23/05/2017

Discurso da servidão voluntária


 
Muito se engana quem pensa que os guardas e a disposição das sentinelas
protegem o tirano. Creio que esse recurso é utilizado mais por uma questão de formalidade do que de confiança. Os arqueiros proíbem a entrada no palácio
aos mal vestidos que não têm recursos, não aos bem armados que podem praticar algum mal. Não são os bandos de gente a cavalo, as pessoas a pé ou as armas que defendem o tirano. São sempre quatro ou cinco que mantém o tirano - quatro ou cinco que o ajudam a conservar o país inteiro servil. Sempre
foi assim: cinco ou seis são ouvidos pelo tirano e dele aproximam-se ou são por ele chamados para serem cúmplices de suas crueldades, os parceiros dos seus
prazeres, os proxenetas de suas volúpias e sócios dos bens provenientes de suas pilhagens. (...). Esses seis têm seiscentos que crescem abaixo deles e fazem de seus seiscentos o que os seis fazem ao tirano. Esses seiscentos conservam debaixo deles seis mil, cuja posição elevaram, aos quais fazem dar ao governo das províncias o manejo do dinheiro para que tenham na mão sua
avareza e sua crueldade, exercendo-as no momento oportuno.(...) Grande é
o séquito que vem depois, e quem quiser divertir-se desmanchando essa rede
não verá os seis mil, mas os cem mil, os milhões que através dessa corda agarram-se ao tirano. (...) Em suma: que se chegue lá através de favores ou sub-favores, os ganhos que se tem com o tirano; ocorre que ao final há tanta gente para quem a tirania é proveitosa quanto para aqueles para quem a liberdade seria fundamental.
 
Etienne de La Boétie, (1530-1563) poeta e filósofo francês que faleceu aos trinta e dois anos de idade, deixando sua obra para Michel de Montaigne, ((1533-1592) seu grande amigo, autor de "Os ensaios". 


19/05/2017

Papagaios!




Macacos se mordam se as línguas afiadas dessas aves de bico curvado não continuarem a tagarelar estórias repetitivas sem entenderem bulhufas do que ouvem ou veem do alto dos seus estrados performáticos - curupaco papaco a
mulher do macaco ela dança ela grita no rio Ipiranga quando vê um cisne negro
saído inesperadamente da noite escura para o clarão do dia...
Entre mortos e feridos ouvirão o balbucio do mandatário da educação dizer haverão melhorias na educassão, e nada dirão; verão invasores adentrarem na casa do povo dilapidarem todo o seu patrimônio (do povo), e continuarão cegos
surdos e mudos sob pena de perderem o privilégio de usufruir e destruir toda a fauna e flora nacionais !!
A língua dos papagaios é um pouco maior do que a de outras aves, eles possuem uma membrana localizada entre a traqueia e os brônquios, a siringe, que lhes permite produzir sons simultaneamente; por terem uma língua longa conseguem através de pequenos movimentos dar forma ao ar e diferenciar sons de maneira semelhante aos humanos. O papagaiês é a sua língua, e é através dela que os papagaios se comunicam entre as suas diferentes espécies(cerca de 350); cada espécie possui o seu dialeto, um determinado conjunto de sons compartilhado entre os indivíduos do mesmo grupo. Como existe uma grande quantidade dessas aves fora de seu habitat, convivendo com o ser humano, adquiriram uma maneira de reproduzir algumas palavras do seu vocabulário. Já
o homem, acabou "aprendendo" a papagaiar não apenas palavras, mas também
comportamentos e atitudes desprovidas de sentido e de dignidade. Talvez esses comportamentos sejam provocados pela ausência de neurônios essenciais para o bom funcionamento do cérebro.

17/05/2017

Um poeminha de amor concreto




da mesma forma que você o pão à mesa
a mão um abraço da mesma forma que
você um aviso um acorde um choque
um chute um salto da mesma forma que
você uma carona um passo uma for-
ça um recado da mesma forma que você
uma bronca um tapa um duro uma gra-
vata da mesma forma que você à luz uma
ideia um gole uma festa da mesma for-
ma que você uma rosa um beijo uma
bala uma moeda da mesma forma que você
boa-tarde boa-noite boas-vindas uma
desculpa um tempo da mesma forma que
você de cara de frente de ombros
de bandinha da mesma forma que você não
o melhor de si eu dou o (...)*meu amor e daí
 
 
Marcelino Freire nasceu em Sertânia(PE) em 1967, e vive em São Paulo desde 1991. É autor dos livros de contos Angu de sangue, BaléRalé, Amar é crime; em
2004 idealizou e organizou a antologia Os Cem menores contos Brasileiros do Século.
 
