15/01/2017

Machado de Assis: por um cálice de poder relativo

Rua da Carioca, séc. XIX

 
 
Como é possível que hoje, amanhã ou depois, tornem a falar em crise ministerial, venho sugerir aos meus amigos um pequeno obséquio. Refiro-me
à inclusão de meu nome nas listas de ministérios, que é de costume publicar
anonimamente, com endereço ao imperador.
Há de parecer esquisito que eu, até aqui pacato, solicite uma fineza destas que
tresclara a pura ambição. Explico-me com duas palavras e deixo de lado outras
duas que também podiam ter muito valor, mas que não são a causa do meu pedido.
Na verdade, eu podia comparar a ambição às flores, que primeiro abotoam e
depois desabrocham; podia dizer que, até aqui, andava abotoado. Por outro
lado, se a ambição é como as flores, por que não será como as batatas, que
são comida de toda a gente? E também eu não sou gente? Não sou filho de
Deus? Nos tempos de carestia, a ambição chega a poucos, César ou Sila? Mas
nos períodos de abundância estende-se a todos, a Balbino e a Maximino*. Façam de conta que sou Balbino.
Mas não quero dar nenhuma dessas razões, que não são as verdadeiras causas
do meu pedido. Vou ser franco, vou abrir a minha alma ao sol da nossa bela América.
A primeira coisa é toda subjetiva; é para ter o gosto de reter o meu nome impresso, entre outros seis, para ministro de Estado. Ministro de quê? De qualquer coisa; contanto que o meu nome figure, importa pouco a designação.
Ainda que fosse de verdade, eu não faria questão de pastas, quanto mais não
sendo. Quero só o gosto; é só para ler de manhã, sete ou oito vezes, e andar
com a folha no bolso, tirá-la de quando em quando, e ler para mim, e saborear
comigo o prazer de ver o meu nome designado para governar.
Agora a segunda coisa, que é menos recôndita. Tenho alguns parentes, vizinhos
e amigos, uns na Corte e outros no interior, e desejava que eles lessem o meu nome nas listas ministeriais, pela importância que isso me daria. Creia o leitor
que só a presença do nome na lista me faria muito bem. Faz-se sempre bom juízo de um homem lembrado, em papéis públicos, para ocupar um lugar nos conselhos da coroa, e a influência da gente cresce. Eu, por exemplo, que nunca
alcancei dar certa expressão ao meu estilo, pode ser que a tivesse daí em diante; expressão no estilo e olhos azuis na casa. Tudo isso por uma lista anônima, assinada - Um brasileiro ou A Pátria.
 Não me digam que posso fazer eu mesmo a coisa e mandá-la imprimir, como
se fosse de outra pessoa. Pensam que não me lembrei disso? Lembrei-me;mas
recuei diante de uma dificuldade grave.
Compreende-se que uma coisa destas só pode ser arranjada em segredo, para
não perder o merecimento da lembrança. Realmente, sendo a lembrança do próprio lembrado, lá se vai todo o efeito; para ficar em segredo, era preciso antes de tudo disfarçar a letra, coisa que nuca pude alcançar; e, se uma só pessoa descobrisse a história e divulgasse a notícia, estava eu perdido. Perdido
é modo de falar. Ninguém se perde neste mundo, nem Balbino, nem Maximino.
Eia, venha de lá esse obséquio! Que diabo, custa pouco e rende muito, porque
a gratidão de um coração honesto é moeda preciosíssima. Mas pode render ainda mais. Sim, suponhamos, não digo que aconteça assim mesmo; mas suponhamos que o imperador, ao ler o meu nome, diga consigo que bem podia experimentar os meus talentos políticos e administrativos e inclua o meu nome no novo gabinete. Pelo amor de Deus, não me atribuam a afirmação de um tal
caso; digo só que pode acontecer. E pergunto, dado que assim seja, se não é
melhor ter no ministério um amigo, antes do que um inimigo ou um indiferente?
Não cobiço tanto; contento-me com ser lembrado. Terei sido ministro relativamente. Há muitos anos, ouvi uma comédia, em que um furriel** convidava a outro furriel para beber champagne.
- Champagne! Exclamou o convidado. Pois tu já bebeste alguma vez champagne?
- Tenho bebido...relativamente. Ouço dizer ao capitão que o major costuma bebê-lo em casa do coronel.
Não peço outra coisa; um cálice de poder relativo.

Joaquim Maria Machado de Assis, nasceu no Rio de Janeiro (1839-1908). Foi jornalista, contista (escreveu mais de 200 contos), cronista (mais de 600 crônicas), poeta, romancista e teatrólogo. Foi o fundador da Academia Brasileira de Letras. A crônica acima foi escrita em 20 de abril de 1885.

