15/10/2017

Sob as asas do tempo



 
Um pardal atravessou o raio de sol numa linha enviesada, pousou no parapeito da janela e inclinou a cabeça para mim. O olho era redondo e reluzente. Primeiro ele me olhava com um olho, e zás! virava o outro, a garganta latejando
mais rápido que qualquer pulso. Começou a dar a hora cheia. O pardal parou de
trocar de olhos e ficou me observando fixamente com um olho só, até que o
carrilhão parou de bater, como se também estivesse prestando atenção  nas
batidas. Então bateu asas e desapareceu.
Demorou algum tempo até a última batida parar de vibrar. Ela permaneceu no
ar, mais sentida que ouvida, por um bom tempo.
 
 
William Faulkner (Mississipi(EUA)1897-1962) em O som e a fúria

12/10/2017

Sem título

 
 É melhor se laico do que comportar-se mal
dentro da ordem.
 
Sebastian Brant Alsácia, 1457-1521
 
 

Michelangelo Buonarroti, A criação de Adão

 


 
Michelangelo Buonarroti - Capela Sisitina(detalhe)


 


 
Michelangelo Buonarroti (1475-1564) Leda e o cisne

 

 
Hyeronimus Bosch (1450-1516) O jardim das delícias(detalhe)

 
 
Cornelis Bos (1508-1555)
 

 
Carlo Saraceni (1579-1620)
 
 
Nicolas Poussin  (1594-1665)

 
 

Lucas Cranach (1472-1553), A fonte da juventude
 
 
A fonte da juventude(detalhe), de Lucas Cranach
 



Hyeronimus Bosch (1450-1516)


08/10/2017

A carta do capiroto - Gustavo Gollo*



Não sei dizer que tipo de coisa é essa, tão estranha para mim quanto para o leitor. Tendo, no entanto, e sem saber como, me caído nas mãos essa carta do Capiroto, vejo-me na incumbência de repassá-la imediatamente, livrando-me assim de enorme peso.



Sr Presidente,
Como certamente já percebeu, tendo barganhado quase todo o patrimônio do estado, as poucas artimanhas do gênero que ainda lhe restam serão insuficientes para continuar financiando a compra daqueles que o mantêm no poder, situação embaraçosa que logo o deixará sem apoio para continuar a governar. 
Tendo em vista tal constrangimento, e a situação do país, é com satisfação que envio sugestão que lhe terá enorme valia, propiciando a continuidade do financiamento que o tem mantido no poder.
A proposta consiste em executar literalmente aquilo que já vem sendo feito de maneira simbólica: arrancar o couro do brasileiro. Trata-se de um último capital a ser espremido de tal criatura.
Suas sábias medidas econômicas têm garantido presídios abarrotados, e ruas cada vez mais infestadas de mendigos, celeiros inexauríveis desse imenso capital: o couro humano, verdadeiro tesouro.
Modelado sob medida, bastará retirar o couro dos brasileiros, obtendo-se assim vestimentas impecáveis, justas, precisas, e sem nenhuma costura! Que calçados maravilhosos serão obtidos com o couro dos pés, justos em cada detalhe, perfeitos, e que maciez! A perfeição de blusas, calças e luvas de couro humano, além dos calçados, e até tocas ninja confeccionadas sem nenhuma costura, será atrativo irresistível aos ávidos consumidores. A perfeição do caimento de peças tão magníficas advirá naturalmente, sem a necessidade de habilidades especiais dos artesãos que as confeccionarem, já tendo sido produzidas originalmente, sob medida.
A renda obtida com os lucros da venda desse último capital nacional disponível propiciará a compra dos parlamentares que garantirão o cumprimento de seu mandato até o fim.

 Calorosamente,


Capiroto

Extraído de  jornalggn.com.br

04/10/2017

Lima Barreto




Se me fosse dado ter o dom completo de escritor,
eu havia de ser assim um Rousseau, ao meu jeito,
pregando à massa um ideal de vigor, de violência,
de força, de coragem calculada, que lhes corrigisse
a bondade e a doçura deprimente. Havia de saturá-las
de um individualismo feroz, de um ideal de ser como aquelas
trepadeiras de Java, amorosas de sol, que coleiam
pelas grossas árvores da floresta e vão por ela acima
mais alto que os mais altos ramos para dar afinal
a sua glória em espetáculo.
Lima Barreto
 
 
Foi me dado querer ser escritor
E eu só quero ser assim um Lima Barreto
Ao seu jeito ao meu tempo
Despejando meus sentimentos íntimos
Pregando diretamente o cotidiano suburbano
O vigor a violência a força a coragem calculada
Que agride a bondade inócua
Que extirpa a doçura deprimente
Que extermina a cordialidade bestial
Foi e dado querer ter o vigor de Lima Barreto
Meu texto quer mesmo ser o fardamento de meu eito
A gramática de minha Ira
A poética da cor e do afastamento
 
Estaca afiada fincada no peito fidalgo do mal
Mancha de piche no assoalho do mármore de carrara infernal
Madeira enegrecida do ébano nos jardins das rosas funestas
Foi me dado querer inspirar-me só no vigor de Lima Barreto
 
Grafar o calor do sol de séculos de transplantes e desenraizamentos
 
Ele, mais alto a cada dia
Ele, superando as raízes podres desta selva vadia
Ele, acima dos ramos rasteiros
Ele, o galho mais frondoso
O tronco mais robusto
Dando afinal a sua glória em espetáculo
 
Nelson Maca (Telêmaco Borba(PR), 1965), em Gramática da Ira - Blackitude, 2015.

