra diante de nossos narizes.
Se faz urgente que sujeitos combatentes de genocídios outros, em momentos diversos, se coloquem visceralmente em oposição a este que tem sido o maior genocídio brasileiro. O qual, juntamente com o etnocídio e o feminicídio, é a estrutura central das formas de dominação e violência.
Quando um tribunal de justiça decide aplicar, como em uma humilhação pública no pelourinho, a desqualificação do ser humano não branco, se confirma a institucionalização do racismo e a legitimação do genocídio dos negros.
***
Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Extraído de  https://blogdaboitempo.com.br

15/08/2017

De como se deve evitar ser desprezado e odiado


 
 
[...] Um dos mais poderosos remédios de que um príncipe pode dispor contra as
conspirações é não ser odiado pela maioria, porque quem conjura sempre pensa
que, com a morte do príncipe, irá satisfazer o povo, mas, quando percebe que
com isso irá ofendê-lo, não se anima a tomar semelhante partido, mesmo porque as dificuldades para os conspiradores são infinitas. [...]
Concluo portanto, que um príncipe deve dar pouca importância às conspirações
se o povo lhe é benévolo; mas quando os cidadãos adversos o odeiam, deve
temer a tudo e a todos. Os Estados bem organizados e os príncipes hábeis procuram com toda a diligência não desesperar os grandes e satisfazer o povo,
conservando-o contente, mesmo porque este é um dos mais importantes assuntos de um príncipe. [...]
Novamente concluo que um príncipe precisa estimar os grandes, mas não se fazer odiado pelo povo.
 
 
Nicolau Maquiavel (Florença 1469-1527), trechos de O Príncipe