26/03/2017

Rasgão antipoético

Alberto Giacometti


todos líricos, todos poeira poética que ao nascer já caminhamos para a morte: somos todos trágicos; tentamos consertar o concerto da vida cuja partitura que
nos apresentam, cartesianamente, executamos uma sinfonia carnavalesca
para não despencarmos do arame para o abismo da insensatez e da insanidade
mental.
 
***
 
a água molda pedras
o tempo desenha e remodela corpos
os olhos vislumbram imagens fantasmagóricas
ocultas sob a fímbria de pensamentos
velozes são os cavalos
com suas franjas esgarçadas
suas ancas selvagemente sensuais
os palhaços já não choram riem à larga
no picadeiro os cavalos são amestrados
para o funeral dos mortos-vivos
seus amestradores costumam
alimentar a ilusão de que
sairão vitoriosos...


20/03/2017



 
que faria eu sem este mundo sem rosto sem perguntas
onde o ser não dura mais que um instante
onde cada instante transforma em vazio a ignorância de ter sido
sem esta vaga onde finalmente corpo e sombra se entranham
que faria eu sem este silêncio onde murmúrios morrem
ofegando fremindo por amparo rumo ao amor
sem este céu que se eleva acima do pó da sua gravilha
que faria eu que fui ontem hoje
espreitando da minha escotilha em busca de alguém
a criar e a girar alheio à vida num espaço convulso
sem voz entre as vozes encerradas em mim.
 
 
Samuel Becktt, nasceu na Irlanda em 1906 e faleceu em 1989; escritor,
poeta e dramaturgo. 

16/03/2017

O pastel e a crise



 
Quando a crise convida ao pessimismo ou ameaça descambar na depressão, está na hora de ler. Poesia ou prosa, tanto faz. A partir de certa altura, bom mesmo é reler. Reler sobretudo o que nunca se leu, como repeti outro dia a
um amigo que não é chegado à leitura. Ele mergulhou no Proust sem escafandro e se sente mal quando vem à tona e respira o ar poluído aqui de fora.
Verdadeiro sábio era o Rubem Braga. Tinha com a vida uma relação direta, sem
intermediação intelectual. Houvesse o que houvesse, trazia no coração uma medida de equilíbrio que era um dom de nascença, mas era também fruto do
aprendizado que só a experiência dá. No pequeno mundo do cotidiano, sabia
como ninguém identificar as boas coisas da vida. E assim viveu até o último
instante.
Certa vez, no auge de uma crise, crivada de discursos e de diagnósticos, o
Rubem estava de olho nas frutas da estação. Madrugador, cedinho já sabia
das coisas. Quando o largo horizonte nacional andava borrascoso, ele se punha
a par das nuvens negras, mas não mantinha o olhar fixo no pé-direito alto da
crise. Baixava o olhar ao rodapé, pois o sabor do Brasil está também no rés do
chão. Num dia de greve geral, inquietações no ar, tudo fechado, o Rubem me
telefonou: Vamos ao bar Luís, na rua da Carioca? Vamos ver a crise de perto.
E lá fomos. O bar estava aberto e o chope, esplêndido. Começamos por um
preto duplo, que a sede era forte. Depois mais um, agora louro. E outro. Claro
que não faltou o salsichão com bastante mostarda. Calados, mas vorazes, cumpríamos um rito. Alguém por perto disse a Vila Militar tinha descido com os
tanques. Saímos dali e fomos a um sebo. O Rubem comprou Xanã, de Carlos
Lacerda, com dedicatória. Depois pegamos o carro e voltamos pelo Aterro, onde se pode exercer o direito da livre eructação. Tinha sido um perfeito programa
cultural. E sem nenhum incentivo do governo.
Vi agora na televisão que o maracujá está em baixa e me lembrei do velho Braga. Nem tudo está perdido. Fui à feira e comprei também dois suculentos abacaxis. Caem bem nesta hora de atribulação nacional. Só falta agora descobrir um bom pastel de palmito na Zona Norte. Se o Rubem estivesse aí,
lá iríamos nós atrás da deleitosa descoberta. Depois, de cabeça erguida, enfrentaríamos a crise e até o caos.
 
 
Otto Lara Resende, 1922-1992, São João del Rei(MG), jornalista e escritor.

