18/01/2018

Por onde anda a memória?

Arlindo Daibert


O poeta já disse que "a imaginação é a memória que enlouqueceu", mas às vezes ficamos tão loucos que perdemos a memória, perdemos a visão completa das coisas - tudo em branco - tudo escuro - tudo em sépia.
O vozerio das gentes, as gargalhadas dissonantes: tudo
é silêncio. O coração é rio seco por onde passava aquela
ponte, hoje safenada de dor e tristeza. Caminha-se por veredas à procura do sol e das estrelas no firmamento, e então, ouve-se ao longe a voz de outro poeta a dizer que
"o poeta é um fingidor". E eu, que não sou nem uma coisa nem outra, posso dizer abertamente que as estrelas continuam suspensas e brilhantes lá no alto! Cá embaixo procuro no chão que piso essa "memória enlouquecida"!

***
 
Páginas
 
Oitenta publiquei e duzentas:
Cinquenta, por passar, trezentas
A cadernos novos, tenho outras;
Quinhentas e trinta hão completar:
E mais esta com que não conto,
Por não estar perfeito o ponto!
 
Só eu poderei ler o que escrever;
já, pela cor da tinta que servi,
já, pela minha nova ortografia,
já, por desprezar caligrafia
 
 
Minha Pátria
 
Que! eu tenho pátria?
- Talvez esteja
Este mundo inteiro;
- Pátria seja!
Hoje estou - velho barão;
e aclamo-me Campos Leão.
 
Qorpo Santo (José Joaquim de Campos Leão) Nasceu em Triunfo(RS) em 1829 e faleceu em Porto Alegre em 1883.
Poeta, dramaturgo, jornalista e tipógrafo.

14/01/2018

Pois é,

Abdias do Nascimento
 

Existem abismos que nos fazem criar; outros que nos paralisam. Pode ser, e também pode não ser, isto é, não quero dizer... Vive-se como se pode: na fossa, no fosso, no precipício - por um triz, ou por um fio de arame ou fio elétrico!
Na casa da noite aloja-se  a rede dos dias pendurados em armadores. São eles que sustentam o lento caminho da vida. Na casa da noite faz-se e desfaz-se o sonho conservado no éter.
De pés descalços, sob uma pele inviolável germinam lagartos, arremedos de insetos; quem sabe vagalumes pairem sobre o telhado dessa casa. Quem sabe?

07/01/2018

Só rindo...!


 
 

                   O riso moderno existe para mascarar a perda de sentido. É mais indispensável que nunca. Outrora,   ele
estancava as insuficiências, os defeitos - emplastro que se
colava sobre as pequenas chagas da existência. Agora, é a
própria existência que está ferida. Só o riso injetado em alta
dose, pode mantê-la com vida artificial, sob perfusão. Sejamos honestos: a humanidade ri amarelo e não somente
porque a metade de seus membros é oriental.A explosão do
riso no ano 2000 foi menos um grito de entusiasmo do que o clamor de um mundo que procura ter segurança fazendo barulho no escuro.
É inútil voltar à lista de males e catástrofes que se abatem sobre os sete bilhões de indivíduos que gesticulam desesperadamente sobre este minúsculo planeta, os quais nem sequer sabem por que estão aqui e só têm um objetivo
- passar o tempo como podem, jogando futebol, escrevendo
livros, fazendo aumentar a cifra dos negócios de uma empresa, cultivando seu jardim, completando a volta ao mundo ou assistindo à televisão - qualquer coisa, enquanto esperam o fim, que os progressos da medicina não cessam de retardar. Uma motivação é avançada, certamente:
preparar o mundo para a geração seguinte, que fará o mesmo pela seguinte e assim por diante.  Mas  o  que importa? Nenhum de nós verá isso! Essa verdade é insuportável, e só o riso permite suportar o insuportável, disfarçando-o, zombando dele, brincando. O riso é indispensável porque, mais do que nunca, estamos diante do vazio. Breve, todas as pessoas terão um telefone celular e um site da web; cada um poderá saber tudo sobre cada um, satisfazer virtualmente todas as suas fantasias - e com
isso só abraçará melhor o vazio.

 
Georges Minois, historiador francês, em História do Riso e do Escárnio - Editora UNESP

05/01/2018

Nem que a vaca tussa!




