25/08/16

Qual o poder da leitura nestes tempos difíceis?


 
 
Hoje, podemos dizer que o mundo inteiro é um "espaço em crise". Uma crise se estabelece de fato quando transformações de caráter brutal - mesmo se preparadas há tempos, - ou ainda uma violência permanente e generalizada,
tornam extensamente inoperantes os modos de regulamentação, sociais e psíquicos, que até então estavam sendo praticados. Ora, a aceleração das transformações, o crescimento das desigualdades, das disparidades, a exten-
são das migrações alteraram ou fizeram desaparecer os parâmetros nos
quais a vida se desenvolvia, vulnerabilizando homens, mulheres e crianças, de
maneira bastante distinta, de acordo com os recursos materiais, culturais, afe-
tivos de que dispõem e segundo o lugar onde vivem.
[...]
Em tais contextos, crianças, adolescentes e adultos poderiam redescobrir o papel dessa atividade na reconstrução de si mesmos e, além disso, a con
tribuição única da literatura e da arte para a atividade psíquica. Para a vi-
da, em suma. A hipótese parecerá paradoxal em uma época de mutações
tecnológicas na qual é a eventual diminuição da prática da leitura o que
preocupa. Parecerá mais audaciosa, até mesmo incoerente, visto que o gosto
pela leitura e a sua prática são, em grande medida, socialmente construídos.
[...] A leitura é uma arte que se transmite, mais do que se ensina, é o que
demonstram vários estudos. Estes revelam que a transmissão no seio da
família permanece a mais frequente. Na maioria da vezes, tornamo-nos lei
tores porque vimos nossa mãe ou nosso pai mergulhado nos livros quando
éramos pequenos, porque os ouvimos ler histórias ou porque as obras que
tínhamos em casa eram tema de conversa.
 
 
Trechos do livro A arte de ler, da antropóloga francesa Michele Petit pesquisadora do Laboratório de Dinâmicas Sociais do Centre National de la
Recherche Scientifique, na França.

20/08/16

Corpo sem fim



 
alguidar feito de barro saído do ventre da terra cheio de cheiros temperos
sabores diversos
 corpo do chão mater  matéria volátil
 fumacento
 
meu corpo meu chão minha cova meu buraco de tatu meu umbigo
minha terra  um corpo sem palmeiras  flutua ao sabor do vento
que sopra e tem o gosto do balanço das ondas do mar
 
panela de barro onde cabem línguas vísceras dores
 de amores fugazes
gases
rarefeitos verbos intestinos
 labirintos langorosos
 perfumes de gardênias acácias douradas suspensas
 na solidão da floresta
 
meu corpo tua matéria minha razão de existir
da terra brotei a ela voltarei serei verme
 serei grão serei raiz serei pau serei pedra?
serei chão outra vez?
não me perguntem o porquê pois
aqui não mais estarei

13/08/16

O vendedor de histórias



 
A noite está quente, a noite é longa, a noite é magnífica para ouvir histórias, disse o homem que veio sentar-se ao meu lado no muro do pedestal da estátua
de D. José. Estava realmente uma noite magnífica, de lua cheia, quente e mole,
com alguma coisa de sensual e de mágico (...), o Terreiro do Paço estava solitário, um cacilheiro apitou antes de partir, as únicas luzes que se viam no Tejo eram as suas, tudo estava imóvel como num encantamento, eu olhei
para o meu interlocutor, era um vagabundo magro com uns sapatos de tênis e
uma camisola amarela, tinha a barba comprida e era quase careca, devia ter a minha idade ou um pouco mais, ele olhou para mim e levantou o braço num
gesto teatral. Esta é a lua dos poetas e dos contistas, esta é uma noite ideal para ouvir histórias, e para contar também, não quer ouvir uma história? (...)
O homem cruzou as pernas e apoiou o queixo nas mãos com ar meditabundo e disse: precisamos sempre de uma história mesmo parecendo que não. Mas por
que é que você quer me contar uma história?, perguntei, não estou a perceber.
Porque eu vendo histórias, disse ele, sou um vendedor de histórias, é a minha profissão, vendo as histórias que eu próprio invento.
[...]
O vendedor de histórias fez uma pequena pausa e repetiu o seu gesto teatral
com o braço, como se quisesse apanhar a lua. E então?, perguntei. Então, disse
ele, a certa altura pensei que devia escrever as histórias que me vinham visitar,
e assim escrevi dez histórias, uma trágica, uma cômica, uma tragicômica, uma
dramática, uma sentimental, uma irônica, uma cínica, uma satírica, uma fantástica e uma realista, e levei o maço de folhas a uma editora. Encontrei lá
o diretor literário da editora, um senhor muito desportivo que usava jeans e
mastigava chiclete. Ele disse que ía ler tudo, que voltasse lá daí a uma semana.
Voltei uma semana depois e o diretor literário da editora disse-me: Vê-se que
o senhor nunca leu o minimalismo americano, lamento, mas infelizmente falta-
lhe ter lido o minimalismo americano. Eu não me quis dar por vencido e fui a
outra editora. Aí estava uma senhora muito elegante com um lenço ao pescoço,
ela também me pediu para eu voltar daí a uma semana e eu voltei. O senhor tem demasiado plot nas suas histórias, disse-me a senhora elegante, vê-se
perfeitamente que não leu as vanguardas, as vanguardas deram cabo do plot,
meu caro senhor, fazer plot agora é retaguarda. Eu não me quis dar por vencido
e fui a uma terceira editora. (...)Ele pediu-me para eu voltar daí a uma semana e eu voltei. Você não faz ideia do que é o pragma, disse-me o senhor muito
sério, a sua realidade está completamente desintegrada, você precisa é de um psiquiatra. Eu saí e comecei a vaguear pela cidade. O meu consultório estava fechado, já ninguém lá ía, eu estava triste e sem dinheiro, triste sim, mas com uma imensa vontade contar as minhas histórias às pessoas, e assim, comecei a caminhar e pensei: bom, se eu tenho tantas histórias para contar é capaz de haver gente com vontade de as ouvir, a cidade é grande, e assim comecei a
circular pela cidade e a contar histórias, e agora é assim que ganho a minha vida. 
 