13/03/2017

Um conto de Clarice Lispector *




 
 
Uma galinha
 
 
 
Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nuca se adivinharia nela um anseio.
Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto voo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou - o tempo da cozinheira dar um grito - e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro voo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado, onde esta hesitante e trêmula escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.
Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo
como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas
que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se      fora
a mesma.
Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a.
Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.
Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração
tão pequeno num prato solevava e abaixava as penas enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento despregou-se do chão e saiu aos gritos:
- Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
- Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
- Eu também! jurou a menina com ardor.
A mãe, cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que
a obriguei a correr naquele estado!". A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos,
usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga - circulava pelo ladrilho,
o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e  vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recostara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos
enchia os pulmões com o ar impuro de cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso,
quando deu à luz ou bicando milho - era uma cabeça de galinha, a mesma que
fora desenhada no começo dos séculos.
Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.
 
 
Conto escrito em 1960, publicado em Laços de Família - Rocco, 1998.


10/03/2017

Prometeu - Wolfgang von Goethe

Prometeu, de Peter Paul Rubens

 
Prometeu

Encobre o teu céu, ó Zeus,
Com vapores de nuvens,
E, qual menino que decepa
A flor dos cardos,
Exercita-te em robles e cristas de montes;
Mas a minha Terra
Hás-de-ma deixar,
E a minha cabana, que não construíste,
E o meu lar,
Cujo braseiro
Me invejas.

Nada mais pobre conheço
Sob o sol do que vós, ó Deuses!
Mesquinhamente nutris
De tributos de sacrifícios
E hálitos de preces
A vossa majestade;
E morreríeis de fome, se não fossem
Crianças e mendigos
Loucos cheios de esperança.

Quando era menino e não sabia
Pra onde havia de virar-me,
Voltava os olhos desgarrados
Para o sol, como se lá houvesse
Ouvido pra o meu queixume,
Coração como o meu
Que se compadecesse da minha angústia.

Quem me ajudou
Contra a insolência dos Titãs?
Quem me livrou da morte,
Da escravidão?
Pois não foste tu que tudo acabaste,
Meu coração em fogo sagrado?
E jovem e bom — enganado —
Ardias ao Deus que lá no céu dormia
Tuas graças de salvação?!

Eu venerar-te? E por quê?
Suavizaste tu jamais as dores
Do oprimido?
Enxugaste jamais as lágrimas
Do angustiado?
Pois não me forjaram Homem
O Tempo todo-poderoso
E o Destino eterno,
Meus senhores e teus?

Pensavas tu talvez
Que eu havia de odiar a Vida
E fugir para os desertos,
Lá porque nem todos
Os sonhos em flor frutificaram?

Pois aqui estou! Formo Homens
À minha imagem,
Uma estirpe que a mim se assemelhe:
Para sofrer, para chorar,
Para gozar e se alegrar,
E pra não te respeitar,
Como eu!”

Tradução de Paulo Quintela



Prometheus

Bedecke deinen Himmel, Zeus,
Mit Wolkendunst,
Und übe, dem Knaben gleich,
Der Disteln köpft,
An Eichen dich und Bergeshöhn;
Mußt mir meine Erde
Doch lassen stehn
Und meine Hütte, die du nicht gebaut,
Und meinen Herd,
Um dessen Glut
Du mich beneidest.

Ich kenne nichts Ärmeres
Unter der Sonn als euch, Götter!
Ihr nähret kümmerlich
Von Opfersteuern
Und Gebetshauch
Eure Majestät
Und darbtet, wären
Nicht Kinder und Bettler
Hoffnungsvolle Toren.

Da ich ein Kind war,
Nicht wußte, wo aus noch ein,
Kehrt ich mein verirrtes Auge
Zur Sonne, als wenn drüber wär
Ein Ohr, zu hören meine Klage,
Ein Herz wie meins,
Sich des Bedrängten zu erbarmen.

Wer half mir
Wider der Titanen Übermut?
Wer rettete vom Tode mich,
Von Sklaverei?
Hast du nicht alles selbst vollendet,
Heilig glühend Herz?
Und glühtest jung und gut,
Betrogen, Rettungsdank
Dem Schlafenden da droben?

Ich dich ehren? Wofür?
Hast du die Schmerzen gelindert
Je des Beladenen?
Hast du die Tränen gestillet
Je des Geängsteten?
Hat nicht mich zum Manne geschmiedet
Die allmächtige Zeit
Und das ewige Schicksal,
Meine Herrn und deine?

Wähntest du etwa,
Ich sollte das Leben hassen,
In Wüsten fliehen,
Weil nicht
alle Blütenträume reiften?

