27/11/16

Associações livres


 
 


 
Nós não dominamos o nosso inconsciente
Sigmund Freud
 
Mudez há em demasia. Tantas línguas em tantas bocas desdentadas..., estarão,
ou foram emudecidas? Estará muda a minha, as vossas línguas?
A noite bateu asas, atravessou as janelas do corpo e foi pras calendas do mar...
 
 
Nós não somos o centro do Universo
Galileu
 
 
Paixão não mais! Mais dor, mais consciência de uma enorme pequenez; o que existe por trás dos olhos, quem sabe uma bola de fogo? O mar amarra suas
marés, embalsama a balsa que atravessa os bancos de areia; a chama se inflama, clama, reclama da brasa que se espalha sobre a cama.
Todos pó. Na ponta da língua a agulha que sangra o verbo falar. O vento sopra
frio anunciando a chegada de "novas" palavras, soltas e desconectadas:
sentimentos avulsos são postos à venda no mercado mundial.
Céu azul, marazul; diz-se também ser azul a cor da tristeza, a cor da fome!
Pois não já disseram lá de cima, que a Terra é azul ? A romã não é romana, o
acaso por aqui é raro, por lá é corriqueiro. Se você tem mais medo da mudança do que da desgraça, o que fará para evitar a desgraça?
O pensamento é mais rápido do que a velocidade da luz. Glosa, glossário, verbete, palavrário, palavraria: denominações subjetivas - transfugir, transfundir? Transfusão ou confusão? Atresia, oclusão da voz, do verbo...!?


25/11/16

Bodarrada, poema de Luís Gama



Eu bem sei que sou qual Grilo
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
desta arenga receosos,
hão de chamar-me tarelo,
bode, negro, Mongibe.

Porém eu, que não me abalo,
vou tangendo o meu badalo
com repique impertinente,
pondo a trote muita gente.
Se negro sou, se sou bode,
pouco importa. O que isto pode?

Bodes há de toda a casta,
pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados,
 baios, pampas e malhados,
bodes negros, bodes brancos,
e sejamos todos francos,
uns plebeus e outros nobres,

bodes ricos, bodes pobres,
bodes sábios, importantes,
e também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
marram todos, tudo berra.



Luís Gama - advogado, jornalista, poeta e escritor, nasceu em Salvador (BA) em1830 e faleceu em São Paulo, em 1882 aos 52 anos de idade; era filho de
mãe negra (Luísa Mahin) e de pai branco, que o vendeu quando tinha dez anos de idade. Autodidata, tornou-se famoso por defender a causa dos escravos sem nada cobrar. Um dos raros intelectuais negros no Brasil escravocrata do século
XIX.

22/11/16

ÁFRICA


 
 
Sou negro
Sou Banto
Sou sudanês
Sou gente
Sou pessoa.
Minha Pátria: o mundo
Minha terra: Áfricas.
Tenho identidade
Tenho nome
Nasci do ventre
Nasci gente.
Sou negro
Negro africanidades.
Negro por natureza.
Sou negro
Tenho cultura.
 Tenho história.
Sou negro
Sou pessoa como você.
Sou negro
Você!!!
Negro eu sou
Você eu não sei.
Honro a minha cor
A minha raça.
Negro de verdade,
de lutas,
de história.
Não sou negro de escravidão.
Sou negro de raça,
de vida
Negro de história.
Negro que colonizou o mundo.
NEGRO COM MUITA HONRA.
Negro das Minhas Áfricas
 
Genivaldo Pereira dos Santos


 


19/11/16

Ebulição da escravatura

 


A área de serviço é senzala moderna,
Tem preta eclética que sabe ler "start"
"Playground" era o terreiro a varrer.
 
Navio negreiro assemelha-se ao ônibus cheio
Pelo cheiro vai assim até o fim-de-linha;
Não entra no novo quilombo da favela.
 
Capitão-do-mato virou cabo de polícia,
Seu cavalo tem giroflex (rádio-patrulha).
"Os ferros", inoxidáveis algemas.
 
Ração pode ser o salário mínimo,
Alforria só com aposentadoria
Lei dos sexagenários).
 
"Sinhô" hoje é empresário,
A casa-grande verticalizou-se.
O pilão está computadorizado.
Na última página são "flagrados" (foto digital)
Em cuecas, segurando a bolsa e a automática:
Matinal pelourinho.
 