 
Trechos do livro Requiem uma alucinação, do escritor italiano Antônio Tabucchi, (Vecchiano, 1943-Lisboa, 2012) autor de Noturno indiano, Afirma Pereira, O tempo envelhece depressa, entre outros.

10/08/16

A face do facebook

Facebook contra o Teatro Oficina: incultura e violência              

Cena de "Os Sertões - a Luta"
Cena de “Os Sertões – a Luta”

Por puritanismo, rede tira do ar página com milhares de textos e imagens, e mais de 30 mil seguidores. Ação, voltada contra corpo feminino, ofende primavera das mulheres
Do coletivo do Teatro Oficina

No domingo de manhã (7), todos os perfis pessoais dos administradores da página oficial do Teatro Oficina, receberam o seguinte comunicado:
“A sua página ”Teatro Oficina Uzyna Uzona” foi removida por violar nossos Termos de Uso. Uma página do facebook é uma presença distinta usada unicamente para fins comerciais ou promocionais. Entre outras coisas, Páginas que incitam o ódio, são ameaçadoras ou obscenas não são permitidas. Páginas que atacam um indivíduo ou grupo ou que são criadas por um indivíduo não autorizado também são removidas. Se a sua Página foi removida por algum dos motivos acima, ela não será reintegrada. A continuidade do uso incorreto dos recursos do Facebook pode resultar em perda permanente se sua conta.”
A página da companhia havia sido retirada do ar na quinta feira (4), pela denúncia anônima de uma foto, publicada em fevereiro, que mostrava uma mulher sem camisa, com mamilos de fora.
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A
administração do Facebook ofereceu a possibilidade de contestação e recomendou que fosse retirado todo o conteúdo que contivesse nudez antes de clicar em “contestar”, advertindo, no ato, a possibilidade de ficarmos sem a página definitivamente.
Esse protocolo foi seguido, apenas para que recebêssemos outro aviso, pedindo que tivéssemos paciência enquanto era analisada a conta.
O resultado, na manhã seguinte (7), foi a extinção da página, com mais de 33 mil curtidas.
Entendemos que o Facebook é uma empresa privada, que possui seus termos de conduta. Mas questionamos o tribunal que interpreta as fotos e fatos como pornografia.
A Oficina Uzyna Uzona existe desde 1958. É a companhia de teatro há mais tempo em atividade ininterrupta do país, sempre renovando sua linguagem estética a partir do tempo presente. O corpo sempre foi protagonista nas encenações.
A nudez, nesses anos de existência, esteve presente sob diversas interpretações: nudez no nascimento de personagens em inúmeros espetáculos; nudez na morte de personagens – como na cena do IML com os cadáveres nus de Celeste, Leleco e Boca de Ouro, na peça de Nelson Rodrigues; a nudez erotizada de Bacantes; a nudez da descoberta do corpo índio em Macumba Antropófaga, quando o público era convidado a tirar a roupa e simplesmente ficar nu, despido das roupas – o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior.
A liberdade do corpo é um dos principais vértices deste trabalho, que é tombado como patrimônio histórico e artístico pelo IPHAN.
Não fazer distinção entre arte, liberdade do corpo e conteúdo pornográfico demonstra uma cultura muito limitada por parte dos gestores da comunidade Facebook.
Com seus mais de 30 mil fãs, a página era um importante canal de comunicação da companhia e de seu espaço — o Teatro Oficina, eleito pelo jornal inglês The Guardian como o melhor teatro do mundo.
A grande maioria dos seguidores era composta pelo público que nos assistiu presencialmente em espetáculos na sede no bairro do Bixiga ou em viagens pelo Brasil e pelo mundo e também formada por grande público virtual que assiste nossas transmissões online.
Além do papel fundamental de divulgação dos espetáculos e eventos do teatro, nesse momento em que cada vez há menos espaço nos jornais impressos dedicados à cultura, nossa página é também um importante canal de difusão de conteúdo de Antropofagia, e dos temas presentes nas montagens.
A retirada da página aconteceu no dia de estreia de Paranoia, espetáculo em que Marcelo Drummond phala a poesia de Roberto Piva, incorporando o poeta. O evento da temporada, que desapareceu com a página, tinha mais de 1000 pessoas confirmadas e interessadas e era uma timeline com conteúdo dedicado a esse poeta, com trechos de poemas, vídeos do autor, imagens relacionadas… Era um canal dedicado ao teatro e à literatura.
O corte seco da censura deflagra uma violência enorme, de pensamento único, contra os próprios corpos, contra a arte, contra a liberdade. Nesse momento onde é viva a primavera feminina e feminista, onde se questiona a cultura do estupro e a liberdade do corpo da mulher, é um retrocesso gigantesco suspender o canal por causa dos mamilos femininos.
Portanto, pedimos ao Facebook que reveja sua posição e coloque no ar novamente a página do Teatro Oficina:
https://www.facebook.com/teatroficina
Enquanto não volta a nossa página, curta o perfil da Universidade Antropófaga, por onde também reverberamos nossos corpos, pensamentos e potências.