* palavra censurada(?)

13/05/2017

Antonio Cândido - Direitos humanos e Literatura (excertos)


 
 

A literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e
da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e
combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas.
[...] O processo que confirma no homem aqueles traços, que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrarmos
nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante. [...] A literatura pode ser um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações
de restrição dos direitos, ou de negação deles, como a miséria, a servidão, a mutilação espiritual.
Portanto, a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas
em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis da cultura. A distinção entre cultura popular e cultura erudita não deve servir para justificar e manter
uma separação iníqua, como se do ponto de vista cultural a sociedade fosse dividida em esferas incomunicáveis, dando lugar a dois tipos incomunicáveis de
fruidores. Uma sociedade justa pressupõe o respeito aos direitos humanos, e a
fruição da arte e da literatura em todas as modalidades, e em todos os níveis é um direito inalienável.
 
 
Antônio Cândido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24.07. 1918 e faleceu em 12.05.2017. Formou-se em Sociologia e Filosofia na Universidade
de São Paulo, tornando-se um estudioso da literatura brasileira; é considerado um dos melhores críticos sobre o assunto. Tem publicado Formação da Literatura brasileira, Direitos humanos e Literatura, Um funcionário da monarquia, O romantismo no Brasil, Textos de intervenção, entre outros.

07/05/2017

Se os meus olhos

Gustave Courbet


Se os meus olhos soubessem falar diriam o que se esconde entre as paredes palacianas da casa grande e dos salões verdes e ovais do cerrado.
Se os meus olhos pudessem gritariam páginas despovoadas de vozes pretas amarelas mamelucas mestiças loucas, despossuídas e abandonadas nas ruas e
praças e becos e manicômios dessa terra brasilis!

01/05/2017

Entre aspas




"Muitas vezes me perguntei por que motivo existem tão poucos escritores realmente bons, por que são tão excepcionais, quando há tanta gente que
escreve, quando o chamado da vocação soa com tanta sinceridade e urgência
em tantas consciências juvenis. Uma resposta, parcial e certamente questionável, seria a seguinte: para ser um grande escritor é preciso dispor
de traços de caráter opostos e excludentes entre si. Reduzidos ao básico,
esses traços são a razão e a desrazão, o método e o caos. Para construir uma
obra literária, como para qualquer outra tarefa intelectual, necessita-se prudência, organização e lucidez: é preciso aprender a fazer isso, escolher o
caminho certo, administrar suas forças, entender do que se trata. Não falo de
qualidades etéreas, mas das mais terrenas, já que para existir uma obra é
preciso haver um escritor em condições materiais de escrevê-la, de publicá-la
e, sobretudo, de continuar escrevendo. [...]
Mas, para que valha a pena, a obra tem de provir de um fundo de loucura irredutível a qualquer disciplina. A arte se alimenta do novo, o razoável é tão
velho quanto a civilização, tão repetido e previsível quanto as tábuas de multiplicar. Nada mais triste que uma pretensiosa criação artística que se esgota
no sentido comum, no óbvio e no bem-pensante. [...]
Onde encontrar a quimera completa? Existem esse homens feitos de duas metades contraditórias? Enfim, é assim como comecei: são raríssimos, e dadas
as duas condições tão improváveis, deveríamos nos felicitar por aparecer um a
cada cinquenta ou cem anos.
Não menos raro que um bom escritor é um bom leitor. A quantidade de leitores
realmente bons é mais difícil de medir porque se trata de entes privados, quase
sempre secretos. À diferença da escritura, a leitura não se publica, um crítico é
um escritor, não conta. Mas um amplo contato com leitores de todo tipo me convenceu de que a excelência nessa face oculta da literatura é raríssima. E me
ocorre que a causa dessa escassez obedece a causas que também encerram uma contradição externa. Por um lado, um leitor, para ser um bom leitor, deve
ler muito. A literatura é um sistema com suas próprias leis, e esse sistema se constituiu ao longo da história com a acumulação de uma enorme quantidade de livros. Ninguém poderia ler todos, mas ainda assim a totalidade é latente no projeto de uma leitura bem feita. (...) Justamente, o que diferencia um bom de um mau leitor é que este acredita no que está lendo, enquanto aquele sabe que
todo o sentido está na tradução daquilo que lê no peculiar idioma da literatura,
e para aprender esse idioma é preciso ter lido tudo, ou o bastante para se fazer
um ideia da totalidade".
 