A princesa Áurea canta,
Pastoreia suas flores.
O rei faz viaduto com seu codinome.
 
Quantos negros? Quanto furor?
Tantos tambores... tantas cores...
O que comparar com cada batida no tambor?
 
A escravidão não foi abolida; foi distribuída entre os pobres.
 
Luís Carlos Oliveira é mineiro, mora em Salvador(BA). É autor do livro de poemas Calo ou falo - Editora Writers, São Paulo, 2000.
 
***
 
Esse pixaim é uma sarna, que não me deixa sossegar!
Ele é um escudo e uma arma - por ele comecei a lutar.
É...ele me assusta e encoraja,
com jeito persistente, rude e firme
ele faz com que eu reaja.
Ele é mesmo uma "mola", eu reconheço,
aquela que me impulsiona
e me incita todos os dias ao recomeço;
que me exime, liberta e redime,
e sempre e sempre me emociona!
Ah, esse pixaim não me dá trégua:
"- Vai nega, vai nega, não se entrega!"
 
 
Lina Efigênia Barnabé Cruz (São Paulo)


12/11/16

Sobre a escova e a dúvida


 
 
II
 
 
A matemática não pôde progredir,
até que os hindus inventassem o zero.
 
O domador de baleias.
 
 
Meu duvidar é da realidade sensível aparente - talvez só um escamoteio das percepções. Porém, procuro cumprir. Deveres de fundamento a vida, empírico modo, ensina: disciplina e paciência. Acredito ainda em outras coisas, no boi, por exemplo, mamífero voador, não terrestre. Meu mestre foi, em certo sentido,
o Tio Cândido.
Era ele pequeno fazendeiro, suave trabalhador, capiau comum, aninhado em meios-termos, acocorado. Mas também parente meu em espírito e misteriousanças. (...) Tinha fé - e uma mangueira. Árvore particular, sua, da gente.
Tio Cândido aprisionara-a num cercado de varas, de meio acre, sozinha ela lá, vistosa, bem cuidada: qual bela mulher que passa, no desejo de perfumada perpetuidade. Contemplava-lhe, nas horas de desânimo ou aperto, o tronco duradouramente duro, o verde-escuro quase assustador da frondosa copa, construída. [...]
Dizia o que dizia, apontava à árvore: - Quantas mangas perfaz uma mangueira, enquanto vive? - isto, apenas. Mais, qualquer manga em si traz, em caroço, o maquinismo de outra, mangueira igualzinha, do obrigado tamanho e formato. Milhões, bis, tris, lá sei, haja números para o infinito. (...)
Daí, um dia, deu-me uma incumbência:
- Tem-se de redigir um abreviado de tudo.
Ando a ver. O caracol sai ao arrebol. A cobra se concebe curva. O mar barulha de ira e de noite. Temo igualmente angústias e delícias. Nunca entendi o bocejo e o pôr-do-sol. Por absurdo que pareça, a gente nasce, vive, morre. Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. Um escrito, será que basta? Meu duvidar é uma petição de mais certeza.
 
João Guimarães Rosa em Tutameia, seu último livro publicado em vida. Guimarães Rosa faleceu poucos meses depois de lançada sua primeira edição,
em 1967.   

07/11/16

Minha tristeza de porcelana

Kate Macdowell


Minha tristeza de porcelana, minha tristeza
de todos os momentos, disse: queres casar comigo?
Hoje estás tão esquiva e tão vulgar,
tão cotidiana, tão humana,
minha pobre tristeza.
Ouve: quero beijar-te toda;
beijar-te dos pés à cabeça,
doidamente, num arrepio
E possuir o teu pequeno corpo,
teu frágil e pequenino corpo,
onde escondes uma alma tiritante de frio.
Minha tristeza de porcelana,
és como um vaso chinês, onde floresce, longo,
o lírio artificial da minha dor.
Se alguém te esfacelasse.
se alguém, um pobre alguém,
te apertasse entre os dedos,
e eu te perdesse,
que seria de mim?
Não tenho o luxo dos prazeres ricos,
não tenho o dinheiro que é preciso
para vestir a minha alma um pijama de seda
com que ela passeia o seu tédio na alameda
vazia e branca da minha vida.
Vê, eu só tenho dois olhos
para te olhar, minha tristeza;
só tenho duas mãos para apertar as tuas mãos.
 
