17/08/2017

Cegueira

Tribunal de Justiça legitima genocídio dos negros

 

"Quando um tribunal de justiça decide aplicar, como em uma humilhação pública no pelourinho, a desqualificação do ser humano não branco, se confirma a institucionalização do racismo e a legitimação do genocídio dos negros. É urgente se colocar visceralmente em oposição a este que tem sido o maior genocídio brasileiro. O qual, juntamente com o etnocídio e o feminicídio, é a estrutura central das formas de dominação e violência."



Por Edson Teles.

Em junho de 2013 era detido no Centro do Rio de Janeiro, em meio às manifestações contra o aumento das tarifas, Rafael Braga. Catador de material reciclável, Rafael estava próximo ao “local do crime”, apesar de não participar dos protestos, e carregava consigo duas garrafas de produtos de limpeza. Sob a alegação de porte de coquetéis molotov ele foi detido por policiais militares e a Justiça ordenou sua prisão provisória com posterior julgamento. Ao final (como se este tipo de acontecimento tivesse fim) foi condenado a 5 anos de detenção com sentença fundamentada no depoimento de um policial. As provas técnicas, favoráveis ao réu ou desqualificantes da acusação, foram desconsideradas nos laudos ajuntados ao processo. Rafael é negro, pobre, favelado. Como não poderia ser ele o criminoso?