 
César Aira, em Pequeno Manual de Procedimentos. Natural de Cel. Pringles, Argentina, 1949. É autor, entre outros títulos, de O vestido cor-de-rosa, A trombeta de vime, O tudo que sulca o nada, As noites de flores.

24/04/2017

Certas incertezas


 
 
As certezas escondidas no baú do quarto escuro costumam fugir à noite pela janela para encontrar-se com as incertezas da rua onde balas "perdidas" estão
à sua espera. Enquanto isso, não se pesquisa a causa de várias doenças que há
décadas matam milhares de pessoas pelo mundo afora; e vamos nos familiarizando e tornando banal a morte súbita ou inesperada.
Diáspora. Fluxo e refluxo: a inexorável voracidade do tempo - quanto tempo dura uma vida inteira? Vive-se por inteiro ou pela metade? Vive-se um quarto
ou por um quarto de vida na vida?
Procura-se a cura dos males que acometem o ser humano; procura-se a vida
eterna, a imortalidade. Mas a morte quer(?) apenas um pretexto para apresentar-se e cobrar a sua parte, já que ela está intrinsecamente ligada à vida; mais dia, menos dia, todos nós nos vamos.
Ainda está por nascer o ser eterno; embora muitos pensem que são o centro do universo, estamos em permanentes transformações, e, queiramos ou não, somos todos perecíveis: temos um prazo de validade cuja data desconhecemos.
E é na calada noite, no quarto escuro (ou obscuro?) que seres alienígenas tramam às pressas configurações distorcidas e deformadas para a estrutura do corpo social, tirando-lhe as possibilidades necessárias para a sua sobrevivência, como por exemplo, condições dignas de trabalho, de moradia, de saúde e bem-estar. Na calada da noite matam índios, estupram mulheres, invadem territórios indígenas, ateiam fogo em favelas, mudam as leis do país, tudo em nome da "democracia"! Mas, se acendermos as luzes do discernimento, do conhecimento da história do nosso e de outros povos através dos tempos, teremos melhores condições para ficarmos alertas e podermos evitar que queiram nos vender gatos por lebres antes que a nossa casa seja tomada!


22/04/2017

"Para você estar passando adiante"



 
Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa
estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar
falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o
futuro do gerúndio.
Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio ou estar enviando pela Internet. O importante é estar garantindo que a pessoa em
questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar lendo
e, quem sabe, consiga até mesmo estar dando conta da maneira como tudo o que ela costuma estar falando deve estar soando nos ouvidos de quem precisa
estar escutando.
Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar achando necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de pessoas infectadas
por essa epidemia de transmissão oral.
Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento
é estar fazendo com que esteja caindo a ficha nas pessoas que costumam estar
falando desse jeito sem estar percebendo.
Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores
que, sim!, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito.
Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho. Sinceramente: nossa paciência está estando a ponto de estar estourando. O próximo "Eu vou estar transferindo a sua ligação"
que eu vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha parte. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos.
As pessoas precisam estar entendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia.
Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento por telemarketing. Daí a estar pensando que "We'll be
sending it tomorrow" possa estar tendo o mesmo significado que "Nós vamos
estar mandando isso amanhã" acabou sendo só um passo. Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo o mundo passou a estar
marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar retornando ligações.
A gravidade da situação só começou a estar evidenciando quando o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo futuro do gerúndio.
A primeira pessoa que inventou de estar falando "Eu vou tá pensando no seu caso" sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade linguística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas
vidas.
Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como "O que
cê vai tá fazendo domingo?" ou "Quando que cê vai tá viajando pra praia?" ou
"Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa".
Deus. O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?
A única solução vai estar sendo submeter o futuro do gerúndio à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, com o "a nível de", o "enquanto", o "pra se ter uma ideia" e outros menos votados. ("Não por acaso", acrescento eu)
A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá insistindo em tá
falando desse jeito?
 