Carlos Drummond de Andrade


03/11/16

Palavras tiradas de uma ilha para criptografar na "nuvem"





Não dominamos o nosso inconsciente
 
Sigmund Freud
 
Trans
 
parecer formar portar bordar correr sexualizar ferir figurar fundir
mutar pirar plantar passar por tornar vasar fugir fundir fusão;
transcender trancrever transitar transgredir transir transmitir transviar
transigir... 

29/10/16

Graciliano Ramos: escritor & leitor



 
O escritor é o guardião do repertório das histórias que o povo conta e vive, mas é antes de tudo o guardião da língua de que se serve este povo para contar as histórias do passado e as histórias que os acontecimentos de hoje (em todo o território nacional) fabricam. Numa sociedade complexa como a nossa, seria muito simples se o escritor fosse só o contador de histórias. Ele deve preservá-las, passá-las adiante, mas é responsável pela língua que as gravou. Para isso, é preciso que alargue as suas próprias possibilidades de fabricar uma linguagem, entrando por formas linguísticas que não possui, que não comanda. É assim que acaba por ter acesso ao coletivo da língua e à ficção do outro. Abrindo fronteiras, desbravando território estranho. Ganha, passa, recupera.
[...] Assim como o escritor se interessa pelo alargamento das suas fronteiras linguísticas, também o leitor tem de trabalhar nesse sentido se quiser acompanhar o romancista, lendo sua obra. Dessa forma terá acesso a um pensamento diferente do seu. Terá um melhor conhecimento do outro, do intricado funcionamento da sua cabeça e da maneira como fabrica soluções e problemas. Tudo isso sem a interferência de uma única subjetividade individual ou de classe. [...]
O leitor de jornal (ou de romance espontâneo) não quer fazer esforço algum quando lê. Contenta-se em absorver a escrita de um outro como se fosse um papel mata-borrão. Deixa-se guiar apenas pelas faculdades da memória e não pelas da reflexão. Este leitor tem uma visão fascista da literatura. Fascismo não é apenas governo autoritário e forte, de preferência militar, que deixa que se reproduzam, sem contestação, as forças econômicas da classe dominante. Fascismo existe todas as vezes em que o ser humano se sente cúmplice e súdito de normas. Amolecem o cérebro, espreguiçam os músculos, soltam a fibra.
(...) A verdadeira leitura é uma luta entre subjetividades que afirmam e não abrem mão do que afirmam, sem as cores da intransigência. O conflito romanesco é, em forma de intriga, uma cópia do conflito da leitura. Ficção só existe quando há conflito, quando forças diferentes digladiam-se no interior do livro e no processo da sua circulação pela sociedade. Encontrar no romance o que já se espera encontrar, o que já se sabe, é o triste caminho de uma arte fascista, onde até mesmo os meandros e os labirintos da imaginação são programados para que não haja a dissidência de pensamento.
 
Extraído de Em liberdade, escrito por Graciliano Ramos quando saiu da prisão em 1937, revisto e datilografado em 1946, e entregue a um amigo (não mencionado). Em 1952 o autor pediu ao amigo que queimasse o que havia escrito, pedido evidentemente não atendido. O escritor, poeta e ensaísta Silviano Santiago (Formiga(MG) - 1936) que editou e publicou esse diário, intitulou-o de ficção, mesmo baseando-se num trabalho de rigorosa pesquisa e na realidade factual. Além dessa obra, Silviano é autor de Uma literatura nos trópicos (ensaio), Crescendo durante a guerra numa província ultramarina,(poesia), Ensaios antológicos, entre outros. 

