25/09/16

Posso, Marcantonio? *

Teoria das cores

 
 
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o
peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó
desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário
o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a
chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora
lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho
o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do
real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exatamente quando assentava na sua
fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
 
Herberto Helder, Funchal 1930-Cascais 2015. Os passos em volta
 
* Peço desculpas ao pintor, poeta e editor do azultemporario.blogspot.com.br, por antecipar-me a sua permissão publicando esta sua tela, que considero belíssima! 


18/09/16

Fragmentos de delírios

Do nada ao sem fim restaram terras de esquecimento inundadas pela impetuosidade do mar da ignorância; da solidão surgiu o farol do conhecimento
abrindo portas descerrando as cortinas da hipocrisia e da superstição.

 
 

 
 
Do silêncio da mata ouço a voz que está perdida em agonia; o ronco surdo da terra mistura-se ao silêncio formando lagos, lagoas-lágrimas, blocos de vocábulos, geleiras de palavras, nuvens de parágrafos suspensos na imensidão
da selva. Um abelhume de línguas atravessa minha garganta descendo por desfiladeiros, escorregando pelas grutas verbais entre serpentes que sinuosamente se escondem em labirintos de braços linguísticos desconhecidos.
 
 
 
A noite misturou-se ao dia e já não sei mais qual a profundidade de minhas pálpebras; meus dedos tortos, teu nariz siliconado e adornado com piercing,
farejam mãos avulsas que dançam no salão oval da catedral ao som de uma canção à capela; várias palavras caminham aleatoriamente. O sono, que propiciava o encantamento para o sonho, agora só aparece através dos barbitúricos.


 
À noite meu pensamento é pólvora que explode em polvorosa; quando nasce
o dia torna-se pó, fica impalpável, placidamente plástico como um cipó de
bambu, que enverga com o vento, mas permanece de pé...
 
A roda roda porque sua natureza é giratória e espiralada, infinita. Se andamos em círculo é porque estamos viciados, estagnados. "Se o homem das cavernas
soubesse no que isso ía dar, nem teria saído de lá".
Como dizia Antonio Machado, (1875-1939) "no mar da mulher poucos naufragam à noite, muitos ao amanhecer".


15/09/16

Da atualidade dos Antigos


"Mundus vult decipi, ergo decipiatur" ou O mundo quer ser enganado, portanto, que o seja!

 
 
Onde o ouro é todo-poderoso, de que servem as leis?
Se não tem dinheiro, o pobre perde seus direitos.
O cínico, que é tão frugal e severo em público,
secretamente negocia com a verdade.
Até mesmo Têmis se vende e, em seu tribunal,
a balança pende conforme o vil metal.


 
 
 
Diante de cabeças sem cérebro, não se pode falar razoavelmente. Como observou Cícero, (106a.C.-44a.C.) se o ensino não é agradável, "o professor logo ficará sem ouvintes". Da mesma forma, se o adulador parasita quer ser admitido à mesa do rico, prepara previamente uma seleção de contos agradáveis para os convivas; não atingiria seu objetivo se não preparasse armadilhas para os ouvidos de sua audiência. O professor de retórica, como
o pescador, sabe muito bem que se não puser no anzol a iscca preferida pelo peixe, ficará sentado toda vida no rochedo, sem esperança de fisgá-lo.
 
 
 
Para a água desejada, ou para um fruto próximo,
Tântalo estende sempre a boca ou a mão:
mas o fruto, rebelde à mão que o toca,
recua sempre, e a água traiçoeira foge-lhe da boca.
É isso o que ocorre com o avaro cercado de ouro.
Só bebe com os olhos, só com os olhos come...
Pobre insensato! Para pagar esse estranho banquete,
morres de fome agarrado ao teu cofre!
 
 
Trechos de Satíricon, escrito por volta de 60 d.C. por Petrônio (Caio Petrônio Árbitro - 27-66 d.C.). De família aristocrática e rica, foi governador e cônsul de Petínia(atual Turquia) e conselheiro do imperador romano Nero.