30/09/2017

O meu consolo *


 


Os debates financeiros e econômicos cessaram na tribuna da Câmara e nas colunas dos jornais.
Foi um regalo este debate, com o qual muito gozei, ao apreciar a dança de apaches dos algarismos.
Apareciam tantos que me estonteavam; eu, porém, teimava em ler os discursos e os artigos.
Falava-se de dinheiro, de libras, de francos, de dólares e as cifras enormes, fantásticas, de todas as moedas do mundo, só com a leitura delas, eu me sentia um pouco rico.
Tenho esse mau hábito de sonhar, de representar nitidamente o que me sugere a leitura; de modo que, vendo falar em milhões, em milhares de contos, eu apalpava, eu acariciava montões de libras nas minhas algibeiras ou as fazia escachoar lentamente das minhas mãos para cima da minha mesa de trabalho.
Nunca vi ronda tão inverossímil de dinheiro como nessa discussão.
O Brasil é assim tão rico, pensei eu; e eu sou brasileiro, devo ser também alguma coisa rico. Convenci-me de tal fato, que já me havia ensinado um preto
velho que tinha em casa. Muitas vezes ele me disse:
- Seu F. !
- Que é?
- O senhor por que não compra uma casa?
- Porque não tenho dinheiro.
- Quá! O senhor tem!
- Onde?
- No Banco do Brasil
- Como?
- O senhor é brasileiro; o banco é do Brasil; o senhor chega lá e tira o dinheiro.
Está aí - rematava o velho africano.
Não segui o conselho dele. Não fui ao Banco do Brasil; mas, cada vez que me sinto mais pobre, mais me extasio com os algarismos das discussões financeiras. É o meu consolo.

* Crônica de Lima Barreto, publicada na Revista Careta nº 620 em 25.09.1920, sob o pseudônimo de Jonathan.

24/09/2017

Brilho

Gustave Doré
 
Esta noite eu tomaria todas as drogas do mundo
beberia todos os oceanos e transaria homens e mulheres
até morrer dilacerado de dor
 
Esta noite eu faria qualquer coisa
pra não sentir este vazio brochante
e esta puta angústia velha e louca
 
Esta noite eu poderia morrer sem a mínima pressa
nem qualquer tristeza porque experimental é o paraíso
e me contento em ter feito com o corpo o mais belo
poema que a poesia almeja
 
 
Eu me converteria e cometeria
todos os vícios
sobretudo os que aprendi no hospício
e toda depravação
igual a que cometíamos na prisão
 
Depois me entregaria a deus e ao diabo
perplexo como o menino
 que fez arte e não pode ser artista
ou o artista que esqueceu de ser menino
e de repente descobriu que é tarde.
 
 
Cairo Assis Trindade, em "Antologia-Arte Pornô" - Codecri, 1984, RJ

20/09/2017

Poesia, não venhas!


 

 
Poesia:
Porque vieste hoje,
precisamente hoje, que não te posso receber?
 
Hoje,
em que tudo tem uma cor
de pesadelo e em que até minha irmã a lua
não veio, com a sua carícia fraterna, dar-me calma?
 
Oh Poesia,
não, não venhas hoje!
 
Não vês que a minha alma
não te pode compreender?
Que está fechada,
cercada, fatigada,
e nada mais quer
senão chorar?
 
Hoje, eu só saberei cantar
a minha própria dor...
Ignoraria
tudo o que tu, Poesia,
me viesses segredar...
E a minha dor,
que é a minha dor egoísta e vazia,
comparada aos sofrimentos seculares
de irmãos aos milhares?
 
Bem sei que as minhas frouxas lágrimas
nem o mais humilde poema valeriam...
 
E se tu sabes que é assim, oh! Poesia!
será melhor que fiques lá onde estás,
e não venhas hoje, não!
 
 
Noémia de Sousa (Catembe, Moçambique - 1926-2002) em Sangue Negro -
Editora Kapulana, São Paulo, 2016