Ricardo Freire é escritor e publicitário dedicado ao turismo; nasceu em Porto Alegre(RS) em 1963.


20/04/2017

Verbo - Nuno Júdice

Van Gogh

 
Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca - onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos palavras;
e roubamos outras palavras, quando não as temos;
e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão.
No dia seguinte,
a mulher a dias há de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.


 Em As coisas mais simples, - Ed. Dom Quixote, Lisboa - 2007 

15/04/2017

Na escuridão miserável



 
 
Eram sete horas da noite quando entrei no carro, ali no Jardim Botânico.* Senti que alguém me observava, enquanto punha o motor em movimento. Voltei-me
e dei com uns olhos grandes e parados como os de um bicho, a me espiar, através do vidro da janela, junto ao meio-fio. Eram de uma negrinha mirrada,
raquítica, um fiapo de gente encostado ao poste como um animalzinho, não
teria mais que uns sete anos. Inclinei-me sobre o banco, abaixando o vidro:
- O que foi, minha filha? - perguntei, naturalmente, pensando tratar-se de esmola.
- Nada não senhor - respondeu-me, a medo, um fio de voz infantil.
- O que é que você está me olhando aí?
- Nada não senhor - repetiu. - Tou esperando o ônibus...
- Onde é que você mora?
- Na Praia do Pinto.
- Vou para aquele lado. Quer uma carona?
Ela vacilou, intimidada. Insisti, abrindo a porta.
- Entra aí, que eu te levo.
Acabou entrando, sentou-se na pontinha do banco, e enquanto o carro ganhava velocidade, ía olhando duro para a frente, não ousava fazer o menor movimento. Tentei puxar conversa:
- Como é o seu nome?
- Teresa.
- Quantos anos você tem, Teresa?
- Dez.
- E o que estava fazendo ali, tão longe de casa?
- A casa da minha patroa é ali.
- Patroa? Que patroa?
Pela sua resposta, pude entender que trabalhava na casa de uma família no Jardim Botânico: lavava roupa, varria a casa, servia a mesa. Entrava às sete
da manhã, saía às oito da noite.
- Hoje saí mais cedo. Foi jantarado
- Você já jantou?
- Não. Eu almocei.
- Você não almoça todo dia?
- Quando tem comida pra levar, eu almoço: mamãe faz um embrulho de comida pra mim.
- E quando não tem?
- Quando não tem, não tem - e ela parecia sorrir, me olhando pela primeira vez. Na penumbra do carro, suas feições de criança, esquálidas, encardidas de pobreza, podiam ser as de uma velha. Eu não me continha mais de aflição, pensando nos meus filhos bem nutridos - um engasgo na garganta me afogava
no que os homens experimentados chamam de sentimentalismo burguês:
- Mas não te dão comida lá? - perguntei, revoltado.
- Quando eu peço eles dão. Mas descontam no ordenado, mamãe disse pra eu não pedir.
- E quanto é que você ganha?
Diminuí a marcha, assombrado, quase parei o carro. Ela mencionara uma importância ridícula, uma ninharia, não mais que alguns trocados. Meu impulso
era voltar, bater na porta da tal mulher e meter-lhe a mão na cara.
- Como é que você foi para na casa dessa...foi parar nessa casa? - perguntei ainda, enquanto o carro, ao fim de uma rua do Leblon, se aproximava das vielas da Praia do Pinto. Ela disparou a falar:
- Eu estava na feira com mamãe e então a madame pediu para eu carregar as compras e aí noutro dia pediu a mamãe pra eu trabalhar na casa dela, então mamãe deixou porque mamãe não pode deixar os filhos todos sozinhos e lá em casa é sete meninos fora dois grandes que já são soldados pode parar que é aqui moço, obrigado.
Mal detive o carro, ela abriu a porta e saltou, saiu correndo, perdeu-se logo na escuridão miserável da Praia do Pinto.
 
Fernando Sabino, nasceu em Belo Horizonte(MG) em 1923 e faleceu no Rio de Janeiro em 2004. Escreveu contos crônicas e romances. É autor de O grande mentecapto, O encontro marcado, O menino no espelho, entre outros

O Jardim Botânico é um bairro situado na zona sul do Rio de Janeiro; a Praia do Pinto fica no bairro Leblon, também na zona sul.