09/09/16

Discurso da servidão voluntária (trechos)

 
Hyeronimus Bosch - Jardim das delícias(detalhe)

Muito se engana quem pensa que os guardas e a disposição das sentinelas
protegem o tirano. Creio que esse recurso é utilizado mais por uma questão de formalidade do que de confiança. Os arqueiros proíbem a entrada no palácio
aos mal vestidos que não têm recursos, não aos bem armados que podem praticar algum mal. Não são os bandos de gente a cavalo, as pessoas a pé ou as armas que defendem o tirano. São sempre quatro ou cinco que mantém o tirano - quatro ou cinco que o ajudam a conservar o país inteiro servil. Sempre
foi assim: cinco ou seis são ouvidos pelo tirano e dele aproximam-se ou são por ele chamados para serem cúmplices de suas crueldades, os parceiros dos seus
prazeres, os proxenetas de suas volúpias e sócios dos bens provenientes de suas pilhagens. (...). Esses seis têm seiscentos que crescem abaixo deles e fazem de seus seiscentos o que os seis fazem ao tirano. Esses seiscentos conservam debaixo deles seis mil, cuja posição elevaram, aos quais fazem dar ao governo das províncias o manejo do dinheiro para que tenham na mão sua
avareza e sua crueldade, exercendo-as no momento oportuno.(...) Grande é
o séquito que vem depois, e quem quiser divertir-se desmanchando essa rede
não verá os seis mil, mas os cem mil, os milhões que através dessa corda agarram-se ao tirano. (...) Em suma: que se chegue lá através de favores ou subfavores, os ganhos que se tem com o tirano; ocorre que ao final há tanta gente para quem a tirania é proveitosa quanto para aqueles para quem a liberdade seria fundamental.
 
Etienne de La Boétie, (1530-1563) poeta e filósofo francês que faleceu aos trinta e dois anos de idade, deixando sua obra para Michel de Montaigne, ((1533-1592) seu grande amigo, autor de "Os ensaios". 


30/08/16

NÃO TE RENDAS (!)



 
Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos
largar o lastro
retomar o voo.
 
Não rendas que a vida é isso
continuar a viagem
perseguir os teus sonhos
destravar os tempos
arrumar os escombros
e destapar o céu.
 
Não te rendas por favor, não cedas
ainda que o frio queime
ainda que o medo morda
ainda que o sol se esconda
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida em teus sonhos
 
Porque a vida é tua e teu também é o desejo
porque o quiseste e eu te amo
porque existe o vinho e o amor
porque não existem feridas
 que o tempo não cure.
 
Abrir as portas
tirar os ferrolhos
abandonar as muralhas que te protegeram
viver a vida e aceitar o desafio
recuperar o riso
ensaiar um canto
baixar a guarda e estender as mãos
abrir a asas e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.
 
***
 
Em pé
 
continuo em pé
por pulsar
por costume
por não abrir a janela decisiva
e olhar de uma vez a insolente
morte
essa mansa
dona da espera
 
continuo em pé
por preguiça nas despedidas
no fechamento e demolição
da memória
 
não é um mérito
outros desafiaram
a claridade
o caos
ou a tortura
 
continuar em pé
quer dizer coragem
 
ou não ter
onde cair morto.
 
Mário Benedetti, Paso de los Toros(Uruguai) 1920-2009

25/08/16

Qual o poder da leitura nestes tempos difíceis?


 
 
Hoje, podemos dizer que o mundo inteiro é um "espaço em crise". Uma crise se estabelece de fato quando transformações de caráter brutal - mesmo se preparadas há tempos, - ou ainda uma violência permanente e generalizada,
tornam extensamente inoperantes os modos de regulamentação, sociais e psíquicos, que até então estavam sendo praticados. Ora, a aceleração das transformações, o crescimento das desigualdades, das disparidades, a exten-
são das migrações alteraram ou fizeram desaparecer os parâmetros nos
quais a vida se desenvolvia, vulnerabilizando homens, mulheres e crianças, de
maneira bastante distinta, de acordo com os recursos materiais, culturais, afe-
tivos de que dispõem e segundo o lugar onde vivem.
[...]
Em tais contextos, crianças, adolescentes e adultos poderiam redescobrir o papel dessa atividade na reconstrução de si mesmos e, além disso, a con
tribuição única da literatura e da arte para a atividade psíquica. Para a vi-
da, em suma. A hipótese parecerá paradoxal em uma época de mutações
tecnológicas na qual é a eventual diminuição da prática da leitura o que
preocupa. Parecerá mais audaciosa, até mesmo incoerente, visto que o gosto
pela leitura e a sua prática são, em grande medida, socialmente construídos.
[...] A leitura é uma arte que se transmite, mais do que se ensina, é o que
demonstram vários estudos. Estes revelam que a transmissão no seio da
família permanece a mais frequente. Na maioria da vezes, tornamo-nos lei
tores porque vimos nossa mãe ou nosso pai mergulhado nos livros quando
éramos pequenos, porque os ouvimos ler histórias ou porque as obras que
tínhamos em casa eram tema de conversa.
 
 
Trechos do livro A arte de ler, da antropóloga francesa Michele Petit pesquisadora do Laboratório de Dinâmicas Sociais do Centre National de la
Recherche Scientifique, na França.