Extraído do blog Outras Palavras: http://outraspalavras.net/blog


07/08/16

Áporo


 
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
 
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
 
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
 
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea, forma-se.
 
Carlos Drummond de Andrade

30/07/16

Língua


Cláudia Alexandra Manta
 
Uma colmeia de línguas atravessa a garganta desce esofagicamente por desfiladeiros escorregando pelas grutas verbais, entre serpentes que sinuosamente se escondem em labirintos de braços linguísticos desconhecidos:
língua-de-gato, língua-de-vaca, língua suja, língua de trapos, língua-de-porco,
língua pura, língua podre, língua-pátria, língua preta, ioruba, língua tupi-guarani, amarela, azul e verde, língua árabe, apátrida, afiada, malcriada,
sibilina. Com quantas vozes se faz uma língua? De boca em boca nutre corpos
distorce palavras, desfaz acontecimentos, revela fatos, alimenta ideias e ideais,
difunde opiniões, pensamentos e descobertas; desmancha mentiras, constrói a história dos povos.
Quem você pensa que é?
Quem você pensa que somos?
Abra a boca.
Mostre sua língua, e diga: Ah! Diga B, diga C, diga o que lhe vier à cabeça!
Rasgue o verbo, a gramática normativa, as regras, a censura imposta sub-repticiamente. Solte sua língua, deixe-a voar com os pássaros, atravesse
os oceanos, os vales, as montanhas. Conheça outros falares.
Navegue pelo inesgotável universo da Língua!

24/07/16

William Blake - O Tigre


 
Tigre, tigre que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?
Em que longínquo abismo, em que remotos céus
Ardeu o fogo de teus olhos ?
Sobre que asas se atreveu a ascender ?
Que mão teve a ousadia de capturá-lo ?
Que espada, que astúcia foi capaz de urdir
As fibras do teu coração ?
E quando teu coração começou a bater,
Que mão, que espantosos pés
Puderam arrancar-te da profunda caverna,
Para trazer-te aqui ?
Que martelo te forjou ? Que cadeia ?
Que bigorna te bateu ? Que poderosa mordaça
Pôde conter teus pavorosos terrores ?
Quando os astros lançaram os seus dardos,
E regaram de lágrimas os céus,
Sorriu Ele ao ver sua criação ?
Quem deu vida ao cordeiro também te criou ?
Tigre, tigre, que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão, que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?
 
Tradução de Angelo Monteiro


19/07/16

Diário de um retorno ao país natal (trechos)



 
 
"...E não são unicamente as bocas que cantam, mas
as mãos, os pés, as nádegas, os sexos, e a criatura
 inteira que se liquefaz em sons, voz e ritmo
chegando ao ápice de sua ascensão, a alegria
arrebenta como uma nuvem. Os cantos não param,
mas rolam agora inquietos e pesados pelos vales do
medo, os túneis da angústia e os fogos do inferno.
Cada um põe-se a comer o pão que o diabo mais próximo
amassou até que o medo se desfaça
invisivelmente nos finos areais do sonho, e vive-se
verdadeiramente como num sonho, cochilando também
como num sonho com pálpebras de pétalas de rosa, e
o dia chega aveludado como um sapoti, e o aroma
de chorume dos cacaueiros, e os perus que desfilam
suas pústulas rubras ao sol, e a obsessão dos sinos
e a chuva
os sinos...a chuva
que repicam, repicam...
No fim da madrugada, essa cidade achatada - exposta
 