O bicho já está podre, sentimos o mau cheiro a mil léguas de distância! Os urubus já sobrevoam nas cercanias, mas ele, o bicho, entupido de carniça, todo inchado, faz de conta que está ótimo. E como o bicho sabe que já não tem mais nada a perder, continuará a destilar todo o seu veneno até os seus últimos estertores! Os urubus e outras aves de rapina que fazem parte do seu séquito, o acompanharão até
o final nesse cortejo fúnebre, na esperança de extrair o máximo proveito.

"O que é do homem, o bicho, não come"!

29/12/2017

Ora, direis...!?

 
Passou uma "nuvem" e encobriu tudo que estava escrito a esmo;"a esmo" também acontecem coisas que não nos damos conta num primeiro momento, e aí já está feito; estamos quase que inteiramente teleguiados, de cabeça curvada sobre nossos umbigos transformados em telefones "inteligentes", mas todos têm a ilusão de que estão conectados com tudo e com todos; tem o diabo de uma tabela que não alinha o texto como eu quero;já mexi em todo o teclado e não encontro a tecla certa. Tá parecendo aquelas máquinas "humanas" que querem porque querem mandar no país, se plantam nas cadeiras do poder e passam a querer ditar regras à revelia do povo que as sustentam, aos trancos e barrancos!
E ainda tem umas "entidades invisíveis" que adentram repentinamente o computador com recados ameaçadores na
tentativa de amedrontar o usuário, para que o forcem a obedecer seus "bons conselhos" alegando questão de "segurança", e eu me pergunto: segurança para quem? 
Às vezes, o melhor a fazer é dar umas boas risadas, levantar-se, ir até ao banheiro e dar uma boa mijada!
Sai ano, entra ano, e a ladainha continua a mesma: sorria,
seja feliz, se empanturre na comilança, (mesmo que você não tenha onde cair morto), tome um porre e se encharque na lama, pois amanhã, como num passe de mágica, será outro dia!
 E vamos consumir cada vez mais o supérfluo, OH!
Ora, direis...
Dirás mesmo?

26/12/2017

Machado de Assis fala sobre "um assunto de comestíveis"

 
 
[...]

 

Porquanto, a dita Câmara Municipal, perguntando-lhe o procurador se podia mandar fornecer jantar ao Tribunal do Júri, quando as sessões se prolongassem até tarde, respondeu que não, visto que tal despesa não se acha autorizada em lei.
Teve razão a Câmara, teve-a duas vezes: a primeira porque a lei o veda e a obediência à lei é a necessidade máxima; a segunda, porque o jantar é, de certo modo, um agente de corrupção. Não me venham com sentenças latinas: primo vivere, deonde judicare.* Não me venham com considerações de ordem fisiológica, nem com rifões populares, nem com outras razões da mesma farinha, muito próprias para embair ignorantes ou colher descuidados, mas
sem nenhum valor ou alcance para quem olhar as coisas de
certa altura. A questão é puramente moral e a presença do rosbife não lhe diminui nem lhe troca a natureza. Não me
venham também com o jantar na política, porque, em certos casos, não há incompatibilidade entre o voto e o prato de lentilhas; e politicamente falando, o paio é uma necessidade pública. O caso dos jurados é outra coisa.
A primeira e inevitável consequência do jantar aos jurados
seria a condenação de todos os réus, não porque o quilo implique severidade, mas porque induz à gratidão. Como se
sabe, absolvidos os réus, paga a municipalidade as custas; não é crível que um tribunal de homens briosos e generosos
condene a mão que lhe prepara o jantar. Convém contar com o pudor dos estômagos. Acresce que a digestão é variável em seus efeitos. Umas vezes inclina ao cochilo, e não se pode calcular que inúmeros erros judiciários sairão de um tribunal que dorme a sesta; outras vezes o organismo precisa de locomoção, e as sentenças cairão da pena como frutas verdes que um rapaz derruba. Não cito o
caso dos que fazem o quilo entre a espadilha e o basto e ficariam impacientes por sair; caso verdadeiramente assustador, visto que a maior das nossas forças sociais é o
voltarete.**
Cotejem agora as inconveniências do jantar com as vantagens do jejum. O jejum, um estado de graça espiritual
é uma das formas adotadas para macerar a carne e seus maus instintos. A satisfação da carne torce a condição humana, igualando-a à das bestas; ao passo que a privação
amortece a condição bestial e apura a outra; fortifica, portanto, o ser inteligível, aclara as ideias, afina e eleva a concepção da justiça. A sopa tem suas vantagens, o assado não é em si mesmo uma abominação; pode-se almoçar e querer bem, não há incompatibilidade absoluta entre a virtude e a couve-flor. A justiça, porém, requer alguma coisa menos precária, mais certa; não se pode fiar de hipóteses, de casualidades, de temperamentos.
O que me admira neste caso, não é a decisão da Câmara, que aplaudo, desde que é fundada em lei, e o respeito da lei
é a primeira expressão da liberdade. O que me admira é que só agora reclame o júri um bocado de pão. Pois nunca pediu o júri um verbazinha para os seus pastéis? Só agora
há estômagos naquele tribunal? Só agora há processos longos e juízes famintos? Tanto pior; se esperam tantos anos, podem esperar alguns mais.
 