20/08/16

Corpo sem fim



 
alguidar feito de barro saído do ventre da terra cheio de cheiros temperos
sabores diversos
 corpo do chão mater  matéria volátil
 fumacento
 
meu corpo meu chão minha cova meu buraco de tatu meu umbigo
minha terra  um corpo sem palmeiras  flutua ao sabor do vento
que sopra e tem o gosto do balanço das ondas do mar
 
panela de barro onde cabem línguas vísceras dores
 de amores fugazes
gases
rarefeitos verbos intestinos
 labirintos langorosos
 perfumes de gardênias acácias douradas suspensas
 na solidão da floresta
 
meu corpo tua matéria minha razão de existir
da terra brotei a ela voltarei serei verme
 serei grão serei raiz serei pau serei pedra?
serei chão outra vez?
não me perguntem o porquê pois
aqui não mais estarei

13/08/16

O vendedor de histórias



 
A noite está quente, a noite é longa, a noite é magnífica para ouvir histórias, disse o homem que veio sentar-se ao meu lado no muro do pedestal da estátua
de D. José. Estava realmente uma noite magnífica, de lua cheia, quente e mole,
com alguma coisa de sensual e de mágico (...), o Terreiro do Paço estava solitário, um cacilheiro apitou antes de partir, as únicas luzes que se viam no Tejo eram as suas, tudo estava imóvel como num encantamento, eu olhei
para o meu interlocutor, era um vagabundo magro com uns sapatos de tênis e
uma camisola amarela, tinha a barba comprida e era quase careca, devia ter a minha idade ou um pouco mais, ele olhou para mim e levantou o braço num
gesto teatral. Esta é a lua dos poetas e dos contistas, esta é uma noite ideal para ouvir histórias, e para contar também, não quer ouvir uma história? (...)
O homem cruzou as pernas e apoiou o queixo nas mãos com ar meditabundo e disse: precisamos sempre de uma história mesmo parecendo que não. Mas por
que é que você quer me contar uma história?, perguntei, não estou a perceber.
Porque eu vendo histórias, disse ele, sou um vendedor de histórias, é a minha profissão, vendo as histórias que eu próprio invento.
[...]
O vendedor de histórias fez uma pequena pausa e repetiu o seu gesto teatral
com o braço, como se quisesse apanhar a lua. E então?, perguntei. Então, disse
ele, a certa altura pensei que devia escrever as histórias que me vinham visitar,
e assim escrevi dez histórias, uma trágica, uma cômica, uma tragicômica, uma
dramática, uma sentimental, uma irônica, uma cínica, uma satírica, uma fantástica e uma realista, e levei o maço de folhas a uma editora. Encontrei lá
o diretor literário da editora, um senhor muito desportivo que usava jeans e
mastigava chiclete. Ele disse que ía ler tudo, que voltasse lá daí a uma semana.
Voltei uma semana depois e o diretor literário da editora disse-me: Vê-se que
o senhor nunca leu o minimalismo americano, lamento, mas infelizmente falta-
lhe ter lido o minimalismo americano. Eu não me quis dar por vencido e fui a
outra editora. Aí estava uma senhora muito elegante com um lenço ao pescoço,
ela também me pediu para eu voltar daí a uma semana e eu voltei. O senhor tem demasiado plot nas suas histórias, disse-me a senhora elegante, vê-se
perfeitamente que não leu as vanguardas, as vanguardas deram cabo do plot,
meu caro senhor, fazer plot agora é retaguarda. Eu não me quis dar por vencido
e fui a uma terceira editora. (...)Ele pediu-me para eu voltar daí a uma semana e eu voltei. Você não faz ideia do que é o pragma, disse-me o senhor muito
sério, a sua realidade está completamente desintegrada, você precisa é de um psiquiatra. Eu saí e comecei a vaguear pela cidade. O meu consultório estava fechado, já ninguém lá ía, eu estava triste e sem dinheiro, triste sim, mas com uma imensa vontade contar as minhas histórias às pessoas, e assim, comecei a caminhar e pensei: bom, se eu tenho tantas histórias para contar é capaz de haver gente com vontade de as ouvir, a cidade é grande, e assim comecei a
circular pela cidade e a contar histórias, e agora é assim que ganho a minha vida. 
 
 
Trechos do livro Requiem uma alucinação, do escritor italiano Antônio Tabucchi, (Vecchiano, 1943-Lisboa, 2012) autor de Noturno indiano, Afirma Pereira, O tempo envelhece depressa, entre outros.