No início de 2017, após um mês de regime semi-aberto (acabara de cumprir mais de 3 anos de privação de liberdade), foi novamente encarcerado. Pasmem: Rafael foi acusado de tráfico de drogas e associação criminosa por supostamente portar menos de um grama de maconha e 9 gramas de cocaína, além de um rojão. Apesar de testemunha corroborar a versão de Rafael de que teria sido uma detenção forjada, a versão aceita pela Justiça foi a do testemunho dos policiais. Afinal, ele é negro, favelado e pobre. Como não seria ele um traficante?
Recentemente, impetrado um habeas corpus por seus advogados em defesa de sua liberdade, desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negaram o pedido. Instância jurídica que legitima, com este ato, o genocídio do negro no Brasil.
Ao se negar habeas corpus a jovens pobres e negros não se trata necessariamente do cumprimento da lei. Porém, é a norma do ordenamento jurídico. São incontáveis as tentativas de liberdade, pedidas e negadas, pelas defensorias públicas em nome de adolescentes e jovens detidos sem direito à defesa e cujos encarceramentos se fundamentam somente em testemunhos de agentes de segurança. É clara a intenção dos juízes em manterem preso Rafael e outros jovens negros, com ou sem provas. São vários os casos em que indivíduos ricos que recebem a liberdade ou a troca de punição aos seus atos por internações, penas alternativas e, até mesmo, absolvição.
Mas por que manter um jovem negro na prisão sem provas seria um ato genocida, como afirma este texto?
Isto se deve ao racismo institucional, existente no judiciário, mas também nas polícias, nos sistemas educacionais e de saúde, nas universidades, no sistema de transporte público, nos partidos e nas organizações políticas. Assim como é difuso e disseminado nas práticas sociais e nas relações econômicas e culturais e nas mais enraizadas ocorrências do cotidiano.
Existe no país um racismo ao estilo brasileiro cuja fonte liberal discursiva são as ideias de “democracia racial” e “mestiçagem”, por muitos anos veiculadas como conhecimento inequívoco, inclusive nas principais universidades. Mas nada mais é do que uma política de embranquecimento e assimilação das “populações nativas”. Um processo “civilizatório” desenvolvimentista nacional.
Para uma criança negra e pobre nascer no país é preciso enfrentar um sistema de saúde racista. Segundo o Ministério da Saúde, através da campanha “Racismo faz mal à saúde” (2014), 66% das mortes em partos são de mulheres não brancas. As gestantes negras adentram ao SUS e, na maioria dos casos têm suas gestações mal acompanhadas, isto quando recebem este atendimento. Seus sofrimentos e reclamações, se ocorrem, são de modo geral desconsiderados. Diante de alguma gravidade, pouco é feito e alega-se sua condição de resistência à dor e ao sofrimento. Após o nascimento, enquanto 78% das mulheres brancas recebem orientação sobre amamentação, pouco mais da metade das mulheres negras recebem o mesmo tratamento. Se sobreviver ao nascimento, a criança negra (e também a indígena) tem o dobro de chance de falecer nos cinco primeiros anos de vida em relação à criança branca. Isto é genocídio.
As escolas destinadas aos pobres e negros, públicas e localizadas nas periferias, são cada vez mais de baixa qualidade e precárias, esquecidas pelo poder público. Segundo o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), uma em cada quatro crianças abandonam a escola ainda no ensino fundamental. Em sua ampla maioria crianças negras. A evasão escolar se dá pela pobreza destes indivíduos, que desde muito cedo têm que se envolver em alguma atividade econômica. Bem como é o resultado da discriminação racial intramuros escolares e da ausência de repertório próprio da cultura afrodescendente nos currículos.
Tal como no sistema escravocrata, às meninas negras é imposto, desde cedo, o trabalho doméstico. Segundo dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho), de 2013, 93% das crianças e adolescentes envolvidos em trabalho no país são meninas negras. Este é o genocídio da identidade e da dignidade desta população.
Na universidade, as recentes políticas afirmativas, tímidas diante do quadro de racismo existente, pouco transformaram a situação. Houve o acesso de indivíduos negros, em especial nas universidades públicas federais, mas mantendo uma proporção inegavelmente branca. O conteúdo dos currículos continua estudando metodologias e pensadores de uma tradição eurocêntrica, operando uma espécie de categorização da cultura e do pensamento negro como um saber menor, desqualificado e não autorizado. No quadro docente, assim como entre os pós graduandos, a presença de indivíduos não brancos atinge proporções ainda mais desiguais. Até hoje são quase nulos os programas de pesquisa acad6emica que possuem cotas raciais.
A violência policial tem sido o foco das campanhas e manifestações de movimentos negros e objetivamente nomeada por estes sujeitos de genocídio do negro brasileiro. Na idade de 21 anos, o jovem negro tem 147% maiores chances de ser assassinado do que um branco. E, infelizmente, no discurso de uma sociedade branca e masculinizada, de viés liberal, a instituição de proteção ao indivíduo é a que mais mata violentamente o jovem negro.
A designação de genocídio para o que ocorre no cotidiano da sociabilidade brasileira pode parecer, à primeira vista, um exagero emotivo e desproporcional. Afinal, o brasileiro nasceu e cresceu sob a ideia de que nestas terras se experimenta um sincretismo racial. O que vem ocorrendo com a população negra, desde sempre, mas agora com o incremento das máquinas políticas – suas tecnologias e estratégias de controle –, é um genocídio institucional e sistêmico. Justamente por seus aspectos cotidianos e discursivos se efetiva de modo silencioso e, para alguns, invisível, apesar de ser tão evidente como o cheiro do podre invadindo o olfato. Nos é tão próximo quanto um fenômeno que se encontra diante de nossos narizes.
Se faz urgente que sujeitos combatentes de genocídios outros, em momentos diversos, se coloquem visceralmente em oposição a este que tem sido o maior genocídio brasileiro. O qual, juntamente com o etnocídio e o feminicídio, é a estrutura central das formas de dominação e violência.
Quando um tribunal de justiça decide aplicar, como em uma humilhação pública no pelourinho, a desqualificação do ser humano não branco, se confirma a institucionalização do racismo e a legitimação do genocídio dos negros.
***
Edson Teles é doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), é professor de filosofia política na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pela Boitempo, organizou com Vladimir Safatle a coletânea de ensaios O que resta da ditadura: a exceção brasileira (2010), além de contar com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Extraído de  https://blogdaboitempo.com.br

15/08/2017

De como se deve evitar ser desprezado e odiado


 
 
[...] Um dos mais poderosos remédios de que um príncipe pode dispor contra as
conspirações é não ser odiado pela maioria, porque quem conjura sempre pensa
que, com a morte do príncipe, irá satisfazer o povo, mas, quando percebe que
com isso irá ofendê-lo, não se anima a tomar semelhante partido, mesmo porque as dificuldades para os conspiradores são infinitas. [...]
Concluo portanto, que um príncipe deve dar pouca importância às conspirações
se o povo lhe é benévolo; mas quando os cidadãos adversos o odeiam, deve
temer a tudo e a todos. Os Estados bem organizados e os príncipes hábeis procuram com toda a diligência não desesperar os grandes e satisfazer o povo,
conservando-o contente, mesmo porque este é um dos mais importantes assuntos de um príncipe. [...]
Novamente concluo que um príncipe precisa estimar os grandes, mas não se fazer odiado pelo povo.
 