* Imperadores romanos do início da era cristã.
** furriel era o penúltimo cargo na hierarquia militar do exército no período em que o Brasil foi colônia de Portugal.

  

08/01/2017

"A queimada"



 
Queime tudo o que puder:
as cartas de amor as contas telefônicas
o rol de roupas sujas as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos:
more num covil e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.
 
Ledo Ivo -  Maceió(AL), 1924-2012

05/01/2017

Divagações




As mãos vão se adelgando os dedos vão ficando tortos as linhas vão enviesando os dias vão se tornando noites as noites vão se tornando séculos e todos  vão se transformando num vão:   para frente e para trás num vai e vem infinito enquanto dura a eternidade dos dias;  vão embora sem saírem  do lugar até retrocederem ao riscado das linhas do mapa das mãos pequeninas tateando o chão buscando o equilíbrio do corpo que cai e levanta e cai novamente e se ergue em passos firmes pela vida afora  ziguezagueando caminhos ultrapassando fronteiras vislumbrando arco-íris sob pesadas nuvens bordando a pele delineando uma paisagem de labirintos de dores antigas como uma nuvem invisível que se desfaz ao sabor de cliques digitais que apagam e refazem os sonhos de uma noite em claro no escuro do cinema ao apagar-se uma fantasia em preto e branco. As mãos vão as mãos vêm e veem o corpo dos dedos sibilinos a se enroscarem em palavras e gestos e dores e gemidos e frases soltas e gritos e urros  num traçado destroçado de uma colcha de retalhos cujos fragmentos  espalham –se no chão do papel  de cores indefinidas.


Mãos que acariciam apalpam cortam estrangulam;  mãos sujas mãos lavadas na mesma água tortuosa e tortas como a vida como  nós, os nós que se incrustaram sobre os dedos dos pés que tropeçam entre pedras...devagar de vagar  indo...!

30/12/2016

Só para "matutar"


Quanto mais os homens marcham, mais se afastam do seu objetivo. Gastam
suas forças em vão. Pensam que andam, mas só se precipitam - sem avançar
- no vazio. Isso é tudo.
 
Enrique Vila-Matas, Barcelona 1948- 
 

 
 
 
 
*****
 
 
 
Às vezes parece
que estamos no centro da festa
No entanto
no centro da festa não há ninguém
No centro da festa está o vazio
Mas no centro do vazio há outra festa
 
Roberto Juarroz, Argentina 1925-1995
 


22/12/2016



 
Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

***

Ávidos de ter, homens e mulheres caminham pelas ruas.
As amigas sonâmbulas, invadidas de um novo a mais querer,
Se debruçam banais sobre as vitrines curvas.
Uma pergunta brusca, enquanto tu caminhas pelas ruas.
Te pergunto: E a entranha?
De ti mesma, de um poder que te foi dado
Alguma coisa clara se fez? Ou porque tudo se perdeu
É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma,
Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga,
Tua aventura de ser, tão esquecida?
Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?
 
Teu outro rosto. Único. Primeiro. E encantada
De ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada.
 
***
 
Enquanto faço o verso, tu decerto vives,
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo
 
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouvido de dentro. É outro o amarelo que te falo
Enquanto faço o verso, tu não me lês,
Sorris se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".
Irmão do meu momento: quando eu morrer,
Uma coisa infinita também morre.. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro que o mínimo pedaço de tão vasto
Não cabe no meu canto
 
 
Hilda Hilst - Júbilo, Memória, Noviciado - Da paixão

18/12/2016

"Deficiências"

Surdo é aquele que não tem tempo para ouvir um desabafo de um amigo, ou
o apelo de um irmão, pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.


 
***
 
Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência
de que é dono do seu destino.
 
René Magritte
 
***
 
Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de miséria, e só tem
olhos para seus problemas e pequenas dores.

 
Claire Tabouret
 
***
 
Louco é aquele que não procura ser feliz com o que possui.
 
***
 
Mudo é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da
máscara da hipocrisia.
 
***
 
Paralítico é aquele que não consegue andar na direção daqueles que precisam
de sua ajuda.
 
***
 
Diabético é aquele que não consegue ser doce.
 
***
 
Anão é aquele que não sabe deixar o amor crescer.
 
Mário Quintana ( 1906-1994)


14/12/2016

Matemáticas e Poesia


Esses números que crescem e crescem sem descanso,
0,9, 0,99, 0,999, 0,9999...
aproximando-se cada vez mais da unidade,
acariciando-a sem conseguir tocá-la;
esta sucessão numérica é também poesia.