Machado de Assis, em Crônicas selecionadas- 01 de setembro de 1878
 
* "primeiro viver, depois julgar"
 
** jogo de cartas entre três pessoas, com 40 cartas.

20/12/2017

Cansaço


 

A verdade é que o Brasil às vezes enche. A gente vai achando interessantes as conversas: o presidente disse ao ministro fulano que o ministro sicrano era assim ou assado; ontem houve uma briga naquela boîte por causa da mulher de beltrano; João conseguiu levantar 15 milhões de cruzeiros no Banco do Brasil; Pedro vai ser nomeado embaixador; Manuel já está arrumando as gavetas para deixar o cargo; Joaquim avalizou uma promissória em troca de uma promessa de Antônio de não atacar Fagundes; o deputado tal recebeu as provas de uma tremenda bandalheira que, entretanto, ao que parece, não revelará;
os generais Antão e Beltão estão encabeçando um movimento no Exército no sentido de fazer sentir ao ministro que não é conveniente a promulgação de tal projeto; Praxedes já está convidando gente para formar seu gabinete; um grupo de industriais vai promover uma campanha para evitar a exportação de barbatimão para o Irã; um parente do presidente prometeu grandes ajudas se lhe derem a diretoria da associação meridional de tênis de mesa...notícias sobre deputados estaduais e jogo de bicho, sobre Cexim, Cofap...
O Brasil, às vezes enche. Principalmente nesta grande e quente aldeia que é o Rio de Janeiro onde, com meia hora de conversa em um clube ou uma boîte, qualquer pessoa fica sabendo das ligações, dos compromissos, das fraquezas
e das tediosas intimidades de um pequeno grupo de pessoas que se ajudam, se enganam, se friccionam, se alisam - essas pessoas que se acreditam e, ao menos aparentemente, são mesmo o Brasil. Pessoas eternas; podem sumir da vida pública depois de anos e anos de destaque e também de incompetência, fraqueza, desonestidade; subitamente, alguém tem um ataque de imaginação e as chama de volta, como se houvesse neste país uma trágica miséria de gente.
Pedro Nava costuma dizer que o brasileiro é tão desleixado
que só enterra o morto da família porque, se não enterrar, o morto começa a cheirar mal. Se não fosse isso - diz ele, que é médico, conhece por dentro a displicência de nossa gente - um parente deixaria que o outro fosse providenciar os papéis, o outro deixaria para amanhã, amanhã diria que afinal quem devia ver isso é o Tonico, e o Tonico prometia ver, mas depois que acabasse a irradiação do jogo, e afinal no dia seguinte explicaria que encontrara um amigo que tinha conhecido numa empresa fúnebre e prometera ver se conseguia um enterro de primeira por um preço de segunda - e assim por diante. A defesa do morto é mesmo cheirar mal. Mas a dos vivos, não. Parece que quanto mais cheiram mal, melhor. Por favor, não pensem que eu estou me referindo a fulano ou a sicrano. Não estou me referindo especialmente a ninguém; estou apenas, neste fim de tarde depois de um dia em que ouvi tanta conversa, um pouco fatigado de nosso querido Brasil.
Porque o Brasil, às vezes, enche.
 
Rubem Braga, Correio da Manhã, outubro de 1952

17/12/2017

E o mundo não se acabou


Composição de Assis Valente, Sto.Amaro BA -  (1902-1958)
 


12/12/2017

O tico-tico tá comendo o meu fubá...