 
Nicolau Maquiavel (Florença 1469-1527), trechos de O Príncipe

07/08/2017

Uma estrela chamada Clarice Lispector

 Giorgio de Chirico
 

Apelidada na França de “princesa da língua portuguesa”, Clarice Lispector escrevia como se pudesse salvar a vida de uma pessoa e aproximá-la da beleza silenciosa do mundo. Grande figura da literatura brasileira, por muito tempo permaneceu desconhecida na França. A recente publicação de suas cartas deve contribuir para sua difusão
por: Sébastien Lapaque *
28 de julho de 2017
                  
Comecemos pelo fim. Dois volumes de correspondências publicados no Brasil, ambos traduzidos entre 2015 e 2016 para o francês, permitiram aos admiradores de Clarice Lispector se aproximar intimamente da romancista intangível nascida Chaya Pinkhasovna Lispector, no dia 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, Ucrânia. Desembarcada no Nordeste brasileiro aos 2 anos de idade com seus pais para fugir da guerra civil, ela morreu no dia 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro. Na França, onde foi descoberta em 1954,2 as quinze obras de ficção publicadas a partir de 1978 pelas edições Des Femmes/Antoinette Fouque não foram capazes de provocar tal familiaridade com essa artista cuja obra evoca Franz Kafka pela angústia e Virginia Woolf pelo refinamento – e a personalidade de algumas das mais misteriosas estrelas da literatura universal, como Katherine Mansfield, Catherine Pozzi, Victoria Ocampo, Simone Weil e Sylvia Plath. O sorriso de “meia satisfação” – como ela descreve o de uma personagem – estampado em suas fotografias guardam intacto seu segredo. Desde Perto do coração selvagem, seu primeiro romance, aos 23 anos, até A hora da estrela, póstumo, cada um de seus livros parece ter sido escrito para construir um muro protetor entre ela e o mundo. Alguns julgaram hermético esse monumento de sensações sutis. A artista se defende, afirmando que ela era tão simples como Bach…
Mãe e filha, judia e cristã, cerebral e sensual, santa e feiticeira, humana e animal, da Europa e da América, ela assumiu sua “tentativa de ser duas”, como diz Ângela Pralini, que dialoga com “o autor” em Um sopro de vida, outro romance publicado após sua morte. Brasileira, pois defendia as perfeições da língua portuguesa e que esse era seu estado civil, Chaya – tornada Clarice – nasceu em uma família onde se falava iídiche. Leitora de A imitação de Jesus Cristo, que propõe uma ascese espiritual, mística, sem sinagoga nem igreja, ela não era praticante, mas foi enterrada segundo sua vontade no cemitério israelita do Caju, no Rio de Janeiro, sob uma lápide com seu nome inscrito em hebraico: “Chaya bat Pinkhas” (Chaya, filha de Pinkhas).
Essa mulher cosmopolita, de quem Giorgio de Chirico pintou um retrato e que foi homenageada com uma estátua de bronze em 2016 na praia do Leme, no Rio, falava muito bem francês, inglês e espanhol. Levava uma existência onírica e viajante na Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos, porém jurava – é preciso acreditar nela – que sentia saudade de seu país, do qual se dizia impregnada depois de ter conhecido “a verdadeira vida brasileira”, em Recife, Pernambuco. “Não sinto nenhum prazer em viajar. Adoraria estar perto de você […]. O mundo inteiro é levemente tedioso, eu acho. O que importa na vida é estar perto de quem amamos. Essa é a grande verdade do mundo. E, se existe um lugar especialmente simpático, é o Brasil”, escreve a uma de suas irmãs, em 1944.
Mais adiante, frequentaria embaixadas e cenáculos literários com o mesmo leve fastio, à exceção talvez de Paris, onde perseguia as lembranças de Marcel Proust e prestava atenção às vozes de François Mauriac, Julien Green e Paul Valéry. Durante quinze anos, seguiu seu marido, Maury Gurgel Valente, um de seus colegas na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro e diplomata no Itamaraty, com quem se casou em 1943 e teve dois filhos. Viveu com ele até 1959, antes de se divorciar, cansada de suas infidelidades: a mentira, a fraude e a promessa jurada são alguns temas ocasionais em sua obra. Com problemas materiais constantes nos últimos anos de vida, escreveria crônicas para os jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil e para a revista Manchete, além de contos para O Estado de S. Paulo, e traduzia obras de Jonathan Swift, Júlio Verne, Oscar Wilde e Agatha Christie.