25/10/16

A função do escritor - Anton Tchekhov

Que o mundo «está infestado com a escória do gênero humano» é perfeitamente verdade. A natureza humana é imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura é separar o trigo do joio é rejeitar a própria literatura. A literatura artística é assim chamada porque descreve a vida como realmente é. O seu objetivo é a verdade - incondicional e honestamente. O escritor não é um confeiteiro, um negociante de cosméticos, alguém que entretém; é um homem constrangido pela realização do seu dever e  sua consciência. Para um químico, nada na terra é puro. Um escritor tem de ser tão objectivo como um químico.
Parece-me que o escritor não deveria tentar resolver questões como a existência de Deus, pessimismo, etc. A sua função é descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.
Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundem duas coisas: resolver um problema e enunciar corretamente um problema. Para o artista, só a segunda cláusula é obrigatória.
Acusam-me de ser objetivo, chamando-me de indiferente em relação ao bem e ao mal, falta de ideias e ideais, etc. Querem que, ao descrever ladrões de cavalos,  diga: «Roubar cavalos é mau». Mas isso é sabido há séculos sem que eu tenha de dizê-lo.  Deixem que um júri os julgue; a minha tarefa é simplesmente mostrar que gênero de pessoas são. Escrevo: estão a lidar com ladrões de cavalos e, assim, deixem-me dizer-lhes que não são mendigos, mas gente bem alimentada que segue um culto especial e que roubar cavalos não é simplesmente roubo, mas uma paixão. Claro que seria agradável combinar arte com sermões, mas, quanto a mim,  é impossível,  por questões técnicas. Para descrever ladrões de cavalos em setecentas linhas, tenho de falar, pensar e sentir à maneira deles. De outro modo, a história não será tão compacta como os contos deveriam ser. Quando escrevo, conto inteiramente com o leitor para que este acrescente os elementos subjetivos que faltam na história.
 
Anton Tchekhov, era médico, dramaturgo e escritor. Nasceu em 1860 em Taganrov, na Rússia e faleceu em 1904 na Alemanha. Deixou-nos uma vasta obra literária abrangendo peças teatrais e inumeráveis contos. Entre suas peças mais conhecidas podemos mencionar O jardim das cerejeiras, A gaivota, As três irmãs. Entre os inúmeros contos estão O beijo, A dama do cachorrinho, A arte da simulação, O escritor, O espelho, A morte do funcionário, Um homem extraordinário, Enfermaria número seis, e muitos outros.

21/10/16

Uma crônica de Rubem Braga

Lembrança de Guignard
 
 
 
 
 
 
 


 
As pessoas retratadas por Alberto da Veiga Guignard têm um certo ar de família, alguma coisa que as liga - não importam cor, idade, classe. E já vi,
em fila de cinema, em festinha de família, em cabaret do interior, em solenidade escolar - já vi pessoas que parecem retrato de Guignard.
Esse ar de família só pode ser uma certa candura, uma insistente infância, alguma coisa que é Guignard e que banha numa luz especial tudo o que ele vê ou inventa. E suas flores e suas paisagens combinam com suas figuras. Aquela cabocla retratada ali, de blusa vermelha, pode rezar naquela igrejinha que está no alto do morro em outro quadro; e, com certeza, reza. E está tão integrada na paisagem ingênua do interior que o artista, amorosa e gentilmente, acabou enfeitando sua blusa com duas palmeiras.
Guignard nasceu em Nova Friburgo (fevereiro, 1896) e foi menino para Petrópolis, onde estudou no Franco-Brasileiro e morava numa daquelas casas de pé-direito alto, com varanda e escada, gradil e portão, jardim e quintal - e um avô de longas barbas brancas e os tios Carvalhais que vinham almoçar aos domingos, e uma certa menina de chapéu de palha com fita que o nosso menino amou em segredo, e sua mãe, sua irmã, seu pai, que um dia morreu ali. Foi então (tinha um avô francês) lavado para a Suíça e França - morou em uma bela casa tirolesa de madeira, perto de Zurique, morou no sul da França, onde
começou a estudar Agronomia...
Mas o menino só gostava de desenhar. Então mandaram ele aprender desenho -
mas não, meu Deus do céu, como se aprende nessas escolas vigaristas de hoje
em dia, mas aprender deveras, ali no castigo, fazer pé, fazer mão, fazer flor. E
pintura, e gravura; terminou seu curso em Florença, e expôs em Veneza, na Suíça, em Paris, amou, foi feliz, foi infeliz, separou, juntou, sofreu; em 1925 estava enjoado da arte acadêmica, foi deixando seu lirismo correr solto, como
se estivesse pintando por música.
Em 1929, veio para o Brasil, ganhou prêmios, ensinou, morou em Copacabana
em Itatiaia, redescobriu o Brasil e descobriu Minas, e contou tudo isso - a gente, as casas, as montanhas, as flores, as igrejas, as festas de São João - na arte mais autêntica, mais simples, mais feliz que já se fez neste país.
Um amigo encontrou-o um dia em Ouro Preto, ele parece que tinha tomado umas e outras, disse: "Belas moças aqui, lindas moças..."
Com o mesmo lirismo puro do menino de Petrópolis, 1905.
 
Publicada no Diário de Notícias - 2 de setembro de 1969