O tico-tico tá,
tá outra vez aqui
o tico-tico tá comendo
o meu fubá...
O tico-tico tem,
tem que se alimentar...
Que vá comer
 umas minhocas no pomar
 
Ó por favor, tire esse bicho
do celeiro, porque
ele acaba comendo
o fubá inteiro!
Tire esse tico-tico
de cá de cima do meu fubá
Tem tanta coisa que ele pode pinicar
Eu já fiz tudo pra ver se conseguia
Botei alpiste pra ver se ele comia,
botei um gato, um espantalho
e alçapão, mas ele acha
que fubá é que é a boa alimentação!
 

 Música de Zequinha de Abreu e letra de Eurico Barreiros
 

06/12/2017

 

A vida é muito simples, tão simples que alguns que se julgam muito "espertos" estão sempre tentando nos tratar como se fôssemos simplórios, destituídos de cérebros. Tem sido assim desde os tempos em que aqui aportaram as caravelas europeias com suas bugigangas, balas de festim e espelhos mirabolantes.
Índios, negros, e mulheres sempre foram tratados por uma elite dominante como seres inferiores, sem capacidade para raciocinar. E como conseguem isso? Tomando de assalto tudo o que nos pertence, se apropriando de nossas riquezas, da nossa força de trabalho, de nossas cabeças. Quando o Brasil era colônia de Portugal, o rei daquele país monopolizava toda e qualquer informação não permitindo que a população tomasse conhecimento dos fatos que ocorriam. De lá para cá, os meios de comunicação passaram para as mãos das famílias de maior poder aquisitivo do país,  permanecendo até hoje: manipulando, distorcendo, e pior,  desinformando a população.
Os índios foram barbaramente massacrados. De uma população de mais de 5 milhões de indivíduos, hoje restam aproximadamente uns seiscentos e poucos mil. Os negros africanos  foram arrancados brutalmente do seu país, escravizados, acorrentados e obrigados a trabalhar de graça para os grandes senhores de terra daqui, da Europa e dos EUA. Deram seu sangue, suas vidas para o enriquecimento das nações do mundo inteiro. O que receberam em troca? Pobreza, desprezo e discriminação, muita discriminação!
E as mulheres? Essas, sempre foram tratadas como objetos para satisfazer os instintos sexuais dos machos. Se hoje tem havido alguma melhoria na vida da mulher, se deve a uma luta diária, persistente e à custa de muito sacrifício. Ainda assistimos a muitos casos de estupros, de espancamentos e mortes no recesso de seus lares; somos usadas em campanhas publicitárias de automóveis, de lingeries, cerveja, e nos bailes funkies somos chamadas de "cachorras", popozudas, mulher-fruta, mulher-melancia, sempre vulgarizando o corpo da mulher. Existem muitos homens que acreditam que "mulher gosta mesmo é de apanhar" A impunidade ainda prevalece, a "justiça" dispõe de leis ambíguas, de recursos que possibilitam a liberdade do criminoso.  A ideia de que a mulher é dependente do homem, de que é o "sexo frágil" é tão arraigada e tão difundida, que uma boa parcela das mulheres não só acredita nisso, como até (des)educa seus filhos e filhas a partir desse ideário machista, embora sejam elas as provedoras de uma grande parcela das famílias atualmente 
Já tivemos muitas mulheres corajosas, que deram suas vidas por acreditar na emancipação da mulher e da sociedade: Jovita Feitosa, Bárbara de Alencar, Maria Quitéria, Anita Garibaldi, Chiquinha Gonzaga, sem contar as milhares de mulheres anônimas que labutam ainda hoje por uma vida digna e respeitável. Eu também não vim ao mundo apenas para ouvir e ver a banda passar. Quero fazer parte da orquestra, cantar e dançar junto com ela e os outros. Não quero ser representada por  alguém que desrespeite a mim e a meus semelhantes, que espanca mulheres, que manipula a imprensa e atende a interesses internacionais estranhos a meu país. Não vivemos num mar de rosas, ainda há um longo caminho a ser percorrido, muitos erros a serem corrigidos, mas já estivemos muito, mas muito pior. Nem os caranguejos andam para trás, eles dão voltas até alcançar o seu objetivo. Protestar, discordar, é legítimo, é um direito de cada cidadão. Mas aliar-se, omitir-se ou apoiar aqueles que desejam destruir tudo o que conquistamos até hoje, é, no mínimo, ser conivente com aqueles que só almejam continuar fazendo parte de uma pequena elite possuidora das maiores fortunas do país!