Orgulhosa de ser mulher, Clarice Lispector queria, contudo, escapar do senso comum do ser mulher. Anunciou-o a uma de suas irmãs em uma carta escrita em Belém, sobre os rios da Amazônia, em julho de 1944. Texto surpreendente, em que a escritora desnuda seu coração e anuncia o caráter selvagem de suas personagens femininas – mesmo e talvez principalmente as vencidas, como Macabéa, inquietante imigrante nordestina em A hora da estrela: “Que me interessa que isso suceda a outras mulheres? O que para umas é condição da própria feminilidade noutras é a morte desta e de tudo o que é mais delicado. Sei que eu mesma não presto. Mas eu te digo: eu nasci para não me submeter; e se houver essa palavra, para submeter os outros. Não sei por que nasceu em mim desde sempre a ideia profunda de que sem ser a única nada é possível. […] Se eu fosse me modificar não me transformaria numa mulher normal e comum”. Todas as suas criaturas – Joana, em Perto do coração selvagem; Lori, em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres; Ana, no fascinante conto intitulado “Amor”, da coletânea Laços de família; e Lucrécia, em A cidade sitiada – falam assim. Todas têm uma alma de mulher em um corpo de mulher, atravessam a violência, a covardia e a loucura dos homens como Lena Grove em William Faulkner e Sophie Zawistowska em William Styron.
As cartas dirigidas às irmãs mais velhas permitem escutar uma voz do coração de Clarice Lispector em geral abafada em suas obras, oprimidas pelo sentimento trágico da vida e pela impossibilidade do dizer – como A paixão segundo GH, “confissão penitente” que começa com uma série de travessões e em que uma mulher de classe média do Rio de Janeiro conta sobre seu encontro com uma barata. Contrariamente ao que se podia esperar em A maçã no escuro, sua obra anterior, ainda portadora de uma fé ingênua no futuro, não há mais lampejos de esperança nesse romance asfixiante. “Isso não é a eternidade, é a condenação.”
Remete-se à Metamorfose, de Kafka. Mas também a Monsieur Ouine, de Georges Bernanos, publicado no fim de 1943 em francês no Brasil, onde ele viveu a partir de 1938. Grande leitora, Clarice Lispector teria conhecido esse romance no qual o nada aspira o mundo e as palavras, assim como o ralo a água, no fundo da banheira? Quando apareceu Perto do coração selvagem, no mesmo ano, os críticos se perguntaram sobre as influências dessa prosista vinda de outro planeta cujo estilo contrastava com a maioria da produção da época. Entre eles, Álvaro Lins e Sérgio Milliet conheciam bem Bernanos e sua obra. Nenhum dos dois evoca uma relação possível. E Clarice Lispector não menciona, em suas cartas publicadas, o autor de L’Imposture e sua capacidade de fazer sentir a “dominação do infortúnio”. É ainda mais surpreendente que muitas delas sejam dirigidas a dois escritores de sua geração – Lúcio Cardoso e Fernando Sabino –, com os quais ela era ligada. Ambos liam Bernanos e o haviam encontrado em Minas Gerais.
Em Cartas perto do coração, a correspondência entre Lispector e Sabino, trocada entre 1946 e 1969, fala em história da literatura e arte do romance, mas não de Monsieur Ouine. Deslizam por artistas, compartilham com eles seus horrores, suas noites em claro e seus “carnavais sem alegria”. No início da amizade, Lispector havia escrito Perto do coração selvagem e O lustre. Em suas cartas a Fernando, ela evoca a gênese dolorosa de seus romances A cidade sitiada e A maçã no escuro, e de certos contos reunidos em 1960 no livro Laços de família, em geral perpassados por certo terror. Ela fala da coragem que deseja encontrar para dar um passo a mais em direção à obscuridade. “Cada um dos meus novos livros é tão hesitante e tímido quanto um primeiro”, confidencia. Tateando a noite da alma, Lispector não escreve seus livros com ideias, e sim com palavras. “A linguagem é meu esforço humano”, explica G. H., criatura à qual a romancista não deu um nome. A ausência de palavras não torna necessário o infortúnio, o inexprimível nem sempre se abre ao nada, mas às vezes a todo outro, todo Outro, contemplação, atenta ou recolhida – a possibilidade de uma alegria. O que não pode ser dito pode sempre ser vivido. G. H. mais uma vez: “Nunca! Nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro…”.