Hier sitz ich, forme Menschen
Nach meinem Bilde,
Ein Geschlecht, das mir gleich sei,
Zu leiden, zu weinen,
Zu genießen und zu freuen sich,
Und dein nicht zu achten,
Wie ich!

Wolfgang von Goethe, Frankfurt am Main (Alemanha) 1749-1832) 

08/03/2017

Noémia de Sousa - BASTA !

 


“Bates-me e ameaças-me
Agora que levantei minha cabeça esclarecida
E gritei: “Basta!” (…) Condenas-me à escuridão eterna
Agora que minha alma de África se iluminou
E descobriu o ludíbrio  E gritei, mil vezes gritei: _Basta!”.
Armas-me grades e queres crucificar-me
Agora que rasguei a venda cor-de-rosa
E gritei: “Basta!”
 
Condenas-me à escuridão eterna Agora que minha
alma de África se iluminou E descobriu o ludíbrio..
E gritei, mil vezes gritei: _Basta!_
 
Ò carrasco de olhos tortos,
De dentes afiados de antropófago
E brutas mãos de orango:
 
Vem com o teu cassetete e tuas ameaças,
Fecha-me em tuas grades e crucifixa-me,
Traz teus instrumentos de tortura
E amputa-me os membros, um a um…
 
Esvazia-me os olhos e condena-me à escuridão eterna… –
que eu, mais do que nunca,

Dos limos da alma,
Me erguerei lúcida, bramindo contra tudo: Basta! Basta! Basta!”



 Esse poema faz parte da coletânea de poemas "Sangue negro" (1990), que obteve uma reedição em 2011 pela editora Marimbique, com o objetivo de resgatar a obra poética e de luta da autora. 

 


Se me quiseres conhecer

Se me quiseres conhecer,
estuda com os olhos bem de ver
 esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde
de mãos inspiradas talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.

Ah, essa sou eu:
órbitas vazias de possuir a vida,
boca rasgada em feridas de angústia,
mãos enormes, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
pelos chicotes da escravatura...
Torturada e magnífica,

altiva e mística
África da cabeça aos pés,
-ah, essa sou eu:

se quiseres compreender-me
vem debruçar-te sobre minha alma de África,
nos gemidos dos negros no cais
nos batuques frenéticos dos muchopes
na rebeldia dos machanganas
na estranha melancolia se evolando
duma canção nativa, noite dentro...

e nada mais me perguntes,
se é que me queres conhecer...
Que não sou mais que um búzio de carne,
onde a revolta de África congelou
seu grito inchado de esperança.


Noémia de Sousa nasceu em Lourenço Marques, atualmente Maputo, capital de Moçambique, em 1926, e faleceu em 2002, na cidade de Cascais, Portugal.


04/03/2017

Queixa de defunto *


Estação do Méier em 1923

 
Antônio da Conceição, natural desta cidade, residente que fui em vida, na Boca do Mato, no Méier, onde acabo de morrer, por meios não posso tornar público, mandou-me a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la.
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um
pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nuca exerci ou pretendi exercer isso que se chama os idreitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os tivesses para eu lustrar e eu não.
Não fui republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem em cousa alguma de reivindicações e revoltas; mas morri na santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.
Toda a minha vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de minha morte um sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas que pressenti pelo pensamento, graças à doutrinação das seções católicas dos jornais.
Nuca fui ao espiritismo, nunca fui aos "bíblias", nem a feiticeiros, e apesar de ter tido um filho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros nem médiuns.
Vivi uma vida santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem pronunciadas com toda eloquência em galego ou vasconço.
Segui-as, porém, com todo o rigos e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz depois de minha morte. Morri afinal um dia destes. Não descrevo as cerimônias porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. É bom, meu caro Senhor Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morrer nela. Não se levam para a cova maldições dos parentes e amigos deserdados; só carregamos lamentações e bênçãos daqueles a quem não pagamos mais a casa.
Foi o que aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar alguns anos ainda.
Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanhamento tiveram que atravessar em toda a extensão a Rua José Bonifácio, em Todos os Santos.
Essa rua foi calçada há perto de cinquenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e larguras, por ela afora. Dessa forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que por ela rola sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto.
Comigo não aconteceu isso, mas o balanço violento do coche machucou-me muito e cheguei diante de São Pedro cheio de arranhaduras pelo corpo. O bom do velho interpelou-me logo:
- Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem-comportado - como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto?
Expliquei-lhe, mas não me quis atender e mandou que me fosse purificar um pouco no inferno.
Está aí como, meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora tenha tido a vida mais santa possível. Sou, etc., etc.
Posso garantir a fidelidade da cópia a aguardar com paciência as providências da municipalidade.
 