10/08/16

A face do facebook

Facebook contra o Teatro Oficina: incultura e violência              

Cena de "Os Sertões - a Luta"
Cena de “Os Sertões – a Luta”

Por puritanismo, rede tira do ar página com milhares de textos e imagens, e mais de 30 mil seguidores. Ação, voltada contra corpo feminino, ofende primavera das mulheres
Do coletivo do Teatro Oficina

No domingo de manhã (7), todos os perfis pessoais dos administradores da página oficial do Teatro Oficina, receberam o seguinte comunicado:
“A sua página ”Teatro Oficina Uzyna Uzona” foi removida por violar nossos Termos de Uso. Uma página do facebook é uma presença distinta usada unicamente para fins comerciais ou promocionais. Entre outras coisas, Páginas que incitam o ódio, são ameaçadoras ou obscenas não são permitidas. Páginas que atacam um indivíduo ou grupo ou que são criadas por um indivíduo não autorizado também são removidas. Se a sua Página foi removida por algum dos motivos acima, ela não será reintegrada. A continuidade do uso incorreto dos recursos do Facebook pode resultar em perda permanente se sua conta.”
A página da companhia havia sido retirada do ar na quinta feira (4), pela denúncia anônima de uma foto, publicada em fevereiro, que mostrava uma mulher sem camisa, com mamilos de fora.
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A
administração do Facebook ofereceu a possibilidade de contestação e recomendou que fosse retirado todo o conteúdo que contivesse nudez antes de clicar em “contestar”, advertindo, no ato, a possibilidade de ficarmos sem a página definitivamente.
Esse protocolo foi seguido, apenas para que recebêssemos outro aviso, pedindo que tivéssemos paciência enquanto era analisada a conta.
O resultado, na manhã seguinte (7), foi a extinção da página, com mais de 33 mil curtidas.
Entendemos que o Facebook é uma empresa privada, que possui seus termos de conduta. Mas questionamos o tribunal que interpreta as fotos e fatos como pornografia.
A Oficina Uzyna Uzona existe desde 1958. É a companhia de teatro há mais tempo em atividade ininterrupta do país, sempre renovando sua linguagem estética a partir do tempo presente. O corpo sempre foi protagonista nas encenações.
A nudez, nesses anos de existência, esteve presente sob diversas interpretações: nudez no nascimento de personagens em inúmeros espetáculos; nudez na morte de personagens – como na cena do IML com os cadáveres nus de Celeste, Leleco e Boca de Ouro, na peça de Nelson Rodrigues; a nudez erotizada de Bacantes; a nudez da descoberta do corpo índio em Macumba Antropófaga, quando o público era convidado a tirar a roupa e simplesmente ficar nu, despido das roupas – o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior.
A liberdade do corpo é um dos principais vértices deste trabalho, que é tombado como patrimônio histórico e artístico pelo IPHAN.
Não fazer distinção entre arte, liberdade do corpo e conteúdo pornográfico demonstra uma cultura muito limitada por parte dos gestores da comunidade Facebook.
Com seus mais de 30 mil fãs, a página era um importante canal de comunicação da companhia e de seu espaço — o Teatro Oficina, eleito pelo jornal inglês The Guardian como o melhor teatro do mundo.
A grande maioria dos seguidores era composta pelo público que nos assistiu presencialmente em espetáculos na sede no bairro do Bixiga ou em viagens pelo Brasil e pelo mundo e também formada por grande público virtual que assiste nossas transmissões online.
Além do papel fundamental de divulgação dos espetáculos e eventos do teatro, nesse momento em que cada vez há menos espaço nos jornais impressos dedicados à cultura, nossa página é também um importante canal de difusão de conteúdo de Antropofagia, e dos temas presentes nas montagens.
A retirada da página aconteceu no dia de estreia de Paranoia, espetáculo em que Marcelo Drummond phala a poesia de Roberto Piva, incorporando o poeta. O evento da temporada, que desapareceu com a página, tinha mais de 1000 pessoas confirmadas e interessadas e era uma timeline com conteúdo dedicado a esse poeta, com trechos de poemas, vídeos do autor, imagens relacionadas… Era um canal dedicado ao teatro e à literatura.
O corte seco da censura deflagra uma violência enorme, de pensamento único, contra os próprios corpos, contra a arte, contra a liberdade. Nesse momento onde é viva a primavera feminina e feminista, onde se questiona a cultura do estupro e a liberdade do corpo da mulher, é um retrocesso gigantesco suspender o canal por causa dos mamilos femininos.
Portanto, pedimos ao Facebook que reveja sua posição e coloque no ar novamente a página do Teatro Oficina:
https://www.facebook.com/teatroficina
Enquanto não volta a nossa página, curta o perfil da Universidade Antropófaga, por onde também reverberamos nossos corpos, pensamentos e potências.

Extraído do blog Outras Palavras: http://outraspalavras.net/blog


07/08/16

Áporo


 
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
 
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
 
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
 
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea, forma-se.
 
Carlos Drummond de Andrade