*Sébastien Lapaque é escritor. Última obra publicada: Théorie d’Alger [Teoria de Argel], Actes Sud, Arles, 2016.

Le Monde Diplomatique Brasil – edição 118 – maio de 2017

 

04/08/2017

Um sonho impossível e outros sonhos


Que possamos continuar a sonhar mesmo quando a regra for comprar vender e vender-se!!


 
 
 
 
 

 
 


31/07/2017

De Machado de Assis



 
Não é desprezo pelo o que é nosso, não é desdém pelo meu país. O "país real",
esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o "país oficial", esse é caricato
e burlesco!

26/07/2017

O livro de areia

Todos os livros ainda estão para serem lidos,
e suas leituras possíveis são múltiplas e infinitas;
o mundo está para ser lido de várias formas;
nós mesmos ainda não fomos lidos.
Jorge Larrosa
 
 
 



  A linha consta de um número infinito de pontos: o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos; o hipervolume, de um número infinito de volumes ... Não, decididamente não é este, more geométrico, o melhor modo de iniciar minha narrativa. Afirmar que é verídica é agora uma convenção de toda narrativa fantástica; a minha, no entanto, é verídica.
     Moro sozinho, num quarto andar da rua Belgrano. Fará uns meses, ao entardecer, ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços mal delineados. Talvez minha miopia os tenha visto assim. Todo o seu aspecto era de pobreza decente. Estava de cinza, trazia uma valise cinza na mão. Senti de imediato que era estrangeiro. De início, julguei-o velho; logo me dei conta de que seu escasso cabelo loiro, quase branco, à maneira escandinava, enganara-me. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas.
      Apontei uma cadeira para ele. O homem tardou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora.
     __ Vendo bíblias __ disse.
     Não sem pedantismo, respondi:
     __ Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também a de Cipriano de Valera, a de Lutero, que literariamente é a pior, e um exemplar latino da Vulgata. Como o senhor vê, não são exatamente bíblias o que me falta.
     Depois de um silêncio, respondeu:
     __ Não vendo só bíblias. Posso lhe mostrar um livro sagrado que talvez lhe interesse. Comprei-o nos confins de Bikanir.
     Abriu a valise e deixou-o em cima da mesa. Era um volume in-oitavo, encadernado em tela. Sem dúvida passara por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado surpreendeu-me. Na lombada dizia
Holy Writ e, embaixo, Bombay.
     __ Será do século XIX __ observei.
     __ Não sei. Nunca soube __ foi a resposta.
     Abri-o ao acaso. Os caracteres eram estranhos para mim. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas à maneira de uma Bíblia . O texto era cerrado e disposto em versículos. No canto superior das páginas havia algarismos arábicos. Chamou minha atenção  que a página par trouxesse o número (digamos) 40 514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso era numerado com oito algarismos. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada à pena, como pela mão inábil de um menino.
     Foi então que o desconhecido me disse:
     __ Olhe-a bem. Nunca mais a verá.
     Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz.
     Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Procurei em vão a figura da âncora, folha por folha. Para ocultar meu desconcerto, disse:
     __ Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua hindustânica, não é verdade?
     __ Não __ replicou.
     Em seguida baixou a voz como para me confiar um segredo:
     __ Adquiri-o num povoado da planície, em troca de umas rupías e da Bíblia. Seu dono não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra, sem contaminação. Disse-me que seu livro se chamava O livro de areia, porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim.
     Pediu-me que procurasse a primeira folha.
     Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o polegar quase grudado ao índice. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro.
     __ Agora procure a final.
     Também fracassei; mal consegui balbuciar com uma voz que não era a minha:
     __ Isto não pode ser.
     Sempre em voz baixa, o vendedor de bíblias disse:
     __ Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira: nenhuma, a última. Não sei por que são numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número.
     Depois, como se pensasse em voz alta:
     Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.
     Suas considerações irritaram-me. Perguntei:
     __ O senhor é, sem dúvida, religioso?
     __ Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca do seu livro diabólico.
     Assegurei-lhe que não tinha por que se recriminar e lhe perguntei se estava de passagem por estas terras. Respondeu-me que dali a alguns dias pensava regressar à sua pátria. Foi então que soube que ele era escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que eu gostava pessoalmente da Escócia pelo amor a Stevenson e a Hume.
     __ E a Robbie Burns __ corrigiu.
     Enquanto falávamos, eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei:
     __ O senhor pensa oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico?
     __ Não. Ofereço-o ao senhor __ replicou, e fixou uma soma elevada.
     Respondi-lhe, com toda a sinceridade, que aquela era uma soma inacessível para mim e fiquei pensando. Depois de uns poucos minutos, tinha urdido meu plano.
     __ Proponho-lhe uma troca __ disse. __ O senhor obteve esse volume por umas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria, que acabo de receber, e a Bíblia de Wiclif em letra gótica. Herdei-a de meus pais.
     __ A black letter Wiclif! __ murmurou.
     Fui a meu quarto e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou o frontispício com fervor de bibliófilo.
     __ Trato feito __ disse.
    Assombrou-me que não regateasse. Só mais tarde eu compreenderia que entrara em minha casa com a intenção de vender o livro. Não contou as notas, e guardou-as.
     Falamos da Índia, das Orcadas e dos jarls noruegueses  que as governaram. Era noite quando o homem foi embora. Não voltei a vê-lo nem sei o nome dele.
     Pensei guardar O livro de areia no lugar que tinha deixado o Wiclif, mas optei afinal por escondê-lo atrás de uns volumes avulsos d'As mil e uma noites.
     Deitei-me e não dormi. Às três ou quatro da manhã acendi a luz. Fui buscar o livro impossível e virei as folhas. Numa delas vi gravada uma máscara. O canto tinha um algarismo, já não sei qual, elevado à nona potência.
      Não mostrei a ninguém meu tesouro. À felicidade de possuí-lo veio somar-se o temor de que o roubassem, e depois o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Essas duas inquietações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me uns amigos: deixei de vê-los. Prisioneiro do livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada desgastada e as capas, e afastei a possibilidade de qualquer artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as num livreto alfabético, que não demorei a preencher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro.
     O verão declinava, e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me adiantou considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que ele era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade.
     Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta.
     Lembrei-me de ter lido que o melhor lugar para esconder uma folha é um bosque. Antes de me aposentar, trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à direita do vestíbulo uma escada curva se afunda no porão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder O livro de areia numa das úmidas prateleiras. Procurei não me fixar a que altura nem a que distância da porta.
     Sinto um pouco de alívio , mas não quero nem passar pela rua México.