Joan Miró

 
É como uma rima inacabada e suspensa,
como uma esperança sempre insatisfeita,
como um desejo que nunca se detém,
como um horizonte próximo inalcançável...
 


 
Triângulos, círculos, polígonos,
elipses, hipérboles, parábolas,
soam em nossos ouvidos desde Euclides
como formas geométricas abstratas,
figuras ideais que convivem conosco,
porque também no amor existem triângulos
e no céu se desenha o arco-íris sem compasso.
 


Abraham Palatinick
 
Seguem sempre juntas linguagem e geometria
pois na fala se escondem as elipses,
nos livros sagrados se fala de parábolas
e nos poemas épicos disparam as hipérboles.
Números e formas, imagens e ritmos,
ordem e luz em versos e em teoremas,
com um toque supremo de harmonia,
estão juntos na memória dos tempos,
juntas estais matemática e poesia.
 
Gonzalo Sánchez Vásquez - Sevilha, 1917-1996


09/12/2016

"Diante da lei"

Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e
pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a
entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.
- É possível - diz o porteiro - Mas agora não.
Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe
de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:
- Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu
sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros.

 
 
 
De sala para sala porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro.
Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.



 
O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a
todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de
perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa
barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a
permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao
lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser
admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete
o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal
e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os
grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode
deixá-lo entrar.   
 
 
 
O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega
tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:
- Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.
Durante todos esses anos o home observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a
entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo.
Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se
de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam.
Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível
da porta da lei. Mas já não tem muito tempo de vida. Antes de morrer, todas
as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta
que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa
curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em
detrimento do homem:
- O que é que você ainda quer saber? - pergunta o porteiro. - Você é insaciável
- Todos aspiram à lei - diz o homem. - Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?
O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:
- Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.
 
Franz Kafka ( Praga - 1883-1924)
 
Obs. : todos os desenhos são do autor.


04/12/2016

Os voos de Ronald Polito *

No verdadeiro caminho
 
Voar sem trilhos.
Apalpar através dos véus, dos vidros.
Prender-se à superfície do mundo
desprovido de dedos, dentes, cabelos.
Andar até não conseguir chegar.
Construir um abrigo em labirinto.
Insistir no método difícil da ignorância.
 




 
Câmbio
 
o mar
não tem margem
 
você está sem passagem
em alguma parte dele
tentando ir para
outra parte
 
e se chegar lá
talvez siga viagem
ao ver o mar
à deriva passar
 

 
 
 
Um deus
 
dê-me um minuto
um cajado
um rosto
rotinas para retinas já
então fustigadas
uma cama um dorso
dê-me uma foice
o último terremoto
um touro
o protonauta de neverland
dê-me um sopro

 
 
 
 
* Ronald Polito nasceu em Juiz de Fora (MG) em 1961. É poeta, historiador, tradutor e ensaísta. Tem vários livros de poesia publicados, entre eles Solo, Vaga, Intervalos, De passagem, Terminal. 


27/11/2016

Associações livres


 
 


 
Nós não dominamos o nosso inconsciente
Sigmund Freud
 
Mudez há em demasia. Tantas línguas em tantas bocas desdentadas..., estarão,
ou foram emudecidas? Estará muda a minha, as vossas línguas? A Babel expandiu-se. A diversidade também.
A noite bateu asas, atravessou as janelas do corpo e foi pras calendas do mar...
 
 
Nós não somos o centro do Universo
Galileu
 
 
Paixão não mais! Mais dor, mais consciência de uma enorme pequenez; o que existe por trás dos olhos, quem sabe uma bola de fogo? O mar amarra suas
marés, embalsama a balsa que atravessa os bancos de areia; a chama se inflama, clama, reclama da brasa que se espalha sobre a cama.
Todos pó. Na ponta da língua a agulha que sangra o verbo falar. O vento sopra
frio anunciando a chegada de "novas" palavras, soltas e desconectadas:
sentimentos avulsos são postos à venda no mercado mundial.
Céu azul, marazul; diz-se também ser azul a cor da tristeza, a cor da fome!
Pois não já disseram lá de cima, que a Terra é azul ? A romã não é romana, o
acaso por aqui é raro, por lá é corriqueiro. "Se você tem mais medo da mudança do que da desgraça, o que fará para evitar a desgraça?"
O pensamento é mais rápido do que a velocidade da luz. Glosa, glossário, verbete, palavrário, palavraria: denominações subjetivas - transfugir, transfundir? Transfusão ou confusão? Atresia, oclusão da voz, do verbo...!?