*
 
Quem e o que somos? Admirável pergunta!
De tanto olhar as árvores tornei-me uma árvore e
meus longos pés de árvore cavaram no solo
largas bolsas de veneno, altas cidades de ossadas
de tanto pensar no Congo
tornei-me um Congo farfalhante de florestas e rios
onde o chicote estala como um grande
estandarte
o estandarte do profeta
onde a água faz
licualá-licualá
onde o raio da cólera lança seu machado esverdeado e
acua os javalis da putrefação na bela orla
violenta das narinas
 
Aimé Césaire, poeta, ensaísta, dramaturgo; nasceu na ilha de Martinica(país do Caribe, colonizado pelos franceses), em 1913 e faleceu em 2008. É considerado um dos maiores poetas da língua francesa do século XX.

13/07/16

William Shakespeare - 4 Sonetos

 
Royal Shakespeare Theater-Stratford-upon-Avon

 
XII
 
Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir no carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.
 
XV
 
Quando observo que tudo quanto cresce
Desfruta a perfeição de um só momento,
Que neste palco imenso se obedece
À secreta influição do firmamento;
Quando percebo que ao homem, como à planta,
Esmaga o mesmo céu que lhe deu glória,
Que se ergue em seiva e, no ápice, aquebranta
E um dia enfim se apaga da memória:
Esse conceito da inconstante sina
Mais jovem faz-te ao meu olhar agora,
Quando o Tempo se alia com a Ruína
Para tornar em noite a tua aurora.
E crua guerra contra o Tempo enfrento,
Pois tudo que te toma eu te acrescento.
 
 
XVIII
 
Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza;
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há de viver meu verso e te dar vida.
 
 
XIX
 
Tempo voraz, ao leão cegas as garras
E à terra fazes devorar seus genes;
Ao tigre as presas hórridas desgarras
E ardes no próprio sangue a eterna fênix.
Pelo caminho vão teus pés ligeiros
Alegres, tristes estações deixando;
Impões-te ao mundo e aos gozos passageiros,
Mas proíbo-te um crime mais nefando:
De meu amor não vingues o semblante
Nem nele imprimas o teu traço duro.
Oh! permite que intacto siga avante
Como padrão do belo no futuro.
Ou antes, velho Tempo, sê perverso:
Pois jovem sempre há-de o manter meu verso.
 
 
William Shakespeare, nasceu em Stratford-upon-Avon(Inglaterra) em
1564 e faleceu em 1616. Apesar dos 400 anos de sua morte, sua obra permanece viva e atual.
 
Tradução de Ivo Barroso

11/07/16

Canto Guarani da Raça Brasil


I

Sou da Raça Brasil
antes e depois
do apagão da história

II

Sou da Raça Brasl
antes e depois
quando tempo d'avô Tupinambá
não tinha "Mercosul"
mas andava
do Ipiranga ao Pará
da Bolívia ao Uruguai,
da Argentina ao Paraguai
língua era franca
mas, Marquês português
neto de pajé bis de africana
de Lisboa proibiu...

III

Sou da Raça Brasil
antes, e depois
quando bandeirante europeu
pegou no laço meu povo.

IV

Sou da Raça Brasil
antes, e depois
quando Áfricos chegaram
acorrentados no corpo e na alma.

V

Sou da Raça Brasil
antes, e depois
do afago dos nossos sangues
guarani, euro e afro
misturados na marra.

VI

Sou da Raça Brasil
antes, e depois
de nossas veias canais
de rios de sangue
Amazonas e Tejos,
Zambeses e Congos das quitandeiras
e de mares mediterrânicos
de pão sírio e pizza marguerita
e outros mais a norte, rios Danúbios
e Renos de Bavieras "Deutschland"
Uberlândia acima de tudo.

VII

Sou da Raça Brasil
antes, e depois
da chegada de outros Iguaçus
mais além de Hokaido
e do golfo de Tonkim
(adiando meu fim)

VIII

Sou da Raça Brasil
antes, e depois
quando espoliado do céu e da terra
(e do nome)
insistem e me chamam indígena ou de índio
(e nem sou da Índia)
meu canto e acalanto é Guarani
e sou da Raça Brasil!



João Craveirinha, escritor e pintor, natural da Ilha de Moçambique. É autor de vários livros, entre os quais "Moçambique, Feitiços, Cobras e Lagartos", "Jezebela - O charme indiscreto dos 40", "A Pessoa de Fernando ignorou a África", "Crônicas da Aldeia Global".