Jorge Luís Borges

21/07/2017

Não leve flores


Não cante vitória muito cedo não
nem leve flores para a cova do inimigo
que as lágrimas dos jovens são fortes
 como um segredo
podem fazer renascer um mal antigo
 
Tudo poderia ter mudado sim
pelo trabalho que fizemos tu e eu
mas o dinheiro é cruel e o vento forte
levou os amigos para longe das conversas
dos cafés e dos abrigos
e nossa esperança de jovens não aconteceu
 
Palavras, sons, são meus caminhos
e eu sigo sim, faço o destino
com o suor de minha mão
Bebi, conversei com os amigos
ao redor de minha mesa
e não deixei meu cigarro se apagar
pela tristeza, sempre é dia de ironia
no meu coração
 
Tenho falado a minha garota
meu bem, difícil é saber o que acontecerá
Mas eu agradeço ao tempo,
o inimigo eu já conheço
sei seu nome, sei seu gosto,
residência, endereço
A voz resiste, a fala insiste, você me ouviu?
a voz resiste, a fala insiste,
quem viver verá!

Belchior, cantor e compositor cearense


18/07/2017

Nelson Mandela - 1918-2013 *



 
"O homem que tira a liberdade de outro homem é um prisioneiro do ódio, está aprisionado atrás das barras do preconceito e da estreiteza de espírito. Não serei completamente livre se tirar a liberdade de outrem, e, com certeza, também não serei livre se a minha liberdade me for retirada. Tanto o oprimido
quanto o opressor são privados da sua humanidade. Para ser livre não basta
apenas as correntes de alguém, mas viver de uma forma que se respeite e
melhore a liberdade dos outros".
 
 
Nelson Mandela

* Se ainda estivesse entre nós, hoje estaria completando 100 anos!