13/09/2017

Obscurantismo

 
A artista Ana Norogrando definiu como “estarrecedora” a polêmica criada em torno da exposição, “sob a égide de um discurso moralista baseado na intolerância, no preconceito e na inveja”. Para ela, a decisão do Santander Cultural em cancelar a exposição é “uma guinada à Idade Média”.
“Algumas pessoas intolerantes, em sua maioria jovens, evidenciam desconhecimento total da arte, suas manifestações e história. Resultado de nossa educação! Seres humanos insensíveis à diversidade! Lembro de meu tempo na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), interior do RS. Há 30 anos atrás já convivíamos com a pluralidade de modo natural, fazia parte de nossa vida! Então, é assombroso assistir tudo isso, hoje, no século XXI”, escreveu ela em seu post.
Ana Norogrando pondera que a temática da exposição queer não é nem sequer inovadora e que a proposta da curadoria não é “fechada”, o que abre a possibilidade para outras visões sobre o tema, a exemplo de outros museus do mundo que já fizeram exposições sobre o mesmo tema.
“A temática Queer não é inovadora, pelo menos para quem conhece um pouco mais. É um tema já muito trabalhado e publicado internacionalmente, inclusive na moda. O mérito da exposição é olhar por este tema a Arte no Brasil. Assim, quanto mais projetos e ações efetivas houverem para a visibilidade da Arte Brasileira, melhor! Façamos!”, afirmou.
Já a ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda comparou o episódio com a peça de teatro Roda Viva, proibida pela ditadura civil-militar, em 1968, após atos de violência cometidos contra o elenco por integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

 
 
Adriana Varejão



Fernando Baril

 
Bia Leite


Ana Norogrando


Uma horda de nazistas pasta em Porto Alegre

 
Nazistas promoviam a queima de livros e se esmeraram em condenar as artes “degeneradas”, assim como fez um grupo de gaúchos a propósito de uma exposição sobre diversidade sexual
reprodução/Arquitetura da destruição
arquitetura da destruição

Obras abstratas, impressionista ou produzidas por judeus eram classificadas como "arte degenerada" pelos nazistas
Soube que o espaço Santander Cultural antecipou o fim de sua exposição artística Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira porque os fanáticos do movimento MBL a atacaram, e atacaram seus frequentadores. Que estes herdeiros dos Freikorps futuramente hitleristas – base que foram dos SA e dos SS – tenham atacado a exposição e seus frequentadores não surpreende. O que surpreende é a inércia das autoridades diante deste ato de barbárie, porque pelo visto a reação a ele ficou entregue à iniciativa dos frequentadores e aos seguranças particulares.
Os nazistas esmeraram-se em condenar a literatura e as artes “degeneradas”. Promoveram queimas de livros em toda a Alemanha. A mais famosa foi a do 10 de maio de 1933 na hoje Bebelplatz, a praça em frente à Universidade Humboldt. O próprio diretor da Faculdade de Direito, logo em frente, se encarregou de trazer uma braçada de livros da biblioteca sob sua guarda, para a pira da vergonha histórica, entanto descrita como “da construção do novo homem germânico”, nada mais nada menos que por Goebbels, o ministro da Propaganda presente.
Estes cretinos do MBL, Kataguiris e Holidays à frente, se esmeram na mesma direção. Mas o mais estarrecedor, do mesmo modo que na Alemanha dos anos 1920/30, é que isto volta a se dar, como então, sob o beneplácito das autoridades constituídas.
Não foi outro o comportamento de Hindenburg. Ou das autoridades locais onde o nazismo chegava ao poder. Destruíram a Bauhaus em Weimar, nas outras cidades onde o movimento se refugiou, até que, de Berlim, os seus professores e artistas que conseguiram escapar foram para os Estados Unidos e outros países que os acolheram.
É isto que estamos assistindo em Porto Alegre. Nada mais, nada menos. Revoltante. Revoltante a atitude das hordas MBL-fascistas, revoltante a pusilanimidade das autoridades responsáveis, pusilânime a atitude do Santander Cultural… Bem, a do banco nem surpreende tanto. Afinal, é um banco, um mero banco.
Mas há mais. Porto Alegre teve momentos de glória internacional. Na Revolução de 1930. No último foco de resistência ao golpe de 1964. Na fundação do Fórum Social Mundial, quando a capital dos gaúchos foi proclamada “a capital do século 21”.
Ainda quando a administração popular consagrou a cidade junto à ONU, graças ao Orçamento Participativo e outras iniciativas. Por onde se viajava, o viajante deparava com a realidade de que Porto Alegre era uma referência mundial.
Mas a partir do momento em que a parcela mais empedernida da classe média (da burguesia nem é bom falar) se deu conta de que o povão das periferias estava disputando espaço nos shopping, no aeroporto e nas escolas superiores, o quadro mudou. Esta parcela optou pela direita – e desde então tem votado religiosamente (o termo é bem aplicado) contra tudo o que cheira a popular. Governos de direita.
Agora estamos chegando ao “Gloria in Excelcis Third Reich”, ou “Drittel Reich”, dos Kataguiris da vida.
Que vergonha, classe média de Porto Alegre!

Flávio Aguiar correspondente em Berlim para o Rede Brasil Atual

Leia também:

10/09/2017

Das palavras interditas



 
entre parêntesis provisórios segue-se
lutando contra a página em branco
luzidia e indiferente
 
tanto esquecimento
 lembranças outras
muito a desaprender
 
 a aurora esvai-se
é o irromper da noite
 do sono nas veias
pedaços de equívocos
embaralhados
mal costurados guardados
em gavetas:
os cômodos do medo
e da ignorância
 
e a boca cheia de pedras
e silêncios:
nem elas nem eles
sabem das palavras interditas...?