 
Lima Barreto (1881-1922)
 
 
* O bairro do Méier, no Rio de Janeiro, foi, no século XVIII, um engenho de cana-de-açúcar de propriedade dos padres jesuítas, que escravizavam os negros para o cultivo da cana e a extração do açúcar. Em 1760 foram expulsos pelo Marquês de Pombal sob as ordens da coroa portuguesa. Em 1884, D. Pedro, então imperador do Brasil, doou uma parte daquelas terras para o amigo Augusto Estrada Meyer, conhecido por camarista Meyer, (descendente de alemães),devido ao livre acesso que possuía às Câmaras do Palácio Imperial. Em sua homenagem o bairro passou a ter o seu nome. Posteriormente a população aportuguesou seu sobrenome passando a ser conhecido como Méier.  

25/02/2017

De Paulo Mendes Campos - Para Maria da Graça



 
Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha:" Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história da gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a tua resposta: o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira. A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem queres) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes consequências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem o bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: Oh, I beg your pardon". Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou á Alice: Gostarias de gato se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.  
 Disse o ratinho: "A minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo" Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar o humor: uma caixa grande par o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em  que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

 
Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte(MG) em 1922 e faleceu no Rio de Janeiro em 1991. Cronista, poeta, tradutor e jornalista; é autor de A palavra escrita, Cisne de feltro, Brasil brasileiro.



21/02/2017

S.O.S. Brasil !



 
Patos perus galinhas galináceos em geral, todos os bípedes de penas, avoantes (ou não) e Poetas, protejam-se, porque raposas, gaviões, urubus e abutres, animais peçonhentos de todas as espécies sub-humanas  foram soltos para devorá-los  vivos, e em cores!

07/02/2017

Da singualridade da palavra "ovo"



 
[.....]
 
 
Virou-se, então, para o quadro e traçou, com uma caligrafia extremamente segura para quem estivera trêmulo havia até bem pouco, em maiúsculas, a palavra ovo.
[...] Voltando a encarar a turma, com a simpatia de quem profetizava um bom
relacionamento com ela durante o curso, disse:
"Na palavra ovo, em nossa língua, mais do que em qualquer outra língua ou palavra, encontra-se em sua plenitude concreta a imagem do seu referente, a entidade que ela expressa, ou seja, o próprio ovo, de forma a mais ampla possível. Não só por conter, por duas vezes, no vão da letra O, principalmente quando em maiúscula, a figura do ovo, como pelo fato de que, circularmente, a palavra pode ser lida de frente para trás ou de trás para diante sem qualquer perda de forma e substância, num acabamento fechado e perfeito, correspondendo ao do próprio ovo. Podemos chamar a atenção, também, para este vértice e vórtice da letra V, como uma abertura e ligação, um cordão umbilical, penetrando no interior deste receptáculo da própria vida."
Os alunos cochichavam entre si e ele pediu gentilmente silêncio, pois ainda havia algo mais:
"A coisa, porém, não permanece aí. Porque ao pronunciarmos a mesma palavra ovo", e ele a pronunciou por três vezes: ovo, ovo, ovo, "deparamos com a surpresa ainda maior de que ela contém, também oralmente, o desenho acústico do ovo, não igual a simples onomatopeia, mas a um verdadeiro ideograma sonoro, como se os criadores da língua latina, ao elegerem o vocábulo ovu para tal substância e sua forma, se encontrassem acometidos do gênio da onomatbesia grega, ou a capacidade de dar nome às coisas de acordo com a sua natureza. Só que no caso da escrita, faltou-lhes esse arredondamento final do segundo O, como se deixassem escapar, no último momento, algo desta forma e substância. Sua verdadeira gema.
[.....]
Já em português, a palavra é revestida de uma acústica de ecos infinitos e circulares, um sonar nas profundezas, e, se a entoarmos incessantemente, será como uma invocação, um mantra, como o Om, Om, Om dos indianos, religando-nos através do verbo ao verbo primeiro e ao todo de onde se originou e do qual se afastou, restabelecendo o elo com o indiferenciado, o caos, negro ou branco,
o útero, a origem, o átomo primeiro, o ovo cósmico, enfim!

Extraído do conto A aula, de Sérgio Sant'Anna (Rio de Janeiro, 1941), autor de O sobrevivente, O voo da madrugada, O homem-mulher, O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro; recebeu quatro vezes o prêmio Jabuti.